11.10.08

João Cabral sobre o verso livre: em 1953 e 35 anos depois

João Cabral em 1953:

Acho o verso livre uma aquisição fabulosa e que é bobagem qualquer tentativa de volta às formas preestabelecidas. Abrir mão das aquisições da poesia moderna seria para mim como banir a poesia do mundo moderno. Pois a verdade é que a realidade presente é rica demais para caber nessas formas hoje requintadas e artificiais das épocas de estabilidade cultural.
Isso não se aplica, é claro, às formas da poesia popular que usam a métrica e a rima com absoluta liberdade, sem transformá-las em condição essencial e ponto de partida da criação poética.

(Entrevista a Vinícius de Moraes, Manchete, Rio de Janeiro, 27 de junho de 1953)


João Cabral em 1988:

(...) Uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar, você tinha que trabalhar seu texto. Desde o momento em que existe o verso livre, todo o mundo acha de descrever a dor de corno dele corno se fosse um poema. No tempo da poesia metrificada e rimada, você tinha que trabalhar e tirava o inútil.

(Entrevista a Mário César Carvalho, Folha de S,Paulo, Folha Ilustrada, São Paulo, 24 de maio de 1988)



De: CABRAL de MELO NETO, J. ATHAÍDE, F. (Org.) Idéias fixas de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

11 comentários:

QUEFAÇOCOMOQUENÃOFAÇO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcello disse...

Dois momentos, duas coerências,por que não?
Brás Cubas tem uma reflexão interessante:"Cada estação da vida é uma edição,que corrige a anterior,e que será corrigida também, até a edição definitiva,que o editor dá de graça aos vermes".

Lucas Nicolato disse...

Antonio,

Penso que o poeta irritou-se - e com razão - contra uma inversão de valores que alguns apoiam. Se a nenhum texto pode, a priori, ser negada a possibilidade de ser poesia, isso não quer dizer que qualquer texto possa ser poesia pela mera vontade do autor. Há que se esforçar para tanto - e a forma metrificada e rimada nos obriga ao esforço.

De fato, nas duas ocasiões, o poeta eleva a afirmação generalizada algo da ordem da criação e do gosto pessoal. É claro que seu gosto e seu processo criador amadureceram durante 35 anos e não seria de se esperar que continuassem exatamente os mesmos.

Isso mostra como é errado achar que os critérios de criação de um determinado poeta devam servir de norma para os demais - algo que alguns admiradores mais entusiasmados já propuseram. Nem o próprio poeta segue sempre os mesmos critérios!

um abraço,
lucas

Anônimo disse...

Prezado Antônio Cícero,

Depois dessa, lembrei-me do poema "Certezas, precisam-se", do António Gedeão.
Um abraço,
João Renato.

Rubia disse...

Entendo e compartilho desta fascinação e então decepção do João Cabral.
Os movimentos de vanguarda são importantes, quase todos ótimos, mas quando realmente trazem algo de novo. A liberdade de experimentação do verso livre é incrível, mas o que vemos hoje é uma banalização geral: todo mundo é escritor, poeta, fotógrafo, pintor, etc. Basta dar uma olhada nos diversos blogs por aí e ver que de criativo e inovador, há muito pouco.
Como disse Nietzsche, "não existe arte boa e arte ruim. Existe arte e não-arte".


Primeira vez que leio seu blog... mto interessante.

vanus disse...

Penso estarem as duas absolutamente correctas. Acho que o verso livre permitiu coisas fabulosas na poesia, uma identificação visual com as palavras, palavras que elas próprias se transformam em substância muito para além de si mesmas. É um facto, que este tipo de composição parece demasiado fácil aos olhos de quem a lê, que leva qualquer um a “poder” pensar que o que sente é poesia (e porque não?) e que trouxe consigo muito mau poema, com excesso de adjectivação, redundância, dispersão, etc. Muita palavra sem nada significar. Mas creio, que mesmo dentro da poesia como em qualquer outro estilo literário, deve que existir de tudo ao alcance dos diferentes níveis de compreensão, gosto e identificação.
Não se lê Camões da mesma forma como se lê Herberto Helder, não se pode ler. No primeiro temos que entrar na sua poesia, percebê-la, inseri-la na época, na história do poeta, etc., conhecer muito para além dela para a poder sentir; em Herberto Helder, dá-se o oposto: a poesia entra imediatamente em nós, faz-se-nos, sentimo-la crescer por dentro, absorvêmo-la, preenche-nos e só depois a percebemos.
São duas formas distintas de chegar a um todo, ambas válidas.

Uma coisa que sempre me intrigou e nunca me consegui decidir, é se é um poeta que faz a poesia, ou se pelo contrário, é a poesia que faz um poeta :)

Filipe Couto disse...

Veja o que diz Mário de Andrade:

A poesia brasileira muito tem sofrido destas inconveniências, principalmente a contemporânea, em que a licença de não metrificar botou muita gente imaginando que ninguém carece de ter ritmo mais e basta ajuntar frases fantasiosamente enfileiradas pra fazer verso livre.Os moços se aproveitaram dessa facilidade aparente, que de fato era uma dificuldade a mais, pois, desprovido o poema dos encantos exteriores de metro e rima, ficava apenas...o talento.

E, ainda, João Cabral de Melo Neto:

Eu acho que o Modernismo teve a maior influência possível em introduzir na literatura brasileira o verso livre. Mas acontece que o brasileiro em geral não é muito de trabalho e é muito convencional. Então todo o mundo hoje é capaz de escrever um verso livre contando a sua dor de corno. Eu acho que já era o momento de se voltar a uma forma rígida. Não de voltar a nenhum Parnasianismo, sonetismo, a nenhuma forma rígida exterior. Mas eu tenho a impressão de que cada pessoa devia encontrar a sua forma rígida para sua maneira de ser e segui-la.

Não se trata, portanto, de uma negação das conquistas modernistas, mas antes de seu aprofundamento, por meio de um maior cuidado com a expressão literária.

Nas palavras de João Cabral de Melo Neto:

Sob o ponto de vista da técnica do verso, (a Geração de 45) caracteriza-se pela falta de originalidade formal, explicável porque, ao aparecer, viu já fixados padrões de verso de invenção dos chamados poetas de 1930. Essa falta de originalidade não significa falta de talento, pois nada restava de pé depois do Modernismo. Ao passo que os poetas de 1945 não puderam inventar, nem tinham por que inventar, pois os tais padrões estão longe de ser gastos. Como não tiveram que inventar padrões, puderam aperfeiçoá-los. E é esse melhor manejo, esse manejo mais seguro dos padrões aprendidos, que leva muita gente a querer ver intenções “estéticas” precisas nos poetas de 45.

Dessa forma, o que se conclui é que os artistas da chamada geração de 45 aprofundam as temáticas modernistas por meio de uma expressão estética mais límpida e mais correta lingüisticamente.

léo disse...

Ao abolir rima e métrica obrigatórias, cesura nos versos tais e tais, a poesia manteve a exigência de rítmo, por exemplo. Além do mais, imaginar que não se escreveriam besteiras pelo simples fato de se ter que metrificar e rimar, é de uma inocência suprema. O Cabral deve ter emitido a primeira opinião quando se deparou com a liberdade criadora de Bandeira e demais companheiros de geração, trazendo uma prosódia brasileira e livre para o ambiente viciado do parnasianismo que ainda havia, e deve ter sentido saudade de um certo rigor (com o qual ele comunga) ao ver a degradação de um certo tipo de poesia "marginal".

paulinho disse...

adorei o trecho citado pelo adriano, retirado de um livro seu, sobre a impossibilidade de enquadrarmos a poesia, e o comentário do lucas nicolato. concordo com o lucas em gênero, número e grau.

acho que os enquadramentos e as generalizações são sempre complicações descartáveis.

um beijo em você e nos meninos (lucas e adriano)!

betina moraes disse...

pensador,

cabe um grande sorriso aqui!

como a vida é fabulosa, não?

nunca precisarmos realmente ficar presos a um conceito, a uma idéia, a uma frase,
mesmo que tenha sido a "nossa-própria-opinião-imutável”!

é fascinante ver alguém sem amarras.

João Cabral não tem amarras,
nem rédeas,
mesmo cintos ou botões na camisa!

ótima oportunidade para falar a respeito da transitoriedade e da impermanência!

grande abraço,

paulo de toledo disse...

Caros, acho que o que o Cabral disse pode ser explicado perfeitamente pela teoria da informação. Afinal, quando uma informação deixa de "informar", ela passa a ser simplesmente "redundância". E, se em 1953, o verso livre ainda poderia ser "informação nova", no final do séc. XX ele já não representava, formalmente, mais nenhuma novidade.
Isso não quer dizer (e Cabral sabia disso) que não se possa fazer ainda versos livres ou sonetos ou qualquer outro tipo de verso. O problema, para o poeta consciente do seu ofício, é conseguir produzir "novidade" usando essas formas, a despeito do grau de redundância já intrínseco nelas.
Acho que é mais ou menos isso.
Abraços