7.9.08

Sobre os poemas enviados a este blog

Em comentário ao poema "Um fio do seu cabelo", do Arnaldo Antunes, Adriano Nunes escreveu: "SE FOSSE POSSÍVEL E SE VOCÊ QUISER, GOSTARÍAMOS TODOS DO BLOG, COM CERTEZA, QUE VOCÊ CRITICASSE, EXPUSESSE UM COMENTÁRIO SOBRE AS POESIAS QUE NÓS, OS BLOGUEIROS, ENVIAMOS PARA VOCÊ". Como sinto que isso é um sentimento não apenas dele, resolvi postar aqui a minha resposta:



Querido Adriano,

Obrigado pela distinção que me confere, supondo que pudesse ser de alguma valia a opinião que eu expressasse sobre os poemas que você e outros freqüentadores deste blog me enviam.

Francamente, eu gostaria de poder fazer o que você pede, mas, infelizmente, não é viável. Gosto de vários dos poemas que me enviam (inclusive seus); não gosto tanto de vários outros; mas não acho certo publicar uma opinião leviana, baseada apenas numa primeira impressão. De que vale uma primeira impressão, em matéria de poesia? Deixe-me dar um exemplo. Na década de setenta, quando eu morava na Inglaterra, ouvi elogios a um poeta inglês chamado Philip Larkin. Comprei um livro seu. Como me tinha sido recomendado por alguém cuja opinião eu prezava muito, li-o mais de uma vez. Ainda hoje o tenho, com alguns poemas marcados. Lembro-me porém de ter achado Larkin um poeta menor. Não entendi como podiam elogiá-lo tanto. Pareceu-me mesquinho, insípido, provinciano. Logo me esqueci dele. Décadas depois, no mês passado, deparei-me com uma citação de um poema de Larkin. Fiquei arrepiado. Era um grande poema. Procurei meu antigo volume. Vi que o que tinha nas mãos era um exemplar de uma obra prima. Por que se deu essa mudança em meu gosto? Mistério.

Assim, a menos que me tenha debruçado um bom tempo sobre a obra (e não apenas sobre um ou alguns poemas) de um poeta, não me sinto com o direito de desencorajá-lo, caso não aprecie o(s) texto(s) que ele enviou. Eu posso simplesmente não o(s) ter entendido por não ter sentido afinidade com o projeto poético dele: e isso, possivelmente, por uma falha minha, e não dele.

Por outro lado, lembro as palavras de Eliot: “nenhum poeta honesto jamais pode ter certeza do valor permanente do que escreveu: ele pode ter perdido tempo e atrapalhado a própria vida por nada”. Com que direito eu, sem fundamento suficiente, encorajaria alguém a talvez atrapalhar a própria vida por nada?

O ideal seria, portanto, que eu tivesse tempo para me dedicar, como gostaria, a ler escrupulosamente as obras de todos os poetas com os quais, através deste blog, tenho contato e, em seguida, escrevesse responsavelmente sobre elas. Infelizmente não tenho esse tempo: mal tenho tempo para ler coisas que me são essenciais ou para escrever uma fração das coisas que desejo.

Entretanto, ainda que eu tivesse tempo e fizesse tudo isso, não creio que o meu parecer representasse nada de realmente importante para poeta algum. A VERDADE É QUE NINGUÉM PODE OBTER DE OUTRA PESSOA UMA CONFIRMAÇÃO SEGURA DO VALOR DAQUILO QUE ESCREVE. É-SE POETA A DESPEITO DESSE FATO, OU NÃO SE É POETA.

Bandeira confessou uma vez que ficava “sempre embaraçado para dar qualquer conselho” e que dizia ao jovem poeta que continuasse a fazer os seus versos “sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha”. Sem a menor pretensão de me comparar com Bandeira, é exatamente isso o que eu gostaria de dizer.

Abraço,
Antonio Cicero

8 comentários:

adriano disse...

JUSTO CÍCERO,

Encantado estou com tudo que acabei de ler. Vamos beber da poesia e continuar escrevendo e que o tempo faça-nos entender a essência de ser poeta. lembrei-me de algo dito por Caetano, quando foi perguntado sobre quais eram as novidades,etc.., que você era a melhor novidade da modernidade! Não há dúvida disso!

Um descomedido abraço!!!!

Adriano nunes, Maceió/AL.

adriano disse...

ÁGUA BENTA (PARA MAMÃE)




CAI DO CÉU ÁGUA
E AO CÉU VOLTA EVAPORADA.

NO EXTREMO SUL
E NO EXTREMO NORTE
FICA CONGELADA.

MAS AINDA ASSIM É ÁGUA.

CORRE COM OS RIOS
E NAS POÇAS FICA PARADA.

ÀS VEZES, INODORA,
INCOLOR, INSÍPIDA, OUTRAS
VEZES TURVA, SALGADA,
CONTAMINADA.

APESAR DE TUDO AINDA É ÁGUA.

E QUANDO BROTA
LÁ NA FONTE DA ALMA
É QUE SE PERCEBE
O SEU VALOR:

AGORA É UMA LÁGRIMA!

ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.

adriano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
adriano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio Cicero disse...

Obrigado a você, Adriano.

adriano disse...

UMA LÁGRIMA (PARA CECÍLIA MEIRELES)



SAI
DO MEU CORAÇÃO
E VAI
AOS OLHOS,
MAS
NÃO ME IMPORTO:

DEPOIS CAI
NAS
PROFUNDEZAS
DO SEU
INSÓLITO
PROPÓSITO.



ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.

adriano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
paulinho disse...

ai ai, este nosso poeta antonio cicero...

que fantástico, meu lindo, que sabedoria...

a sapiência de quem se vê e se coloca na vida como um eterno aprendiz... maravilha, poeta.

um beijo gostoso!