Em comentário ao poema "Um fio do seu cabelo", do Arnaldo Antunes, Adriano Nunes escreveu: "SE FOSSE POSSÍVEL E SE VOCÊ QUISER, GOSTARÍAMOS TODOS DO BLOG, COM CERTEZA, QUE VOCÊ CRITICASSE, EXPUSESSE UM COMENTÁRIO SOBRE AS POESIAS QUE NÓS, OS BLOGUEIROS, ENVIAMOS PARA VOCÊ". Como sinto que isso é um sentimento não apenas dele, resolvi postar aqui a minha resposta:
Querido Adriano,
Obrigado pela distinção que me confere, supondo que pudesse ser de alguma valia a opinião que eu expressasse sobre os poemas que você e outros freqüentadores deste blog me enviam.
Francamente, eu gostaria de poder fazer o que você pede, mas, infelizmente, não é viável. Gosto de vários dos poemas que me enviam (inclusive seus); não gosto tanto de vários outros; mas não acho certo publicar uma opinião leviana, baseada apenas numa primeira impressão. De que vale uma primeira impressão, em matéria de poesia? Deixe-me dar um exemplo. Na década de setenta, quando eu morava na Inglaterra, ouvi elogios a um poeta inglês chamado Philip Larkin. Comprei um livro seu. Como me tinha sido recomendado por alguém cuja opinião eu prezava muito, li-o mais de uma vez. Ainda hoje o tenho, com alguns poemas marcados. Lembro-me porém de ter achado Larkin um poeta menor. Não entendi como podiam elogiá-lo tanto. Pareceu-me mesquinho, insípido, provinciano. Logo me esqueci dele. Décadas depois, no mês passado, deparei-me com uma citação de um poema de Larkin. Fiquei arrepiado. Era um grande poema. Procurei meu antigo volume. Vi que o que tinha nas mãos era um exemplar de uma obra prima. Por que se deu essa mudança em meu gosto? Mistério.
Assim, a menos que me tenha debruçado um bom tempo sobre a obra (e não apenas sobre um ou alguns poemas) de um poeta, não me sinto com o direito de desencorajá-lo, caso não aprecie o(s) texto(s) que ele enviou. Eu posso simplesmente não o(s) ter entendido por não ter sentido afinidade com o projeto poético dele: e isso, possivelmente, por uma falha minha, e não dele.
Por outro lado, lembro as palavras de Eliot: “nenhum poeta honesto jamais pode ter certeza do valor permanente do que escreveu: ele pode ter perdido tempo e atrapalhado a própria vida por nada”. Com que direito eu, sem fundamento suficiente, encorajaria alguém a talvez atrapalhar a própria vida por nada?
O ideal seria, portanto, que eu tivesse tempo para me dedicar, como gostaria, a ler escrupulosamente as obras de todos os poetas com os quais, através deste blog, tenho contato e, em seguida, escrevesse responsavelmente sobre elas. Infelizmente não tenho esse tempo: mal tenho tempo para ler coisas que me são essenciais ou para escrever uma fração das coisas que desejo.
Entretanto, ainda que eu tivesse tempo e fizesse tudo isso, não creio que o meu parecer representasse nada de realmente importante para poeta algum. A VERDADE É QUE NINGUÉM PODE OBTER DE OUTRA PESSOA UMA CONFIRMAÇÃO SEGURA DO VALOR DAQUILO QUE ESCREVE. É-SE POETA A DESPEITO DESSE FATO, OU NÃO SE É POETA.
Bandeira confessou uma vez que ficava “sempre embaraçado para dar qualquer conselho” e que dizia ao jovem poeta que continuasse a fazer os seus versos “sem se preocupar com a opinião de ninguém, inclusive a minha”. Sem a menor pretensão de me comparar com Bandeira, é exatamente isso o que eu gostaria de dizer.
Abraço,
Antonio Cicero
7.9.08
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8 comentários:
JUSTO CÍCERO,
Encantado estou com tudo que acabei de ler. Vamos beber da poesia e continuar escrevendo e que o tempo faça-nos entender a essência de ser poeta. lembrei-me de algo dito por Caetano, quando foi perguntado sobre quais eram as novidades,etc.., que você era a melhor novidade da modernidade! Não há dúvida disso!
Um descomedido abraço!!!!
Adriano nunes, Maceió/AL.
ÁGUA BENTA (PARA MAMÃE)
CAI DO CÉU ÁGUA
E AO CÉU VOLTA EVAPORADA.
NO EXTREMO SUL
E NO EXTREMO NORTE
FICA CONGELADA.
MAS AINDA ASSIM É ÁGUA.
CORRE COM OS RIOS
E NAS POÇAS FICA PARADA.
ÀS VEZES, INODORA,
INCOLOR, INSÍPIDA, OUTRAS
VEZES TURVA, SALGADA,
CONTAMINADA.
APESAR DE TUDO AINDA É ÁGUA.
E QUANDO BROTA
LÁ NA FONTE DA ALMA
É QUE SE PERCEBE
O SEU VALOR:
AGORA É UMA LÁGRIMA!
ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.
RESPOSTA MODERNA
SOU DO CLÃ DAS COISAS FUGIDIAS
E BEM TEMPERADAS
QUE SÓ SE DEFINEM
PELA SUA INDIZÍVEL E IMPENSÁVEL
MOMENTANEIDADE.
PREFIRO OS ABRAÇOS
DOS MEUS AMIGOS
E OS BEIJOS MALICIOSOS
DO MEU AMOR,
A CERVEJA GELADA INTERCALADA
NAS CONVERSAS PARALELAS
ONDE ACHAMOS
QUE SABEMOS TUDO,
O CORRE-CORRE DAS DONAS-DE-CASA
ENQUANTO TRANSCENDEM
AO FAZER AQUELA COMIDINHA GOSTOSA
QUE DÁ ÁGUA NA BOCA,
O SORRISO DA SURPRESA DA VINDA
E A TRISTEZA EFÊMERA
DA DESPEDIDA,
UM FILME QUE SE COMENTOU MUITO
E EU NÃO PUDE VER,
MAS ATÉ JÁ SEI O FINAL.
O RESTO PARA MIM
É TUDO IGUAL
E CHEIO DE CONJECTURAS.
ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.
CÍCERO,
Como me sinto feliz ao ver os meus poemas sendo publicados em seu blog! muito obrigado!
ESTE POEMA QUE FIZ É DEDICADO A MARINA LIMA. EU FI-LO QUANDO TERMINEI DE OUVIR A MÚSICA "TRÊS"! UM ABRAÇO NELA POR MIM!!!
"SUADA, FEDIDA"
BRIGOU COM O MARIDO
EM CASA.
SAIU
EXAUSTA.
NÃO QUIS MAIS
SABER DE NADA.
MAGOADA, SENTIDA
PARTIU PARA
A BATUCADA
NA VILA.
SONHOU QUE ESTAVA
PERDIDA
NA SUA SAÍDA,
MAS SENTIU
QUE AINDA PODIA
SORRIR.
VOLTOU, À SOCAPA,
PARA A ALCOVA.
QUE RISCO!
QUE TOLA!
INVENTA
DESCULPAS, MAS TRAZ
AGORA A ALMA
SUADA, FEDIDA.
MENTIU E CADA
PALAVRA
NÃO ANIQUILA
O SUOR DA MADRUGADA
CURTIDA.
A SUA VIDA
FINDA VAZIA
AQUI.
ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.
Obrigado a você, Adriano.
UMA LÁGRIMA (PARA CECÍLIA MEIRELES)
SAI
DO MEU CORAÇÃO
E VAI
AOS OLHOS,
MAS
NÃO ME IMPORTO:
DEPOIS CAI
NAS
PROFUNDEZAS
DO SEU
INSÓLITO
PROPÓSITO.
ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.
DONA ADÉLIA PRADO
AS COISAS DE CASA.
AQUELAS CONVERSAS FAMILIARES
ENFEITADAS DE SORRISOS
E GRITOS E... TELEVISÃO LIGADA,
CHEIRO BOM DE COMIDA AINDA
NO FOGO, ALGUÉM BATENDO
À PORTA, VIZINHA QUERENDO
PANELA, FÓSFORO, ÓLEO
OU SEI LÁ EMPRESTADO.
SÓ UM POUQUINHO, DONA ADÉLIA,
NÉ QUE O GÁS, MULHER, ACABOU
AGORINHA!
E TUDO DA VIDA.
A MESMA VIDA QUE DEPOIS DE TUDO
SEMPRE NOS PÕE LÁGRIMAS NOS OLHOS
E POEIRA NOS SENTIDOS.
VIXE!
RI E TRANSCENDI:
“ CU É LINDO “.
ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.
ai ai, este nosso poeta antonio cicero...
que fantástico, meu lindo, que sabedoria...
a sapiência de quem se vê e se coloca na vida como um eterno aprendiz... maravilha, poeta.
um beijo gostoso!
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