15.6.11

Charles Baudelaire: "L'invitation au voyage" / "O convite à viagem": trad. de Ivan Junqueira




L’invitation au voyage

Mon enfant, ma soeur,
Songe à la douceur
D'aller là-bas vivre ensemble!
Aimer à loisir,
Aimer et mourir
Au pays qui te ressemble!
Les soleils mouillés
De ces ciels brouillés
Pour mon esprit ont les charmes
Si mystérieux
De tes traîtres yeux,
Brillant à travers leurs larmes.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Des meubles luisants,
Polis par les ans,
Décoreraient notre chambre;
Les plus rares fleurs
Mêlant leurs odeurs
Aux vagues senteurs de l'ambre,
Les riches plafonds,
Les miroirs profonds,
La splendeur orientale,
Tout y parlerait
À l'âme en secret
Sa douce langue natale.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.

Vois sur ces canaux
Dormir ces vaisseaux
Dont l'humeur est vagabonde;
C'est pour assouvir
Ton moindre désir
Qu'ils viennent du bout du monde.
— Les soleils couchants
Revêtent les champs,
Les canaux, la ville entière,
D'hyacinthe et d'or;
Le monde s'endort
Dans une chaude lumière.

Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.



O convite à viagem

Minha doce irmã,
Pensa na manhã
Em que iremos, numa viagem,
Amar a valer,
Amar e morrer
No país que é a tua imagem!
Os sóis orvalhados
Desses céus nublados
Para mim guardam o encanto
Misterioso e cruel
De teu olho infiel
Brilhando através do pranto.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Os móveis polidos,
Pelos tempos idos,
Decorariam o ambiente;
As mais raras flores
Misturando odores
A um âmbar fluido e envolvente,
Tetos inauditos,
Cristais infinitos,
Toda uma pompa oriental,
Tudo aí à alma
Falaria em calma
Seu doce idioma natal.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
- Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Lá, tudo é paz e rigor,
Luxo, beleza e langor.



BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Edição bilingue. Tradução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

6 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Amo esse poema de Baudelaire e gosto muito das traduções de Ivan Junqueira. Bravo!


Abraço fraterno,
Adriano Nunes.

Jefferson Bessa disse...

Muito bom ler este poema. Tão bonito quanto o poema de leitor-poeta que escreveu "Vou-me embora pra Pasárgada". Um grande prazer isso tudo!

Um abraço.
Jefferson.

Oleg disse...

E eu prefiro o poema em prosa com o mesmo nome que faz parte de "Le spleen de Paris". Nele Baudelaire se revela mais sóbrio, mais experiente, mais adulto, diria eu, sem todavia perder um centésimo de sua inspiração romântica.

S.silva disse...

Muito bom ler este poema. Tão bonito. gosto muito de Baudelaire.

Obrigada.
Sigo-te aqui.
Beijos.

Eckhartianum disse...

Olá, Cícero. Conhece a versão musicada? Segue o link:
http://www.youtube.com/watch?v=V4f2dehwdo4

Eckhartianum disse...

Olá, Cícero. Conhece a versão musicada? Segue o link...
http://www.youtube.com/watch?v=V4f2dehwdo4