1.7.08

Yves Bonnefoy: "La beauté"

A beleza

Aquela que arruina o ser, a beleza,
Será supliciada, posta na roda,
Desonrada, dita culpada, feita sangue
E grito, e noite, de toda alegria despossuída,
– Oh dilacerada em todas as grades de antes da alvorada,
Oh pisoteada em toda estrada e atravessada,
Nosso alto desespero será que tu vivas,
Nosso coração que sofras, nossa voz
Humilhar-te entre tuas lágrimas, chamar-te
A mentirosa, a provedora do céu negro,
Nosso desejo no entanto sendo teu corpo infirme,
Nossa pena esse coração que leva a toda lama.



La beauté

Celle qui ruine l’être, la beauté,
Sera suppliciée, mise à la roue
Déshonorée, dite coupable, faite sang
Et cri, et nuit, de toute joie dépossédée
— O déchirée sur toutes grilles d’avant l’aube,
O piétinée sur toute route traversée,
Notre haut désespoir sera que tu vives,
Notre coeur que tu souffres, notre voix
De t’humilier parmi les larmes, de te dire
La menteuse, la pourvoyeuse du ciel noir,
Notre désir pourtant étant ton corps infirme,
Notre pitié ce coeur menant à toute boue.



De: BONNEFOY, Yves. Du mouvement et de l'immobilité de Douve suivi de Hier régnant désert. Paris: Gallimard, 1958, p.153.

6 comentários:

paulinho disse...

que forte!

"dilacerada em todas as grades de antes da alvorada, pisoteada em toda estrada e atravessada, nosso alto desespero será que tu vivas, nosso coração que sofras, nossa voz humilhar-te entre tuas lágrimas, chamar-te a mentirosa, a provedora do céu negro".

isso tudo por conta da beleza... nossa mãe, o que ela pode fazer a um sujeito (rs)... impressionante (rs).

no entanto, para o nosso alto desespero, ou não (rs), a beleza, por maior desejo do coração que ela morra, sobrevive. pois o seu corpo é o nosso corpo, não há jeito.

eu entendo o poema do bonnefoy. a beleza é triste, corpo infirme, frágil. escreveu o grande bardo, manuel bandeira: "o que eu adoro em ti,/ não é a tua beleza./ a beleza, é em nós que ela existe./ a beleza é um conceito./ e a beleza é triste./ não é triste em si,/ mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza."

o entendimento da poesia do bonnefoy através das bandeiras hasteadas pelo manuel. bacana (rs).

belo poema, belo poeta! e aqui, adjetivos acertados.

beijo grande!
carinho imenso!

leo disse...

Cecília, quando começamos,
sua beleza, eu não sabia.
O encanto por germinar, era só um grão.

Eu não te conhecia.

Só depois vi a jóia, toquei-lhe a cútis.
Adormeci.

luiz disse...

Antonio sim belo túnel ao coração traz as coisas às reais propriedades Gostaria muito de convidá-lo a conhecer um texto da gertrude stein que estou apresentando aqui no ágora teatro É uma palestra intitulada peças que foi escrita em 1934 e que oferece uma reflexão sobre a nossa percepção de teatro na vida na morte no alívio no arremate Acontecem sessões neste sábado às 23.00 e neste domingo às 18.00 Neste endereço há outras informações http://jqz.zip.net Aguardo com carinho a sua pressência Um grande beijo

Victor Oliveira Mateus disse...

... ambivalência que devora: a ironia, quase desesperada, do primeiro verso, seguida do desejo de punição; a aceitação do irremediável e imprescindível do final. Por onde a fuga da labiríntica teia?
Saudações... do outro lado do mar.

Alcione disse...

O tempo leva tudo
Contudo
Eu resistirei
Fincarei postes de eletricidade
Farei as vontades
Das musas, fontes, deuses,
vertentes
Pró e contra o vento
Vou diluir o tempo.

Elisa Kozlowsky disse...

É lindo.