4.10.07

Hudson Carvalho: "Tropa de Elite"

Um artigo do jornalista Hudson Carvalho, especialmente para o nosso blog:


“Tropa de Elite”


Assisti a “Tropa de Elite” atendendo a convite generoso da secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, na abertura do Festival de Cinema do Rio. No caso, esse inusitado preâmbulo faz-se necessário para me isentar da suspeição de ter visto o filme nos escaninhos da abjeta pirataria. Feita a ressalva, ao filme, pois.
Há várias maneiras de se ver “Tropa de Elite”. Como não sou crítico de cinema, de nada, nem de ninguém, interessam-me mais os aspectos políticos e o ambiente sociológico de segurança e de violência que o filme reflete do que propriamente a obra.
Como filme, “Tropa de Elite” não é nenhuma Brastemp. Nos mesmos moldes, por exemplo, cinematograficamente falando, “Cidade de Deus” é bem melhor, mais consistente e criativo. Mostra melhor o que revela.
Já “Tropa de Elite”, em minha desqualificada visão cinematográfica, perde-se em subtramas pouco densas, ora para enfatizar o infernal embrutecimento do personagem principal mesmo em domínio doméstico, ora para generalizar a podridão que retrata. Na ânsia de culpar igualmente a sociedade perfumada, o aparato policial, os políticos sem escrúpulo e a bandidagem ensandecida, “Tropa de Elite” abusa de soluções generalistas e simplistas. Se fosse um filme americano sobre a SWAT, provavelmente seria depreciado.
Não li o livro “Elite da Tropa” que originou o filme. Disse-me, porém, o ex-capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel, co-autor do livro e do roteiro do filme, que ambos são bem diferentes. Considerando-se, entretanto, que livro e filme, embora fantasiosos, tenham um grande embasamento na realidade, podemos observar a situação espelhada como gravíssima e preocupante. Não por apresentar uma novidade; mas, sim, pela dimensão.
Sobre a superfície do universo criminal há farto material ficcional e respaldo cotidiano nas ruas e na mídia. Já as mazelas da polícia, mesmo que também ricamente documentada, não deixam de causar perplexidade no filme. O que tem de mais virtuoso em “Tropa de Elite” é a crua exposição das entranhas de um importante corpo de segurança.
A rigor, lato sensu, a polícia se divide entre corruptos, ladrões, assassinos, torturadores etc. Ou seja, não há mocinhos, não há agentes públicos agindo dentro da lei. No filme, os supostos mocinhos são os policiais boçais que torturam e matam, em contraponto aos policiais que se corrompem, roubam e achacam uma sociedade conivente com o tráfico de drogas, mas que espia sua culpa social, caricaturalmente, com florais assistencialistas.
É certo que tanto na sociedade quanto nos engenhos policiais há gente de outra estirpe. Não há como deixar de imaginar, entretanto, que o quadro real policialesco seja assemelhado ao narrado no filme. Ou pior. Se assim consideramos e se assim é, será que temos soluções realísticas para os problemas? Ou a sociedade e os poderes públicos perderam definitivamente as condições de cuidar dessa moléstia?
O mérito de “Tropa de Elite” não é provar que o cinema nacional evoluiu e há muito equacionou a qualidade de som dos seus filmes. O mérito de “Tropa de Elite” é ensejar uma discussão sobre a natureza das nossas polícias e os papéis que elas têm que cumprir e sob que regras. E isso não pode mais tardar.

Hudson Carvalho

5 comentários:

Lucas Nicolato disse...

Caro Antônio,

Veio em boa hora esse comentário do Hudson. Não assisti ao filme, nem li o livro, mas acredito ter também comentários a fazer sobre a situação. A insegurança pública é o principal problema do Rio de Janeiro hoje, pois torna todas as relações sociais extremamaente instáveis. A atuação ilegal de diversos membros das corporações policiais é ainda mais preocupante, pois instabiliza o próprio princípio da democracia, e remete às práticas tenebrosas da última ditadura.
Não há que se justificar a tortura, as altas taxas de letalidade, e abusos diversos, com o argumento de que trata-se de uma guerra. Não é nem nunca foi uma guerra, muito menos contra o "tráfico de drogas".
Ora, é claro que a legislação brasileira proibe o uso, o porte e o comércio de entorpecentes, e que, portanto, o Estado não pode se omitir de fazer valer a lei (embora muitos, inclusive eu, discordem dessa legislazação). Entretanto, é inadmissível que o combate ao crime se faça por vias tortuosas mais prejudiciais à sociedade que o próprio crime. Não podemos invadir e aterrorizar comunidades já carentes, sob o pretexto de protejer as crianças abastadas das drogas. Há outras formas mais eficientes e humanas de combater o consumo de drogas, focando no próprio consumidor.

O verdadeiro e hediondo crime é vender armas a crianças e adolescentes desesperados, viciá-los em drogas para manter o domínio sobre suas mentes e corpos e submetê-los a uma rotina de operações criminosas, com grandes riscos de fatalidade, para garantir o lucro dos fabricantes de armas.
Não aceito o argumento de que a violência só ocorre por ser financiada pelas drogas. A liberação das drogas também não resolveria o problema. A indústria das armas acharia outra forma de se sustentar, como o faz em outras partes do mundo, seja com escravos, diamantes ou sequestros.

Acredito que muita coisa pode ser feita para melhor a situação a médio prazo. Mas isso inclui a investigação da corrupção na polícia, denúncias de financiamento de campanhas políticas pelo crime organizado, corrupção das fiscalizações alfandegárias, investigação de condutas violentas dos policiais etc. A ação deve ser focada no combate à entrada e distribuição de armamentos no país, e não ao varejo de entorpecentes, que nunca será suprimido pelas técnicas adotadas.

um abraço,
Lucas Nicolato

Edson Dognaldo Gil disse...

Não entendi o artigo do Hudson. Inicialmente ele se diz incompetente para julgar o filme como obra [de arte, suponho], mas é justamente isso o que ele faz logo em seguida. No fim do artigo, afirma que o mérito do filme é ensejar uma discussão política. Bem, se o autor está certo, mesmo não sendo competente para criticar filmes, então Tropa de Elite deve ser mesmo muito ruim: uma obra de arte não deve servir apenas ou sobretudo para despertar a consciência crítica do cidadão.

Caetano Fabro disse...

Filme bancado por majores norte-americanas, capital externo, estética documentarista clichê fake - "pós-vanguarda brasileira cinemanovista ultrapassada" (ninguém aguenta mais favela way of life), de uma profundidade pudica que fica na idéia, feita tipicamente para agradar os clássicos narrativos de plantão e bombar no mercado gringo. O que só prova que mais uma vez o Brasil é construído por fora, pelo olhar colonialista, por mais que os problemas sejam escancaradamente internos, e ainda que se ganhe rios de dinheiro e se forme uma opinião inerentemente cordial em cima deles...

paulinho disse...

cicero,

que delícia vir ao seu blog e ler um artigo como este.

concordo inteiramente com a idéia central do texto, com tudo, sem tirar nem pôr, e em parte com algumas (pequenas) colocações.

assisti ao filme e fiquei com a mesma impressão do jornalista quanto ao modo simplista, generalista, de "tropa de elite" tratar a questão do tráfico no rio. "notícias de uma guerra particular" dá conta do recado bonitinho. vale mais a pena, eu acho. de qualquer modo, é importante que se veja "tropa de elite", pois ele consegue "radiografar" a situação da nossa polícia, mesmo sendo uma obra de ficção. e aproveito para ratificar: se alguém se interessar pelo assunto, "notícias de uma guerra particular". um detalhe: este é documentário. im-pa-gá-vel o depoimento, no filme, do então chefe da polícia civil, o senhor hélio luz. na verdade, pensando melhor, esses dois filmes, de algum modo, se complementam.

e tenho dito (rs).

ai ai, seria tanto a escrever sobre esse assunto, que cansa só de pensar (rs). fico por aqui.

beijim n'ocê, gracinha!

continua sendo uma maravilha vir aqui encontrá-lo!

wilson luques costa disse...

16/10/2007


TROPA DE ELITE

Ontem, finalmente, assisti ao filme Tropa de Elite. No frigir dos ovos, gostei; gostei porque é dinâmico, ou seja; não me deu sono. Tenho algumas ressalvas quanto ao próprio dinamismo do filme em algumas cenas, quando os tiros são trocados numa velocidade estonteante, o que nos impede de apreender algumas cenas. Quanto ao filme ser fascista ou racista, eu só posso julgá-lo como intencional; há uma verve moral no filme, meio positivista, como pano de fundo, que se contrasta à crítica, aliás engasgada na garganta de muitos, no que tange não propriamente às idéias de Foucault, mas sim dos aventureiros de Foucault e outros que não fazem outra coisa do que fazerem sim de muitas ONGs as suas sinecuras regadas a baladas, cocaína e fuminho bosta de cavalo macerada com benzina. Nesse sentido, há uma intenção declarada em se fazer uma crítica aos aparelhos ideológicos de A. e à microfísica do poder de Foucault. Mas o erro a meu ver do diretor e dos roteiristas é desconsiderar o pensamento de Foucault e de Althusser, posto estarem numa dimensão não apenas adstrita à favelização, e é aí que peca o filme; peca também quando tenta fazer uma etimologia tosca da palavra estratégia e envereda pelo grego toscamente, que é simplesmente o estratego soldado. Não pretendo adentrar muito o filme, mas o filme apõe bandidos e mocinhos, mas não dá a receita do que subjaz. O que se depreende, a meu ver, e isso já penso faz tempo, é que há um interesse nas polarizações de combate, tocado pelo próprio sistema capitalista. E nesse sentido as camadas mais inocentes e morais sendo meros apêndices desse jogo maior, onde todos inocentes saem, na verdade, perdendo. Poderia ser um filme de 4 horas e pormenorizar mais o embate, desenvolvendo também as suas causas. Mas no fundo, no fundo, o filme responde ao anseio de uma grande parcela da população que parece ter cansado dessa falsa democracia. E é aí que mora o perigo dos cansei que já vão para a sua segunda edição. Nas vezes em que a pequenas burguesias, sobretudo no Brasil, cansaram, tivemos invariavelmente a chamada revolta dos sabe nada, para a infelicidade geral e secular do Brasil. Eu, a meu modo, preferiria que o povo cansasse. Mas como diz Drummond: `Mas você é duro, José´... e eu, daqui da Vila Ré, Cansei...! Salve, Hipocrisia!