10.10.07

Francisco Bosco: O indireto afetivo na linguagem do carioca

O seguinte ensaio é uma das muitas pérolas do maravilhoso livro do Francisco Bosco, Banalogias:


O Indireto Afetivo na Linguagem do Carioca

No Rio de Janeiro contemporâneo há uma figura lingüístico-afetiva que pontua as relações sociais entre cariocas, ou entre um carioca e um estrangeiro. Trata-se – e todo carioca ou qualquer pessoa que já esteve no Rio o reconhecerá – do famigerado
diálogo:

— Rapaz, há quanto tempo!
— Pois é, que bom te ver!
— Poxa, a gente tinha que se falar mais!
— É mesmo, vou te ligar.
— Mas liga mesmo, pra gente se ver, botar o papo em dia.
— Não, pode deixar, vou ligar com certeza.
— Beleza, então. Adorei te ver!
— Eu também, te ligo então. Um grande abraço!

Isso ou variações.

Pois para muitos cariocas, que já estão mais do que familiarizados com o diálogo, e talvez sobretudo para os não-cariocas, que constataram perplexos o encaminhamento futuro dessas promessas, essa figura lingüística acaba por se configurar como uma situação de constrangimento. Afinal, todos sabemos que não haverá telefonema algum. Todos, literalmente, a começar pelos próprios personagens da conversa. E a fórmula do constrangimento, já se disse, é precisamente esta: todos sabem que todos sabem e entretanto ninguém o pode admitir. Curiosas sutilezas sociais. O que impede que se desencubra o não-dito do diálogo é que esse não-dito é sentido como uma mentira: não haverá telefonema, um não ligará para o outro, e vice-versa. Assim, o não-dito é mantido e desenvolvido, cria-se uma conversa sustentando a sua tensão. Está configurada a situação constrangedora.

Mas o que faz com que a situação seja por muitos experimentada como constrangedora é justamente o entendimento desse não-dito, dessa promessa que sabemos sem fundos ("te ligo, com certeza"), como sendo uma mentira. Fulano disse que ia ligar, mas não ligou: mentira, portanto. Pior: fulano assegurou que ia ligar, enfatizou, sublinhou a promessa com todas as inflexões e entonações da convicção. Mentira ainda mais grave, gravíssima.

Entretanto, tudo muda se pensarmos o recalcado do diálogo, o não-dito, não como uma mentira, mas como um modo indireto da verdade. Assim, o horizonte em que a promessa passa a ser verdadeira não é mais a sua efetivação posterior, mas o que, dentro dela, vibra afetivamente: "te ligo" passa a significar "gosto de você", "vou ligar com certeza" traduz-se por "gosto muito de você", e assim por diante, a intensidade afetiva aumentando à proporção das entonações e expressões de segurança. Fernando Pessoa dizia que "a linguagem pode mentir, mas a voz não". Ora, nesse fragmento de carioquês a verdade está na voz, no afeto que nela pulsa e se manifesta explicitamente. Mas, cabe então a pergunta: por que engajar esse afeto em uma promessa sem fundos, que se sabe não será cumprida? Por que comprometer sua verdade associando-o a uma efetivação que não ocorrerá?

A origem dessa curiosa figura sócio-lingüístico-afetiva é uma outra figura: uma sutil transformação da amizade que costuma se dar numa das curvas impostas pelo tempo a determinadas relações. Essa transformação ocorre quando uma amizade intensa passa de um estado de intimidade diariamente atualizada – conversas freqüentes, presença física constante, confissões, vidas em permanente comunicação – para um estado de amizade em que a distância se interpõe e dispersa as trajetórias dos amigos, porém algo da intimidade da outra configuração resiste a essa nova forma e se mantém intenso, incólume à distância. Esse "algo da intimidade" se transforma em um afeto constante que, adormecido e escondido pela distância, emerge efusivamente na presença do amigo. Afeto a distância. Quase-intimidade que se evidencia, para deleite dos amigos, a cada vez que o acaso propicia um encontro. Mas, em geral, os movimentos divergentes das trajetórias de vida são irreversíveis, na medida em que atingem o processo de subjetivação de cada um dos amigos: estes já não são mais os mesmos, pensam e sentem de forma diferente, são outros, não podem ter a cumplicidade que tinham antes, não da mesma forma. O que resiste, o afeto, é resultado de uma intimidade de tal modo condensada que, por excesso, atingiu como que uma existência própria, interpessoal, portanto imune às mudanças de vida dos amigos.

Perde-se a intimidade, já não se sabe tão bem da vida do outro, mas fica, incorruptível, o afeto, que vem à tona nos encontros fortuitos. Pois, justamente, é essa consciência (que pode ser apenas intuída, porém claramente) da perda irreversível da intimidade, da impossível recuperação da amizade, que virá a produzir o diálogo de que estamos tratando. O afeto é verdadeiro, é uma positividade, mas há em sua formação uma perda, uma impossibilidade: a da intimidade perdida. Isto é, telefonar seria um erro, seria apostar na improvável recuperação do estado antigo da amizade. Doravante a amizade é isso: o afeto efusivo, a alegria dos encontros fortuitos – que entretanto tenderia a perder a efusão se se tentasse um movimento restaurador. O recalcado do diálogo, o não-dito, se forma nesse ponto: é que seria duro demais trazer à tona o núcleo de perda e de impossibilidade que se encontra na formação de um afeto tão positivo, tão efusivamente manifestado. Opta-se por escondê-lo, e para tanto faz-se necessário mascará-lo com a promessa da restauração: "Vou te ligar." Quanto maior a consciência ou a intuição — da impossibilidade, e de quanta perda ela encerra, maior a necessidade de mascaramento: "Vou te ligar, com certeza."

Assim, curiosamente, quanto maior a mentira, maior a verdade. A verdade do afeto não se subordina à efetivação da promessa, mas se manifesta, de forma indireta, através do prometido: "Vou te ligar, com certeza" significa apenas "Gosto muito de você". O não cumprimento da promessa significa a consciência (mesmo que intuitiva) da impossibilidade de restauração da amizade, e o recalcado do diálogo é o mascaramento protetor de um afeto delicado. Pois a verdade nua e crua, desprotegida, poderia ser muito... constrangedora: "Rapaz, há quanto tempo! Veja, gosto de você, fomos muito íntimos, mas hoje somos bem diferentes, não acredito que possamos retomar a antiga cumplicidade, por isso vamos apenas gozar desse momento de alegria fortuita, sem fazer promessas que não poderemos cumprir." Logo o constrangimento também surge de um excesso de dizer, e não apenas de um não-dito gritante. Na verdade, nosso famigerado diálogo carioca só se torna constrangedor se sua verdade nuclear – o afeto incorruptível – não for forte o suficiente para sustentar, à base de cumplicidade, a tensão do mascaramento. Quando o mascaramento é bem-feito, o diálogo transcorre sob intensa e efêmera efusão afetiva – e somente na despedida passa por nós a brisa de uma melancolia.

De: BOSCO, Francisco. Banalogias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

10 comentários:

Lucas Nicolato disse...

Caro Antônio,

Esse banalogias está uma beleza, não? Vou linkar este post num blog sobre o RJ em que colaboro. OK?

abraço,
Lucas Nicolato

Andréa N. disse...

Isso foi algo que eu notei de cara aqui em Nova York. No Brasil acho que a coisa ainda nao eh tao ruim quanto aqui. Aqui perde-se o contato com as pessoas tao facilmente. Ninguem se telefona. Nem anotam mais o numero- trocam enderecos de email. As pessoas preferem muito mais comunicar-se por email, o que facilita o distanciamento.

*Sempre te leio aqui, mas nunca comento- resolvi "dar as caras" hoje. :)
Um abraco da fã.

paulinho disse...

cicero,

o texto é lindo!

que bela sacada do francisco!

tenho, apenas, um acréscimo a fazer:

isso, o afeto escondido no "vou te ligar", ocorre, também, em primeiros encontros, travados entre pessoas que, naquele primeiro instante de convívio, se gostaram, se enxergaram afins, se sentiram interessantes. elas até sabem que não vão se ligar, que, talvez, aquele seja o primeiro e último encontro, mas utilizam a discutida sentença para também dizer "gostei muito de vc, teríamos, pelo que conheci de vc, grandes possibilidades de uma amizade bacana".

daí, quem sabe, se a vida permitir, um dia, encontrem-se novamente. mas isso não é o mais relevante; o grande mérito existe já no carinho mútuo que a impressão primeira deixou.

(não sei se me fiz entender...)

coisas tí-pi-cas de carioca, êta ferro (rs)!

sabe o que vou fazer, saindo do trabalho? passar na livraria perto de casa e adquirir o livro do francisco.

valeu pela dica, meu poeta porreta!

beijo gostoso n'ocê!

Antonio Cicero disse...

Andréa,

Que bom que você deu as caras. Gostei do seu comentário.

Abraço,
Antonio Cicero

Daniel Serrano disse...

Creio ser o fenômeno não lá tão só carioca, mas mais mesmo por brasil todo. Lembro de um amigo holandês. A cada encontro, era de mim que se vinha a iniciativa: "Vamos combinar de fazer alguma coisa!". A resposta veio, certa vez, seca, mas elegante e cômica (em que, admito, teve o sotaque lá seu papel): "Tem que parar de falar, ã! e fazer!"

tertu disse...

não tinha pensado nessa questão nesse nível colocado pelo autor.
pois bem,em nata,rn,bem distante do rio, também se age dessa maneira,assim como em n.y. então, a postura é blogal?!
e nunca se falou tanto em amizade, em estreitar os laços...
abs.tertu

Solange Ayres disse...

O pior que poderia acontecer... um ligar para o outro de verdade, ou o melhor poderia acontecer marcar um reencontro.

Edson Dognaldo Gil disse...

JOÃO PEREIRA COUTINHO

Me engana que eu gosto

É impressão minha ou a alegria do Brasil vem embalada numa tristeza de quem ri para não chorar?

ESPANTOSO: A revista "Vanity Fair" já publicou Dorothy Parker ou Robert Benchley. Hoje publica A.A. Gill, jornalista que visitou o Brasil para escrever um texto que dá pena. Diz Gill, com erudita sofisticação, que existem dois povos no mundo. Os que gostam de seios e os que gostam de bundas. Os americanos gostam de seios. Grandes. Enormes. Os brasileiros preferem as bundas. O filósofo Gill gosta de brasileiros, ou seja, gosta de bundas. E oferece um ensaio onde está o supremo clichê sobre o Brasil: apesar do crime, das favelas, da corrupção política e do fosso miserável entre ricos e pobres, o Brasil é só alegria. O Brasil é só bundas.
Será? Uns meses atrás, em Lisboa, comentei o fato com uma atriz brasileira que conhece por dentro as manifestações de alegria que o Brasil oferece ao mundo. E perguntei: era impressão minha ou a alegria do Brasil vinha sempre embalada numa tristeza funda -a tristeza própria de quem ri para não chorar?
Ela gostou da pergunta e contou uma história a respeito: a história de como os cariocas transbordam de agrado para as câmeras durante o Carnaval, mas regressam à melancolia sincera quando as câmeras se apagam. Questão de segundos. Ela própria presenciara o fenômeno repetidas vezes numa única noite: o sorriso, o festejo automático, a vibração do corpo perante as lentes; e, quando as lentes se afastam, o desânimo progressivo, o desencanto e finalmente a solidão. A imagem é perfeita como comentário de outra imagem: a imagem que os brasileiros constroem de si próprios para iludir a realidade em volta.
É um problema de estima. De "auto-estima", a palavra fatal que acabou por substituir outra. "Auto-respeito." Não são a mesma coisa. Montaigne explica. A estima pressupõe o olhar dos outros sobre nós. O respeito pressupõe o olhar de nós sobre nós próprios. A auto-estima depende da opinião alheia. O auto-respeito depende da opinião pessoal: de aceitarmos o que somos sem a obrigação tirânica de sermos o que os outros esperam que sejamos. Para Montaigne, é o auto-respeito que permite uma felicidade serena, ou possível. A auto-estima, porque dependente de terceiros, é volátil como o vento. E gera uma insatisfação voraz que transforma qualquer ser humano num escravo.
Os brasileiros vivem para os outros, não para si próprios. E a constante preocupação com a imagem - uma imagem radiosa, perfeita e feliz- é apenas a expressão mais visível dessa escravidão: com menos rugas; mais seios; mais bunda; melhor nariz; e com a máscara jubilosa de quem passa pela vida a sambar, talvez a realidade seja sublimada, ou apagada. E talvez a tristeza não venha quando as câmeras se apagam.
Mas a tristeza vem quando as câmeras se apagam. Porque ela sempre esteve lá. E a realidade permanece intocada pelo som efusivo do pandeiro: crime, favelas, corrupção política, o fosso miserável entre ricos e pobres. E a obrigação pessoal, e crescente, e permanente, de sorrir para as câmeras. De sorrir para os outros.
Até quando, Brasil? Até quando negarás que não existe coisa mais triste do que a alegria do teu povo?

Claudinh@ disse...

Em primeiro lugar parabéns pela grande sacada que não poderia vir de outrem senão de um escritor brasileiro,diga-se de passagem.Confesso q a meses vinha percebndo esse fato que de tão comum virou corriqueiro mas nunca no prisma colocado, pq tinha reparado no que tange a marcar algo com alguém qdo nos esbarramos ...é sempre assim o diálogo e acontece? Não.Nunca acontece...com o advento das mídias sociais então isso virou pra lá de clichÊ.E eu já tinha observado mas nunca parado pra delinear isso num papel e adorei a tua iniciativa de publicar.
Hipocrisia nossa de cada dia Antônio. Cruel mas de fato o é!rs
Abraços de uma nova leitora assídua do teu blog.

T. Barros disse...

Muito bom! Ah, a linguagem!