12.3.07

Ezra Pound transcriado por Augusto de Campos

Um dos poemas mais bonitos que conheço é uma transcriação para o português, feita por Augusto de Campos, de um poema de Ezra Pound. A palavra “transcriação” não podia ser mais adequada, já que o poema em português é mais bonito do que no inglês original; ou, como dizia Borges, “el original es infiel a la traducción”. É que o inglês de Pound, neste poema – como em muitos outros – é excessivamente eduardiano, com uma pitada de Swinburne, isto é, com uma tendência ao vitoriano: e isso o torna datado. Já o português de Augusto é perfeito. Mas deixo o leitor julgar por si: apresento, em primeiro lugar, a transcriação de Augusto, e, em seguida, o original de Pound.


E ASSIM EM NÍNIVE

“Sim, sou um poeta e sobre a minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

“Vê! Não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou um poeta e sobre a minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

“Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”

Do livro:
POUND, E. Antologia poética de Ezra Pound. Organização, apresentações e traduções por CAMPOS, A.; CAMPOS, H.; FAUSTINO, M.; H; PIGNATARI, D.; GRÜNEWALD, J.L. Lisboa: Ulisséia, 1968.



AND THUS IN NINEVEH

"Aye! I am a poet and upon my tomb
Shall maidens scatter rose leaves
And men myrtles, ere the night
Slays day with her dark sword.

"Lo! this thing is not mine
Nor thine to hinder,
For the custom is full old,
And here in Nineveh have I beheld
Many a singer pass and take his place
In those dim halls where no man troubleth
His sleep or song.
And many a one hath sung his songs
More craftily, more subtle-souled than I;
And many a one now doth surpass
My wave-worn beauty with his wind of flowers,
Yet am I poet, and upon my tomb
Shall all men scatter rose leaves
Ere the night slay light
With her blue sword.

"It is not, Raana, that my song rings highest
Or more sweet in tone than any, but that I
Am here a Poet, that doth drink of life
As lesser men drink wine."

6 comentários:

Paulinho Assunção disse...

Certamente, Cícero, você deve conhecer "Poço de Babel", de João Barrento, editado pela Relógio D´Água, que é, a meu ver, uma excelente coletânea sobre os engenhos da tradução. É certo que por uma outra via transcriadora, um outro caminho por esse mar-oceano da tradução, mas, repito, excelente, sobretudo pelos que João Barrento traduz, como Benjamin, Musil, Goethe, para citar alguns.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Lindo demais! E você recitando esse poema no Cronópios melhor ainda!

Abraço!
Adriano Nunes.

JAS disse...

August Stramm: "Verzweifelt" / "Desesperado": tradução de Augusto de Campos

Verzweifelt

Droben schmettert ein greller Stein
Nacht grant Glas
Die Zeiten stehn
Ich
Stene.
Weit Glast Du!

Desesperado

no alto ressoa um seixo agudo
a noite verte vidro
o tempo estaca
eu
cascalho
tu
te
vidras

JAS disse...

Esta tradução do Augusto de Campos é tão perfeita que talvez seja um caso único na literatura mundial em que uma tradução superou o original.
No poema abaixo, Dickinson admite que jamais seria capaz de avaliar a força das palavras: Este poema encerra uma auto-ironia, se considerarmos que é a própria poeta quem faz uma revelação da ineficácia ou impotência humana diante da própria linguagem, diante do seu próprio instrumento de saber. A força oculta da linguagem representa, por sinédoque, a potencialidade da vida. Daí a ambiguidade do sujeito do último verso. Ao afirmar a impossibilidade da verbalização de todo o significado de um poema, Dickinson estaria antecipando a obsessão do crítico moderno pela ambiguidade e ironia.

Could mortal lip divine
The undeveloped Freight
Of a delivered syllable
‘Twould crumble with the weight. (J1409 F1456)

Adivinhar pudesse algum lábio mortal
A carga em potencial
Da sílaba enunciada -
E sob o peso cederia,
Desfeito em nada. (Trad. Olívia Krähenbühl)

Pudesse perceber o lábio humano
A Carga em perspectiva
Em uma sílaba pronunciada
O peso o esmagaria. (Trad. José Lira)

Agora veremos a tradução inigualável e insuperável de Augusto de Campos, observem a aliteração (eco), leiam e releiam em voz alta, comparem com o original.

Se o lábio hábil a sílaba
Soubesse sopesar,
Poderia, surpreso,
Ruir sob seu peso.

Julia disse...

ótimo!!!

Ubirajara Almeida disse...

É, Augusto superou as traduções com habilidade e sou explorar a sonoridade da criação original. Abs longíquos.