28.5.11

Entrevista a Helena Aragão para o número de junho da Revista da União Brasileira de Compositores (UBC)

A seguinte entrevista foi dada a Helena Aragão, para o número de junho da Revista da União Brasileira de Compositores (UBC). Essa revista se encontra, em formato digital, no seguinte endereço:
http://www.ubc.org.br/arquivos/download/revistas/ubc-09.pdf. O Múltiplo Antonio Cicero

Definir o trabalho de Antonio Cicero em uma palavra é difícil. Ele não é só um poeta, assim como não é apenas um letrista ou um filósofo. A soma desses lados resulta em um artista singular, admirado por criar versos que vão além da mera expressão da sua subjetividade. Letrista renomado, assinando parcerias com João Bosco, Adriana Calcanhotto e sua irmã Marina Lima, professor de filosofia, titular do blog Acontecimentos, onde reproduz poemas e textos seus e de gente que admira, ele está ocupando o Oi Futuro de Ipanema, no Rio de Janeiro, com seu projeto Poesia Visual, até este mês. Nesta entrevista, Antonio Cicero fala da importância da poesia nos dias de hoje, e reflete sobre suas ligações com filosofia e música, além de fazer uma defesa veemente do Ecad e do direito autoral.

Helena Aragão


O que faz um poema ser bom?

ANTONIO CICERO: Para mim um poema é bom se me faz pensar não apenas com o intelecto, mas com faculdades como a imaginação, a emoção, a sensibilidade, a sensualidade, a intuição, a memória etc. que brincam e se confundem umas com as outras.

Qual a razão para o desnível entre o número de poetas qurendo ser lidos e o de leitores de poesia?

A.C.: Não se lê um poema como se lê um artigo de jornal ou um e-mail, por exemplo. Para ler e fruir poesia é necessário dedicar tempo, concentração, atenção, cuidado a um texto que não tem nenhuma utilidade. A maior parte das pessoas não tem paciência para isso. Numa época em que todos se queixam de falta de tempo, é evidente que sobram argumentos para aqueles que pretendem não haver mais, hoje em dia, lugar para a poesia: para aqueles que afirmam que a poesia ficou para trás; que foi superada pelos joguinhos eletrônicos, por exemplo.

Acontece que quem não lê poesia – quem não lê boa poesia – não sabe sequer o que a poesia realmente é. O que se supõe vulgarmente é que a poesia seja um veículo para a expressão da subjetividade. Assim, muita gente, querendo se exprimir e pretendendo aparecer como poeta, simplesmente escreve sobre seus sentimentos, pensando que está fazendo poesia.

Um outro fator contribui para essa situação. É que, desde o momento em que as vanguardas mostraram que é possível escrever poemas sem o uso das formas fixas tradicionais, isto é, sem, por exemplo, o emprego de determinado esquema métrico ou de rimas, generalizou-se a ideia equivocada de que vale tudo em poesia. Ora, para quem pensa que vale tudo em poesia, é mais fácil escrever poesia do que escrever em prosa, pois, para escrever em prosa correta, é necessário ao menos seguir determinadas regras de gramática.

Em uma entrevista, você falou: "O filósofo pensa sobre o mundo. O poeta pensa o mundo". Como vê a conexão entre essas duas áreas?

A.C.: “Pensar sobre o mundo” é uma construção mais comum do que “pensar o mundo”. Acontece que a preposição “sobre” parece estabelecer uma distância entre o pensar e o mundo. O pensamento está de um lado, o mundo do outro, e a preposição no meio. Ou, em outras palavras, o sujeito está de um lado e o objeto do outro, separados pela preposição. É assim que o pensamento metafísico se retrata. Além disso, a preposição “sobre” também sugere uma certa elevação do pensamento sobre o mundo.

Quando, portanto, a preposição “sobre” é suprimida, na construção “pensar o mundo”, essa supressão sugere a supressão da separação, da mediação, entre o pensamento e o mundo, o sujeito e o objeto. O pensamento poético – e, de maneira geral, artístico – não se representa como fora do mundo, para pensar sobre ele, mas antes mergulha no mundo e se confunde com ele.

A criação de versos para poemas e para músicas tem processos diferentes?

A.C.: Sim, os processos são diferentes, exatamente porque, quando faço um poema para ser lido, penso apenas nele; já quando faço uma letra, faço-a tendo no ouvido e no pensamento a música que algum parceiro me enviou, isto é, faço-a para que essa música, quando casada com a letra que eu compuser, torne-se uma canção. Na verdade, quando faço uma letra, penso na música, no compositor e mesmo – se for para algum cantor ou cantora – penso nesse cantor ou cantora. Já musicaram vários poemas meus, sim. E gostei muito de quase todos os resultados. Por exemplo, Marina fez, do poema “Alma caiada”, uma canção que foi gravada pela Zizi Possi. Paulo Machado fez de “Maresia” uma canção que foi gravada pela Marina e pela Adriana Calcanhotto. Caetano Veloso de “Quase” uma canção que foi gravada pela Daúde. Orlando Moraes fez de “Dita” e “Logrador” canções que foram gravadas pela Maria Bethania, e de “Noite” outra, que foi gravada pela Adriana Calcanhotto. E, recentemente, José Miguel Wisnik musicou o poema “Os ilhéus”.

Diferentes parceiros musicais causam diferentes estímulos para os seus versos? A música de João Bosco, cujo violão chama atenção pela criatividade rítmica, exige mais do letrista que uma música de um compositor mais focado na melodia? Ou vice-versa?

A.C.: Os compositores e as músicas causam diferentes estímulos sim. Eu não faria a mesma letra para a Adriana que faria para o João Bosco, por exemplo. Mas como as músicas que ambos fazem são lindas, a facilidade ou dificuldade de compor para cada um deles é praticamente a mesma.

Como está vendo as discussões sobre as mudanças na lei de direito autoral? Como é essa questão para os letristas?

A.C.: Para mim, é claríssimo que, se alguém está ganhando dinheiro com o que um compositor fez, ele tem que ganhar uma parte desse dinheiro. Os sites que oferecem downloads de música e cobram por esse serviço ou são patrocinados têm que ser obrigados a pagar. As companhias telefônicas idem.

O Ecad é absolutamente necessário, pois o compositor não pode correr o Brasil e o mundo para cobrar pelos seus direitos. A campanha contra o Ecad é, por isso, absolutamente sórdida. Não tenho dúvida de que ela seja promovida e financiada por aqueles que querem roubar os compositores. Essa gente não tem escrúpulo nenhum. Basta ver que fazem de tudo para derrubar a Ministra da Cultura, Ana de Hollanda, desde que ela – agindo de modo absolutamente correto – tirou do site do Ministério a logomarca do Creative Commons.

Como você acha que as novas mídias afetaram os ganhos dos artistas, especialmente no que diz respeito ao direito autoral?

A.C.: No momento, afetam muito negativamente, em primeiro lugar, os direitos dos compositores. Mas penso que a própria tecnologia é capaz de fornecer os meios para que se possa controlar a circulação e distribuição das canções. Acredito que dentro de pouco tempo será possível que as canções se tornem disponíveis ao público por um preço muito mais baixo do que na época do disco, ao mesmo tempo em que os compositores sejam muito mais bem remunerados do que eram.

11 comentários:

Alcione disse...

Entrevista importante e muito boa, ótimo texto para debates, em escolas e outras instituições, parabéns!

Diáfano

Olhos amendoados
Roubados pelo sol dessa enseada
Livre ao abandono imenso
Desse mundo, imerso
Envolto em contemplação
Observa o que se passa
Diáfano
Pela luz que o rodeia
Colhe o perfume das sereias
Apaixonado pelas ruas
E pelas suas fronteiras.

(para Antonio Cícero, com carinho)

Marcelo disse...

Bravo, Antônio Cícero. Muito bom.

Infelizmente, para mim, você deixou de escrever para a Folha de São Paulo. Escreve, atualmente, para algum outro jornal?

Abraços.

Marcelo Gama

Arthur Nogueira disse...

querido cicero,

você é uma lufada de ar fresco.

saudade,

arthur

Antonio Cicero disse...

Obrigado, Alcione, Marcelo e Arthur. Não, não tenho escrito para jornal nenhum ultimamente.

Abraços

Robson Ribeiro disse...

Cicero, estou de acordo com as suas opiniões expostas nessa entrevista.

Fico feliz quando vejo que pessoas inteligentes como você não se furtam a colocar suas ideias publicamente.

Um abraço!

Comunicação (UBC) disse...

Para ler a Revista UBC em formato digital, siga o link:
http://tinyurl.com/RevistaUBC-jun2011
Abraços da Equipe UBC !

Comunicação (UBC) disse...

Olá Antonio Cícero, agradecemos a entrevista e a divulgação !

Para ler a Revista UBC em formato digital siga o link: http://tinyurl.com/RevistaUBC-jun2011

Abraços da equipe UBC!

Eduardo Ribeiro disse...

AC:

Maravilhoso quando você diz que atualmente "poetas" confundem a arte com a mera expressão de seus sentimentos. Neste particular, fico com João Cabral, fazer poesia é lapidar a pedra. E com Maiakovski também, tipo se vocês acham que se trata de escrever palavras a esmo, eis aqui minha pena, camaradas, podem escrever vocês mesmo...

Mas achei a análise sobre o ECAD, permita-me, simplficada. Há gente boa que entende que ECAD e Creative Commons pode coexistirem. O que se pede, não de forma exagerada, é uma fiscalização ostensiva. o ECAD sempre teve um modo de operação de sindicato, não de representante. Mas, de qualquer jeito, respeito posição política, no conjunto da obra, embora discorde das ações da ministra e da insegurança que ela trouxe ao meio artístico... quero crer que ela esteja mal assessorada. Obrigado pela dialética. Abraços

Antonio Cicero disse...

Equipe da UBC: coloquei o link para a revista no cabeçalho da matéria.

Abraços

Antonio Cicero disse...

Eduardo,

ninguém nega que o ECAD e o Creative Commons podem coexistir. O que se nega é que o Creative Commons tenha lugar no site do Ministério da Cultura do Brasil.

E o ECAD pode ser e é sujeito a auditorias periódicas. O que não dá é para se criar mais um órgão estatal de fiscalização, isto é, mais um cabide de empregos para membros do PT, financiado pelos compositores. E quem vai fiscalizar os fiscais? Outro órgão estatal?

Abraços

Helena Aragão disse...

A entrevista inspirou um texto (do Ronaldo Pelli, que bolou a entrevista comigo): http://contonocanto.blogspot.com/2011/06/utilitarismo-e-estetica.html