2.5.11

Bertold Brecht: "An die Nachgeborenen" / "Aos que vão nascer": Tradução de Paulo César de Souza

Aos que vão nascer

I
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. (Se minha sorte acaba, estou perdido.)

As pessoas me dizem: Coma e beba! Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo.

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros.

II
À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.

III
Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.

Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.



Bertold Brecht: An die Nachgeborenen

I
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!
Das arglose Wort ist töricht. Eine glatte Stirn
Deutet auf Unempfindlichkeit hin. Der Lachende
Hat die furchtbare Nachricht
Nur noch nicht empfangen.

Was sind das für Zeiten, wo
Ein Gespräch über Bäume fast ein Verbrechen ist.
Weil es ein Schweigen über so viele Untaten einschließt!
Der dort ruhig über die Straße geht
Ist wohl nicht mehr erreichbar für seine Freunde
Die in Not sind?

Es ist wahr: ich verdiene noch meinen Unterhalt
Aber glaubt mir: das ist nur ein Zufall. Nichts
Von dem, was ich tue, berechtigt mich dazu, mich sattzuessen.
Zufällig bin ich verschont. (Wenn mein Glück aussetzt, bin ich verloren.)

Man sagt mir: iß und trink du! Sei froh, daß du hast!
Aber wie kann ich essen und trinken, wenn
Ich dem Hungernden entreiße, was ich esse, und
Mein Glas Wasser einem Verdurstenden fehlt?
Und doch esse und trinke ich.

Ich wäre gerne auch weise.
In den alten Büchern steht, was weise ist:
Sich aus dem Streit der Welt halten und die kurze Zeit
Ohne Furcht verbringen
Auch ohne Gewalt auskommen
Böses mit Gutem vergelten
Seine Wünsche nicht erfüllen, sondern vergessen
Gilt für weise.
Alles das kann ich nicht:
Wirklich, ich lebe in finsteren Zeiten!


II
In die Städte kam ich zur Zeit der Unordnung
Als da Hunger herrschte.
Unter die Menschen kam ich zu der Zeit des Aufruhrs
Und ich empörte mich mit ihnen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Mein Essen aß ich zwischen den Schlachten
Schlafen legte ich mich unter die Mörder Der Liebe pflegte ich achtlos
Und die Natur sah ich ohne Geduld.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Straßen führten in den Sumpf zu meiner Zeit.
Die Sprache verriet mich dem Schlächter.
Ich vermochte nur wenig. Aber die Herrschenden
Saßen ohne mich sicherer, das hoffte ich.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

Die Kräfte waren gering. Das Ziel
Lag in großer Ferne
Es war deutlich sichtbar, wenn auch für mich
Kaum zu erreichen.
So verging meine Zeit
Die auf Erden mir gegeben war.

III
Ihr, die ihr auftauchen werdet aus der Flut
In der wir untergegangen sind
Gedenkt
Wenn ihr von unseren Schwächen sprecht
Auch der finsteren Zeit
Der ihr entronnen seid.

Gingen wir doch, öfter als die Schuhe die Länder wechselnd
Durch die Kriege der Klassen, verzweifelt
Wenn da nur Unrecht war und keine Empörung.

Dabei wissen wir doch:
Auch der Haß gegen die Niedrigkeit
verzerrt die Züge.
Auch der Zorn über das Unrecht
Macht die Stimme heiser. Ach, wir
Die wir den Boden bereiten wollten für
Freundlichkeit
Konnten selber nicht freundlich sein.

Ihr aber, wenn es so weit sein wird
Daß der Mensch dem Menschen ein Helfer ist
Gedenkt unserer
Mit Nachsicht.



BRECHT, Bertold. Werke. Große kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe. Frankfurt: Suhrkamp, 1988.

BRECHT, Bertold. Poemas 1913-1956. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Editora 34, 2000.

9 comentários:

Albino M. disse...

Lapso?
O original tem três parágrafos, a tradução tem dois...
Estou a ver mal, eu?
Abc

Albino M. disse...

Está bem, já percebi...
O terceiro parágrafo, não assinalado, começa na estrofe "Vocês...".
Sorry.

Antonio Cicero disse...

Albino,

Obrigado por avisar. Já corrigi.

Abraço

Nobile José disse...

cicero,

adoro esse poema!
o conheci aos 14 anos, qdo fazia teatro.
14 anos, sem dúvida, é uma idade em que as coisas fervilham dentro da gente...
q bom começar meu dia assim, relendo e relembrando.

abrç.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Excelente poemna!

um soneto meu:

"da vontade, eterno, não quer ficar"



depois de estar na gaveta, esquecido,
o decassílabo entrega seu ar
de graça, mesmo sem nada saudar...
e, se saudasse algo, seria o olvido!

voltou, com todo ritmo e muito vivo,
à luz! nem as traças puderam dar
conta do vasto tecido, do mar
de vínculos, em fúnebre objetivo.

o seu rígido esqueleto , vestido
num moderno clichê, sabe dançar
a valsa métrica do amor perdido,

não saberá mais que isso! fugitivo
da vontade, eterno, não quer ficar
feito fóssil, tesouro ilustrativo!


Abração,
Adriano Nunes.

Simone Couto Kaplan disse...

Isto é muito apropriado para o que anda acontecendo nas ruas deste país (USA) estes dias...

Nobile José disse...

cicero,

(perguntas de um trabalhador que não leu)

yes, can't we?
obama traiu seus princípios?
pra garantir uma reeleição?
um país pode entrar dentro de outro país sem pedir licença?
due process of law não vale pra osama?
será que vai chegar o momento do homem ser parceiro do homem?
os que vão nascer pensarão em nós com simpatia?
o mundo pré-moderno ainda é o que é?
a modernidade, quem sabe um dia?

abrçs.

fliep disse...

Cicero,

lindo poema : )

e mais aproveito para dizer: PARABÉNS BRASIL!! (http://www.publico.pt/Sociedade/brasil-reconhece-direitos-iguais-a-casais-hetero-e-homossexuais_1493000)

grande abraço,
F.

prosaempoema disse...

Que riqueza, Cicero!

Lindemais!

Beijoca boa (e saudosa!)!