16.3.11

Jorge Luis Borges: "Arte poética": tradução de Josely Vianna Baptista




Ítalo Durdson me chamou atenção para o fato de que a Josely Vianna Baptista, excelente poeta e tradutora de poesia, traduziu um dos meus poemas favoritos: o "Arte poética" do Jorge Luis Borges. Eis o poema e a tradução:



Arte poética

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.



Arte poética

Fitar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sonho
que sonha não sonhar e que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.

No dia ou no ano perceber um símbolo
dos dias de um homem e ainda de seus anos,
transformar o ultraje desses anos
em música, em rumor e em símbolo,

na morte ver o sonho, ver no ocaso
um triste ouro, tal é a poesia,
que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes pelas tardes certo rosto
contempla-nos do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável
que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.



BORGES, Jorge Luis. O fazedor. Tradução de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

8 comentários:

Climacus disse...

"imortal e pobre"

Mito fundamental da renovação e da geração.

Mariano disse...

Este poema é realmente excepcional. Eu conhecia a tradução de Rolando Roque da Silva, na edição brasileira de "O Fazedor" da DIFEL (1985). Outro poema que me impressiona muito neste livro é o que Borges fez em homenagem à poetisa Suzana Soca, falecida em um acidente aéreo no Rio de Janeiro ( em 1959), um ano antes da edição argentina de "El hacedor".

ADRIANO NUNES disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alcione disse...

Canto

Sim
Conhece-se o atalho
O ato falho
Do amor
Então, conheces
Tudo
O idioma sagrado
Da jardineira em flor.

isaias de faria disse...

esse poema também é um dos meus favoritos.

Meigle disse...

Conhecia o poema de Borges. Mais extraordinário foi conhecer a poesia da tradutora, que busquei na net. Todo um horizonte novo se abriu, desde a leitura do dois primeiros poemas dela que encontrei (foram "Rivus" e "Restis"). Graças ao blog de Antonio Cícero!

Laerte Magalhães disse...

Desculpe-me, sem pedir permissão, adicionei seu blog à lista de blogs favoritos, no meu blog http://laertemagalhaes.blogspot.com/

Caso não concorde, não tem problema. Do mesmo modo como o adicionei, retiro.

Eduardo Ribeiro disse...

Um poeta nominar o poema de arte poética tem que saber o que fez. E que fez uma obra prima. Mas segue meu favorinto, El Labereinto:

EL LABERINTO

Zeus no podría desatar las redes
de piedra que me cercan. He olvidado
los hombres que antes fui; sigo el odiado
camino de monótonas paredes
que és mi destino.

Rectas galerías
que se curvan en círculos secretos
al cabo de los años. Parapetos
que ha agrietado la usura de los días.

En el pálido polvo he descifrado
rastros que temo. El aire me ha traído
en las cóncavas tardes un bramido
o el eco de un bramido desolado.

Sé que en la sombra hay Otro, cuya suerte
es fatigar las largas soledades
que tejen y destejen este Hades
y ansiar mi sangre y devorar mi muerte.

Nos buscamos los dos. Ojalá fuera
éste el último día de la espera.