27.11.09

Caetano Veloso: trecho de entrevista

A julgar pelo ódio que se manifestou em alguns dos comentários (que não publiquei por considerá-los ofensivos) ao artigo do Ferreria Gullar que eu aqui postara na segunda-feira, Caetano Veloso tem razão no seguinte trecho da entrevista que deu a O Globo na quinta-feira, 26:


As críticas não o incomodam?

CAETANO: Eu não me incomodo, por exemplo, que esteja todo mundo me xingando porque eu disse que Lula fala como um analfabeto, como se fosse uma novidade. Não me incomodo que um monte de gente esteja me xingando, porque eu não quero a aprovação de todo mundo. Eu acho que querer a aprovação de todo mundo é péssimo. Isso é um problema. Eu acho ruim, no Brasil hoje, ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a Lula. Por que não pode? É muito ruim, isso. Isso é um projeto que aconteceu na União Soviética, com Stálin, na China, com Mao Tsé-Tung, acontece ainda em Cuba, com Fidel. Não se pode dizer, só se pode adular o líder. Isso para mim é o que há de pior. Nesse ponto, eu nem me incomodo de o jornal ter distorcido o que eu disse, botando, na primeira página, como se eu tivesse querido agredir o Lula e compará-lo com Marina. Eu estava comparando Marina com Lula e com Obama. Como Lula, ela é de origem humilde etc; como Obama - e diferentemente de Lula -, ela escreve bem, fala bem. Lula, de fato, usa metáforas cafonas, linguagem grosseira e erra a gramática do português, a norma culta. Todo mundo sabe que é assim. Os linguistas aplaudem, o povo acha bom, eu também acho bom, eu votei em Lula chorando, para se eleger - não para se reeleger. Eu chorei dentro da cabine. Chorei de emoção. Pode ser que eu chore quando vir esse filme, porque eu chorei vendo "2 filhos de Francisco" e possivelmente chorarei vendo "Lula, o filho do Brasil". Mas talvez não chore tanto quanto chorei no dia em que votei em Lula para presidente.

10 comentários:

Anônimo disse...

e p u m b a !

eu li a entrevista de caetano - achei os pontos levantados claros quanto baste, independentemente de se concordar com eles ou não.

e no entanto parece que continua a ser necessário apelar à liberdade de expressão - não é estranho isso, em pleno século XXI?

às vezes penso que as sociedades humanas são como a rainha vermelha de alice no país das maravilhas: sempre a correr, a correr... para ficarem no mesmo sítio.

gd abraço Cicero,
F.

Os Anos que vivemos cantando Rock disse...

É claro q bebi na fonte de Caetano, desde "Alegria Alegria", mas desde "Velô" não tenho dado muita bola ao que ele canta ou escreve... Nem li a entrevista ao Globo, mas adorei esse trecho sobre toda essa questão da crítica ao Lula. E adoro vc e sua parceria com Marina, tow começando a acompanhar este blog cheio de nuances e poesia. Dá uma olhada no meu? Há um outro blog, Babilônia, de jornalismo, prum site daqui das Alagoas, o Tudo Global, para o qual gostaria de entrevistá-lo, mando as perguntas assim q vc me der o sinal verde e passar o seu e-mail,
um forte abraço,
Sebage (aka Jorge Barboza, o endereço do blog jornalístico: http://tudoglobal.com.br/category/blogs/babilonia)

Aetano disse...

Estou com Caetano e com Cicero:

o culto à personalidade é próprio de regimes totalitários e não se coaduna com os princípios de uma sociedade aberta.

Lula - nem ninguém - está além do bem e do mal, e a pior contribuição que se pode dar a qualquer indivíduo é a aprovação acrítica de tudo o que ele é, faz ou representa.

Aeta

Pedrinho Vários Um disse...

Bom, mas o Caetano publicou sua entrevista, está livre e solto falando o que quer, e recebeu críticas, normal. Essa de ficar comparando o Lula com os ditadores, tudo bem, em alguns pontos talvez... mas falta honestidade intelectual ao Caetano eu acho, não nas críticas que ele fez à gramática do Lula (será que isso é mesmo importante? Cartola comete vários erros gramaticais nas suas músicas), mas nessa defesa dele.

Flora Tristan disse...

sei não, acho que no Brasil menos permitido é questionar Caetano, seja brasileiro ou americano.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Que bom ler Caetano assim... Maravilha de texto!


Grande abraço,
Adriano Nunes.

Devir disse...

Olá, Antonio Cícero

As palavras do Caetano, aqui, também me fizeram verter lágrimas.
Neste ponto, acredito que sou meio Caetano, como somos meio tanta gente apaixonante, que podemos xingar, sair na mão, mas jamais perder o amor de amizade.
Muitas vezes, alguém nos apaixona por um pequeno momento, como se roubasse uma dóse daquela bebedinha que nunca gostamos de repartir, e nunca mais esquecemos, seja para praguejar ou romancear nossa saudade, ou porque continua valendo aquele bate-papo, se não mais conosco, mas para a humanidade e ao nosso planeta vivo.
Caetano e Lula, talvez nunca vou esquecer tantos momentos.

Como talvez nunca deixarei de sentir, o que até aqui era o "nada" que eu o conhecia.

Os parentêses desse Nada são como parentes, que o "povo", ama, sem a obrigação de fidelidade, mas respeita, "como se fosse da família".

Por favor, não é rasgação de seda, é impossivel pensar a Marina, sem voce, apaixonados pela música.
Se acontecer de estar diante dela, faria esta pergunta, só para acrescentar um "que" na bebida.

"...ninguém poder dizer nenhuma palavra que pareça ser antipática, crítica ou hostil a..." São tantas pessoas que adoram flertar com autoritarismo, que votarei na Dilma, porque nem sempre oPorBem faz oposição ao oPorMal na mídia.

Fantástico: A Marina Silva no lugar que a Dilma hoje ocupa, quando esta for presidente.

Taí, meu caro Antonio Cícero, sem medo de ser feliz, um forte abraço.

Cristina disse...

Realmente, maniqueísmo é um saco. Gosto de ler Caetano, mesmo quando discordo dele.

Um abraço pra você, outro pro Caetano, outro pro Lula.

reginaldo disse...

Está bem. Tudo Odara. Mas e se eu discordar do Cícero e ele me censurar?
E só pode ter adulador nesse blog? Só vejo gente dizendo que concorda com o Cícero. Eu continuo achando a comparação boba e os critérios de voto do Caetano ridículos. Ei, pessoal, ao invés de ficar nesse personalismo do Caetano com seus fantasmas do comunismo, que tal discutirmos projetos para o país e ver quem tem o melhor?
Grato.

Anônimo disse...

Gostei do que Caetano falou.
Fê-lo, lá vai o rei está nú.
Ooooooohhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
Pois que fique tudo bem,
afinal ele é o filho da pátria.