14.6.09

O clássico e o contemporâneo

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada" da Folha de São Paulo, sábado, 13 de junho:


O clássico e o contemporâneo


ATRAVÉS DE e-mails e comentários no meu blog, alguns leitores atacaram aquilo que consideraram ser o conservadorismo do artigo "O desejo do contemporâneo", publicado aqui, em 28 de maio.

Em primeiro lugar, há os que supõem conservadora a minha crítica à obsessão de grande parte dos intelectuais brasileiros pelo "dernier cri" europeu ou americano. "Mal se conhece o "dernier cri'", eu dizia, "e ele já deixou de o ser, de modo que, correndo-se atrás do próximo, deixa-se para pensar por conta própria mais tarde". Observei, ademais, que "quem só deseja estar "up to date" acaba por jamais ler os clássicos". Também essa implícita defesa da leitura dos clássicos foi tida por conservadora.

Ora, "um clássico é um clássico", como afirma o poeta Ezra Pound, "não porque se conforme a certas regras estruturais ou se enquadre em certas definições (das quais o seu autor provavelmente nunca ouviu falar), mas porque possui certo eterno e irreprimível frescor". É clássica a obra que permanece sempre nova.

No caso da filosofia, isso ocorre quando, independentemente de concordarmos ou não com as teses defendidas por uma obra, ela nos solicita a questionar e a pensar de modo mais claro e mais profundo aquilo que realmente pensamos. É assim que podemos, à primeira vista, não concordar em nada com "A República", de Platão, ou com "Ser e Tempo", de Heidegger, por exemplo; entretanto, a leitura de tais livros enriquece o nosso modo de pensar. Nenhuma paráfrase, explicação ou interpretação de tais obras jamais seria capaz de substituir a leitura delas. Além disso, é a partir de semelhantes leituras que sabemos o que é ou o que deve ser a filosofia.

É claro que, quando consideramos determinado problema filosófico hoje, devemos conhecer o "status quaestionis", isto é, o estado em que se encontra a discussão sobre esse problema, e isso significa que é preciso saber o que pensam sobre ele também os nossos contemporâneos. Estes, ademais, exatamente por serem nossos contemporâneos, são capazes de levar em conta certas preocupações que só se tenham manifestado ou tornado prementes exatamente na nossa época. Por isso, no meu artigo anterior não critiquei o interesse, mas a obsessão que os brasileiros demonstram ter pelos contemporâneos. E o fiz porque observo que ela chega ao ponto de ter como contrapartida o desprezo pelos clássicos.

Essa obsessão pelos contemporâneos corresponde, é claro, ao desejo de superação do provincianismo. Sentido-se "atrasados", os brasileiros se esforçam por se livrar do passado, de modo a alcançar o tempo presente, que imaginam pertencer aos outros. Em tal esforço, dado que a tradição filosófica lhes parece pertencer ao passado, os brasileiros a alienam. É assim que perdem a posse direta dos clássicos que, por direito, é tanto deles quanto de qualquer outro povo contemporâneo. Fugindo do provincianismo espacial, caem no provincianismo temporal.

Mas meu artigo foi considerado conservador também por outra razão. É que a referência que nele fiz às "bobagens ou trivialidades que são cotidianamente escritas sobre Nietzsche por alguns dos seus fãs" foi tida como um ataque a Nietzsche. Associando esse pretenso ataque ao autor de "Genealogia da Moral" com a crítica que eu havia feito, no artigo anterior, a certas teses de Foucault, houve quem pensasse detectar uma mudança para o conservadorismo na minha orientação filosófica, sintetizada do seguinte modo: "Antes Nietzsche e Foucault; agora Hegel e Aristóteles".

Na verdade, nem antes fui discípulo dos primeiros nem sou agora dos segundos; além do que há dúvidas sobre se os segundos são mais conservadores do que os primeiros. Em Foucault, critiquei sua defesa incondicional do regime reacionário instaurado pelo aiatolá Khomeini, bem como o relativismo cultural com o qual racionalizou essa defesa.

Quanto a Nietzsche, longe de atacá-lo, cheguei a emulá-lo. No ensaio "Sobre o Uso e o Abuso da História para a Vida", ele mesmo acusa os seus contemporâneos de "adaptarem o passado às trivialidades contemporâneas". É o que penso que alguns dos meus contemporâneos fazem com o próprio Nietzsche. Este, aliás, não tinha admiração nenhuma pelos seus contemporâneos, de modo que se considerava, sobretudo, extemporâneo. "Ao procurar biografias", aconselhava ele, "não queiram as que tragam o refrão "Fulano de Tal e o seu tempo", mas as que na página de título tenham que dizer "Um lutador contra o seu tempo'".

34 comentários:

Anônimo disse...

e com isto, parece-me, arruma-se definitivamente o assunto.

bj!

Pedrita disse...

estava lendo a sua coluna de hj e o quanto me confortou. há uma busca por ibope, seja em blogs, orkut e outros sistemas e ler um livro que nenhum amigo leu parece imperdoável e não dá ibope. eu estou lendo agora a romana de alberto morávia e encontrei pessoas que leram esse livro pq saiu naquela coleção da abril de capa vermelha. mas se não é um livro que esgotou no brasil e eu achei no sebo, só eu li e ninguém sabe o que dizer. então acho que muitos vão pelo caminho do ibope fácil. se ler algo dos mais lidos, muita gente vai dizer que leu. todo mundo quer encontrar o seu ibope, exatamente como a tv faz com os temas sensacionalistas. fazia tempo que eu pensava: mas ele só lê o q acabou de ser publicado. concordo, não há nada de mal nisso. mas p q não leu tb algo de 10 anos atrás? como se precisa chegar primeiro, como corrida de fórmula 1 e não para se ter prazer e curtir a leitura. vou ler seus outros posts. beijos, pedrita

Pedrita disse...

ah, e quanto a Nietzsche, não vejo nenhum mal em ler a profusão de livros que falam desse grande filósofo. só o q eu acho estranho é q vários q já disseram ler essas obras nunca tinha lido nada do Nietzsche. é muito esquisito. e ainda são capazes de dizer q Nietzsche é chato e que esses livros mastigam melhor. estranho!

Marcelo Pereira disse...

Antonio Cicero disse:

Essa obsessão pelos contemporâneos corresponde, é claro, ao desejo de superação do provincianismo. Sentido-se "atrasados", os brasileiros se esforçam por se livrar do passado, de modo a alcançar o tempo presente, que imaginam pertencer aos outros.

Diagnóstico certeiro. Na mosca.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Outro encantador ensaio! Adoro as suas explicações continuadas - não que elas fossem necessárias, mas porque sempre algo novo brota, vinga! - sempre mais e mais aprendemos! Os seus textos são completos por si só, feitos poemas. É raro em sua só pessoa essa capacidade única de ser clássico, moderno, despojado, culto, irreverente, lúcido, amplo, ubiquo, solto, longe de extremos! Sempre serei seu fã, amigo, irmão.


Beijo imenso!
Adriano Nunes.

Antonio Cicero disse...

Obrigado, querido Adriano!

Abraço

Jefferson Bessa disse...

Fico assustado com a predisposição de alguns que se julgam muito praparados para uma crítica quando nem mesmo "compreendem" o que se lê. Nossa, que miragem é essa de ver algo de conservador no seu artigo!? São muitos provincianismos!!

Obrigado pelo artigo, caro Cícero!
Um abraço.
Jefferson.

Marcio disse...

Do penúltimo sábado até ontem, muito além do que foi publicado na FSP entre 'o clássico e o contemporâneo', me deparei num almoço de feriado de corpus christi na casa de amigos com o disco "Full gás"...resolvi escutá-lo, manuseá-lo pela 1a vez na vida...o texto encartado e assinado a mão- statement de co-autoria da obra caiu no meu colo assim mesmo, inacreditavelmente corajoso e gentil como nenhum outro pedaço de papel. Por isso tive que sair por aí pra te buscar aqui na web Cicero. Com um abraço forte do Marcio de SP

Diego de Moraes disse...

"Um lutador contra o seu tempo'"!

Muito bom seu texto!

Um problema é quando negam Platão sem lê-lo, a partir de uma leitura de Nietzsche...

você conhece a obra de Álvaro Vieira Pinto?

Abraços!

Antonio Cicero disse...

Agradeço as palavras gentis do Marcio e do Diego. Conheço alguma coisa do Vieira Pinto, sim.

Abraço

Mariano disse...

Prezado Antonio Cicero,
Torna-se mais límpido ainda, com seu belo artigo, o que para mim é uma verdade cristalina: o presente não se sustenta sem o discurso que nos chega dos clássicos, única instâcia em que experimentamos o UNO e nos salvamos da ruidosa profusão dos signos "contemporâneos".
Não compreendo o sentido pejorativo do termo "conservadorismo" (talvez por suas conotações políticas e econômicas)para uma análise que confronta o clássico à provável possibilidade de frivolidade do contemporâneo. Haveria de ser "progressista" uma crítica como esta?
Abraço fraterno.
Mariano.

adrianagoulartcosta disse...

que alivio te conhecer...agora já faz parte do meu TCC.
endossando Isócrates "nas artes da palavra, são dignos de admiração não os primeiros a fazer o que ninguém antes fez mas os que são capazes de fazer o que ninguém mais consegue"
Pode ter certeza: você é um deles.
Com admiração, Adriana

adrianagoulartcosta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Antonio Cicero disse...

Prezado Mariano,

O termo "conservador" não é necessariamente pejorativo. Nos Estados Unidos, mais do que no Brasil, os conservadores se orgulham do que são.

Entretanto, os conservadores são inimigos da sociedade aberta e da social-democracia. Assim é, por exemplo, o Partido Republicano, nos Estados Unidos. Assim foi o governo Bush. No Brasil, como na Europa, os conservadores são inimigos da modernidade.

Sou o oposto disso. Politicamente sou, portanto, um inimigo dos conservadores.

E não sou conservador do ponto de vista cultural, pois tanto defendo os clássicos quanto o pleno direito à experimentação em arte.

Abraço

Menino disse...

Caro Cicero,
Fugindo um pouco do contesto da discussão[mas não de um todo], permita-me fazer uma pergunta[que também demonstra a minha realidade]:
Eu, joão batalha, oriundo das classes inferiores, leitor instintivo,ainda que tardio, das obras clássicas,devo ler primeiro um número significativo de clássicos e depois voltar-me para o contemporâneo[é o que tenho feito], ou tenho que tentar a todo custo equalizar as duas 'frentes'?
Outro problema que só assola ignorantes como eu: Como obter uma noção clara das várias correntes filosóficas?[às vezes, sinto que embaralho a coisa toda]e acabo por ter uma ideia insustetável de tais correntes, já que não li à fundo...Sinto-me como a 'materialização' do sujeito que lê como se ouvisse música[uma atrás da outra, com pouca profundidade melódica e, ainda,sem tempo para recapitular os 'acordes' perdidos,logo...]
Agradeço a atenção...
Saiba que sou fã dos seus trabalhos, ainda que, humildemente, admita não entendê-los em sua plenitude...[um dia chego lá...]
Abraço.

Saldanha disse...

Ler os clássicos é primordial para alcança o pensamento contemporaneo.

Comentei sobre vc no meu blog se puder acessa depois..

www.intervencaoliteraria.blogspot.com

Até.

CECILE PETROVISK disse...

Antonio,

Ótimo artigo! Esclarecedor!


Um soneto:

***SONETO SAFADINHO***


Entre as nossas secretas brincadeiras
De criança, deixamos nossas vidas,
Pelo medo do sexo, divididas,
Sobre as camas, as redes, as esteiras,


Cobertores, poeiras e poemas.
De nós, desvencilhávamo-nos, sós,
E nunca desvendávamos quais nós
Do desejo seriam só problemas.


Não nos escondíamos da vontade
Ardente, nem do sonho perigoso.
Feito fogo, feitiço que muito invade


Osso, carne, sentido, o meu corpo
Agora quer o teu, quer de verdade.
Gostávamos de tudo, do vão gozo.


Beijos,
Cecile.

Priscila Lopes disse...

a Pedrita acima fala em ler algo de 10 anos atrás: é mais que isso, é ler obras realmente antigas; importante, sim, concordo.

(apesar de ter publicado este ano a coletânea "XXI POETAS DE HOJE EM DIA(NTE)", não em detrimento ao Passado; apenas como exaltação do Presente - quem sabe futuro)

devemos ler sempre que possível, tudo o que nos parecer de qualidade, ou que aqueles que admiramos nos indiquem como sendo algo de qualidade: clássico, moderno, contemporâneo; jornais, revistas, blogs, livros.

e com todas essas leituras (do tempo) o escritor estará armado para fazer um bom trabalho.

abraço
priscilalopes.com

Priscila Lopes disse...

Aliás, esqueci do principal:
- Independentemente da sua opinião, você abre espaço para comentários em seu blog e assina com seu nome.

Ou seja: você realmente "acrescenta" à discussão.

Bozzetti disse...

Cícero, não tenho certeza se foi o Calvino que disse que clássica é uma obra que quando a gente a lê pela primeira vez percebe que já a conhecia - imperfeitamente - através das inúmeras obras que dela derivaram. No caso brasileiro, foi a sensação que eu tive ao ler pela primeira vez, há uns 20 e tantos anos, "Os sertões": já a "conhecia" (imperfeitamente) através do cinema de Gláuber, das canções de Gonzagão e de Gil, da prosa de Graciliano. E tudo isso incluindo, como vc bem nota a respeito de obras filosóficas, tudo aquilo que não é mais possível aceitar sem crítica em Euclides. Mas sem dúvida é um livro que "incorporou". Tenho que te agradecer de novo pela clareza e justeza das colocações. Um abraço

Antonio Cicero disse...

Caro João Batalha,

Pelo jeito, você está realmente interessado em estudar filosofia. Nesse caso, acho que o melhor caminho seria você se inscrever – mesmo que como ouvinte – em um curso de Introdução à Filosofia e em um de História da Filosofia.

Caso você não tenha tempo para isso, deve procurar livros sobre esses assuntos. Suponho que hoje haja bons livros disponíveis em português sobre eles, mas não os conheço, pois já faz muitos anos que não dou aula de introdução ou de história da filosofia. Vou procurar saber e lhe digo.

De todo modo, você não está perdendo tempo nenhum, lendo os clássicos.

Abraço

17 de Junho de 2009 21:46

Aetano disse...

Cicero,

Vi vc em "Palavra (en)cantanda". Caramba, como gostei de lhe ver, cara!!! Até disse para minha namorada: "Olha o Cicero, Olha o Cicero!!!" rsrsrs... isso no intervalo em que vc caminha até a livraria...
Gostei muito também do seu poema "Eu vi o rei". Nunca tinha observado como ele é tão bonito e tocante, sobretudo pela razão que o originou. Pensei, com pesar, que poderia ter declamado aquele poema para meu pai, mas agora não dá mais...

Abração, meu caro!


P.S. Pensando nas questões do João Batalha, que vc acha do livro "História do pensamento ocidental", de Russell?

Antonio Cicero disse...

Aeta,

fico feliz de você ter gostado do filme e do poema.

O livro do Russell é bom sim.

Abraço

Antonio disse...

Belo artigo, Cicero.

E deixo aqui registrado meu pedido desculpas por haver feito uma leitura apressada (e um tanto equivocada) a seu respeito em ocasiões passadas.

Abraço,

Antonio Engelke

Marcelo Pereira disse...

Pois então, estou com esse livro do Bertrand Russell em inglês na fila.

Um livro que li ano passado (cuja capa eu criei) que muito me estimulou foi "Aprender a Viver", do Luc Ferry. O título lembra auto-ajuda, mas na verdade é uma outra apresentação à filosofia que me pareceu muito interessante e original. A partir dele, li Epicuro, Rousseau, passei a compreender melhor (acho) Nietzsche, fui ter com Comte-Sponville...

Antonio Cicero, você conhece a obra do Vilem Flusser? Foi outra descoberta minha recente. Um pensamento original e poderoso sobre o design, a eletrônica, a comunicação. A Cosacnaify tem uma bela edição dos últimos escritos da vida dele, "O mundo codificado".

Abraços,
Marcelo

Marcelo Pereira disse...

Ah, sim, Palavra Encantada é um filmaço. E um de seus pontos altos foi dar-nos a chance de ver o Antonio Cicero um pouco mais de perto, recitando e conversando sobre aquele belo poema.

Antonio Cicero disse...

Obrigado, Antonio.

Todo o mundo comete equívocos, mas só quem tem grandeza reconhece tê-lo feito.

Abraço

Penetralia disse...

Oi, Antonio Cicero: tudo bem com suas posições, desde que não defenda a proibição imbecil do Sarkozy da burca em nome da laicidade e da razão.

Antonio Cicero disse...

Penetralia,

não entendo bem o que é que a questão da burca tem a ver com a discussão sobre o clássico e o contemporâneo.

Marcelo Pereira disse...

Se não estou enganado, a proibição ao uso da burca a que o Penetralia se refere é ao uso daquele lenço que cobre a cabeça das meninas de famílias muçulmanas que iam assim à escola, geralmente obrigadas pelos pais. A medida não foi criada pelo Sarkozy - é anterior - nem tampouco me parece imbecil. É, aliás, da época em que o filósofo Luc Ferry era Ministro da Educação. A proibição não é só do lenço, mas do uso ostensivo de símbolos religiosos em geral, e apenas nas escolas públicas. Trata-se de uma afirmação (ao menos na escola) dos valores da sociedade laica sobre as crenças religiosas, laicismo este a base do estado francês.

Anita disse...

Olá Cicero,
aproveitando a deixa do João Batalha... Também estou tentando (ainda que um tanto perdida) aprender sobre filosofia. Venho acompanhando o blog há algum tempo e minha admiração por vc cresce a cada post. Estou numa caça árdua atrás de seu livro "O Mundo Desde o Fim" e não encontro em lugar algum, nem em sebos espalhados por todo esse país. Na editora está esgotado. Então gostaria de saber se existe alguma previsão de reedição.

Encontrei na Cultura na versão portuguesa, mas é que eu tinha uma certa preferência pela versão em português do Brasil...

Bjuss

Antonio Cicero disse...

Anita,

não há previsão, mas a edição portuguesa manteve a ortografia brasileira.

Beijos

Vera disse...

concordo,pois leitura antiga ou recente nos faz refletir , e ler sempre que possível desde que seja de qualidade pois a leitura te trará base para desenvolver um bom trabalho.

Palatus disse...

Gostei de suas palavras...aprendemos a pensar.
um abraço