27.2.07

Ser e nada em Hegel

Não é surpreendente que o início da Lógica de Hegel, sobre a identidade de SER e NADA, provoque alguma confusão e perplexidade. Tal como se apresenta, ele me parece extremamente brilhante e, à primeira vista, claro: ofuscantemente claro; súbito, obscuro.

Transcrevo a seguir o parágrafo de O mundo desde o fim [Ed. Francisco Alves, 1995, cap.IV, § 16, p.77 ss.] em que critico a passagem, na Lógica de Hegel, do A. SER e do B. NADA para C. DEVIR:

Hegel, para deixar claro que nada ficou de fora do absoluto, principia sua Lógica pela categoria ao mesmo tempo mais universal e mais e mais simples, pela imediaticidade simples do puro ser. "O começo", diz Hegel introdutoriamente,

precisa ser absoluto ou, o que aqui é equivalente, ser começo abstrato; ele não deve pressupor nada, não deve ser mediatizado por nada nem ter um fundamento; deve ao contrário ser ele mesmo fundamento da ciência inteira. Deve portanto ser absolutamente um imediato, ou antes apenas a imediaticidade mesma. Como não pode ter determinação em relação a outra coisa, tampouco pode ter determinação em si, ou conteúdo, pois tal seria diferença e relação de diferentes uns com os outros e, com isso, uma mediação. O começo é, portanto, o ser puro. [HEGEL, G. Wissenschaft der Logik. Hamburg: Felix Meiner, 1932 primeiro livro, p.54]

O começo absoluto é, portanto, o começo abstrato, isto é, o absoluto abstrato. Em que consiste mesmo esse absoluto abstrato ou essa abstração absoluta? O ser puro não possui nenhuma determinidade, nenhuma diferença interna ou externa, nenhuma positividade, particularidade, relatividade. E Hegel adiciona, num parágrafo merecidamente famoso:

Nada há nele a intuir, se é que de intuição pode ser falado aqui; ou ele é apenas essa pura e vazia intuição mesma. Tampouco há algo nele a pensar, ou ele é do mesmo modo apenas esse puro pensamento vazio. O ser, o imediato indeterminado, nada é de fato, e nem mais nem menos que nada. [Ibid., primeira parte, primeiro capítulo, p.66-67]

O ser é o pensamento puro. "O ser puro", diz Hegel na Enzyklopädie,

Constitui o começo porque é tanto puro pensamento quanto o imediato indeterminado, simples, o e o primeiro início não pode ser nada mediado ou mais determinado. [HEGEL, G. "Enzyklopädie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse I". In:. Werke. Vol.8. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1970, § 86, p.182-2]

A Lógica se dá inteira no elemento do pensamento livre. Nesse sentido, ela pressupõe a Fenomenologia, que trouxe a consciência ao conceito da ciência, ou ao saber puro. É por isso que o ser puro pode ser concebido como idêntico ao puro intuir ou ao puro pensamento. O puro pensamento é o pensamento que abstraiu de si absolutamente toda determinidade, o pensamento pensante. Este se identifica com o puro nada. O ser é o nada. Da mesma maneira, quando concebo o nada, estou concebendo o pensamento pensante, o ser abstrato-abstrainte. O nada é o ser.

A verdade do ser e do nada é, para Hegel, o devir, pois "o que é a verdade não é nem o ser nem o nada mas que o ser passa -- ou melhor, já passou -- ao nada e o nada ao ser." [HEGEL, G. Wissenschaft... ibid.]

Mas pode objetar-se que não há trânsito efetivo do nada ao ser ou vice-versa. Se o ser é conceitualmente o mesmo que o nada, e o nada, o mesmo que o ser, então só uma ilusão pode levar alguém a falar de transição, pois o mesmo não transita ao mesmo. Prevendo essa possível objeção, Hegel afirma que

tão correta quanto a unidade de ser e nada é porém também que são absolutamente distintos -- que um não é o que o outro é. Apenas, uma vez que a diferença aqui ainda não se determinou, pois justamente ser e nada são ainda o imediato, ela é, como se encontra neles, o indizível, a mera opinião. [HEGEL, G. Enzyklopädie I, § 88, p.188]

Contudo, a verdade é que essa diferença jamais se torna mais precisa. Ela não é capaz de superar o status de doxa, imaginação, ilusão. O tornar-se não pode ser a identidade do ser absoluto e do nada absoluto justamente porque ele é diferente tanto de um quanto de outro, que são idênticos. O ser absoluto é conceitualmente idêntico ao nada absoluto, e isso basta. Por essa razão, resulta ininteligível a explicação de Hegel para a coagulação do tornar-se no estar aí (Dasein) ou no ser determinado:

O tornar-se contém em si o ser e o nada, e de tal maneira que esses dois simplesmente se transformam um no outro e se superam mutuamente. Com isso, o tornar-se se demonstra como inteiramente inquieto, mas incapaz de se manter nessa inquietação abstrata; pois na medida em que ser e nada se esvanecem no devir e só isto é o seu conceito, ele próprio é um esvanecente, feito um fogo que se consome em si mesmo enquanto devora o seu material. Mas o resultado desse processo não é o nada vazio mas o ser idêntico à negação, que chamamos estar aí (Dasein)... [Ibid., § 89, p.195]

Ora, como já foi dito, se o ser é idêntico ao nada, não há tornar-se um o outro. Isso significa que, dado que o devir é o elo entre o momento do ser-nada e o momento do estar aí (Dasein), isto é, do ser determinado, pode declarar-se insatisfatória a passagem crucial do primeiro para o segundo capítulo da Lógica. Isso não significa que não haja uma diferença fundamental entre o ser ou o nada absoluto e o ser determinado. Muito pelo contrário: trata-se da verdadeira diferença ontológica. O que a insuficiência da derivação hegeliana significa é que o conceito de ser absoluto ou o absoluto abstrato não pode ser reduzido a uma representação inadequada do ser determinado. Assim, desde o primeiro passo não se realiza a pretensão hegeliana de que o absoluto abstrato não passe da mais pobre das definições do absoluto, destinada a ser relativamente superada por todos os significados subseqüentes revelados pela Lógica.

Há outras formas de considerar a relação entre o ser absoluto e a determinidade. Chegamos ao ser absoluto ou ao nada absoluto através da abstração absoluta. Trata-se da atividade de negação absoluta. Em primeiro lugar, uma tal atividade se constitui como o não-ser de todas as outras coisas, como o nada dessas coisas, não porque as destrua mas porque as nega de si ou se nega a elas. Ao negá-las de si, isto é, ao negá-las da negação, a negação absoluta se dá como negação negante e as coisas negadas são por ela constituídas como negações negadas. A negação negada é positividade. Logo, a positividade pode ser também considerada como negação relativa. É, portanto, a negação relativa, ou melhor, a negação negada, que normalmente dizemos ser isto ou aquilo. A negação absoluta, porém, nada tem de relativo, nada tem de negado. Ela consiste em pura negação negante.

10 comentários:

paulo de toledo disse...

antonio, realmente é algo complexo essa coisa de SER/NADA (pelo menos pra quem não é afeito a esse tipo de discurso).
a minha forma de tentar entender foi traduzir em linguagem peirceana.
o SER-NADA seria (pra mim) um PRIMEIRO peirceano, que é uma PURA POSSIBILIDADE. toda possibilidade é um NADA com potencial de ser QUALQUERCOISA. portanto, o PRIMEIRO é um nada que é tudo (tim maia dixit).
ou, como diria um poeminha: "enquanto nada ocupar espaço / haverá espaço pra tudo".
depois volto pra mais aulas de filosofia.
abrações

Anônimo disse...

O SER e o NADA Hegeliano é a complexidade dos contrários. Se admito a existência do SER é como concebesse algo em uma ambientação ideal. A dúvida da concepçäo surge a medida que o SER surge efetivamente do NADA no meu pensamento. Se penso no NADA admito que essa vacuidade não existia ou não podia existir porque o NADA não nasce do nada porque se assim fosse tera que haver uma partícula mínima do SER no NADA. O devir do NADA ao SER seria a negação completa do contrário: seria como admitir a existência de algo que já existia - que seria um NADA sendo - para a concretude de algo a SER. A coisa se complica ainda mais se admitirmos que seja o NADA ou seja o SER, ambos seriam o princípio de TUDO para o devir e ambas têm razões para EXISTIR porque o NADA e o SER são estados absolutos de abstração e da loucura.
Beleza Cícero. seu fã,
Aurelino (bahia)

o Poeta disse...

Oi, Antônio... uau, realmente você me deixou em estado de perplexidade ao colocar a questão do absoluto como negação negante! É um modo totalmente novo, para mim, de se pensar o Absoluto. Eu, que até pouco tempo atrás, seguia com entusiasmo a filosofia platônica, que concebe, pelo que eu entendo, o Absoluto como uma positividade Ideal, donde os fenômenos sensíveis participam das Idéias Eternas e, através da dialética, podemos como que nos divinizar e alcançar um lugar privilegiadíssimo, na contemplação das Idéias... hoje, feliz ou infelizmente, isso não me satisfaz... estou no início de meu curso de Filosofia da Faculdade de São Bento aqui de São Paulo e ainda não estudei Hegel... mas estou achando fundamental essa concessão que me veio através de ti, pois me ajuda a pensar algo que me toma muito tempo em minhas reflexões: o que nos constitui como humanos? Para além das identidades biológicas, territoriais e históricas, algo me diz (a intuição, talvez?) que há um elemento eminentemente filosófico que seria o liame, o nexo que nos liga uns aos outros e à totalidade das coisas... penso na ousía Aristotélica... não sei, estou em fase de compreensão, ou tentativa de compreensão do que isso possa significar, hei de estudar muito, ainda, mas te agradeço enormemente pela janela que você me abriu... obrigado.

não quero parecer invasivo, mas se puder e quiser se corresponder comigo, ficaria tão honrado, lhe deixo meu email... se não, entendo que talvez não tenha tempo, e, vez por outra, se me permite, eu apareço em seu blog para "aspirar" um pouquitinho de sua sabedoria...

abraços...
christo_h3@hotmail.com

e obrigado pelo comentário que deixaste em meu blog... a poesia, a arte, certamente estão diretamente ligados ao nexo que busco...

tchau.

J Alexandre Sartorelli disse...

Hegeliana I

Sou o sujeito
E sou a substância.
Por conta disso
Perdi minha infância.

[]´s

Erick Monteiro Moraes disse...

Cicero,

li este texto há uma semana e não me tinha ficado clara essa "negação negante". Fiquei pensando nisso a semana inteira!

Acabei de ler novamente e acho que compreendi ao pensar linguisticamente. É o seguinte:

- um signo se constitui pela negação de todos os outros, por exemplo: "mesa" se constitui como "mesa" porque nega-se "cadeira", "livro", "chão", e todos os demais signos que existem.
Assim, no caso da negação, que é absoluta negatividade (um sinal de menos), se constitui como signo linguístico negando todo o resto (outro sinal de menos), ou seja, o resultado é positividade (já dizia a matemática: menos com menos dá mais!). E tal positividade é, também, absoluta.

Então? Entendi? Ou fiz uma grande lambança ao misturar linguística e, até mesmo, matemática ao pensamento filosófico?

Antonio Cicero disse...

Caro Erick,

Eis como vejo isso:

1
De maneira geral, chama-se de “positivo” em filosofia (por exemplo, na filosofia “positivista”) o que é dado: em particular, o que é dado pelos sentidos. O que é dado é determinado. O que é determinado é o que tem termo ou limite que o circunscreve (seja quantitativa, seja qualitativamente). Determinar uma coisa é, portanto, estabelecer o termo além do qual ela não é, ou opô-la ao que ela não é. O número 3, por exemplo, se determina em oposição a 1,2,4,5... e todos os demais. O azul, por exemplo, se determina em oposição ao verde, ao amarelo, ao vermelho... a cor, em oposição à forma, ao volume, ao peso... Por isso, a determinação é negação, como dizia Spinoza: determinatio negatio est. Para determinarmos o que alguma coisa é, negamos – consciente ou inconscientemente, explícita ou implicitamente – inúmeras coisas dela. Ora, o que consideramos “positivo” ou “positividade” é o que sofreu determinação ou negação, isto é, o que foi determinado ou negado. Por exemplo, um automóvel Volkswagen azul é uma positividade, um dado no mundo. Trata-se de um automóvel (e não de um trem, um avião, um tanque, uma casa...), Volkwagen (e não Chevrolet, Honda, Ford...) azul (e não verde, amarelo, vermelho...). O positivo, enquanto determinado, jamais pode ser absoluto.

2
O absoluto (de ab-soluto) é o que basta a si próprio: o que é independentemente de qualquer outra coisa. Sendo assim, ele não é determinado, que, como vimos, é sempre determinado em relação a outra coisa. O absoluto é o indeterminado. Como se chega ao indeterminado? Abstraindo tudo o que é determinado. Através, portanto, do que chamei de “abstração absoluta”. A abstração absoluta nega tudo o que é determinado. Ao final, o que fica? Nada fica de determinado; nada de positivo; nada do que foi negado. No entanto, fica algo indeterminado, que é a própria negação de tudo o que é determinado. Tal é a negação negante. É ela o absoluto.

Erick Monteiro Moraes disse...

Caro Cicero,

Acho que minha confusão estava entre negação negada e a negação negante, acabei unificando dois conceitos opostos. Agora ficou extremamente claro, a primeira é o determinado, portanto relativo. A segunda, o indeterminado, absoluto.
Muito obrigado pela atenção/explicação!

ps. É possível encontrar seu texto "A Razão Niilista"? Consegui uma versão digital do "Mutações: a experiência do pensamento", mas nesta versão não consta o texto. Caso não seja acessível, há algum outra fonte que aborde o tema que você recomende?

Grande abraço,

Erick.





Marcio Renato disse...

Sabe, Cícero, gosto muito de "O Mundo desde o Fim", mas tenho a impressão de ele ser pouco lido/pouco citado, aqui no Brasil pelo menos. O que acho uma pena, porque o considero uma reflexão singular a respeito da modernidade e, com efeito, também àquilo que se passa hoje. Talvez, por seu livro ser calcado numa tradição filosófica muito sólida, e por você, apesar disso, praticar a filosofia menos como um gesto de "fidelidade filológica" e mais como um exercício plenamente crítico - talvez, seja isso aquilo que gere a pouca difusão a que me referi. Isso, sem falar no fato de você reabilitar a verve crítica de filósofos como Descartes (irracionalmente estigmatizado). Enfim, não sei se minha impressão a respeito da pouca difusão do livro por aqui é legítima. Agora, o que sei é que se trata de um grande livro (e que, sendo legítima minha impressão de sua pouca difusão, deveria, pelo contrário, ser mais lido e discutido).

Antonio Cicero disse...

Caro Marcio Renato,
Muito obrigado pelas palavras generosas sobre "O mundo desde o fim".

Além de tudo o que você, com razão, observa, penso que uma das razões pelas quais o livro foi boicotado se encontra no fato de que ele demonstrava a inconsistência da noção de "posmodernidade" justamente na época em que a ideologia "posmodernista" se encontrava no auge.

Anônimo disse...

Divagações, sem compromisso, protegidas pelo anonimato:

-ser é nada
-ser não é nada

Linguagem indígena:
-ser ser nada
-ser não ser nada.

Ser e nada(que é o mesmo que puro nao-ser) estão na relação, um é mediação do outro. Dizer que ser é nada é dizer que ser não é nada. Está aí o movimento. Afinal, a identidade é diferente da diferença? Não pode ser idêntica e diferente se, por um lado, identidade e diferença são idênticas?