2.2.07

Entrevista a Rodrigo Levino

Hoje publico uma entrevista que, concedida a Rodrigo Levino, jornalista da CBN Natal e d'O Jornal de Hoje, por ocasião do delicioso 1º Encontro Natalense de Escritores, realizado em Natal/RN, em novembro de 2006, teve pouca circulação alhures.

1 - Você foi um dos primeiros autores brasileiros a utilizar recursos como a oralização de poemas, já em 1996, mais tarde conhecidos como audiolivros. Por outro lado, os livros de poesia dificilmente figuram entre os grandes sucessos de venda. Resgatando e fazendo um up grade no seu pioneirismo, o que é necessário para a viabilidade da poesia no mercado literário? Ou a poesia necessita sempre de um pouco de "sombra"?

Gosto de ler poesia lírica em voz alta, ou melhor, em voz baixa; ou, melhor ainda, em voz interna ou aural, como diz o poeta francês Jacques Roubaud. Sabendo disso, Paulinho Lima, que fundou a coleção de CDs Poesia Falada, me convidou para gravar um disco. Gostei do resultado, mas, em termos de vendagem, está longe de ser um fenômeno pop. Para mim, é assim mesmo que deve ser. A poesia feita para ser lida não é nem deve tentar ser um fenômeno pop. Isso não quer dizer que ela não seja viável no mercado, pois a verdade é que sempre se publicaram livros de poemas, ainda que com tiragens pequenas. Não é tanto que a poesia precise de sombra quanto que ela exige um bom leitor; e são poucos os bons leitores. A estes, entretanto, ela recompensa regiamente.

2 - O que é um bom leitor? Você fala de formação cultural?

O conhecimento da tradição literária faz parte do bom leitor, mas talvez não seja o mais importante. O bom leitor de poesia é aquele que faz suas as palavras do poema, no sentido de que pensa com elas e em torno delas. É aquele que se empenha nessa leitura de tal modo que a sua subjetividade se confunde com a objetividade do poema: do objeto de arte que é o poema. Usando todos os recursos de que dispõe – sensibilidade, emoção, inteligência, humor, cultura etc. – ele apreende esse objeto em suas múltiplas dimensões semânticas, atento a toda a sugestividade da sonoridade das palavras, à qualidade predominantemente vocal ou consonantal, dura ou líquida, áspera ou suave dos fonemas articulados, às relações paronomásicas e ao seu ritmo, à cadência dos versos etc. O poema e cada um dos seus componentes são por ele tomados tanto isoladamente quanto em relação com todos os outros poemas que de que se lembra, enquanto reiteração, evocação, desvio, distorção ou rejeição das normas ou dos padrões estabelecidos, ou ainda das práticas contemporâneas; etc. etc. Claro que cada um lê um poema na medida da sua capacidade e que as capacidades variam imensamente. Pouco importa: o que importa é justamente que quem quer ler um poema empregue todos os seus recursos para fazê-lo. É na medida em que o faça que o poema o recompensará.

3 - Qual a sua intenção quando une poesia e música, como acontece há um bom tempo nas parcerias, seja com Marina Lima ou Adriana Calcanhotto etc?

Minha intenção, nesses casos, é simplesmente produzir a mais bela canção que consiga.

4 - A velha e polêmica questão: música é, ou pode ser, poesia?

Que a letra de uma canção é capaz de ser um bom poema quando separada da melodia é algo que já foi provado amplamente. Vou citar duas dessas provas. Os poemas líricos gregos eram originalmente letras de música. Embora as melodias correspondentes a cada um deles tenham sido esquecidas, eles permanecem como alguns dos maiores poemas que se conhecem. Outra prova, bem mais próxima de nós, é o livro Letra Só, que reúne as letras de Caetano Veloso. Basta lê-lo para verificar que se trata de um grande livro de poemas.

5 - Rilke disse que o que leva alguém a escrever é a necessidade. Calcanhotto cita Joaquim Pedro de Andrade, dizendo que fazia cinema para chatear os imbecis. E você, por que faz poesia?

Respondo a essa pergunta no poema Guardar. Segundo ele, faz-se um poema

Para guardá-lo;
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

6 - Então, o que você guarda nos seus poemas?
A resposta está no mesmo poema:

“Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo do passaro
Do que pássaros sem vôos.”

O que guardo/olho são os vôos: e, não raro, o maior vôo é o próprio olhar: no poema, quero que o olhar e o olhado, o guardar e o guardado se confundam. O poema guarda, em primeiro lugar, o seu próprio vôo.

7 - Você acompanha a produção literária fora dos grandes centros e editoras? Conhece alguma coisa de poetas norte-riograndenses?
Acabo de ler “A duna intacta”, um belo livro da poeta natalense Maria Dolores Wanderley. Uma das coisas que espero da minha ida a Natal é justamente conhecer melhor a poesia que aí se faz.

8 - Quando você se descobriu poeta? Não foi uma descoberta, ao menos para o público, um pouco tardia, para quem começou as atividades em 76 e só lançou "Guardar" vinte anos depois?

Na verdade, escrevo poesia desde menino. Mas de fato demorei muito a publicar meus poemas em livros. Uma das razões é que, na juventude, vivi um conflito entre a minha sensibilidade e o meu intelecto. Desde adolescente – e mesmo desde antes da adolescência – gosto, por um lado, de poesia e, por outro lado, de pensamento abstrato, que me levou a me apaixonar pela filosofia. Ora, dada essa paixão, sempre lamentei a relativa timidez do pensamento filosófico e, de maneira geral, teórico, praticado no Brasil. Por isso, ao conhecer as teses dos poetas concretistas, fiquei entusiasmado. Finalmente, surgira pensamento original no Brasil, pelo menos em matéria de estética. Foi, entretanto, um entusiasmo intelectual. No que diz respeito à poesia, continuei gostando de ler e de escrever versos, coisa que os concretistas consideravam superada. Esse conflito entre a sensibilidade e o intelecto tornou-me difícil decidir publicar um livro de poemas antes de elaborar conceitualmente a própria poética, a minha própria distância, a minha própria crítica (que está longe de ser simples rejeição) do pensamento vanguardista. Já fazer letras de música não era problema, pois os próprios concretistas e, em particular, Augusto de Campos – que continuo admirando muito, como poeta e como pensador -- sempre tiveram um grande interesse pela música popular.

9 - Seus poemas algumas vezes são tão visuais, palpáveis, traçam uma linha de fatos cotidianos, como por exemplo "Inverno", musicado por Adriana Calcanhotto. Há um prosista escondido nalgum lugar dos seus versos?

Não sei dizer. Não me é fácil falar dos meus próprios poemas.

10 - Em que medida a lógica e a filosofia, que são suas formações acadêmicas, são determinantes no processo criativo?

A poesia é capaz de usar a filosofia e até a lógica, como é capaz de usar o lugar comum, a experiência, a memória, a cultura etc.; mas ela não é determinada por nenhuma dessas coisas: a poesia é soberana.

11- Em 1976, quando a Maria Bethânia gravou "Alma Caiada", uma letra sua que diz "Aprendi desde criança / Que é melhor me calar / E dançar conforme a dança / Do que jamais ousar", a canção acabou censurada pela ditadura. 30 anos depois, no que a política te interessa?

Tanto quanto a qualquer outro cidadão. Para mim, o que há de mais importante na democracia é a preservação e ampliação da liberdade efetiva e dos direitos civis.

12 - Ainda há lugar para o experimentalismo na poesia, ou a era da informação instantânea e para todos desnudou as inventividades?

Penso que a boa poesia é sempre experimental, mesmo quando não é experimentalista. Já a inventividade é e sempre será fundamental.

13 - Ao que se propõe a sua poesia, se como diz em "Água Perrier", não quer mostrar novos mundos e acha graça até mesmo de clichês? Era só charme? (Risos)

A poesia não vale por aquilo a que se propõe mas pelo que é. E, embora o importante não seja ter charme, ao contrário do que dizia um slogan publicitário que se tornou um clichê (ou um clichê que se tornou um slogan publicitário), a verdade é que o charme também é importante.

2 comentários:

Sandra Baldessin disse...

Gostei da entrevista, poeta, sobretudo quando você cita o poema "Guardar", um dos meus favoritos de todos os tempos, um poema que me "guarda" em todos os vôos que propõe.
besito

Filipe Couto disse...

Olá, poeta!

Escrevi um poema no meu blogue (www.asoutraspalavras.blogspot.com) e usei como epígrafe (no sentido de motivação lírica) dois versos so seu famoso poema "Guardar". eis o poema! Espero que você goste! Parabéns pelo seu trabalho, poeta! Se você me der a honra de passar pela minha página e conhecer o meu, serei grato!

Sobre Guardar

"por isso melhor se guarda o vôo do passaro
do que pássaros sem vôos.”
Antonio Cicero

É preciso guardar certas coisas
(cartas, desenhos, poemas).

Mas não no sentido
de pôr num lugar apropriado
(como quem guarda no armário uma camiseta);

é preciso guardar como quem vigia
para defender, preservar, proteger
(como quem guarda uma fronteira).

É preciso guardar certas coisas
(músicas, retratos, perfumes, receitas,
papéis de bala, pétalas já secas).

Mas não no sentido
de ocultar, calar, manter
(como quem guarda um segredo a vida inteira);

e sim no de tomar conta, velar, zelar
(como quem guarda sua princesa).

Guardar, enfim, como se guarda
de verdade um passarinho:

não na gaiola, preso, sozinho;
mas mirando-o em pleno vôo:

lembrando-nos, a qualquer hora,
a direção do infinito.


Abraço!