24.12.19

Pedro Mexia: "Percepção"




Percepção

Entre mergulhos
uma pedra rasa salta três vezes
na água.
E assim se divide,
assim se parte
o rio. A infância
dum lado. Do outro
a terra firme
onde isto se passou.





MEXIA, Pedro. "Percepção". In:_____. Memória. Lisboa: Gótica, 2000.

21.12.19

Tavinho Paes: "Todo santo dia (ou qualquer dia)"




TODO SANTO DIA
(ou QUALQUER DIA)


não sei mesmo
o que seria
não poder
escrever
uma nova poesia
todos os dias
não sei
como me sentiria
se não pensasse em você
todo santo dia
não sei mesmo
se escrevo poemas
para pensar em você
todo dia
ou se é
por pensar em você
que escrevo poesias
todos os dias
não sei se devo saber
se, lá na essência,
todos esses poemas
são feitos só pra você
nem sei se sem você
eu os escreveria
só sei que você
é a minha poesia
os poemas são todos seus
e, intimamente, eu desejo
que, como são para você
eles possam ser meus
um dia





PAES, Tavinho. "Todo santo dia (ou qualquer dia)". In:_____. Etéreo éter. Rio de Janeiro: Paes & Filhos Edições Ltda., 2019.

19.12.19

Constantinos Caváfis: "O quanto possas": trad. de José Paulo Paes




O quanto possas


Se não podes afeiçoar tua vida como queres,
deves ao menos tentar, o quanto
possas, isto: não a rebaixes
no excessivo comércio do mundo,
no excesso de palavras e de gestos.

Não a rebaixes levando-a para dar
passeios, exibindo-a o tempo todo
nas reuniões e comemorações
em que a tolice diária se compraz,
até fazeres dela uma estranha importuna.




CAVÁFIS, Constantinos. "O quanto possas". In: PAES, José Paulo (org e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

16.12.19

Jorge Salomão: "fogo"




fogo


falo o que falo
minha voz não treme
nem tremula o ímpeto que nela há
ela é límpida
como o sol
sobre o varal de roupas penduradas
é certa, afiada
não carrega mentiras
essa é sua estrada
não camufla verdades
nem esconde emoções
é linguagem





SALOMÃO, Jorge. "fogo". In:_____. "Alguns poemas e + alguns". In:_____. 7 em 1. Rio de Janeiro: Gryphus, 2019. 

14.12.19

Philip Larkin: "This be the verse" / "Seja assim o poema": trad. de Ruy Carvalho Homem




Seja assim o poema


Fodem-te a vida, o papá e a mamã,
    Mesmo que não seja essa a intenção.
Deixam-te todos os vícios que tenham
    E mais dois ou três, por especial atenção.

Mas no tempo deles também foram fodidos
    Por tolos trajando jaquetão e coco,
Que quando não estavam piegas ou hirtos
    Saltavam, raivosos, à veia, ao pescoço.

E assim é legada a infelicidade,
    Vai mais e mais fundo, como o fundo do mar.
Foge mal tenhas oportunidade
    E quanto a teres filhos — isso nem pensar.





This be the verse


They fuck you up, your mum and dad. 
    They may not mean to, but they do. 
They fill you with the faults they had
    And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
    By fools in old-style hats and coats, 
Who half the time were soppy-stern
    And half at one another’s throats.

Man hands on misery to man.
    It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can,
    And don’t have any kids yourself.






LARKIN, Philip. "This be the verse" / "Seja assim o poema". In:_____. Janelas altas. Tradução de Rui Carvalho Homem. Lisboa: Cotovia, 2004.   

12.12.19

Ana Chiara: "XXII"




XXII


Mundos esferas
Sangue passando por veias
Diluição da vida cotidiana
Nada impede o sortilégio
Trens noturnos, estação sob forte neblina
Impossível dizer se embarco
Tudo dependerá de minha fecunda imaginação
E do gosto exagerado pelo real mais erradio.
Improviso com a metade do que me foi dado ler
Assim um drama
Palavras olham para fora
Limite possível e improvável da significação
Andarilhas perdidas no caminho do sagrado
Bolhas ardentes nas solas dos pés.





CHIARA, Ana. "XXII". In:_____. Poema da travessia. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2019.

10.12.19

Bertolt Brecht: "Die Vergessenen" / "Os deslembrados": trad. por André Vallias




Os deslembrados


Eles vivem e morrem por aí –
Numa estrangeira viela
A vida com violência os atropela
E se põe a fugir.
Viveram e morreram e lutaram duro
E criaram suas crianças
E aí na mais distante deslembrança
Terminam seu percurso.




Die Vergessenen


Sie leben und sterben irgendwo
An einem fremden Steg
Das Leben geht vorüber roh
Und über sie hinweg.
Sie lebten und starben und rangen schwer
Und zogen Kinder auf
Und dann in ferner Vergessenheit hehr
Sie enden ihren Lauf.





BRECHT, Bertolt. "Die Vergessenen" / "Os deslembrados". In:_____. Bertolt Brecht: Poesia. Introdução e tradução por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.

9.12.19

Bertolt Brecht: POESIA: Introdução e tradução de André Vallias


É hoje, na Livraria da Travessa de Botafogo, o lançamento das excelentes traduções que o poeta André Vallias fez dos maravilhosos poemas de Bertolt Brecht:




8.12.19

Jorge Luis Borges: "Spinoza": trad. de Augusto de Campos




Spinoza


As translúcidas mãos desse judeu
Em meio à sombra lavram os cristais.
É medo e frio a tarde que morreu
(E às tardes as tardes são iguais.)

Tanto as mãos como o espaço de jacinto
Que empalidece no confim do Gueto
Quase inexistem para o homem quieto
Que está sonhando um claro labirinto.

Nem o perturba a gloria, esse reflexo
Dos reflexos do sonho de outro espelho,
Nem o amor temeroso das donzelas.

Liberto da metáfora e do mito
Lavra um árduo cristal: o infinito
Mapa do Ser que é todas as estrelas.





Spinoza


Las traslúcidas manos del judío
Labran en la penumbra los cristales
Y la tarde que muere es miedo y frío.
(Las tardes a las tardes son iguales.)

Las manos y el espacio de jacinto
Que palidece en el confín del Ghetto
Casi no existen para el hombre quieto
Que está soñando un claro laberinto.

No lo turba la fama, ese reflejo
De sueños en el sueño de otro espejo,
Ni el temeroso amor de las doncellas.

Libre de la metáfora y del mito
Labra un arduo cristal: el infinito
Mapa de Aquel que es todas Sus estrellas.






BORGES, Jorge Luis. "Spinoza". In:_____. Quase Borges. 20 poemas e uma entrevista. Traduções de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.

6.12.19

Antonio Cicero: "Elo"





Elo

Dizem ser Marcelo mar e céu
Dizem ser vão ser e ser poeta
Só sei que desde que me aconteceu
Esse horizonte azul assim sem reta
Quero ser não o poeta
Ser o verso de Marcelo
Ser a rima de Marcelo
Ser esse elo
Entre ar mar céu nome ser não ser Marcelo








CICERO, Antonio. "Elo". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

4.12.19

Friedrich Hölderlin: "Die Liebenden" / "Os amantes": trad. de Paulo Quintela




Os amantes



     Queríamos separar-nos, tínhamos isso por bom e sensato;

          Quando o fizemos, por que nos assustou, como homicídio,
                                                                                          [a ação?

               Ai! Pouco nos conhecemos,

                    Pois em nós reina um Deus.








Die Liebenden



     Trennen wollten wir uns, wähnten es gut und klug;

          Da wir's taten, warum schröckt' uns wie Mord die Tat?

               Ach! Wir kennen uns wenig,

                    Denn es waltet ein Gott in uns.







HÖLDERLIN, Friedrich. "Die Liebenden" / "Os amantes". In:_____. Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

1.12.19

Carlos Drummond de Andrade: "Liberdade"




Liberdade


O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.





ANDRADE, Carlos Drummond de. "Liberdade". In:_____. Farewell. Rio de Janeiro: Record, 1996.

29.11.19

José Almino: "O descampado do ócio"




O descampado do ócio


o acanhado das ruas
e das alpercatas

a calha e o lodo
e o assento seboso

o chão de fuligem
e o árido cerrado

a nudez do quintal
 e o musgo e a cisterna

o sol e o sol
e o sol e o mormaço

o tédio feroz
e a dor do inútil

a vida prescrita
e a vida acabada





ALMINO, José. "O descampado do ócio". In:_____. Encouraçado e cosido dentro da pele. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2019.

27.11.19

Castro Alves: "Os três amores"




Os três amores


I
Minh'alma é como a fronte sonhadora
Do louco bardo, que Ferrara chora...
Sou Tasso!... a primavera de teus risos
De minha vida as solidões enflora...
Longe de ti eu bebo os teus perfumes,
Sigo na terra de teu passo os lumes...
—Tu és Eleonora...

II
Meu coração desmaia pensativo,
Cismando em tua rosa predileta
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu... Teu lânguido poeta!...
Sonho-te às vezes virgem...seminua...
Roubo-te um casto beijo à luz da lua...
—E tu és Julieta...

III
Na volúpia das noites andaluzas
O sangue ardente em minhas veias rola...
Sou D. Juan!... Donzelas amorosas,
Vós conheceis-me os trenos na viola!
Sobre o leito do amor teu seio brilha...
Eu morro, se desfaço-te a mantilha...
Tu és Júlia, a Espanhola!...





ALVES, Castro. "Os três amores". In:_____. Espumas flutuantes. Cotia: Ateliê Editorial, 1998.

23.11.19

Ferreira Gullar: "Flagrante"




Flagrante


o meu gato
na cadeira
se coça

corto papéis coloridos na sala
e os colo num caderno

a manhã clara canta na janela
estou eterno





GULLAR, Ferreira. "Flagrante". In:_____. "Em alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

20.11.19

Margarida Patriota: "Luto"





Luto
Em horas pluviosas
Langorosas, baudelairianas 
Recolho-me dócil
Ao boudoir do meu spleen
Beijo a esfinge no console
Bocejo solilóquios no divã
No leque de pavão afago plumas
Aspiro com volúpia buquês murchos
Ao tilintar da sineta
Chávenas de porcelana flutuam
São os meus mortos
A tomar chá comigo






PATRIOTA, Margarida. "Luto". In:_____. Tempo de delação. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2019.

18.11.19

Antonio Cicero: "Amazônia"





Amazônia

Não queira, Silviano, que eu cante a selva
amazônica ou mesmo o rio Amazonas,
cujo silêncio a fluir às minhas costas
no entanto escuto às vezes, imerso em trevas.
Em minhas veias, é certo, corre o sangue
selvagem das amazonas e os meus traços
caboclos traem os maranhões; mas trago,
como herança dos ancestrais, não saudade
da floresta, mas da cidade almejada.
A Amazônia quer versos heroicos e épicos,
não os meus líricos, eróticos, céticos
e tão frívolos que nem sequer reparam
se pararam nas palavras ou nas coisas
e não raro tomam aquelas por estas
e a árvore pelas florestas e aquela
pela palavra e por fim ficam nas moitas.
É verdade que me fascinam os rios
paradoxais e a figura de Orellana,
expulso por amazonas emboscadas
muito tempo entre as florestas e os símbolos,
a cultuar Ares, o terrível deus
da guerra: terrível sim, porém não tanto
quanto Afrodite, que uma vez quis prová-lo
no leito e o domou e o dobrou e o comeu;
nem tão tremendo quanto Hefesto, o marido
da deusa, deus das técnicas e do fogo,
que, nem belo nem rápido, sendo coxo,
agarrou o adúltero Ares, o arisco,
e a dourada Afrodite na própria cama,
sobre a qual trançara inquebrantáveis fios
aracnídeos, deixando os amantes fixos
nessa fração de segundo que sonhavam
perpetuar; e que ao ser perpetuada,
virou tortura: pois como ser repouso
o gozo, movimento vertiginoso,
cheio de fervor e suor, rumo ao nada?
Convidado por Hefesto, todo o Olimpo
assistiu ao espetáculo do enlace
de Ares e Afrodite e ecoou toda a tarde
a gargalhada dos deuses. A pedido
do deus do mar, porém, Hefesto os soltou.
Ares, humilhado, fugiu para a frígida
Trácia, e ela, com um sorriso, para a ilha
de Chipre, cercada de um mar furta-cor,
onde as graças lhe prepararam um banho
perfumado, esfregaram à sua pele
o óleo ambrosíaco com que a tez dos deuses
esplende, vestiram-lhe um robe... e reparo:
terríveis são, mais do que os deuses, Demódoco
a flagrar a cena inteira com seu estro,
e Homero, a nos prender em teias de versos
entre a Feácia e o Olimpo. Recordo-os
e esqueço a que ponto me perdi da selva
dos meus ancestrais. Que não me guardem mágoa
nossas amazonas. Filho da diáspora
e dos encontros fortuitos, o poema
me esclarece: toda origem é forjada
no caminho cujo destino é o meio.
Feito o Amazonas, surjo do deserto,
mas dos afluentes eu escolho as águas.








CICERO, Antonio. "Amazônia". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

16.11.19

Jacques Prévert: "Le grand homme" / "O grande homem": trad. de Silviano Santiago




O grande homem


No ateliê do talhador de pedra

onde o encontrei

lhe tiravam medidas

para a posteridade.






Le grand homme


Chez un tailleur de pierre

où je l’ai rencontré

il faisait prendre ses mesures

pour la postérité






PRÉVERT, Jacques. "Le grand homme" / "O grande homem". In:_____. Poemas. Trad. de Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

14.11.19

Lêdo Ivo: "O espinho"




O espinho


Caluniado espinho na haste da rosa,
a ninguém ferirás nesta manhã
em que a rosa vermelha, a rosa airosa
oferta a sua vida à vida vã.

Neste dia de sol tudo é passagem.
E mesmo a eternidade é um caminho,
coito de luz e sombra, na viagem
entre o dia e a noite, a rosa e o espinho.




IVO, Lêdo. "O espinho". In:_____. "Plenilùnio". In:_____. Poesia completa: 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.