28.1.16

Antonio Cicero: "Inverno" / "L'Hiver": trad. de François Olègue

Hoje tive a grata surpresa de ver uma letra de música minha, Inverno -- que compus para uma melodia de Adriana Calcanhotto -- traduzida para o francês por François Olègue. Ei-la:



L'Hiver

                                              à Suzana Morais

Le jour où mon bonheur battait son plein,
je vis un avion,
réfléchi dans ton regard, qui s’envolait.
Et depuis lors… sait-on ?
On se promène le long du canal
et l’on écrit de longues lettres sans dessein,
tandis que l’hiver au Leblon
est presque glacial.
J’ai quelque chose encore à comprendre : où
précisément j’abandonnai, ce jour-là, ce lion
que je montais toujours ?
J’oubliai, par ailleurs, que le sort
ne m’acceptait que seul,
privé de toute amarre, exempt de tout remords ;
un bateau ivre qui dérive
sens dessus dessous.
Mais un je ne sais quoi
rappelle insistant
que pour nous deux la terre se joignit aux cieux,
juste un instant,
à l’heure où s’éteignait, là-bas à l’occident, le jour.



CICERO, Antonio. “Inverno” / “L’hiver”. In OLÈGUE, François. “Antipodes poétiques (3) - poètes brésiliens traduits par François Olègue”. RAL,M. Revue d’art et de littérature, musique, http://www.lechasseurabstrait.com/revue/spip.php?article11675, 17/01/2016.



Inverno

                                                   a Suzana Moraes

 No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
 de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.
Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só,
sem amarras, barco embriagado ao mar
 Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar.



CICERO, Antonio. "Inverno". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

9 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


que maravilha! Viva! Viva! Seu belíssimo poema demais merece ganhar o mundo! A tradução ficou ótima!



Abraço forte,
Adriano Nunes

Antonio Cicero disse...

Obrigado, querido Adriano!
Abraço

Eliseu Raphael Venturi disse...

é impossível ler este poema sem sentir o coração progressivamente se tornar arciforme de saudade.

Eliete disse...

poema musicado é o que há de melhor. Lindo!

Gilmar Júnior disse...

Ah, António Cicero, você não acredita o quanto sou fã de seu livro Guardar. Tenho em minhas mãos recorrentes vezes durante a semana inteira. Leio e releio os meus favoritos, até acompanho de vezes em quando os poemas com as vozes de Adriana Calcanhotto e de sua irmã Marina Lima, usando elas como pano de fundo.
Inverno e Maresia são senão as melhores letras da Música Brasileira, mesmo nível das composições de Tom, Vinicius, Chico, Caetano ou Gil. É um enorme prazer de dizer isso, me causa grandes alegrias! Um orgulho grandioso, mesmo que para alguns não sejam nada significantes, pois, creio que eles nada sabem do que é gratificante falar daquilo que realmente gostamos.
Eu sou desse que não canso de divulgar os meus preferidos, digo para os meus amigos leiam isso, leiam aquilo. Até alguns já dizem, “Lá vem ele mandar ler os poemas Transparências, Falar e dizer, Eco, Guardar...”.
Se eu morasse onde moro no interior do RN, procuraria em busca de um autografo ou de um rascunho de seu poema. Deve ser um orgulho para você, saber que tem leitores em todo Brasil a maioria à sombra do anonimato criando coragem para te dizer alguma coisa.
Um abraço!

Antonio Cicero disse...

Caro Gilmar,

nem sei o que dizer. Raramente ouço palavras que me deixem tão feliz, por me fazerem pensar que, afinal, alguns dos poemas e das letras que escrevo fazem bem a pessoas tão sensíveis e generosas quanto você: por me fazerem pensar que, afinal, vale a pena ser poeta!

Muito, muito obrigado!
Grande abraço

Andrea Almeida Campos disse...

Essa letra é magistral! Costura o inverno sobre uma grande cidade com o inverno sob cada um de nós... Cada vez que a escuto, toco, emocionadamente, no frio de minha cidade invisível. A sua tradução é uma generosidade para com o mundo que merece conhecê-la e vivenciar a experiência de escutá-la. Parabéns!

Wanderson Hidayck disse...

Inverno é um dos meus primeiros encontros com a poesia. Belo e doído. Parabéns, Cicero.

Antonio Cicero disse...

Muito obrigado, Andrea e Wanderson!

Abraços,
Antonio Cicero