24.1.12

Declaração da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF)





Apoio integralmente a seguinte Declaração da ANPOF:




DECLARAÇÃO DA ANPOF


Prezados colegas:

Tramita no Congresso Nacional, em regime conclusivo, o projeto de lei nº 2533/11, elaborado pelo deputado Giovani Cherini(PDT/RS). Seu objetivo é regulamentar a profissão de filósofo no Brasil. Conforme a proposta do deputado Cherini, o desenvolvimento de projetos socioeconômicos regionais, setoriais ou globais deverão contar com a participação de filósofos devidamente registrados no Ministério do Trabalho. Estarão qualificados para o exercício da profissão todos aqueles que possuírem título de bacharel em filosofia, os diplomados “em cursos similares” no exterior, após terem seus diplomas revalidados, além de mestres e doutores não diplomados que exerçam a atividade há mais de cinco anos. O mencionado projeto de lei também assegura que a profissão de “filósofo” poderá ser exercida por membros titulares da Academia Brasileira de Filosofia e “aos por ela diplomados”. Para conferir a íntegra do projeto de lei, acesse:
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=523870

Como representante da comunidade de pós-graduação dos cursos de filosofia no Brasil, a ANPOF vem manifestar seu repúdio a tal projeto.

Cursos de filosofia formam professores de filosofia, que podem ou não ser filósofos. Assim também, cursos de literatura formam professores de literaratura, que podem ou não ser literatos. Finalmente, há filósofos e literatos sem titulação acadêmica. É tão absurdo exigir diplomação específica para alguém ser filósofo quanto seria exigir diplomação específica para alguém ser escritor. A filosofia não é e nem deve tornar-se competência exclusiva de um segmento qualquer, seja ele de natureza estamental, profissional ou ideológico.

Acima de tudo, causa-nos estranheza a prerrogativa que o projeto pretende dar à Academia Brasileira de Filosofia, que qualifica como filósofos João Avelange e Carlos Alberto Torres, capitão da seleção de futebol de 1970. Trata-se de uma associação absolutamente inexpressiva no que concerne aos estudos, projetos de pesquisa e ensino da filosofia em nível universitário. A despeito disso, o referido projeto quer transformar essa entidade na representante da filosofia e da “língua filosófica” nacionais” (artigo 7).

Por essas razões, endossamos o abaixo‑assinado que circula na Internet contra o mencionado projeto, que pode ser acessado a partir do link que inserimos abaixo.

http://www.change.org/petitions/abaixo-assinado-contra-a-regulamentao-de-filsofo-como-profisso-contra-a-regulamentao-de-filsofo-como-profisso
Cordialmente,

Vinicius de Figueiredo (Presidente da Diretoria da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia – ANPOF)

12 comentários:

Rogério Rocha disse...

Realmente, caro Cícero, a mera graduação não confere a ninguém a condição de filósofo (muito embora seja o início de uma caminhada de amadurecimento na vida que pode te levar a essa condição um dia). O projeto, em sua intenção primeira, quero crer, é até louvável e positivo, querendo reconhecer direitos que valorizem a categoria. Contudo, há equívocos evidentes que dão lugar a certas polêmicas. Como é só um projeto de lei, pode ser refeito e melhorado com emendas a sua redação original.

Antonio Cicero disse...

Caro Rogério,

Considero inteiramente ridículo esse projeto. Nenhum filósofo de verdade toma a filosofia como uma profissão ou como um meio de vida.

Muito mais filosófico é pensar, como Sócrates, que a filosofia seja, não um meio, mas um modo de vida: a busca da sabedoria por ela mesma.

Como diz Wittgenstein, “O filósofo não é cidadão de uma comunidade de pensamento. É isso que faz dele um filósofo”.

Ou seja, o filósofo é necessariamente um outsider, e não o membro de uma “categoria” que deva ser “valorizada”. Assim, tentar transformar a filosofia em profissão não é “valorizar a categoria”, mas desvalorizar a filosofia.

O “filósofo” que concorde com a proposta segundo a qual “os projetos socioeconômicos regionais, setoriais ou globais deverão contar com a participação de filósofos devidamente registrados no Ministério do Trabalho” não é filósofo, mas aproveitador ou vigarista. Por que? Porque todo filósofo de verdade -- aliás, todo o mundo que já lê obras de filosofia -- sabe que a filosofia não consiste num saber em torno do qual haja um consenso mínimo.

Em torno de projetos socioeconômicos concretos, cada pessoa formada em filosofia terá uma opinião diferente da outra; e não há por que pensar que a opinião de uma pessoa formada em filosofia seja mais valiosa do que a de qualquer outro cidadão.

Quanto à “Academia Brasileira de Filosofia”, a declaração da ANPOF já diz bastante.

Necopinus disse...

1-Você tem razão: todo esse projeto é ridículo.

2-Mas acaba aqui a nossa concordância. Olha só quem fez a declaração contra o projeto: a ANPOF. Será que essa turma se considera exterior a uma comunidade de pensamento?

3-Deixemos de romantismos, atualmente os "filósofos" são uma estamento da burocracia universitária. Aqui e em todos os lugares do mundo.

4-"Filósofo" ser um outsider? Desde de Kant, professor universitário a vida toda, que não é assim. Hegel e Nietzsche também foram professores universitários.

5-A tal Academia Brasileira de Filosofia é uma piada, mas os "filósofos" brasileiros vivem cavando empregos e boquinhas, ou seja, não são nada socráticos.

6-Forçaram a volta da Filosofia ao Ensino Médio, e a situação da Filosofia nos colégios não é trágica porque é cômica. Vá e veja.

7-E ainda tem o problema gravíssimo da tal "Filosofia Clínica". Nunca vi ninguém criticar essa aberração.

8-Seria bom que o projeto em pauta servisse para uma reavaliação da filosofia entre nós, mas isso nunca vai acontecer. Nós, os brasileiros, temos medo da verdade, por isso vivemos em um país absurdo.

9-Tenha uma boa noite.

Antonio Cicero disse...

Necopinus,

sobre as suas objeções:

1 - Certo.

2 – A ANPOF não me parece ser uma comunidade de pensamento, uma vez que abriga professores que pensam as coisas mais diferentes uns dos outros.

3 – Os filósofos não são um estamento da burocracia universitária. Os professores universitários, sim. Há filósofos entre os professores universitários, mas, enquanto filósofos, eles necessariamente defendem as suas convicções filosóficas, e não necessariamente o estamento universitário: por isso mesmo, eles não apoiam o projeto em questão.

4 – Os filósofos que não sejam ricos – como quase todos – também têm que trabalhar para viver, e o trabalho que lhes parece mais adequado é o de dar aula. Mas os verdadeiros filósofos são antes comprometidos com seu próprio pensamento do que com seus interesses enquanto professores. Entre estes e aquele, os verdadeiros filósofos escolhem aquele. Por isso sua postura, enquanto filósofos, é a de outsiders. Wittgenstein exemplifica essa postura, em Cambridge, onde ele é efetivamente considerado um outsider. O mesmo faz Schopenhauer, quando escreve “Sobre a filosofia univesitária”.

5 – O item anterior responde a essa objeção, mas digo ainda que, embora Kant e Hegel realmente tenham sido professores universitários de filosofia, Nietzsche, não foi: ele foi professor de filologia, e isso durante apenas alguns anos de sua vida. Tampouco foram professores de filosofia outros filósofos posteriores a Kant, como Kierkegaard, Emerson, John Stuart Mill, Albert Camus.

6 – Em princípio, parece-me que uma introdução à filosofia nas escolas, coisa que existe há anos na França, pode ser uma boa coisa. O problema é treinar professores para isso.

7 – Não me interessa a “filosofia clínica”.

8 – Isso é outra questão.

9 - Idem.

Edson Gil disse...

[...] Ante lodo conviene subrayar la relativa autonomía del pensamiento. EI que todo pensamiento esté situado y condicionado no significa necesariamente que esté predeterminado; más aún, no hay forma más radical y posibilitante de liberarse de condicionamientos que el propio pensamiento. Los denunciadores y liberadores del aspecto ideologizante del pensamiento, han realizado su tarea desde el pensamiento mismo. EI pensar humano está condicionado –y mucho más de lo que piensan marxistas apresurados de última hora– por la estructura psico-biológica del hombre, por su bio-personalidad; está condicionado, asimismo, por las posibilidades culturales con las que cada pensador cuenta; está condicionado también por toda clase de intereses (Habermas) y no solo, ni siempre principalmente, por los intereses de clase. Los condicionamientos materiales del pensamiento son múltiples y van desde la subjetividad mas inconsciente hasta la objetividad más manifiesta. Todo ello es cierto y sólo una consideración crítica de todos los condicionamientos puede dar paso a un proceso de liberación y de racionalización del pensar humano. Pero este radical condicionamiento del pensar no solo no obstaculiza definitivamente la labor cognoscitiva, que va en busca de la realidad verdadera de las cosas, sino que es posibilitante de su concreta libertad, si es que se logran asumir críticamente esos condicionamientos. Precisamente, la posibilidad misma de las ideologías estriba en que el pensamiento no es sin más una determinación proveniente de la realidad, ni siquiera de la realidad social: si así lo fuera, todos pensarían lo mismo, mientras que de hecho solo "piensan" lo mismo los que en realidad no piensan. Esa es la razón por la cual los filósofos piensan de forma tan distinta entre si, tanto más distinta cuanto de mayor categoría sea su pensamiento.

Esta es también la razón por la que todo sistema dominante quiere poner cortapisas al pensamiento y busca pensadores asalariados que lo defiendan y lo propaguen. Hay una autonomía de la propia individualidad en la estructura social –no solo no se excluyen, sino que se incluyen estructura social e individualidad–, y en esa individualidad juega un papel decisivo la relativa autonomía del pensamiento. La filosofía pretende ser un desarrollo a fondo de esa autonomía, en cuanto pretende temáticamente liberarse de toda imposición para emprender su tarea de racionalidad.

Dos son los mecanismos con los que realiza su proceso de independencia y su propósito de desideologización: la duda y la negación.
Tomadas a una son la base de la posibilidad crítica de la filosofía. Es una labor que no puede realizar a solas: requiere el concurso de los análisis científicos, pero el análisis científico pertenece intrínsecamente a la labor filosófica, aunque no sea el lodo de ella, ni su elemento diferenciador. A esta capacidad de duda y de negación, a esta capacidad de crítica, suelen llamar los dogmáticos revisionismo o herejía, según los casos. Se explica por qué: la duda y la negación disminuyen la velocidad de la acción, rompen el carácter monolítico de la organización, dan paso a desahogos individualistas, etc. Pero, por la otra faz, muestran la autonomía del pensamiento, su capacidad para convertir la determinación en indeterminación, la necesidad en libertad. En cuanto la filosofía es, por su propia naturaleza, lugar propio de la duda y de la negación criticas, representa una de las posibilidades más radicales de desideologización. [Continua]

[ELLACURÍA, Ignacio. Filosofía para qué?]

Edson Gil disse...

[Continuação] Otra razón hay que añadir. La filosofía busca permanentemente salirse de los limites de cualquier punto de vista determinado para intentar abarcar la totalidad: más aun, en algún modo, procura salirse de cualquier totalidad determinada y aun de la totalidad de las totalidades, para poderlas enfocar como un todo. En este intento, necesita de muchos correctivos y de muchas sugerencias para que su salida no sea evasión o alienación. Como lo mostro Marx en su crítica de Hegel. En este intento está amenazada de caer en mistificaciones, al convertir lo que es idea del sujeto en realidad objetiva y la realidad objetiva en puro predicado ideal; al convertir los agentes verdaderos en resultados y los resultados en agentes. Pero estos peligros son salvables y no pueden ser razón suficiente para impedir la aventura de ir en busca de la realidad tal como es, esto es, en su complejidad y en su totalidad, solo el que en lo limitado ve consciente y críticamente mas que lo limitado puede desideologizar, impedir que la parte se le convierta en todo, que lo relativo se le convierta en absoluto. Que los filósofos hayan cometido errores en este intento, al confundir lo empírico con lo absoluto y lo absoluto con lo empírico, no es objeción contra la necesidad de su propósito, máxime cuando han sido los mismos filósofos quienes han ido superando en la historia este tipo de confusiones. Pero es claro que en este esfuerzo por situarse fuera del todo se da una posibilidad real de salirse, en alguna manera, de él y así ser su propio crítico y crítico de todo lo demás.

De aquí se deduce que hay más peligro de convertirse en ideología cuando la filosofía deja su tarea crítica y emprende su tarea constructiva y sistemática. Sin embargo, la filosofía no da de si todo lo que debe si no busca ser sistema explicativo de lo real, pues en eso residen últimamente su gloria y su fracaso. Mientras sea creativa y no meramente repetitiva, el peligro es menor, porque cuando crea y afirma, es en si misma crítica, si no como representación de la realidad, sí como instrumento de aproximación a ella. Las grandes filosofías como representaciones o sustituciones de la realidad pueden convertirse en ideologías y defraudar a quien va en busca de la realidad tal como es, pero como instrumentos de aproximación, como vías que uno ha de recorrer, son medios esplendidos de realización. EI filósofo no está solo en el conjunto estructural de la sociedad; no puede pedírsele que lo haga lodo él o que haga solo todo lo que la sociedad necesita. Hay que pedirle que haga bien lo que solo él puede hacer y que lo haga en su tiempo y en su lugar.

[ELLACURÍA, Ignacio. Filosofía para qué?]

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


gosto muito quando ocorrem debates sobre filosofia aqui no blog. Nós, leitores, sempre ganhamos com isso. Que bom rever o Edson Gil participando. Cadê o Aetano e os demais que adoram Filosofia?


Abraço forte,
Adriano Nunes

João Renato disse...

Cícero,
Meu conhecimento de filosofia é quase nenhum.
Mas o Brasil, eu conheço.
E esse projeto parece ser mais um daqueles que criam um cabide artificial de empregos, e ainda dá poder e importância a uma "instituição" irrelevante.
E essa de que "a profissão de “filósofo” poderá ser exercida por membros titulares da Academia Brasileira de Filosofia e “aos por ela diplomados”" é excessivamente brasileira.
Fui ver o site desta "Academia Brasileira de Filosofia", e gostei muito do belo Salão de Eventos, que pode ser alugado para "festas, reuniões, coquetéis, formaturas, palestras, seminários, cursos, eventos ou reuniões de empresas e entidades, desfiles de moda e jóias, aniversários de 15 anos, casamentos, entre outros".
(Solicite orçamento grátis).
Abraço,
JR.

Aetano disse...

Caros,

No debate, acho que Cicero e o texto do Edson já disseram tudo, portanto, o que segue é somente chuva no molhado.

A mim me interessa mais o filósofo idiossincrático - que diz que o seu juízo é só seu e não admite que ninguém o compartilhe - que o filósofo ansioso por ser aceito numa determinada comunidade. A fortiori, tenho uma verdadeira antipatia pela ideia que quer enquadrar os filósofos numa "categoria", "corporação" ou quejandos.
Querer transformar o filósofo numa autoridade é ridículo! É um desserviço à Filosofia e à sua história. E para a filosofia clínica eu recomendo a filosofia cínica.

P.S. Cicero, estou gestando aquela nossa conversa... Como se diz na minha terra, aguarde cartas rs

Abcs.

Necopinus disse...

1-A Academia Brasileira de Filosofia é uma bobagem, como milhões de outras que existem no Brasil, mas prestou a cidade do RJ pelo menos um serviço: preservou a residência de Osório, um casarão do século XIX.

2-Há quem não goste do general Osório. Eu mesmo não tenho sobre ele nenhuma opinião, mas acho bacana que os prédios antigos sejam preservados e, sobretudo, utilizados. Oxalá, alguém desse uma utilidade para a casa onde viveu o barão do Rio Branco, no Catete, que está caindo aos pedaços.

3-Essa primeira geração da ABF é meia selvagem, está, digamos assim, na fase de acumulação primitiva de capital. Pode ser que surja outro grupo e tome o poder por lá. Já aconteceu outras vezes, não há porque ser pessimista. Nem é preciso dizer, mas muita coisa que hoje está "nimbada pela pátina do tempo", começou da mesma forma patética...

4-Tenha uma boa tarde.

Antonio Cicero disse...

Aetano,

eu estou à disposição, esperando as perguntas.

Abraço

Lupo Lobato disse...

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