6.2.11

Paul Valéry: "Politique" / "Política"




Política

Repugno tudo o que quer me convencer – um partido, uma religião que busca adeptos, que quer o número e a propagação são marcados (para mim) pela ignomínia. Uma doutrina deve, para ser nobre, jamais ceder ao desejo de ser compartilhada. Sit ut est ut non sit [que seja como é ou que não seja].

Não quero fazer aos outros o que não gostaria que me fizessem.

Pois ocorre que, para atrair o número, introduz-se ou tolera-se o suficiente para aborrecer os alguns, e ocorre uma duplicidade, uma impureza na doutrina. Não se sabe mais se tal ponto é uma questão de fé ou não. Chega-se a misturas estranhas, a reservas secretas. São Tomás e o sangue de São Januário.

-- Ter razão. Querer ter razão – propagar. Querer convencer.

Isso leva aos milagres... à “publicidade”.



Politique

Je répugne à tout ce qui veut me convaincre -- Un parti, une religion qui cherche des adeptes, qui veut le nombre et la propagation, sont frappés (pour moi) d'ignominie. Une doctrine doit, pour être noble ne rien céder au désir d'être partagée. Sit ut est aut non sit.

Je ne veux pas faire aux autres ce que je ne voudrais pas qu'on me fît.

Car il arrive que pour attirer le nombre, on introduise ou l'on tolère ce qu'il faut pour dégoûter les quelques-uns, et il se fait un dédoublement, une impureté dans la doctrine. On ne sait plus si tel point est de foi ou ne 1'est pas. On arrive à des mixtures étranges, à des réserves secrètes. Saint Thomas et le sang de St Janvier.

Avoir raison. Vouloir avoir raison — Propager. Vouloir convaincre.

Ceci mène aux miracles... à la « publicité ».



VALÉRY, Paul. Cahiers I. Paris: Gallimard, 1973.

9 comentários:

Lauro Marques disse...

O verdadeiro pecado é escrever para o público.

Necopinus disse...

Mais um hóspede do Grande Hotel Abismo...Para Lukács não se comprometer com a brutalidade dos fatos e condenar a priori toda e qualquer ação concreta. O gesto é típico de uma certa tradição intelectual, inclusive, de esquerda. Para os filósofos reunidos no "Grande Hotel Abismo" a crítica é apenas um tempero para apimentar o banquete do pensamento especulativo.

Antonio Cicero disse...

Necopinus,

a meu ver, no texto não se trata de negar a crítica ou a ação concreta, mas o proselitismo. O próprio texto, aliás, é crítico: do proselitismo.

Silvio Barreto de Almeida Castro disse...

Goebbels acreditava tanto nas mentiras de sua propaganda que começou a acreditar que eram verdades. Victor Klemperer em seu "LTI - A linguagem do Terceiro Reich" com muita propriedade colocou que é mais fácil seguir um líder do que pensar pela própria cabeça, portanto a responsabilidade do mau pastor é prerrogativa das más ovelhas.

Ranzinza disse...

Sábio Silvio!

Elisa disse...

Grande texto de Valéry. Não acredito que os moldes de propagação política ou religiosa que encontramos hoje sejam diferentes de como eram durante toda a Idade Média, por parte da Igreja Católica daquela época. As formas de persuasão por parte de líderes religiosos atuais são muito parecidos entre si e não são menos agressivos do que os de qualquer outra época. Em relação a finalidades, as religiões não se diferem. Todas caminham para o abismo. Deus está fora delas.

Necopinus disse...

João Pereira Coutinho publicou hoje na Folha um artigo (“Os herdeiros de Sayyid Qutb”) que tem tudo haver com o poema de Valéry. Aliás, o título "Politique", é bem claro sobre as intenções do poeta-filósofo.

O que um egípcio moderno e democrata deve fazer agora? Ficar em casa e lavar as mãos e deixar os trogloditas da “Irmandade Muçulmana” dominar e comandar a deposição de Mubarak? Ou entender que política é risco e que só se faz coletivamente, sujando as mãos, porque não há outro jeito?

A frase é velha, mas infelizmente não perdeu a atualidade: quem desdenha a política acaba sendo administrado por aqueles que não desdenham. O resultado está a nossa volta.

Já até passou da hora dos homens honestos saírem da Torre de Marfim e disputarem o espaço com os menos bons e notórios salafrários.

betina moraes disse...

observador,

lúcido, para dizer o mínimo.


abraços!

Antonio Cicero disse...

Necopinus,

Desculpe-me, mas você está confundindo as coisas.
Valéry está contrastando o que considera as doutrinas nobres com o que considera as doutrinas vulgares. As doutrinas nobres são as que não fazem concessões aos preconceitos vigentes, no intuito de virem a ser aceitas pela massa (pelo “número”). As doutrinas vulgares são as que fazem todo tipo de concessão aos preconceitos vigentes, no afã de serem compartilhadas pela massa. Assim é, segundo ele, a religião católica, que mistura a doutrina teológica de Tomás de Aquino às baboseiras que se diz sobre a imagem de São Januário, que verteria sangue. Um partido político é o protótipo dessa atitude aberta a fazer todo tipo de concessões: daí o “Política” do título. Valéry não está condenando a política, mas dizendo que não leva a sério doutrinas que façam concessões; que façam "política".

Não admitir política numa doutrina filosófica ou literária, por exemplo, é uma coisa; não admitir política tout court é outra completamente diferente. Valéry não defende aqui esta atitude, mas aquela. Na verdade, a atitude de Marx, por exemplo – que nunca foi contra a política em si – era semelhante à de Valery. Assim, ele dizia, por exemplo: “Todo juízo de crítica filosófica me é bem-vindo. Quanto aos preconceitos da assim chamada opinião pública, à qual jamais fiz concessões, vale-me, como antes, a divisa do grande florentino: Segui il tuo corso e lascia dir le genti!”. Valéry concordaria integralmente.