2.2.11

Michel Deguy: "L'amour est plus fort" / trad. de Marcos Siscar




O amor é mais forte que a morte vocês diziam
Mas a vida é mais forte que o amor e
A indiferente mais forte que a vida — A vida
Minha ou sua e nossa de alguma maneira
É em conjunto a única seqüência de
                              metamorfoses
(O neotênico converte-se em herói sexuado
Depois no barrigudo careca que apodrece como
                              um deus)
E banhos-duchas no Letes todos os meses
Lutos laqueados, renascimentos frágeis,
                              amnésias
E um velho mudo dentro de nós há tanto
                              tempo
Sobrevive sem dor ao ossuário das crianças


                             45° Oeste 60° Norte




L'amour est plus fort que la mort disiez-vous
Mais la vie est plus forte que l'amour et
L'indifférente plus forte que la vie – La vie
Mienne ou tienne et nôtre en quelque manière
Est ensemble la seule séquence de
                              métamorphoses
(Le néoténique se mue en héros à sexe
Plus tard en ventru chauve pourrissant comme
                              un dieu)
Et bains-douches au Lhété tons les mois
Deuils laqués, renaissances frêles, amnèses
Et un vieillard muet en nous depois longtemps
Survit sans douleur au charnier des enfants


                              40° Ouest 60° Nord





DEGUY, Michel. "Donnant donnant" / "Toma lá, dá cá". trad. de Marcos Siscar. In: A rosa das línguas. org. e trad. por Paula Glenadel e Marcos Siscar. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2004.

6 comentários:

Nobile José disse...

De Slaovj Zizek, ao comentar os acontecimentos na Tunísia e no Egito (trecho):

"A hipocrisia dos liberais ocidentais é de tirar o fôlego: eles publicamente defendem a democracia e agora, quando o povo se rebela contra os tiranos em nome de liberdade e justiça seculares, não em nome da religião, eles estão todos profundamente preocupados. Por que aflição, por que não alegria pelo fato de que se está dando uma chance à liberdade? Hoje, mais do que nunca, o antigo lema de Mao Tsé-Tung é pertinente: "Existe um grande caos abaixo do céu - a situação é excelente"."

Íntegra: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17357&boletim_id=818&componente_id=13443

Andressa disse...

Mas a vida é mais forte que o amor...

Antonio Cicero disse...

Nobile José,

Zizek é evidentemente um cínico. Ele sabe perfeitamente que a preocupação dos liberais “ocidentais” não se deve ao fato de que se esteja dando “uma chance à liberdade”, mas porque, como reconhece em outra parte do seu artigo, “não existe poder político organizado para tomar o poder caso Mubarak parta. É claro que não existe”. Isso quer dizer que não se sabe quem acabará por tomar o poder. Dependendo de quem seja, pode representar uma mudança radical da situação geopolítica do barril de pólvora que é Oriente Médio. Logo, seria uma irresponsabilidade dos governos norte-americanos e europeus que não estivessem preocupados.

Além disso, o próprio Zizek também lembra que o Afeganistão “há quarenta anos atrás, era um país com forte tradição secular, incluindo um poderoso partido comunista que havia tomado o poder lá sem dependência da União Soviética”. E pergunta: “Para onde essa tradição secular foi?” Para evitar isso, segundo ele, “os liberais precisam da ajuda fraternal da esquerda radical”. “Fraternal”? O cinismo não podia ser maior. Quem ignora que a esquerda radical só consegue ser “fraternal” aos liberais à moda de Caim? Se o Afeganistão tinha “forte tradição secular” e caiu nas mãos do Talebã, e a esquerda radical quer dar um abraço de urso nos liberais, como é possível ele se espantar com o fato de que estes estejam preocupados? É Zizek, não os liberais, o verdadeiro hipócrita.

ADRIANO NUNES disse...

Amado Cicero,


Andei ausente resolvendo questões íntimas vitais. Mas li todas as postagens e amei todas! Um grande abraço amado amigo:

Deixo aqui o meu mais novo soneto:

"Soneto V"


nem um risco corro
enquanto me solto
do cosmo. revolto,
peço-te socorro:

será novo sonho
ou o fundo do poço?
meu coração ouço...
a que me proponho

se viver é pouco?
o mundo? arcabouço
que nunca está pronto

pra nada! em que ponto
de fuga (inda tonto,
escrevo...) sou outro?

Abraço fraterno,
Adriano Nunes.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Um novo poema:


"o verso de um amor só"


feito feitiço o amor veio.
a casa ficou de um jeito
que o embaraço era perfeito...
o amor veio via emeio.

sem desculpas, o desejo
entregou-se pleno, inteiro
(era mesmo o amor primeiro!)
à luz de tudo que almejo.

a vida? tem endereço
certo agora. em nosso peito,
outro coração é feito
do verso que te ofereço.

Abração,
Adriano Nunes.

Lisete de Silvio disse...

É preciso que tudo mude para que tudo se mantenha.
Giuseppe Lampedusa