1.3.09

Em Portugal

Há duas semanas participei das Correntes d'Escritas, um encontro de escritores de expressão ibérica que tem lugar anualmente em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, a poucos quilômetros do Porto. Os brasileiros eram, além de mim, Adriana Lisboa, Amílcar Bettega, Daniel Galera, Eucanaã Ferraz, Ivan Juqueira, João Paulo Cuenca, Ledo Ivo, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luis Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar. “Dias lindos, pouco frio, e não envergonhamos a pátria”, como resumiu Veríssimo na sua coluna de O Globo.

Tanto em Póvoa quanto, depois, em Lisboa, lancei a edição portuguesa do meu ensaio filosófico O mundo desde o fim. Tenho a impressão de que os livros de filosofia conseguem realizar a proeza de vender ainda menos que os de poesia. Por essa e outras razões, sou muito grato aos meus editores – tanto ao brasileiro quanto ao português – por terem ousado publicar esse livro. São ambos meus queridos amigos: Carlos Leal, da editora Francisco Alves, do Rio, e Jorge Reis-Sá, da editora Quasi, de Vila Nova de Famalicão.

Em Lisboa, meu livro foi lançado na mesma ocasião em que Eucanaã Ferraz lançou o seu Cinemateca, também pela Quasi. O poeta Gastão Cruz apresentou o livro de Eucanaã e a escritora Inês Pedrosa, diretora da Casa Fernando Pessoa, onde se deu o lançamento, o meu.

Esses lançamentos de Lisboa foram a primeira realização do Projeto Transatlântica. Promovido pela Casa Fernando Pessoa em conjunto com a jornalista e guionista Beth Ritto, Transatlântica se propõe a “revelar talentos e promover a troca de informações entre artistas, escritores, produtores, artistas plásticos, cineastas, designers, editores, jornalistas, gente que vive, cria e transforma a realidade através da cultura e suas várias interpretações. Transatlântica é uma mostra itinerante sobre o que acontece de melhor e mais criativo na produção cultural do Brasil e Portugal”.

A seguir publico uma crônica de Inês Pedrosa – publicada no Expresso, de Lisboa, em 25 de fevereiro de 2009 – que captura muito bem o espírito das Correntes d’Escrita. Além disso, como Inês é uma grande escritora, são muito importantes para mim as palavras generosas com as quais, nessa mesma crônica, ela recomenda o meu livro O mundo desde o fim.


O milagre das "Correntes d'Escritas"

A ideia de que a cultura é um ornamento, um luxo que serve estatutos e vaidades, tem sido um acelerador das crises económicas em Portugal. Não só desta, que tem a vantagem de ser de importação - a malta não tem culpa, o poderoso mundo global e capitalista é que fez esta maldade. A modernidade é indissociável da consciência da crise - e o fulgurante filósofo que é Antonio Cicero prova-nos ("O mundo desde o fim", ensaio imperdível, edição Quasi) que estamos ainda e sempre na modernidade - os pós-modernismos são publicidade mal informada.

As "Correntes d'Escritas", festival anual de literatura ibero-americana realizado na Póvoa de Varzim, têm vindo a ser definidas como um "milagre" pela extraordinária mobilização de públicos que alcançam. Este ano, de 11 a 14 de Fevereiro, celebraram a sua décima edição com um número impressionante de participantes (128) - e um sucesso de público estrondoso. As sessões, no auditório municipal (300 lugares) estavam sempre abarrotadas - com gente de pé, ou enchendo as escadas - fosse às 10h30 ou às 22 horas. E o que se passava nessas sessões? Conversas ou palestras em torno de livros, do que nos move para os livros, do que encontramos neles. Simplesmente isto: escritores falando de livros - e veio gente de muitas partes do país para assistir a estas conversas, para ouvir os escritores que já conhece dos livros, ou para conhecer novos escritores. Que tipo de gente? Leitores. De várias idades e escalões sociais. Ao lado do auditório, uma livraria sempre cheia, onde muitos livros também esgotaram rapidamente.

Nem sempre foi assim: nos primeiros anos, o auditório não enchia. Mas os poucos que vinham gostavam tanto que passaram a palavra. E a organização foi mobilizando a população local, os professores, as escolas.

Poetas como os brasileiros Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz regressavam, este ano, das sessões nas escolas (que as "Correntes" sempre promovem) surpreendidos com a qualidade das perguntas dos alunos, que, de facto, conheciam as suas obras. Na Póvoa não acontece essa vergonha, tão habitual, de um escritor ser convidado a falar perante uma turma que nunca leu um livro seu - apenas se limitou a imprimir a biografia do convidado da Internet. A única maneira de entusiasmar os jovens pela leitura é dar-lhes os livros a ler. Ajudá-los a descobrir o sentido de cada palavra. Demasiadas vezes, o escritor descobre, no local, que apenas está ali para encher o programa de actividades escolares - um nome para dourar um relatório. É contra esta concepção de cultura, postiça, decorativa, abusadora, que se desenham iniciativas como as "Correntes d'Escritas". A partir do trabalho insano, da carolice e do amor aos livros de alguns.

A Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes, que são a alma criadora das "Correntes", trabalharam com persistência - essa persistência que tanto tem faltado, nos últimos anos, a nível governamental, no investimento cultural em Portugal. Não adianta fazer grandes eventos sem sequência, foguetórios frágeis - mas a política cultural oficial tem-se resumido a isso: na melhor das hipóteses, uma inconsequência de conferências tonitruantes, de esclarecidos para esclarecidos, uma confirmação interpares das excelências mútuas. O esforço de internacionalização da cultura portuguesa que na segunda metade da década de noventa se fez, com Manuel Maria Carrilho como ministro da Cultura, não teve continuidade - o que significa que morreu. O que as "Correntes d'Escritas" vieram demonstrar é que os livros, a literatura, são contagiosos - e mudam, de facto, a vida das pessoas. De todas as maneiras: dos encontros nas "Correntes" nasceram, pelo menos, dois casamentos. A música do mar azul e bravo, irrompendo pelas varandas do hotel que alberga o evento, é uma fonte de inesgotáveis inspirações.

Os milagres tecem-se de uma constelação de vontades, um sentido do encontro feito da atenção aos pormenores, de modo a que cada um se sinta, simultaneamente, acolhido e livre. É esse o segredo das "Correntes d'Escritas": criar um espaço de encontro descontraído, em que escritores, editores, jornalistas e simples leitores podem conversar sem cerimónias. As noites das "Correntes" enchem-se de histórias e risos, cumplicidades rápidas que nos darão alento para os dias futuros, para as horas de solidão em busca da palavra exacta ou de um bocado de mar que acenda o silêncio da noite.

Inês Pedrosa



In: Expresso. Lisboa, 25 de fevereiro de 2009

9 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Amado cicero,

Parabéns! Muito merecidas, para todos os brasileiros ali presentes e envolvidos nessa empreitada cultural, tão belas paLavras!


Abraço forte!
Adriano Nunes.

Domingos da Mota disse...

Já tinha lido esta excelente crónica de Inês Pedrosa sobre as "Correntes d'Escritas, que tão bem descreve o espírito do Acontecimento, na Póvoa de Varzim.Estive lá, assisti a algumas mesas rectangulares,a debates, a  lançamentos de livros, e é de facto um prazer ter ali à mão de uma palavra alguns dos escritores que mais apreciamos, ou até alguns que mal conhecemos.Há só um aspecto a que gostaria de assistir com mais frequência: ouvir os poetas e outros escritores dizerem os seus próprios textos, durante as sessões mais importantes, no Auditório, que são as que arrastam mais audiência.Espero bem que este Acontecimento único, pelo menos na península Ibérica, se mantenha por muitos e bons anos.

Domingos da Mota

Carmem Salazar disse...

Cícero, muito bacana saber sobre "Correntes d'Escritas" e a presença de escritores gaúchos entre os demais. Também, a oportunidade de ler a excelente crônica de Inês Pedrosa.

abraço

paulinho disse...

cicero, meu lindo,

parabéns! tudo o que você vem conquistando, ao meu ver, é mais que merecido!

você é um homem lindo, um intelectual maravilhoso, brilhante, pra mim, dos mais importantes que o brasil possui nos dias atuais.

aliás, quero deixar registrada a minha grande alegria ao ler a entrevista que você concedeu ao adriano nunes. as perguntas do adriano, inteligentes e pertinentes, e suas respostas, não menos inteligentes e elucidativas, me trouxeram, durante a leitura, um sorriso bom no rosto (rs).

parabéns, meninos (adriano e cicero)!

sucesso, poeta, sempre e mais!
beijo grande!

Arthur Nogueira disse...

Querido Cicero,

belas palavras a da Inês, bem como as do Paulinho. Concordo inteiramente com ele: você é um homem lindo, um intelectual maravilhoso, brilhante, pra mim, dos mais importantes que o brasil possui nos dias atuais.

E acrescento: que bom tê-lo por perto, aqui.

Um beijo grande.

Antonio Cicero disse...

Paulinho e Arthur,

não sei nem como agradecer ou o que dizer. O jeito é dizer simplemente: muito obrigado!

Beijos

Pax disse...

Chego um pouco atrasado para meus parabéns, mas antes tarde do que nunca. E concordo com a concordância do Arthur com as palavras do Paulinho.

E uma pergunta que não quer calar: A Lúcia, a querida mulher do Veríssimo, estava junto?

Um dia me foi dito: levo ela porque ela gosta de falar e aí eu terceirizo essa parte. A família inteira é um doce.

Abraços

ps.: te devo uma resposta, não esqueci. A correria tá grande, mas tá boa.

Antonio Cicero disse...

Pax,

obrigado.
Sim, a Lúcia estava junto. Eu a adorei. O casal é, realmente, o máximo.

Abraço

Chico disse...

Parabens Cicero, mas me parece que voce foi ha dois anos atras tambem, pois me lembro de uma entrevista tua na RTP com o escrito Quiroga.

Enfim, sempre se ouve falar bem do Correntes e do intercambio com os escritores e poetas africanos.

Abracos.