13.3.09

António Gamoneda: "Aún" / "Ainda"

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Ainda

Amei. É incompreensível como o tremor das árvores.
Agora estou extraviado na luz porém sei que amei.
Eu vivia num ser e seu sangue deslizava pelas minhas veias e
a música me envolvia e eu mesmo era música.
Agora,
quem está cego nos meus olhos?
Umas mãos passavam sobre meu rosto e envelheciam docemente. Que
foi existir entre cordas e espíritos?
Quem fui nos braços da minha mãe, quem fui no meu próprio coração?
É estranho:
somente aprendi a desconhecer e esquecer. É estranho:
agora, o amor
habita no esquecimento.



Aún

Amé. Es incomprensible como el temblor de los árboles.
Ahora estoy extraviado en la luz pero yo sé que amé.
Yo vivía en un ser y su sangre se deslizaba por mis venas y
la música me envolvía y yo mismo era música.
Ahora,
¿quién es ciego en mis ojos?
Unas manos pasaban sobre mi rostro y envejecían dulcemente. ¿Qué
fue existir entre cuerdas y espíritus?
¿Quién fui en los brazos de mi madre, quién fui en mi propio corazón?
Es extraño:
solamente he aprendido a desconocer y olvidar. Es extraño:
ahora, el amor
habita en el olvido.


Poema de Antonio Gamoneda incluido en Extravío en la luz (con grabados de Juan Carlos Mestre) e que aparecerá no seu próximo libro Canción errónea. De: El País. Madrid, 7/3/2009.

9 comentários:

PHCS disse...

Me comovi entre a beleza e delicadeza destes sentimentos e imagens. Amei!

Arthur Nogueira disse...

Belo poema, Cicero. Me lembrou uma canção que adoro, e que nunca mais ouvi, do Chico Buarque. "Pra se viver do amor / Há que esquecer o amor / Há que se amar / Sem amar / Sem prazer / E com despertador / Como um funcionário [...]".

Fique bem, poeta.

Um beijo grande.

Antonio Bento disse...

e o amor não pode ser o esquecimento da diferença? eterna potência do indeterminado, enfim, viver...

ADRIANO NUNES disse...

Amado Cicero,

Que delicadeza! Que belíssimo poema!
Parabéns pela ótima escolha!



Abraço forte!
Adriano Nunes.

Oleg disse...

Leio este poema e sinto meus olhos se encherem daquelas "lágrimas rebeldes que não querem cair" (Baudelaire): uma das obras-primas que raramente se escrevem e nunca se esquecem. Muito obrigado, amigo Cícero, pela excelente escolha!
Oleg Almeida.

Domingos da Mota disse...

Caro poetósofo Antonio Cícero,

Belíssimo poema de António Gamoneda
sobre o decantar do amor.
Deixo-lhe, também, sobre as variações do amor, um curto poema:

FUGATO


O amor
de avesso:

repentino?,
esquálido?

À esquina
do vazio -

assim,
tão árido.

Domingos da Mota

Janaina Amado disse...

"Es extraño:
ahora, el amor
habita en el olvido."

Que bonito, comovente!

ADRIANO NUNES disse...

Amado Cicero,

Um simples soneto, mais um para você. Beijo imenso nessa alma ímpar e cheia de luz!


"DAS HORAS IMPOSSÍVEIS, O SONETO" (PARA MEU AMIGO ANTONIO CICERO)


Eu vivo dividido, sem escolha,
Entre versos e vidas, em pedaços.
Sem ver o que de mim agora faço,
Quero apenas que tudo me recolha,


Que remova de mim meu coração,
Que me cure do vício das palavras,
Das precisas metáforas, do nada,
Do náufrago sentido da razão.


Migalhas por migalhas, espalhado,
Sou levado por ventos dos estímulos,
Dissolvido em poemas recitados,


Perdido no que penso, feito túmulo
De vozes devastadas, de retalhos
Das almas que venero, que acumulo.


Abraço forte!
Adriano Nunes.

Antonio Cicero disse...

Adriano,
Muito bonito.
Abraço