10.8.08

Notas sobre Vinícius de Moraes

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 9 de agosto de 2008:

Notas sobre Vinicius de Moraes


QUANDO COMECEI a apreciar a poesia de Vinicius de Moraes, ele já era famoso como letrista. Lembro-me de que alguns amigos dos meus pais comentavam que ele estava desperdiçando na música popular o seu extraordinário talento poético. Orgulho-me de lembrar que meus pais não concordavam com isso. Eu menos ainda.

O fato é que Vinicius foi uma grande novidade na música popular brasileira. Naturalmente, já tínhamos tido grandes letristas antes dele. Basta lembrar, entre tantos, Noel Rosa. Mas era fascinante que alguém já consagrado como poeta, responsável por alguns dos poemas líricos mais perfeitos da época, passasse a escrever também grandes letras de canções. E mais fascinante ainda era o fato de que essas letras, longe de serem, como se poderia esperar, mais literárias, mais impostadas, mais artificiais do que as dos letristas tradicionais, eram, ao contrário, menos literárias, impostadas, artificiais do que as da maior parte destes. Não fosse assim, e elas não poderiam ter feito parte da revolução que foi a invenção da bossa nova.

Antonio Candido diz que a poesia de Vinicius "combina de maneira admirável o requinte da fatura com a expressão íntegra das emoções. A espontaneidade foi a sua mais bela construção". Pois bem, isso se aplica não só aos poemas, mas às letras de Vinicius. E o mesmo poderia ser dito tanto da música de Tom Jobim quanto do canto e do violão de João Gilberto, assim como do todo, que é a canção cantada. Depurada de todo constrangimento que lhe fosse imposto por regras arbitrárias, uma canção de Tom e Vinicius gravada por João Gilberto é por nós apreendida como uma obra prima inteiramente espontânea, límpida, natural.

Hoje a bossa nova é quase universalmente reconhecida como uma das manifestações mais altas da cultura brasileira. Um disco como "Chega de Saudade" é pelo menos tão importante quanto qualquer outra obra de arte da mesma época.

Como é possível que se tenha pensado que, ao fazer letras de canções, Vinicius desperdiçasse seu talento? Talvez porque os gêneros artísticos eruditos fossem associados a linhagens nobres, e os gêneros artísticos populares, à ausência de linhagem. Assim como se supunha que um nobre valesse mais que um plebeu, independentemente do que fizesse, assim também se supunha que, independentemente do que ela "fizesse", uma obra que pertencesse a um gênero erudito valia mais do que uma obra que pertencesse a um gênero popular. Ou seja, ignorava-se – e ainda hoje muitos ignoram – a "Revolução Francesa" realizada pelas vanguardas, que já havia mostrado que uma obra de arte não é em primeiro lugar um membro de uma estirpe, mas um indivíduo, que vale pelos seus próprios méritos estéticos.

É devido a essa ignorância que, embora Vinicius até hoje seja muito popular tanto como letrista quanto como poeta, os literatos, intelectuais e acadêmicos medianos, que precisam classificar para "entender", passaram a ter dificuldades com ele, desde que se tornou letrista.

E a esse mesmo público Vinicius oferece um outro tipo de dificuldade, oposto, porém complementar, ao primeiro. É que a própria poesia escrita dele não se enquadra facilmente na grande linha do modernismo brasileiro. Ora Vinicius usa versos livres, ora versos métricos, e freqüentemente opta por formas fixas, entre as quais o soneto, construindo poemas espontâneos, límpidos, naturais e, no entanto, surpreendentes. Pois bem, o soneto, tendo sido a forma fixa mais praticada nas tradições ocidentais modernas, foi freqüentemente tomado como o símbolo do conservadorismo ou reacionarismo formal.

Isso porém representa mais um exemplo daquela postura que, recusando-se a considerar uma obra de arte como um indivíduo, prefere apreendê-la como membro de uma estirpe (neste caso, a dos sonetos), isto é, prefere prejulgá-la. Não pode haver atitude mais preconceituosa e reacionária em relação à arte.

Num poema, tudo é conteúdo: e tudo é forma. O que chamamos de "forma fixa" é uma forma que se repete. Mas cada palavra também é uma forma fixa, sendo uma forma que se repete. Entre formas que se repetem e formas que não se repetem é que se criam todos os poemas, inclusive os que se consideram experimentais.

E, como não há fórmula nem receita para criá-los, todo poema bom é, no fundo, experimental. Assim são os grandes poemas – inclusive os extraordinários sonetos – de Vinicius de Moraes, que merecem ser lidos (ou relidos como se lidos pela primeira vez) por mentes abertas.

20 comentários:

Alcione disse...

Presa aos pensamentos
Passam os momentos
Como já fosse dia
Doce aroma, magia

O som penetra nos ouvidos
Feito a flecha de cupido
O gato, fixa bem longe
Equilibrado, um monge

Passam vinhos, adivinhos
Só não passa esse ardor
Talvez um indício
Como diria Vinícius
Da chegada de um grande amor.

mdsol disse...

O preconceito é uma limitação enorme à compreensão e fruição de muitas coisas boas! E, por vezes, somos tentados a pensar que, em ambientes supostamente povoados por mentes abertas como os ambientes artísticos, o preconceito estaria arredado. Mas não. Creio que o preconceito snob e de quem se julga diferente do mundo é ainda pior e mais contundente do que outros preconceitos tidos como "politicamente incorrectos". Parece-me (eu que entendo pouco) que o preconceito nas artes (lato senso) até goza de algum prestígio pelo menos em certos meios mais "corporativos".
Estarei muito errada?
É um prazer lê-lo! Foi uma óptoma descoberta para mim!
:)

paulinho disse...

ARREBENTOU, poeta! maravilha de texto!

e salve, vinícius, mestre de quem é bamba na vida!

beijo enorme!

e saravá!

GLT disse...

Faço parte de um grupo que teve por duas vezes o prazer de falar com Vinícius de Morais e de outro, imenso e crescente, de admiradores do que ele produziu, junto com você, Antonio Cícero.
A exemplo de Alcione, leitora deste Blog, e a propósito de um grande amor vivido até a vontade de morrer ao perder:


Versos de Vinícius,
lembranças de você:
“Que não seja imortal,
posto que é chama,”
E você perdida repetia:
“mas que seja infinito...”
E a gente se abraçava,
e se cheirava,
e se dava...
Dava gosto de ver, Dida.

Lucas Nicolato disse...

Caro Antonio,

Seguindo o raciocinio da mdsol, acho que vários dos poetas e críticos menos talentosos precisam classificar para poder desprezar. Quando não se tem mérito próprio, tenta-se encontrar uma explicação a priori para denegrir os adversários de uma vez por todas.
Os que se sabem menores mas não gostam dessa verdade, inventam castas para aprisionar a grandeza alheia. Não é diferente do que ocorre com outros preconceitos, como o racismo.

Felizmente há também muitos, talentosos ou não, que preferem admirar aqueles que os superam.

Parabéns pelo belo artigo. Não consigo imaginar o Brasil sem os poemas e canções do Vinicius.

um abraço,
lucas

Lucas Nicolato disse...

Antonio,

Esqueci de dizer que vi sua entrevista ontem no Futura. Foi uma bela conversa. Parabéns. Fiquei pensando sobre o que você disse de um poema relido após anos às vezes ganhar uma dimensão totalmente nova.

um abraço,
lucas

Antonio Cicero disse...

Obrigado, Lucas.
Você deve ter visto a reprise de uma entrevista que já dei há alguns anos. Não me lembro bem do que disse. Ainda bem que você gostou.
Abraço

Anônimo disse...

Prezado A. Cicero,
Quando li os poemas infantis de Vinícius para meu filho, na ocasião com 3 anos de idade, percebi que o menino vivenciara sua epifania primeira. Desde então, e ainda mais agora com 5 anos, Vinícius tornou-se para ele uma entidade mítica, autor inconteste de todos os poemas sublimes do universo.
Quando ele gosta do verso, não há conserto, destitui o autor à condição de mero plagiário do seu Vate único.
A última vítima foi o Paulo Leminski.
Abraços mineiros.
Mariano

Antonio Cicero disse...

Agradeço as palavras gentis de Maria do Sol, Paulinho e Lucas, que me deixaram feliz.

Beijos

Alcione disse...

Eu adoro mesmo, glt, ser leitora desse blog, dos textos postados pelo Cícero aos comentários, acho td interessante e nem precisaria dizer o qto fico feliz quando o poeta deixa passar os meus versinhos, feliz e muito honrada porque sou "fã de carteirinha" da sua obra, assim como do Wally, e do Vinícius, Bandeira, ...a lista é grande, graças a deus, beijo prá vc, prá galera, em especial pro dono do Blog, um luxo!

Antonio Cicero disse...

Muito obrigado, Alcione.
Beijo

André disse...

Grande Cícero,que imenso prazer foi descobrir este blog tão rico de cultura e informação,assim como vc, tb sou poeta(um tanto bissexto!)e estou fascinado por Filosofia,que agora graças a ti e a Marina(amo ela!!!)é um assunto que me desperta muito interesse. Foi ouvindo os discos dela que me tornei seu fã, gosto da maneira de como escreves sobre as nuances e os paradoxos do amor e nesse aspecto Vinícius foi mestre supremo,poeta imortal da paixão, velho saravá da canção brasileira. Um abração e continue nos brindando com teus textos saborosos.

ricardo disse...

Caro poeta,sou um admirador recente. Seu artigo Barbárie e Civilização está guardado na minha pasta, e é um de meus textos preferidos
Sobre Vinicius de Moraes, tema de um de seus últimos textos, gostaria de saber sua opinião sobre algumas notas:
1 - João Cabral disse a Vinicius, certa vez, que sua disciplina aliada ao talento de Moraes fariam deste o maior poeta brasileiro. Ao que Vinicius respondeu: E ficar com essa dor de cabeça?
2 - Ainda João cabral: o pernambucano perguntou a Vinicius o porquê do emprego constante do termo "coração" em seus poemas. Sugeriu variações: pâncreas, fígado, rim.
3 - Tirado do Dicionário da Corte de Paulo Francis: "Pensei que tivesse partido de alguns admiráveis poemas, alguns até nietzschianos, para 'A garota de Ipanema' por gosto, mas não, foi para sair da depressão e ganhar a vida."
Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo?
Um grande abraço!

Antonio Cicero disse...

Caro Ricardo,

Obrigado pelos seu comentário. Eis o que penso das suas três notas:

1. Evidentemente, o que está em jogo nesta resposta e na seguinte não é João Cabral enquanto poeta -- que é grandioso --, mas enquanto crítico. Na sua primeira nota, uma boutade de Cabral é respondida por outra, de Vinícius. E será que Vinícius não tem razão? João pensa que o trabalho, a construção, a razão, a consciência são o principal, e desconfia do inspiração, da intuição, do irracional, do inconsciente. Não será exatamente porque recusa – reprime – a vida imediata que João valoriza o produto da mediação? E não será isso a casa da sua dor de cabeça? E o “talento” do Vinícius não será exatamente a sua abertura para a vida imediata, que João recusa?

2. Os poetas parnasianos achavam que as palavras e os temas não poéticos deviam ser banidos da poesia. João pensa, ao contrário, que, em vez de usar palavras e temas já poéticos, os poetas devem elevar palavras e temas ainda não-poéticos à poesia. Ele está sem dúvida certo, no sentido de que não existem temas ou palavras que sejam em si não-poéticos. Está errado, entretanto, ao querer banir da poesia as palavras e os temas já poéticos. Por acaso Goethe não deveria ter escrito a sua obra-prima porque houve, antes dele, não sei quantos Faustos? Jamais um grande poeta temeu abordar pela enésima vez uma palavra ou um tema poético (Fausto, Ulisses, Orfeu, Narciso, a brevidade da vida, a juventude, a velhice, o Sol, a noite, o amor, a saudade, a beleza etc.). Ele o aborda e é capaz de fazê-lo como se ninguém antes o tivesse feito: como se não fosse um tema poético. A crítica ao “coração” do Vinícius não pode ser feita desse modo genérico. É preciso considerar o uso dessa palavra em cada poema ou letra.

3. A crítica do Paulo Francis não merece nem ser considerada. Se ele gostava de “Garota de Ipanema” enquanto achava que tinha “pedigree” cultural (“até nietzscheano”), e deixou de gostar quando chegou à conclusão de que, na verdade, não tinha tal “pedigree”, então ele não era capaz de julgar coisa alguma por conta própria. Claro: era um homem totalmente subserviente ao gosto do que imaginava ser o establishment cultural europeu, sem se dar conta de que não há atitude mais subdesenvolvida do que essa.

Naturalmente, em tudo isso o que está em jogo não é a sabedoria, mas a poesia.

Abraço

ricardo disse...

Caro poeta, agradeço pela sua humildade em responder às dúvidas de um mero iniciante.
O problema é exatamente este: sou estudante de Letras e, como você sabe, o ensino superior não anda lá essas coisas. Falta-nos o debate, o aprendizado pela troca de idéias.
Seus comentários foram muito úteis,e são mais um motivo para seguir como seu fiel leitor.
Grande abraço

Antonio Cicero disse...

Caro Ricardo,

obrigado eu. Seus comentários foram estimulantes.

Abraço

Alexandre Bonafim disse...

Cicero, palavras tão sábias, tão sensíveis, sobre um poeta tão genial como o Vinícius, só poderiam vir de um outro poeta genial como você. Obrigado por esse belo texto. Abraço.

Antonio Cicero disse...

Obrigado eu, Alexandre.
Abraço.

líria porto disse...

o poetinha é um poetaço!!!

agradeço ter nascido como ele num 19 de outubro - comemoro!

viva a poesia!

(des)ilusões
líria porto

pensava que a lua fosse queijo
e que era o amor doce deleite

ora a lua não passa de satélite
e ao final triste amor
farinha seca

*

besos!

Fernando disse...

Caro A.Cícero: Há muito sou seu leitor na Folha e agora no seu blog. Tomo a liberdade de enviar-lhe um poeminha que escrevi logo depois de asssistir ao filme Vinícius:
Vinícius

Vinícius, vícios
Quem não os tem?
Melhor que tê-los
É ter alguém.
Alguém pra amar
No ar, no mar
No céu da vida.
Em cada olhar
Reinventar
A voz traída.
Vinícius, vícios
Dor e suplícios
Há que sofrer.
Mas há paixão
Nessa canção
Que é você.
Tua matriz
Outro país
Há de inspirar.
Em Lu, Laís
Outros brasis
Virão cantar.

Recife, 26 de maio de 2006.