15.6.08

Sobre "Identidade e violência"

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 14 de junho de 2008:


Sobre "Identidade e violência"

NO LIVRO "Identidade e violência" (SEN, Amartya. Identity and Violence. London: W.W. Norton & Company, 2006) , o economista indiano Amartya Sen, detentor do Prêmio Nobel, chama atenção para os perigos da chamada "política da identidade".

Esta consiste em reduzir, para fins políticos, os seres humanos a membros de exatamente um grupo: seja de um sexo, de uma etnia, de uma nacionalidade, de uma classe social, de uma cultura, de uma religião etc.

Quando criança, Sen testemunhou a violência dos conflitos entre hindus e muçulmanos, nos anos 40, em que "os seres humanos complexos de janeiro subitamente se transformaram nos impiedosos hindus e nos ferozes muçulmanos de julho", o que resultou na morte de centenas de milhares de pessoas.

Os "artífices do ódio" que lideraram a carnificina haviam induzido as pessoas a pensarem nos membros da sua própria comunidade como apenas hindus e nos membros da outra comunidade como apenas muçulmanos, e vice-versa.

Contra a política da unidimensionalidade identitária, Sen defende o poder das identidades competitivas. "Posso ser ao mesmo tempo", diz, no que é sem dúvida uma auto-descrição, "asiático, cidadão indiano, bengali com ancestrais de Bangladesh, residente americano ou britânico, economista, filósofo amador, escritor, sanscritista, alguém que crê fortemente no secularismo e na democracia, homem, feminista, heterossexual, defensor dos direitos gays e lésbicos, praticante de um estilo de vida não-religioso, de background hindu, não-brâmane, descrente em vida depois da vida (e, caso interrogado, descrente em vida antes da vida também)". E complementa: "Isso é apenas uma pequena amostra das diversas categorias às quais posso simultaneamente pertencer".

De fato, muitas das teorias de cultura e civilização em voga no mundo de hoje convidam as pessoas a se verem em termos de uma única identidade. Sen se refere, em particular, por um lado, ao comunitarismo, que privilegia a identidade comunitária acima de todas as outras, e, por outro lado, às teses de Samuel Huntington sobre o pretenso conflito das civilizações.

Quanto ao comunitarismo, Sen pensa que, embora tenha surgido como uma tentativa de considerar os seres humanos de modo mais concreto e social, tende hoje, de modo insustentável, a considerar os seres humanos exclusivamente como membros de uma comunidade. Ora, isso significa ignorar que, em grande medida, somos capazes de escolher nossas crenças, associações e atitudes, e que devemos aceitar responsabilidade pelo que, ainda que implicitamente, escolhemos.


Já Huntington, partindo do princípio de que "de todos os elementos que definem as civilizações, o mais importante geralmente é a religião", acaba caindo numa unidimensionalidade identitária que, como todas, só se pode afirmar às custas da violentação dos fatos.

Assim, por exemplo, Sen observa que Huntington, ao descrever a Índia como uma "civilização hindu", ignora a importância do fato de que, excetuando-se a Indonésia e, marginalmente, o Paquistão, a Índia tem mais muçulmanos do que qualquer outro país do mundo.

Assim também, tentando confinar o pensamento dos membros de cada civilização nos marcos de uma identidade específica, finita, reificada, Huntington chega ao ponto de pretender que "as idéias de liberdade individual, democracia política, império da lei, direitos humanos e liberdade cultural são idéias européias, não idéias asiáticas, nem africanas, nem do Oriente Médio". Por trás de tais pretensões se encontra, sem dúvida, o pressuposto implícito de que a razão crítica pertence à "civilização ocidental".

Contra tal pressuposto, Sen cita o fato de que, já em 1590, o imperador indiano Akbar, muçulmano, afirmava que a fé não pode ter prioridade sobre a razão, argumentando que é por meio da razão que cada um deve justificar -e, se necessário, rejeitar- a fé que herdou.
Ademais, tendo sido atacado pelos tradicionalistas, favoráveis à fé instintiva, Akbar afirmou que a necessidade de cultivar a razão e rejeitar o tradicionalismo é tão patente que não necessita de argumentação, pois "se o tradicionalismo fosse certo, os profetas teriam apenas seguido os mais velhos (e não teriam apresentado novas mensagens)".

É a identidade racional de Akbar que aqui prevalece sobre a sua identidade muçulmana e tradicional: o que prova que Sen tem razão ao afirmar que somos consideravelmente livres para decidir o grau de prioridade que a cada momento atribuímos a cada uma das identidades que simultaneamente possuímos.

Parece-me auspicioso que justamente um oriental tenha escrito uma obra capaz de funcionar como um poderoso antídoto contra as tendências irracionalistas do pensamento ocidental contemporâneo.

10 comentários:

Alcione disse...

A brisa leve balança os fios do cabelo
Enquanto a estrela solitária perfila no horizonte
Andaimes se sucedem numa escalada sem fim
Enquanto corre nas entranhas do mundo o lixo vagabundo
De limpeza e higiene orientais precisa o mundo
Harmonia, chão, água, ar e boemia
E a tecnologia
Menos, menos pede a razão e o pulsar da emoção
Cada vez menos satisfeitos
Arfando, tossindo gases venenosos
Seres voluptuosos, gulosos
Enquanto na noite fria se esquece
O amanhã, que um dia aparece.

Anônimo disse...

Caro A Cicero,
O filósofo neopragmático, Richard Rorty,quando esteve no Brasil, em 1994,deu uma interessante entrevista sobre o assunto, na Folha de São Paulo.Transcrevo um excerto abaixo.
"!Freire Costa - O que é que o sr. pensa da política da identidade? É uma boa ou uma má idéia?

Rorty - Em inglês temos a expressão "grupos de interesse". Os trabalhadores, as mulheres, os médicos, os professores etc. podem formar grupos de interesse. Subitamente, criamos a expressão "política de identidade". Eu penso que isso é uma mistificação. Naturalmente nós temos grupos de interesse. Mas identidade? Minha questão é: qual é minha verdadeira identidade? Homem? Professor? Branco? Eu penso que essa é uma questão que não merece ser posta!

Freire Costa - Não faz sentido querer fixar identidades?

Rorty - Se somos membros de um grupo oprimido, temos uma identidade como membro de um grupo oprimido. Se somos negros, se somos homossexuais e, por isso, quiserem bater-nos, então devemos protestar, devemos dizer: ''Não! Não se pode bater em negros ou homossexuais''. Mas saber o que é exatamente um homossexual ou, então, o que é exatamente a identidade negra, é uma questão para filósofos e não uma questão política. Eu sou membro da Associação Americana de Professores Universitários. Nós somos um grupo de interesse, quer dizer, temos leis que existem para nós. Mas não existe algo como "uma identidade profissional de professor".

Freire Costa - Quando se pergunta "o que é uma identidade?", o sr. acha que existe a tendência a buscar-se um referente imutável da "identidade"?

Rorty - Sim. Creio que na questão da política de identidade há sempre uma divisão entre essencialistas e antiessencialistas. Os essencialistas querem dar definições; os antiessencialistas dizem: ''Não! O problema é muito complexo para que se possa definir, trata-se de um jogo infinito de diferenças etc.''. Eu acho tudo isso tedioso. Existe uma batalha estéril entre aristotélicos e derrideanos (de Jacques Derrida). Eu não sei o que fazer com isso. Para divertir-nos, podemos escrever coisas deste tipo: o que é um professor, o que é uma mulher etc. Mas, falando politicamente, nada disso é sério."
Abço.
Mariano.

Lucas Nicolato disse...

Antônio,

Excelente artigo, parabéns. É uma questão que precisamuito ser discutida hoje, quando parece que está vencendo no Brasil a idéia de que só existimos, só somos sujeitos de direito, através de uma comunidade de pretensos iguais. Para mim está claro que essa idéia resulta, no fim, numa realidade inaceitável em que o ser humano só tem direitos na medida em que se filia a uma ideologia, a uma causa, em suma, na medida em que se submete a uma liderança.

um abraço,
lucas

Denny Yang disse...

Caro Antonio,

vou mandar meu comentario-reflexivo, ok<

A ideia do Nobel faz sentido..., e concordaria com ela integralmente em relacao a questao do individuo... Nao estariamos, nao obstante, numa fase em que nos rotularmos ou taxarmos para "acoes afirmativas", no ocidente, e´tambem importante - excluisvamente, digo, na questao de luta pelos direitos de minorias>
Mesmo que seja uma besteira, supomos, o que acabo de argumentar... mesmo assim, nao e´uma realidade concreta, o "taxamento" de minorias>

um abraco,
Denny Yang

Mike disse...

Querido Cícero
sou um grande fã seu
seus livros, sua música
tem aroma de desejo
amor e loucura

Fiz uma breve e humilde homenagem a você no meu blog
www.alemdocerrado.blogspot.com

Grande abraço, Mike

Antonio Cicero disse...

Caro Mariano,

Substituo o comentário que fiz antes por este, pois verifiquei que estava errado: o Rorty realmente veio ao Brasil pela primeira vez trazido por mim e pelo Waly Salomão, em 1994, para participar de uma mesa com José Arthur Giannotti e Luiz Eduardo Soares, discutindo "O relativismo enquanto visão do mundo", num ciclo de conferências que publicamos em livro. Depois, em 1996, ele foi trazido ao Brasil novamente pelo Luiz Eduardo e pelo Cândido Mendes de Almeida, para participar de uma conferência sobre "Pluralismo cultural". Foi nessa segunda ocasião que ele deu a entrevista que você cita, ao Jurandir Freire Costa.

Abraço.

Antonio Cicero disse...

Caro Denny,

Nesse ponto, penso como o Rorty, citado acima pelo Mariano. Penso que é importante falar de grupos de interesse e defender os direitos desses grupos. Mas considero uma mistificação essêncialista falar de “identidade”.

Além dos excelentes trechos citados pelo Mariano, há um outro, no final dessa mesma entrevista,
em que ele diz:

“Houve o que chamam de feminismo de primeira onda, em 1920, a questão do sufrágio, e ninguém achava que era uma questão de identidade, era uma questão de direitos. Depois o feminismo de segunda onda se dividiu entre pessoas que diziam ‘direitos’ e as pessoas que diziam ‘identidade’, porque haviam lido francês. Os americanos, na minha opinião, falam demais sobre direitos. Mas, entre direitos e identidade, é melhor falar sobre direitos. É melhor dizer simplesmente ‘é injusto’ do que dizer ‘minha identidade não está sendo reconhecida’. Acho que a identidade virou objeto de fetiche. Os intelectuais nos EUA passam 90% de seu tempo falando sobre identidade, isso não tem ligação com uma disciplina política, é uma espécie de preocupação estética.” Concordo com tudo isso.

Abraço.

Lucas Nicolato disse...

Antonio,

Concordo plenamente com esses trechos da entrevista. E acrescentaria que a luta por "identidade", além de pior do que a luta pelos direitos, sabota justamente os direitos dos que julga defender, já que cria um nível intermediário entre o indíviduo e o direito. Com a "identidade" é preciso que cada indivíduo primeiro se faça perceber como membro de uma coletividade, seja aceito por uma instancia superior como vítima merecedora de reparações, para que depois obtenha os direitos que já lhe deveriam ser garantidos desde sempre.

grande abraço,
lucas

cristina brandão disse...

Moro nos EUA há um ano, e tenho verdadeiro asco de ser identificada como "latina"- especialmente latin(a); ainda mais como "hispânica", já que o nivel de ignorância é esse mesmo - não se sabe do uso do Português na América; isso quando não se houve "chica" nas ruas; ou pior ainda, quando alguém tenta claramente me defender, ou ressalvar um direito cotidiano meu, por eu não ser "branca". Um show de horrores.
Mas o que eu não consigo realmente compreender é como os negros desse país suportam o nível de "misericórdia" que é especialmente reservado para eles. Só para ilustrar, o debate na CNN- USA que fazia o seguinte questionamento para o público:"você acha que os imigrantes ilegais tomam os possíveis empregos dos negros?"e os "brancos"discutiam a questão de maneira fervorosa - sem comentários.

paulinho disse...

lindo, cicero!

adorei o artigo!

essa é uma grande discussão na historiografia: como a criação das identidades culturais se dá, se calca, por escolhas aleatórias, de características que são eleitas como representativas de um determinado grupo, ou população, ou pessoas de uma mesma região, de um mesmo estado, grupo social, etc. etc.

tomando o brasil como exemplo, essa questão, pra mim, é muito clara, a pretensão de se criar uma identidade carioca, baiana, brasileira, enfim, escolhendo características que são atribuídas a todas as pessoas pertencentes àquela determinada área. imagina, isso é uma grande besteira! dizem por aí: o futebol é o esporte de todo o brasileiro, é a cara do brasil. curioso que eu me veja a cara do brasil, me sinto muitíssimo brasileiro, e não gosto de futebol (rs). lya luft, numa entrevista, se não me engano no "conexão roberto d'ávila", disse que não aceita ser considerada menos brasileira porque não é mulata, ou negra, nem baiana e nem usa batas e guias. e ela está certíssima. que cara tem o brasil? os brasileiros? os cariocas? os paulistanos? os baianos? os soteropolitanos? os gaúchos? que loucura, nem pensemos em cálculos, são múltiplas, milhares de caras (rs)!

(só eu devo ter uns 237 rostinhos... em uso, meu bem! rs)

e, dentro dessa questão, a razão crítica não pode ser vista também como uma "característica" das sociedades européias, que estas elegeram para a formação de suas identidades. aí é embolar o meio de campo todo (rs)! como você mesmo já escreveu, razão crítica não tem nada a ver com culturas, é algo, antes, inerente a nós, seres pensantes, devidamente adjetivados "racionais". e é exatamente porque ela, a razão crítica, é algo antes de qualquer coisa, é algo antes de qualquer característica - é a razão crítica o que nos faz vivos na condição de seres pensantes -, que não podemos nem devemos abrir mão dela. nunca!

concordo com tudo e assino embaixo, antonio cicero correa lima.

uma bitoca gostosa!
e um carinho profundo do seu náufrago náugrafo!