27.6.08

Montesquieu: anotações diversas

Selecionei e traduzi alguns dos pensamentos que Montesquieu não pôs em suas obras. "São idéias que não aprofundei", diz, "e que guardo para sobre elas pensar quando surgir a ocasião".



Quase nunca tenho tristeza, e menos ainda tédio.

O estudo tem sido para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, e jamais tive tristeza de que uma hora de leitura não me tenha livrado.

Acordo de manhã com uma alegria secreta; vejo a luz com uma espécie de arrebatamento. Todo o resto do dia fico contente.

Passo a noite sem acordar e, à noite, quando vou para a cama, uma espécie de entorpecimento me impede de fazer reflexões.

Quando viajei pelos países estrangeiros, liguei-me a eles como ao meu próprio: tomei parte da sorte deles, e gostaria que estivessem num estado florescente.

Nunca me irritei de passar por distraído: isso me permitiu arriscar-me a cometer muitas negligências que me teriam encabulado.

Quanto à maior parte das pessoas, prefiro aprová-las a escutá-las.

Jamais vi correrem lágrimas sem me enternecer.

Perdoo facilmente, pela razão de que não sei odiar. Parece-me que o ódio é doloroso. Quando alguém quis se reconciliar comigo, senti minha vaidade lisonjeada e parei de ver como inimigo um homem que me prestava o serviço de me dar uma boa opinião de mim.

Quando se esperou que eu brilhasse numa conversa, jamais o fiz. Prefiro ter um homem de espírito a me apoiar do que muitos tolos a me aprovar.

Se eu soubesse de uma coisa útil para minha nação que fosse destruidora para outra, não a proporia ao meu príncipe, porque sou homem antes de ser francês, (ou então) porque sou necessariamente homem, e só sou francês por acaso.

Se eu soubesse de alguma coisa que me fosse útil e que fosse prejudicial à minha família, eu a expulsaria do meu espírito. Se soubesse de alguma coisa útil à minha família e que não o fosse à minha pátria, eu tentaria esquecê-la. Se eu soubesse de alguma coisa útil à minha pátria, e que fosse prejudicial à Europa, ou que fosse útil à Europa e prejudicial ao gênero humano, eu a consideraria um crime.

Não esposo opiniões, exceto as dos livros de Euclides.

Eu dizia: “Não faço parte das vinte pessoas que conhecem essas ciências em Paris, nem das cinquenta mil que crêem conhecê-la”.

Alguém me reprochou de ter mudado a seu respeito. Eu lhe disse: “Se é uma mudança para você, é uma revolução para mim”.



De: MONTESQUIEU, Charles-Louis de Secondat. "Mes pensées". In Oeuvres complètes. Vol.1. Org. p. Roger Caillois. Paris: Gallimard, 1949.

4 comentários:

paulinho disse...

"also sprach montesquieu" (rs).

coisa linda!, adorei as anotações.

arrebentando nos textos. como sempre.

beijo, fofura!

betina moraes disse...

pensador,

muitíssimo obrigada!

além de, particularmente, ter sentido forte emoção ao desvendar a beleza do texto que você propôs,
fico sempre muito feliz quando confirmo que não errei na escolha dos meus heróis!

(entre eles os heróis poetas & filósofos!)

as traduções que você publica aqui, tenho reparado, são delicados trabalhos de conhecimento e carregam sua admiração pelo pensamento e pelos autores escolhidos.

muito sensível!

belo texto, fantástica defesa da liberdade da alma!

mais uma vez, obrigada!

Alcione disse...

Cisão
Imprecisão
Vagos Sinais
Mil veredas há
A serem exploradas
Mil saídas e entradas
Ilhas escondidas nas beiradas
Para quem não tem a alma pesada!

Alexandre Bonafim disse...

Cícero, belíssimo texto! Sou grande admirador da sua poesia. Grande abraço do Alexandre Bonafim.