9.6.08

Nietzsche: "Dos poetas"

A idéia de que os poetas mentem se encontra também no seguinte trecho de "Assim falou Zarathustra":



Dos poetas


“Desde que conheço melhor o corpo” – disse Zarathustra a um dos seus discípulos – “o espírito é para mim só figurativamente espírito; e todo o “imperecível” – também não passa de figura”.

“Assim já te ouvi falar uma vez”, respondeu o discípulo; “e então adicionaste: ‘mas os poetas mentem demais’. Mas por que disseste que os poetas mentem demais?”

“Por que?” disse Zarathustra. “Perguntas por que? Não sou daqueles a quem se possa perguntar pelo seu por que.
Será de ontem a minha vivência? Faz muito tempo que vivenciei as razões das minhas opiniões.
Não teria eu que ser um tonel de memória se quisesse ter comigo também as minhas razões?
Já me é demasiado até conservar as minhas opiniões; e mais de um pássaro foge voando.
E vez por outra também encontro um bicho que veio voando para o meu pombal e que me é estranho, e que treme quando nele ponho a mão.
Porém o que te disse uma vez Zarathustra? Que os poetas mentem demais? – Mas também Zarathustra é um poeta.
Ora, crês que nesse ponto ele disse a verdade? Por que o crês?”

O discípulo respondeu: “Confio em Zarathustra”. Mas Zarathustra sacudiu a cabeça e riu.

“A confiança não me faz feliz”, disse ele, “principalmente a confiança em mim.
Mas dado que alguém com toda seriedade diga que os poetas mentem demais: terá razão – mentimos demais.
Também sabemos muito pouco e somos maus aprendizes: já por isso temos que mentir.
E qual de nós, poetas, não adulterou o seu vinho? Mais de uma mistura venenosa ocorreu nos nossos celeiros, mais de uma coisa indescritível foi lá preparada.
E como sabemos pouco, gostamos muito dos pobres de espírito, principalmente quando são jovens mulherzinhas.
E cobiçamos até mesmo as coisas que as velhas contam à noite. A isso chamamos o eterno feminino em nós mesmos.
E como se houvesse um acesso secreto ao saber, oculto àqueles que aprendem algo: assim cremos nós no povo e em sua ‘sabedoria’.
Mas todos os poetas crêem no seguinte: que quem deitado na grama ou numa encosta solitária aguce os ouvidos experimentará algo das coisas que se encontram entre o céu e a terra.
E se movimentos delicados os alcançarem, sempre pensam os poetas que a natureza mesma se apaixonou por eles:
E ela se desliza aos seus ouvidos para contar segredos e fazer lisonjas apaixonadas: das quais eles se vangloriam e se envaidecem acima de todos os mortais!
Ah, há tanta coisa entre o céu e a terra com as quais só os poetas se permitem sonhar!
E principalmente acima do céu: pois todos os deuses são figuras de poetas, manhas de poetas!
Em verdade, sempre somos atraídos para cima – isto é, para o reino das nuvens: nestas colocamos nossos fantoches coloridos e os chamamos deuses e super-homens;
pois eles são justo bastante leves para esses assentos! – todos esses deuses e super-homens.
Ah, como estou cansado de todo o inalcançável que se pretende acontecimento! Ah, como estou cansado dos poetas!”

Quando Zarathustra assim falou, zangou-se com ele seu discípulo, mas se calou. E também Zarathustra se calou; e seu olhos se haviam voltado para dentro, como se olhassem para muito longe. Finalmente ele suspirou e tomou fôlego.

“Sou de hoje e de outrora, disse então; mas há algo em mim que é de amanhã e de depois de amanhã e do porvir.
Cansei-me dos poetas, dos velhos e dos novos: Superficiais ele todos são para mim, e mares rasos.
Não pensaram bastante das profundezas: com isso seu sentimento não mergulhou até o fundo.
Alguma volúpia e algum tédio: ainda é isso o melhor das suas reflexões.
Um sopro e um deslizar de fantasmas me parecem todos os seus harpejos; que sabem eles até hoje do ardor dos sons!
Para mim tampouco são bastante puros: turvam todas as suas águas, para que pareçam profundas.
E gostam de se apresentar como conciliadores; mas para mim permanecem mediadores e misturadores e meio isto e meio aquilo, e impuros!
Ah, lancei minha rede no seu mar e quis pescar bons peixes; mas sempre recolhi a cabeça de um velho deus.
Assim ao faminto o mar deu uma pedra. E eles mesmos poderiam vir do mar.
Certo, acham-se pérolas neles: tanto mais, por isso, parecem eles mesmos com duros crustáceos. E, em vez de alma, muitas vezes neles achei lodo salgado.
Aprenderam do mar também sua vaidade: não é o mar o pavão dos pavões?
Mesmo ante o mais feio dos búfalos ele ostenta sua cauda: jamais se cansa de seu leque de prata e seda.
Carrancudo contempla-o búfalo, pois sua alma é mais afim da areia, mais ainda do cerrado e mais de tudo do pântano.
Que são para ele a beleza e o mar e os adornos do pavão! Esta parábola dedico aos poetas.
Em verdade seu espírito mesmo é o pavão dos pavões e um mar de vaidade!
Quer espectadores o espírito do poeta: ainda que sejam búfalos! –
Mas desse espírito cansei-me: e vejo o dia em que ele mesmo se cansará de si.
Já vi os poetas transformados, a dirigir seu olhar contra si mesmos.
Penitentes do espírito vi chegarem: e surgiam dos poetas.”

Assim falou Zarathustra.



De: NIETZSCHE, Friedrich. "Also sprach Zarathustra. Ein Buch für alle und keinen". In: Werke. Vol.2. Org.: K. Schlechta. München: Carl Hansen, 1954, p.381-384.

10 comentários:

wilson luques costa disse...

Prezado Antonio Cicero,

Eis um trecho de meu Colóqui em Sils-Maria

Não...

Não falo dessa vulgaridade...

E ademais não venham falar mal dos poetas...

Os poetas são figuras-símbolo de uma nação...

Mas se diz a boca pequena que os poetas vistos de pertos
Seriam uns verdadeiros homúnculos...


É verdade,
Mestre Cioran?

Na verdade
Alguns poetas
São extremamente narcísicos
E por terem algumas disfunções regressivas,
Tornam-se pessoas lúdicas e até mesmo nefastas....

Então a imagem que fazemos dos poetas não seria verdadeira?

Em absoluto, meu caro Schelling....

Poucos são os poetas verdadeiros....

Como, mestre Cioran?

Na realidade, meu caro e poeta Schelling, a poesia é a mais nova Forma
De se fazer política...

Continuo não entendendo, mestre Cioran?

Na verdade, o poeta é um phaulôs.....

Continuo não entendendo, mestre Cioran....

Os poetas em sua grande maioria
São o que há de mais nefasto
Sobre a terra...

Por que o senhor é tão atrabiliáro,
Mestre Cioran?

Não se trata de atrabiliarismo...

Na verdade
Meu caro poeta
Sou mais melífluo
Que um par de favos
Das melhores melitas...


Continue, mestre Cioran!


Eu gostaria de parar,
Porque não gostaria
De estar falando
Do pior espécime da sociedade...

Nossa
Mestre Cioran !

Sim
Os poetas só escrevem para poetas....

Continuo não entendendo...

Nada é natural no poeta...

Como?

O poeta aprende algumas palavras
Faz algumas leituras
E depois começa inventar...

Desculpe-me
Mestre Cioran
Mas não posso concordar
Com tal heresia!


Se quiser
Caro poeta
Posso encerrar por aqui....

Não
Mestre Cioran...

Continue...

Continue...

Por favor....

Os poetas são uma corja mancomunada com o poder
E com a imprensa....

De novo
Mestre Cioran?

Normalmente trabalham na imprensa ou têm amigos na imprensa
E têm por isso acesso às editoras e jornais...


Mas eles defendem o povo...

Você é idiota
Schelling?

Como não defendem?

Na verdade eles detestam o povo, a periferia....

Ah, mestre Cioran!

Você acha que eles adoram a plebe?

Seja mais complacente
Mestre.....

Eles são os formadores de orelhas....

É orelhada para todo que é canto...

Mas procure um verdadeiro poeta...e não irá encontrar....

Desculpe, Mestre Cioran...

Posso continuar?

Claro que sim!

A maioria deles são puxa-sacos sem talento...
Se aproximam de toda forma de poder...
São oriundos de universidades...ou compartilham da regra Abjeta...em seus escritos há mais currículo insosso do que a Própria palavra...são apaniguados do poder....são os vampiros do Sangue do governo....usurpam as suas contas...através de bolsas Etc...viajam para o exterior para mostrar uma certa finesse...
São a coisa mais reles que se produziu.....os grandes poetas já Estão mortos...ou estão mortos na sua alma...os grandes poetas Vivem escondidos...seu lugar é a indiferença...seu louro a Inglória...um poeta vivo é um escárnio da natureza....

#Falta revisão final

grato!
wilson luques costa

Anônimo disse...

Caro A Cicero,
Adorei o "manhas de poetas".
Certamente o Frederico aprovaria essa transcriação.
Seu blog é antena, radar e farol.
Jamais nos prive dessa sensibilidade tamanha.
Abraço!
Homo antiquus (Mariano)

Antonio Cicero disse...

Obrigado, Mariano. E jamais nos prive dos seus comentários.
Abraço,
Antonio Cicero

Lucas Nicolato disse...

Antonio,

Belo texto do poeta Nietzsche. Muito interessante postar textos sobre as mentiras da poesia. É um daqueles enredos básicos do poema "a poesia é sempre uma mentira" ou "a poesia é sempre uma verdade".

um abraço,
lucas

betina moraes disse...

observador,

eu particularmente não me permiti formar conceitos a repeito dos mecanismos que levam o poeta ao poema.

mas não acho que seja mentira o motivo do verso,

veja:

tudo é o "motivo do verso", a razão que deu incentivo a primeira frase...

depois pode ser tudo devaneio,

devaneio,
mentira eu acho que não...


modificar a realidade, adornar com efeites, disfarçar emoções, suprimir, pôr máscara,

posso chamar tais coisas de mentira?

sei lá, talvez eu tenha que refazer o conceito todo...


de qualquer forma eu adorei as postagens e acho intrigante o tema "mentira".


aproveito para fazer uma perguta de ocasião que sempre quis fazer ao filósofo:

todos os caminhos levam até Nietzsche?

grande abraço!

Alcione disse...

Acho que o poeta escreve para guardar aquilo que está no poema. Se é verdade ou mentira, talvez dependa só do ponto de vista. Fingir, inventar, criar, não é a vida do poeta?

João Renato disse...

Prezado Antonio Cícero,

"... turvam todas suas águas para que pareçam profundas ..." foi demais.
Um abraço,
JR.

Nina Araujo disse...

Meu Baião


Há coisa que neste mundo
Deixa dois queixo bestado
É poeta que é iletrado
Dando voz à poesia
Feito Shakesperiano!
Sol a pino todo ano
Na touceira,na enxada
No gibão,na valentia
O vaqueiro é cabra macho
Vixe!Inté vê cotovia...
Há coisa que neste mundo
É xaxado e violino
É rabeca com o divino
Zabumba com Virgulino
Que um dia teve fim
Na legenda do cangaço
Não disfarço este cansaço...
Meu torrão é duro ainda
Mas tem feira,gemedeira
Tem pamonha,cartucheira
Em noite de São João
E se a água é fonte rala
Vem de novo a poesia
Na fogueira,no lampião
Seu dotô meu bucho é rouco
O meu bolso é sem dinheiro
Mas eu vivo os meus janeiro
De braço com meu baião
Seu dotô o peito range
Esse calo sangra em mina
Mas cangaia não me domina
Pois sou cria do meu sertão.


Nina Araújo


Poeta querido,ele não conhecia o nosso sangue nordestino não...beijos cariocas.

Antonio Cicero disse...

Betina,

Não, não acho que todos os caminhos levam a Nietzsche. Há caminhos muito bons que passam bem longe dele; mas alguns caminhos passam por ele.

Zarathustra é Nietzsche idealizado por si próprio. Por isso, esse texto é muito revelador. Nietzsche é um pensador, mas antes um pensador-poeta que um pensador-filósofo. Por isso ele mente (que poeta de verdade precisa da verdade?) e diz a verdade ao mesmo tempo. E é isso que ele faz nesse texto.

É o poeta Nietzsche que não tem paciência para dar as razões das suas opiniões. Desde quando um poeta precisa de razões? E o poeta Nietzsche não é fiel sequer às suas próprias opiniões. Parafraseando Gómez Dávila, para o poeta as opiniões não são fins, mas meios. Por isso tem razão André Comte-Sponville, quando diz ser impossível criticar Nietzsche, pois “qualquer que seja a tese que você queira criticar, o primeiro nietzschiano que aparecer, e eles são legião, sempre poderá objetar-lhe que Nietzsche disse exatamente o contrário – e o pior é que o nietzschiano terá razão, quase sempre, sem dúvida não porque você tenha atribuído a Nietzsche uma tese que ele não haja defendido, e sim porque sempre, ou quase sempre, ele defendeu a tese inversa”.

Acho profundo esse capítulo sobre os poetas, e concordo com tudo o que Nietzsche nele diz.

Lucia disse...

O maior escritor do seculo XX,tinha toda razão!!!
Profundo conhecedor da alma de um poeta.
Verdade absoluta!!! "Friedrich Nietzsche o grande"