19.4.08

Nelson Motta: "Do sonho ao pesadelo"

O seguinte artigo de Nelson Motta foi publicado na Folha de São Paulo, sexta-feira, 18 de abril de 2008:


Do sonho ao pesadelo


RIO DE JANEIRO - Não é uma ONG, nem uma associação profissional, um partido ou sindicato, não é empresa estatal ou privada, não tem CPF nem CNPJ ou identidade, mas não paga impostos e vive dos impostos pagos pela população trabalhadora, sem prestar contas de nada a ninguém. Será um sonho? Não, são privilégios que só o MST tem.

O maior e mais incontestável sucesso do governo Lula é a política econômica, que nos proporcionou estabilidade e crescimento, além de bancar os programas sociais, inclusive os de assentamentos rurais. O MST é contra, faz protestos furiosos em frente ao Banco Central.

Justo quando a ONU e o Banco Mundial advertem para a crise de alimentos, o MST demoniza e combate o agronegócio, que produz alimentos fartos e, pelo volume de produção, mais baratos. O MST sonha acabar com ele e substituí-lo pela agricultura familiar. Em que século e planeta eles vivem?

O MST combate tudo que está dando certo no país. Porque o comandante Stédile é contra o capitalismo, a livre iniciativa e o mercado, seu objetivo declarado é substituí-los por um sistema comunista, socialista, bolivariano ou alguma outra ditadura econômica, política e social. Mas financia a sua guerra santa com os impostos da democracia que despreza, usando os direitos e o dinheiro do Estado democrático. Sua arrogância, ignorância e intolerância beiram a caricatura, mas o homem segue falando grosso: não respeita as leis que julga injustas, em nome da auto-atribuída justiça de sua causa intocável.

No século 21, num país livre e democrático, se cada um se dá o direito de atropelar a lei e o Estado de Direito, em nome de sua crença, a civilização se barbariza e o que impera é a força bruta.

O sonho do MST virou o pesadelo da democracia.

10 comentários:

Homo antiquus disse...

Eu protesto!
Essa discussão só tem valor se forem auferidas as relações do desejo com os chamados sistemas capitalista e socialista.

Héber Sales disse...

Enquanto a penúria toma conta do regime bolivariano de Hugo Chavez, 20 milhões de brasileiros ascenderam da classe D para a classe C nos últimos anos. Mas isso não é nada diante do maior bem que temos: a liberdade de opinião e um regime democrático e de direito cada vez mais sólido. Graças a ele estamos aqui debatendo tudo isso e nos arriscando a soluções criativas que podem ser compartilhadas com todos. Por princípio, eu desconfio de qualquer idéia que não tolere a crítica e apele para a força para se impor. É o que pretende o MST. E para servir que interesses? Vamos olhar direitinho como se beneficiam os líderes do MST...

Um abraço, meu caro.

Breno Leite disse...

Diferente dos estados unidos e da europa nosso país não passou por reforma agrária.
O crescimento econômico do brasil com o governo lula e fhc é menor que a média mundial dos pais em desenvolvimento (sic). Termo mais piegas Parece que é um sentido para o desenvolvimento tão esperado.
o capitalismo tem também suas ditaduras não como a do Chaves mas de forma mais sutil e de menor visibilidade ao senso comum.
Economia estável o que seria? Os cálculos estatísticos torturados para atender os interesses do marketing de todo político da ocasião.
Enfim são tantas dimensões que o jornal não permite...
Parabéns pelo blog!!! abs, breno

Anônimo disse...

Cicero,

Desconheço quais são as regalias fiscais do MST ou a sua justificação governamental. À parte isso a abordagem do Sr Nelson Motta parece-me demasiado simplista para ser levada a sério e assenta num pressuposto errado, que deve ser corrigido.

"Justo quando a ONU e o Banco Mundial advertem para a crise de alimentos, o MST demoniza e combate o agronegócio, que produz alimentos fartos e, pelo volume de produção, mais baratos."

O problema da fome no mundo, actualmente, não é um problema de produção, mas sim um problema de distribuição -- a ONU é a primeira instituição a reconhecer isso. O Banco Mundial, como é sabido, é uma entidade com uma agenda politico-económica muito clara. Essa agenda sobrepoem-se frequentemente aquilo que seria socialmente justo.

O problema de distribuição de alimentos deve-se a uma enorme assimetria socio-económica entre países (norte vs sul, países desenvolvidos vs em vias de desenvolvimento) e entre pessoas que vivem nos países ditos "em vias de desenvolvimento."

Essa assimetria, por sua vez, foi criada e é promovida pelo paradigma económico vigente (capitalismo, hoje neo-liberalismo).

Na produção alimentar esse paradigma é inaugurado com a chamada "Revolução Verde": a mecanização da agricultura, a utilização de monocultura, o recurso a fertilizantes e tóxicos agrícolas para o controlo de pragas e de ervas daninhas. Este tipo de agricultura caracteriza-se pela dependencia de um pacote tecnológico e pela redução do número de agricultores. Esta é uma agricultura desenhada para "condições óptimas" - solos planos, abundância de água, etc.

Este pacote tecnológico só foi adoptado por alguns - os que tinham mais dinheiro e/ou os que tinham mais terra. Começa assim o grande exodo dos pequenos agricultores, um exodo responsável pela afluência em massa às cidades e criação dos gds centros de miseria urbana (de que no Brasil o Sr. Motta conhecerá exemplos suficientes).

A situação é agravada pela utilização de subsídios agrícolas: a comida produzida e exportada hoje pelos países desenvolvidos não é vendida ao seu preço de custo. Os EUA vendem milho a precos mais competitivos do que os campesinos mais pobres do México - onde, como em Oaxaca, se continua a observar o abandono progressivo da terra em favor da emigração para os EUA ou para a capital do país.

Paralelamente aos problemas sociais introduzidos com a "Revolução verde" ou Agricultura de Mercado, assistiu-se a uma degradação ambiental sem precedentes: a sobre exploração do solo e consequente desertificação, a deflorestação, a contaminção de alimentos e de recursos aquíferos por tóxicos agrícolas e o aparecimento de resistência nos organimos alvo. Para além de estarem dependentes de um pacote tecnológico para poderem produzir, os agricultores têm que aumentar sucessivamente a dose de tóxicos que utilizam, para poder continuar a produzir à mesma taxa.

É este paradigma agrícola que o "Agronegócio" actual promove, introduzindo recentemente uma nova "revolução tecnológica", as sementes transgénicas.

A "Revolução Verde" resultou num aumento da produtividade agrícola, a partir dos anos 50. Paradoxalmente, 800 milhões de pessoas no mundo ainda sofrem de malnutrição:

Que razões levam o Sr. Motta a crer que, mantendo este paradigma de produção, a situação desses 800 milhões de pessoas mude?

Tanto mais agora, em que mais do que nunca, o Agronegócio se destina não exactamente a incrementar a produção de alimentos, mas a de biocombustíveis e de outras aplicações industriais??

Resolver o problema da fome significa permitir que se produza de forma minimamente rentável onde estão os pobres -- o que por definição significa produzir em zonas menos óptimas, por pessoas sem dinheiro para recorrer a pacotes tecnológicos mas recorrendo a estratégias agro-ecológicas e que possuem pequenas porções de terra.

Curiosamente, esta forma de produção é também a médio-longo prazo a única que se revela ambientalmente sustentável.

Se o que de facto preocupa o Sr. Motta é a fome entre os pobres Brasileiros que se bata por uma redistribuição da riqueza, por leis que obriguem os ricos Brasileiros a investir em projectos que, embora menos rentáveis a curto-prazo, promovam de facto o combate à exclusão social.

Nunca conheci um líder do MST e suspeito que a revolta do Sr. Motta derive do facto de ele só conhecer líderes, nunca ter visto agricultores. Se ele visitasse assentamentos de famílias que sobrevivem tornando rentáveis áreas que ninguém explorava, produzindo alimentos de forma sustentável, só com muita má vontade concluiria que aquilo porque lutam e trabalham constitui "o pesadelo da democracia".

abraço,
Filipa

Antonio Cicero disse...

Filipa,

Obrigado pelas precisões, muito esclarecedoras, que nos obrigam a pensar de modo mais profundo sobre a questão da fome e da agricultura no mundo de hoje.

Por outro lado, devo também dizer que concordo com o Heber Sales.

Além disso, como diz o Nelson Motta, a liderança do MST despreza as instituições e os procedimentos da democracia liberal, sendo, por isso, contra a política econômica do Lula, que, de fato, tem tido êxito em reduzir a miséria e desigualdade de renda no Brasil. E despreza as instituições da democracia liberal a partir dos postulados ideológicos que produziram grande parte dos horrores totalitários do século XX. Também essa questão deve ser levada em conta.


Abraço,
Antonio Cicero

léo disse...

Sou como todos os outros.

Minto. Sou salafrário. Não valho nada.

O Brasil pertence aos que o amam.

Correto ou indigesto, sou como os demais:

observo o mundo aqui de casa. E minto.

Minto descaradamente sobre o meu país.

Depois de amanhã é dia de São Jorge.

Ogunhê, meu pai!

Antonio Cicero disse...

Lembro aos caríssimos freqüentadores deste blog que embora eu, como moderador, costume publicar todos os comentários relevantes, ainda que remotamente, ao assunto em questão, e embora tenha por regra não censurar nenhuma crítica a idéias, tenho também por regra não publicar insultos, principalmente a etnias, nações, povos, países etc.

Antonio Cicero

Anônimo disse...

Arrasador e amplamente condizente com o que penso e sinto sobre o MST o artigo de Nelson Motta. A forma truculenta com que age, já é suficiente para desabonar a conduta da tal instituição que se diz representante de excluídos e que, no entanto, não se envergonha nem um pouco de promover a exclusão de outros que trabalham pelo desenvolvimento do país.
Flávio Magalhães.

Henrique disse...

Entristece muito ver essa opinião compartilhada por muitas pessoas. Eu protesto completamente com a razão deste artigo. Dizer que a revolução verde está gerando mais alimento ao mundo é um erro grave. É beirar ao discurso que vemos na revista Veja.
Talvez o autor precise ver melhor o campo brasileiro e abandonar seus preconceitos de classe. E rever também o conceito de democracia.

Acho tão triste pois muitos não compreendem da própria idéia da reforma agrária e jogam por escanteio qualquer idéia que não seja do consenso capitalista.

Aquele que não compartilha dessas idéias é visto como terrorista, desordeiro, e outas coisas a mais.

Acho muito válido o comentário do homo antiquus.

acho que os versos de $ cara vêm muito a calhar nesse nosso contexto atual.

Jamais foi tão escuro no país do futuro e da televisão. Aguinaldo Silva que o diga.

André Gonçalves disse...

Esse artigo do Nelson Motta é um terrível engano de alguém que vive muito distante da realidade fora do eixo das celebridades.