20.4.08

As vanguardas e a tradição

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da Folha de São Paulo, sábado, 20 de abril de 2008:


As vanguardas e a tradição


EM ENSAIO chamado "Escrever como Reescrever: a Poesia Concreta como Retaguarda", a crítica literária americana Marjorie Perloff defende a tese de que seria mais adequado considerar a poesia concreta brasileira como "retaguarda" do que como "vanguarda".

Evitemos mal-entendidos: para ela, "retaguarda" não significa o oposto de "vanguarda". Não se trata, por exemplo, de um movimento de conservação ou de restauração do passado. Tendo em vista a origem militar tanto de um termo quanto do outro, ela lembra que "a retaguarda do exército é a parte que protege e consolida o movimento das tropas em questão". Assim, "quando um movimento de vanguarda não é mais novidade, o papel da retaguarda é completar a sua missão, assegurar o seu êxito".

As vanguardas do início do século 20 -em particular o futurismo italiano e o russo, além de dadá- não reconhecem precursores nem aceitam tradição. Para elas, de maneira geral, o passado não só estava morto mas seu cadáver era letal. É nesse espírito que, por exemplo, Marinetti, em manifesto de 1909, declara que um automóvel rugidor é mais belo que a Vitória de Samotrácia, e, entre outros, Maiakovski, em manifesto de 1912, exorta os poetas a jogarem fora do navio da modernidade Pushkin, Dostoiévski, Tolstói, etc.

"Em compensação, a retaguarda", observa, com razão, Perloff, tendo em mente o concretismo, "trata as proposições da primeira vanguarda com um respeito vizinho da veneração". Perloff cita entrevista de 1993 em que Augusto de Campos explica que, na década de 50, "toda poesia experimental, toda arte experimental havia sido em certo sentido marginalizada. Só na década de 50 começou a redescoberta de Mallarmé, a redescoberta de Pound. [...] Acho que era necessário recuperar os grandes movimentos de vanguarda".

O que Perloff chama de "retaguarda" consiste, portanto, numa vanguarda que reconhece precursores. O fato de destacar essa peculiaridade do concretismo é evidentemente mais importante do que o rótulo que usa para fazê-lo. E quais são os precursores que Augusto reconhece na entrevista citada? Mallarmé e Pound, os dois primeiros poetas que haviam sido citados como precursores no "Plano-Piloto para Poesia Concreta", de 1958.

Mallarmé, que morreu antes do século 20, não fez parte de nenhum movimento de vanguarda. Já Pound fez parte de dois movimentos de vanguarda ingleses, o imagismo e o vorticismo. Esses movimentos, como os continentais, não parecem reconhecer precursores. Além disso, opõem-se ao passado imediato e às diluições vitorianas e edwardianas do romantismo. Por outro lado, ao contrário dos movimentos continentais, são capazes de valorizar, por exemplo, a poesia da antigüidade clássica.

De certo modo, porém, não seria correto dizer que Pound não reconhecesse precursores. Tomemos os princípios do imagismo, que ele publicou em 1913: tratar diretamente o objeto; não utilizar uma única palavra que não contribua para apresentá-lo; quanto ao ritmo, compor na sequência da frase musical, não na do metrônomo; refletir com exatidão o particular, e não generalidades vagas; ser preciso e claro, jamais confuso ou indefinido; ser conciso. Se tais princípios pretendem ser o resultado da destilação da grande poesia de todas as épocas, então a poesia conscientemente feita de acordo com eles toma toda grande poesia como sua precursora. Além disso, por um processo sem dúvida circular, embora não necessariamente vicioso, esses princípios, uma vez destilados, proporcionam os critérios que permitem a Pound -e, na sua esteira, a T.S. Eliot- propor ousadas reavaliações e revisões do cânone poético em vigor na sua época.

Pois bem, quando o concretismo toma Pound como precursor é porque pretende ter radicalizado e levado às últimas conseqüências as descobertas desse poeta (assim como as de Mallarmé e de outros), chegando ao extremo de -no "Plano-Piloto" de 1958- dar por encerrado o ciclo do verso. Isso estava errado, é claro, pois grandes poemas em verso foram escritos desde então. No entanto, apesar de seu radicalismo -ou melhor, por meio dele- o concretismo também foi capaz de, tendo aprendido com Pound, empreender a sua própria reconsideração e livre reapropriação da tradição. Não deve ser um acaso que não tenham sido poetas do Velho Mundo, mas americanos e brasileiros, os que precisaram levar a cabo tais reapropriações. Ao fazê-lo entre nós, o concretismo conseguiu dar a um país cuja intelligentsia costuma ser excessivamente cautelosa um exemplo de audácia muito mais significante e inteligente do que se tivesse simplesmente, ao modo das vanguardas históricas, em vão rejeitado todo precursor e toda tradição.

4 comentários:

Nuno Rau disse...

Muito interessante esta 'categoria' criada por M. Perloff para os concretistas ('retaguarda"), agora que o tempo deu perspectiva e ainda que pareçamos estar num 'presente absoluto', tal qual dito pelos teóricos do pós-modernismo. É interessante como a história caminha a passos trocados/truncados: ao mesmo tempo em que eles promoveram uma 'limpeza' necessária de excessos para os quais a poesia parecia de novo se voltar (geração de '45), tinham (como é notório no "plano-piloto" e outros textos da época) uma fascinação fetichista pela tecnologia, pela industrialização e pelas mídias, o que dá uma tremenda lógica à apropriação de técnicas da poesia concreta pela indústria da propaganda (e 'apropriação' de seus autores também, para esta indústria que está entre as coisas mais afastadas da poesia).

Interessante também a explicitação, como já o fez Compagnon, da íntima relação entre o termo vanguarda e a guerra. É a história de novo e suas constantes contradições, avanços que são atrasos e vice-versa. Isto pode denotar que só o que se desejava era destronar o centro para ocupá-lo, e não um pensamento radical sobre a descentralização, a pluralidade, a poesia.

grande abraço, Cícero.

sempre um enorme prazer o de ler as discussões aqui colocadas por você.

betina moraes disse...

Pensador,

Gostei muitíssimo do artigo,
por causa, já fui tomar conhecimento do "Escrever como Reescrever: a Poesia Concreta como Retaguarda". Aliás, não há visita vazia ao vir aqui, sempre saio com mais do que trouxe.

Opinião/comentário: acho impossível não sorver variedades vivendo o estado da criação. As coisas (informações, inspirações, paixões,...) pulsam em volta! Mesmo o passado está ali, o tempo todo na identidade geral.

Abraços,

SANDRO ORNELLAS disse...

Gostei muito do final do artigo, Cícero, por destacar a sacudida que o concretismo deu no modo de ser da intelectualidade brasileira.
Abraço

João Renato disse...

Prezado Antonio Cícero,
Acho que o Concretismo, e o bom e o mal entendimento que tiveram dele, estão como que encravados para o bem e para o mal em uma parte da poesia feita no Brasil atualmente. Quando leio poesia portuguesa, sinto uma certa "falta" de Concretismo.
Um abraço,
JR.