25.4.07

Michel Tournier: Robinson pensa sobre o dinheiro

Eis uma tradução minha (e, em baixo, o original) de um trecho absolutamente delicioso do livro de Michel Tournier, Vendredi ou les limbes du Pacifique. Robinson, o personagem principal, anota em seu Log-book o seguinte:


Avalio hoje a loucura e a maldade dos que caluniam essa instituição divina: o dinheiro! O dinheiro espiritualiza tudo o que toca, trazendo-lhe uma dimensão ao mesmo tempo racional – mensurável – e universal – pois um bem monetizado torna-se virtualmente acessível a todos os homens. A venalidade é uma virtude cardeal. O homem venal sabe calar seus instintos assassinos a associais – sentimento de honra, amor-próprio, patriotismo, ambição política, fanatismo religioso, racismo – para só deixar falar sua propensão à cooperação, seu gosto pelas trocas frutuosas, seu sentido da solidariedade humana. É preciso tomar literalmente a expressão idade do ouro, e vejo claramente que a humanidade chegaria lá mais rapidamente se só fosse conduzida por homens venais. Infelizmente são quase sempre homens desinteressados que fazem a história, e então o fogo destrói tudo, o sangue corre em torrentes. Os gordos mercadores de Veneza nos dão o exemplo da felicidade faustuosa que conhece um estado dirigido somente pela lei do lucro, enquanto que os lobos esgalgados da Inquisição espanhola nos mostram as infâmias de que são capazes os homens que perderam o gosto pelos bens materiais. Os hunos teriam rapidamente interrompido seu ímpeto se tivessem sabido aproveitar das riquezas que haviam conquistado. Com o peso de suas aquisições, ter-se-iam estabelecido para melhor gozar delas, e as coisas teriam retomado seu curso natural. Mas eram brutos desinteressados. Desprezavam o ouro. E arremessavam-se à frente, queimando tudo em sua passagem.



Je mesure aujourd'hui la folie et la méchanceté de ceux qui calomnient cette institution divine : l'argent! L'argent spiritualise tout ce qu'il touche en lui apportant une dimension à la fois rationnelle — mesurable — et universelle — puisqu'un bien monnayé devient virtuellement accessible à tous les hommes. La vénalité est une vertu cardinale. L'homme vénal sait faire taire ses instincts meurtriers et asociaux — sentiment de l'honneur, amour-propre, patriotisme, ambition politique, fanatisme religieux, racisme — pour ne laisser parler que sa propension à la coopération, son goût des échanges fructueux, son sens de la solidarité humaine. Il faut prendre à la lettre l'expression l'âge d'or, et je vois bien que l'humanité y parviendrait vite si elle n'était menée que par des hommes vénaux. Malheureusement ce sont presque toujours des hommes désintéressés qui font l'histoire, et alors le feu détruit tout, le sang coule à flots. Les gras marchands de Venise nous donnent l'exemple du bonheur fastueux que connaît un État mené par la seule loi du lucre, tandis que les loups efflanqués de l'Inquisition espagnole nous montrent de quelles infamies sont capables des hommes qui ont perdu le goût des biens matériels. Les Huns se seraient vite arrêtés dans leur déferlement s'ils avaient su profiter des richesses qu'ils avaient conquises. Alourdis par leurs acquisitions, ils se seraient établis pour mieux en jouir, et les choses auraient repris leur cours naturel. Mais c'étaient des brutes désintéressées. Ils méprisaient l'or. Et ils se ruaient en avant, brûlant tout sur leur passage.

De : TOURNIER, Michel. Les limbes du Pacifique. Paris : Gallimard, 1969, p.61-62.

4 comentários:

Lucas N disse...

Belo texto.
Lembra-me os pensamentos sobre o valor da vida desenvolvidos pelo Capitão em The Sea Wolf, de Jack London.

“I held that life was a ferment, a yeasty something which devoured life that it might live, and that living was merely successful piggishness. Why, if there is anything in supply and demand, life is the cheapest thing in the world. There is only so much water, so much earth, so much air; but the life that is demanding to be born is limitless. Nature is a spendthrift. Look at the fish and their millions of eggs. For that matter, look at you and me. In our loins are the possibilities of millions of lives. Could we but find time and opportunity and utilize the last bit and every bit of the unborn life that is in us, we could become the fathers of nations and populate continents. Life? Bah! It has no value. Of cheap things it is the cheapest. Everywhere it goes begging. Nature spills it out with a lavish hand. Where there is room for one life, she sows a thousand lives, and it’s life eats life till the strongest and most piggish life is left.”

A lógica da venalidade pode levar a mares diversos. E o contraste torna as aventuras intelectuais desses marinheiros mais belas e assutadoras.

Um abraço,
Lucas

sandro ornellas disse...

Cícero, isso me fez pensar no seguinte: não li o post anterior, mas estou errado ou o dinheiro (e o mercado) passam, então, a ser novos universais, isto é, substitutos (análogos) modernos de Deus?
Abraços
Sandro

Antonio Cicero disse...

Sandro,

Não, não penso que o dinheiro seja o substituo moderno de Deus. Os textos que aqui publico não estão necessariamente encadeados, nem se referem necessariamente uns aos outros. São apenas textos de que gosto.

Observe que classifiquei o meu artigo sobre a tese de Ivan Karamazov como “filosofia”, mas o trecho de Michel Tournier como “literatura”. E por pouco não preferi para ele a rubrica “poesia”. É que, enquanto a tese de Ivan se tornou independente do personagem e do romance, e é discutida como uma tese filosófica (uns a consideram verdadeira, outros falsa), isso não ocorre com as especulações do Robinson do romance do Tournier. Elas são ainda literatura, e é como tal que se revelam mais fecundas. Por que? Porque, enquanto literatura, elas são capazes de nos inquietar e deliciar ao mesmo tempo, independentemente das nossas convicções.

No mundo em que vivemos, o dinheiro é ao mesmo tempo cobiçado e considerado a raiz de quase todos os males, enquanto o homem desinteressado é tomado como virtuoso. Com admirável ironia, Tournier faz o seu personagem inverter, de modo extremamente convincente, esses lugares-comuns da classe média, e nos obriga a repensar – ou melhor, a realmente pensar pela primeira vez – sobre essa questão: a desconfiar tanto da nossa admiração impensada pelo desinteresse quanto da nossa condenação automática da venalidade. E é principalmente por desativar automatismos e fazer pensar que aprecio o trecho que aqui traduzido.

sandro ornellas disse...

Cícero,
sei que os textos não estão encadeados. Foi só uma indagação que me ocorreu e que pensei em compartilhar. Claro que também influenciado pela presença logo abaixo do seu outro texto. Enfim, foi uma analogia absolutamente pessoal, fruto de uma leitura também completamente pessoal.
Abraços com admiração,
Sandro