escrevo em papéis
como se pixasse
os muros dos bairros
das cidades.
RUBRA, Dênis. "escrevo em papéis". In:_____ É muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.
BLOG DE ANTONIO CICERO: poesia, arte, filosofia, crítica, literatura, política
escrevo em papéis
como se pixasse
os muros dos bairros
das cidades.
RUBRA, Dênis. "escrevo em papéis". In:_____ É muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.
Aríete
Reverbera no escudo o brlho baço
do túrgido aríete
com que distância e tempo enfureces.
Francisco Alvim
Escrevo para as paredes.
O ar puro me asfixia.
Escrevo todas as vezes
que um desejo se anuncia.
Escrevo contra as paredes
que transponho em agonia.
Escrevo sempre isolado,
sem nenhuma companhia.
Escrevo sob as paredes
que me cercam, todavia,
em casa ou no trabalho.
E sem carta de alforria,
escrevo sobre as paredes.
Escrevo à noite ou de dia.
Com a ânsia de condenado
na sua hora tardia.
Escrevo todos os meses
e não vejo outra saída.
Escrevo para as paredes:
não posso escrever pra vida.
LIMA, Ricardo Vieira. "Aríete". In:_____. Aríete -- poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Circuito, 2021.
O Paraíso sobre os telhados
Será um dia tranquilo, de luz fria
como o sol que nasce ou que morre, e o vidro
fechará por fora o ar sórdido.
Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,
na tepidez do último sono: A sombra
será como a tepidez. Encherá o quarto
pela grande janela um céu mais vasto.
Da escada subida um dia para sempre
não virão mais vozes nem rostos mortos.
Não será preciso deixar a cama.
Só a aurora entrará no quarto vazio.
Bastará a janela para vestir cada coisa
de uma claridade tranquila, quase uma luz.
Pousará uma sombra descarnada no rosto supino.
As recordações serão coágulos de sombra
calcados quais velhas brasas
na chaminé. A recordação será a chama
que ainda ontem picava nos olhos apagados.
Il Paradiso sui tetti
Sarà un giorno tranquillo, di luce fredda
come il sole che nasce o che muore, e il vetro
chiuderà l’aria sudicia fuori del cielo.
Ci si sveglia un mattino, una volta per sempre,
nel tepore dell’ultimo sonno: l’ombra
sarà come il tepore. Empirà la stanza
per la grande finestra un cielo più grande.
Dalla scala salita un giorno per sempre
non verranno più voci, né visi morti.
Non sarà necessario lasciare il letto.
Solo l’alba entrerà nella stanza vuota.
Basterà la finestra a vestire ogni cosa
di un chiarore tranquillo, quasi una luce.
Poserà un’ombra scarna sul volto supino.
I ricordi saranno dei grumi d’ombra
appiattiti così come vecchia brace
nel camino. Il ricordo sarà la vampa
che ancor ieri mordeva negli occhi spenti.
54
A Geometria é a maior Magia
Para a imaginação do mago —
Cujos prodígios, meros atos,
A humanidade prestigia.
54
Best Witchcraft is Geometry
To the magician’s mind—
His ordinary acts are feats
To thinking of mankind.
Ó noite
O ansioso abraço da aurora
Desvela a folhagem.
Dolorosos despertares.
Folhas, irmãs folhas,
Ouço o vosso lamento.
Outonos,
Moribundas doçuras.
Ó juventude,
Um instante mal nos separa.
Altos sonhos, céus da juventude,
Livre arroubo.
E já deserto estou.
Perdido nesta curva melancolia.
Mas a noite dispersa as distãncias.
Oceânicos silêncios,
Ninhos astrais de ilusões,
Ó noite.
O Notte
Dall'ampia ansia dell'alba
Svelata alberatura.
Dolorosi risvegli.
Foglie, sorelle foglie,
Vi ascolto nel lamento.
Autunni,
Moribonde dolcezze.
O gioventù,
Passata è appena l'ora del distacco.
Cieli alti della gioventù,
Libero slancio.
E già sono deserto.
Preso in questa curva malinconia.
Ma la notte sperde le lontananze.
Oceanici silenzi,
Astrali nidi d'illusione,
O notte.
UNGARETTI, Giuseppe. "O notte" / "Ó noite". In:_____ Poemas. Seleção e tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.
Lixo sem luxo
Ele sabe que será jogado
na lata de lixo da história,
mas esperneia.
Tira de sua cabeça,
como um coelho morto
de uma podre cartola,
ideias sem serventia.
Os medíocres que o seguem
aplaudem sua iniciativa
e votam em assembleia
os dejetos que se transformam
em decretos.
SILVESTRIN, Ricardo. "Lixo sem luxo". In:_____ Carta aberta ao Demônio. Porto Alegre: Libretos, 2021.