17.4.22

Dênis Rubra: "escrevo em papéis"

 



escrevo em papéis

como se pixasse

os muros dos bairros

das cidades.






RUBRA, Dênis. "escrevo em papéis". In:_____ É muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.

10.4.22

Ricardo Vieira Lima: "Aríete"

 



Aríete

Reverbera no escudo o brlho baço

do túrgido aríete

com que distância e tempo enfureces.

              Francisco Alvim

 


Escrevo para as paredes.

O ar puro me asfixia.

Escrevo todas as vezes

que um desejo se anuncia.


Escrevo contra as paredes

que transponho em agonia.

Escrevo sempre isolado,

sem nenhuma companhia.


Escrevo sob as paredes

que me cercam, todavia,

em casa ou no trabalho.

E sem carta de alforria,


escrevo sobre as paredes.

Escrevo à noite ou de dia.

Com a ânsia de condenado

na sua hora tardia.


Escrevo todos os meses

e não vejo outra saída.

Escrevo para as paredes:

não posso escrever pra vida.






LIMA, Ricardo Vieira. "Aríete". In:_____. Aríete -- poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Circuito, 2021.

6.4.22

Cesare Pavese: "Il Paradiso sui tetti" / "O Paraíso sobre os telhados": Carlos Leite

 



O Paraíso sobre os telhados




Será um dia tranquilo, de luz fria

como o sol que nasce ou que morre, e o vidro

fechará por fora o ar sórdido.


Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,

na tepidez do último sono: A sombra

será como a tepidez. Encherá o quarto

pela grande janela um céu mais vasto.

Da escada subida um dia para sempre

não virão mais vozes nem rostos mortos.


Não será preciso deixar a cama.

Só a aurora entrará no quarto vazio.

Bastará a janela para vestir cada coisa

de uma claridade tranquila, quase uma luz.

Pousará uma sombra descarnada no rosto supino.

As recordações serão coágulos de sombra

calcados quais velhas brasas

na chaminé. A recordação será a chama

que ainda ontem picava nos olhos apagados.







Il Paradiso sui tetti



Sarà un giorno tranquillo, di luce fredda

come il sole che nasce o che muore, e il vetro

chiuderà l’aria sudicia fuori del cielo.


Ci si sveglia un mattino, una volta per sempre,

nel tepore dell’ultimo sonno: l’ombra

sarà come il tepore. Empirà la stanza

per la grande finestra un cielo più grande.

Dalla scala salita un giorno per sempre

non verranno più voci, né visi morti.


 Non sarà necessario lasciare il letto.

Solo l’alba entrerà nella stanza vuota.

Basterà la finestra a vestire ogni cosa

di un chiarore tranquillo, quasi una luce.

Poserà un’ombra scarna sul volto supino.

I ricordi saranno dei grumi d’ombra

appiattiti così come vecchia brace

nel camino. Il ricordo sarà la vampa

che ancor ieri mordeva negli occhi spenti.









PAVESE, Cesare. "Il Paradiso sui tetti"/ "O paraíso sobre os telhados". In:_____Trabalhar cansa.
Título original: Lavorare stanca. Trad. de Carlos Leite. Lisboa: Ed. Cotovia, 1997.












1.4.22

Emily Dickinson: "Best Witchcraft is Geometry" / "A Geometria é a maior Magia": trad. de Augusto de Campos

 



54


A Geometria é a maior Magia

Para a imaginação do mago —

Cujos prodígios, meros atos,

A humanidade prestigia.




54


Best Witchcraft is Geometry

To the magician’s mind—

His ordinary acts are feats

To thinking of mankind.








DICKINSON, Emily. "Best Witchcraft is Geometry" / "A Geometria é a maior Magia". In:_____.  Não sou ninguém. Poemas. Trad. por Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2015.

27.3.22

Giuseppe Ungaretti: "O notte" / "Ó noite": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti

 



Ó noite



O ansioso abraço da aurora

Desvela a folhagem.


Dolorosos despertares.


Folhas, irmãs folhas,

Ouço o vosso lamento.


Outonos,

Moribundas doçuras.


Ó juventude,

Um instante mal nos separa.


Altos sonhos, céus da juventude,

Livre arroubo.


E já deserto estou.


Perdido nesta curva melancolia.


Mas a noite dispersa as distãncias.


Oceânicos silêncios,

Ninhos astrais de ilusões,


Ó noite.










O Notte



Dall'ampia ansia dell'alba

Svelata alberatura.


Dolorosi risvegli.


Foglie, sorelle foglie,

Vi ascolto nel lamento.


Autunni,

Moribonde dolcezze.


O gioventù,

Passata è appena l'ora del distacco.


Cieli alti della gioventù,

Libero slancio.


E già sono deserto.


Preso in questa curva malinconia.


Ma la notte sperde le lontananze.


Oceanici silenzi,

Astrali nidi d'illusione,


O notte.






UNGARETTI, Giuseppe. "O notte" / "Ó noite". In:_____ Poemas. Seleção e tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.

22.3.22

Ricardo Silvestrin: "Lixo sem luxo"

 



Lixo sem luxo


Ele sabe que será jogado 

na lata de lixo da história,

mas esperneia.

Tira de sua cabeça,

como um coelho morto

de uma podre cartola,

ideias sem serventia.

Os medíocres que o seguem

aplaudem sua iniciativa

e votam em assembleia

os dejetos que se transformam

em decretos.






SILVESTRIN, Ricardo. "Lixo sem luxo". In:_____ Carta aberta ao Demônio. Porto Alegre: Libretos, 2021.