12.2.13
Mário Cesariny: "Poema"
Poema
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
CESARINY, Mário. Pena capital. Lisboa: Assírio & Alvim, 1957.
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Poema
10.2.13
William Shakespeare: "Sonnet XVI" / "Soneto XVI": trad. de Adriano Nunes
Soneto XVI
Por que não usas modo mais viril
Pra lutar contra o Tempo, o sanguinário?
E contra a derrocada, todo o ardil
Mais ditoso que o meu verso ordinário?
Agora te fincas na alegre aurora,
E vero virgem jardim inda intato
Com ardor daria tua grã flora,
Mais símile que teu próprio retrato.
Logo a verve da vida a vida ampara,
Pois, o lápis do Tempo, ou minha pena,
Nem o íntimo valor ou a graça rara,
Aos homens não engendram melhor cena.
Entregando-te a tudo, com certeza,
Permanecerás por tua destreza.
Sonnet XVI
But wherefore do not you a mightier way
Make war upon this bloody tyrant, Time?
And fortify yourself in your decay
With means more blessed than my barren rhyme?
Now stand you on the top of happy hours,
And many maiden gardens yet unset
With virtuous wish would bear your living flowers,
Much liker than your painted counterfeit:
So should the lines of life that life repair,
Which this, Time's pencil, or my pupil pen,
Neither in inward worth nor outward fair,
Can make you live yourself in eyes of men.
To give away yourself keeps yourself still,
And you must live, drawn by your own sweet skill.
NUNES, Adriano. "William Shakespeare: 'Sonnet XVI'. Disp. no site Laringes de Grafite. URL: http://astripasdoverso.blogspot.com.br/2013/02/william-shakespeare-sonnet-xvi.html. Acessado em 09/02/2013.
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William Shakespeare
8.2.13
Eucanaã Ferraz: "Recebei as nossas homenagens"
Recebei as nossas homenagens
Único homem acordado nesta noite, o apartamento
apertado parece imenso; vagueio desacordado de tudo
e sobretudo em desacordo comigo, único homem
acordado no mundo; o teatro estreito assim vazio
parece largo, perambulo absoluto, príncipe estragado;
não dormir é meu palácio; a Dinamarca, diminuta,
parece dilatar-se enquanto palmilho o ar do quarto.
Vem o dia, e o fantasma de meu pai não me aparece.
FERRAZ, Eucanaã. Sentimental. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
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Poema
5.2.13
Antonio Carlos Secchin: "A Felipe Fortuna, na passagem de seus cinquent'anos"
No domingo passado, dia 3 de fevereiro, o poeta, crítico literário e diplomata Felipe Fortuna comemorou seu aniversário em almoço, no Restaurante Don Camillo, à Avenida Atlântica, ao lado de 50 amigos. Na ocasião, o poeta, crítico literário e acadêmico Antonio Carlos Secchin leu o seguinte, delicioso poema que compôs em homenagem ao aniversariante:
A Felipe Fortuna, na passagem de seus cinquent'anos
Cinquent´anos de Felipe.
Pra começo de conversa,
Nós gostamos muito dele
E achamos que vice-versa.
Sigamos o protocolo
Pertinente a este rito:
Muitas vozes de alegria,
Poucas doses de atrito.
Do talento em prosa e verso
Não há dúvida nenhuma.
O destino atribuiu
A Felipe uma fortuna.
No seu celeiro de musas,
Louise canta em lá-bemol,
Mas nenhuma se compara
1
À graça de um Jovem Sol.
Brindemos, vinho e verdade,
O excelente anfitrião.
Merece passar de ano
Na escola da sedução.
1. “Jovem Sol” é a tradução portuguesa do nome da esposa coreana de Felipe Fortuna.
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Poema
3.2.13
Carlos Drummond de Andrade: "Canção amiga"
Canção amiga
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
tôdas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segrêdo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
ANDRADE, Carlos Dummond de. Poesia 1930-62. Edição crítica. GUIMARÃES, Júlio Castañon (org.). São Paulo: Cosac Naify, 2012.
1.2.13
Antonio Cicero: "Nihil"
Nihil
nada sustenta no nada esta terra
nada este ser que sou eu
nada a beleza que o dia descerra
nada a que a noite acendeu
nada esse sol que ilumina enquanto erra
pelas estradas do breu
nada o poema que breve se encerra
e que do nada nasceu
CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.
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Poema
29.1.13
Ricardo Silvestrin: "Juro dizer a meia-verdade"
Juro dizer a meia-verdade
a meia-mentira
o centauro por inteiro
nada mais que a sedução da sereia
o passo em falso, verdadeiro
na beira de um desfiladeiro
juro com a mão direita
sobre a bíblia
e a mão esquerda abanando
em nome de Deus, de Zeus
de Oxalá ou da besta
juro que os que quiserem
somente a verdade
vão perder o melhor da festa
SILVESTRIN, Ricardo. Palavra mágica. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro / Massao Ohno, 1994.
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