12.1.18

Mulheres liberam outro discurso



Contra os absurdos ataques sofridos pelo excelente texto publicado no jornal Le Monde de 9 do corrente e escrito por Peggy Sastre, Catherine Millet, Sarah Chiche, Catherine Robbe-Grillet e Abnouse Shalmani -- texto assinado por personalidades admiráveis como Catherine Deneuve -- resolvi republicá-lo neste blog.



Mulheres liberam outro discurso

A violação é um crime. Mas a galanteria não é uma agressão machista, nem a paquera insistente ou desajeitada um delito


Em consequência do caso Weinstein, houve uma legítima tomada de consciência das violências sexuais exercidas contra as mulheres, particularmente no campo profissional, onde alguns homens abusam do seu poder. Ela era necessária. Mas essa libertação do discurso transforma-se hoje no seu oposto: somos intimadas a falar “corretamente”, a silenciar sobre o que incomoda, e aquelas que se recusam a se dobrar a tais injunções são consideradas traidoras, cúmplices!

Ora, faz parte do puritanismo apropriar-se, em nome de um pretenso bem geral, dos argumentos da proteção das mulheres e de sua emancipação para melhor acorrentá-las ao estatuto de eternas vítimas, de pobrezinhas sob o domínio de falocratas demoníacos, como nos velhos e bons tempos da feitiçaria.

De fato, #metoo conduziu, na imprensa e nas redes sociais, uma campanha de delação e de acusação pública de indivíduos que, sem que lhes fosse dada a mínima possibilidade de responder ou de se defender, foram postos exatamente no nível de agressores sexuais. Essa justiça expeditiva já fez suas vítimas: homens sancionados no exercício de sua profissão, obrigados a demitir-se etc., quando seu único erro foi ter tocado um joelho, tentado roubar um beijo, falado de coisas “íntimas” durante um jantar profissional ou enviado mensagens com conotação sexual a uma mulher que não correspondia ao desejo deles.

Essa ânsia de enviar “porcos” ao matadouro, longe de ajudar as mulheres a se autonomizarem, serve realmente aos interesses dos inimigos da liberdade sexual, aos extremistas religiosos, aos piores reacionários e àqueles que acreditam, em nome de uma concepção substancial do bem e da correspondente moral vitoriana, que as mulheres são seres “à parte”, crianças com caras de adultos, necessitando de proteção.

Por outro lado, os homens são convocados a aceitar sua culpa e de reconhecer, no fundo de sua consciência retrospectiva, um “comportamento inadequado” que possam ter tido dez, vinte ou trinta anos atrás, e do qual deveriam agora se arrepender. A confissão pública, a incursão de promotores autoproclamados na esfera privada: eis que se instala uma espécie de clima de sociedade totalitária.

A onda puritana parece não ter limites. Aqui, censuramos um nu de Egon Schiele em um cartaz; ali pedimos a remoção de uma pintura de Balthus de um museu, com base em que seria uma apologia da pedofilia; na confusão absurda do ser humano com sua obra, exige-se a proibição da retrospectiva de Roman Polanski na Cinémathèque e obtém-se o adiamento da de Jean-Claude Brisseau. Uma universitária julga o filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni “misógino” e “inaceitável”. À luz desse revisionismo, John Ford (The prisoner of the desert) e até mesmo Nicolas Poussin (L’enlèvement des sabines) estão ameaçados.

Já há editores nos pedindo a algumas de nós que façamos nossos personagens masculinos menos “sexistas”, que falemos de sexualidade e de amor com menos desenvoltura ou ainda que tornemos mais evidentes os “traumatismos sofridos pelos personagens femininos”!

Ruwen Ogien defendia a liberdade de ofender como indispensável à criação artística. Do mesmo modo, defendemos a liberdade de importunar como indispensável à liberdade sexual. Estamos hoje suficientemente informados para reconhecer que o impulso sexual é, por natureza, ofensivo e selvagem, mas também somos suficientemente clarividentes para não confundirmos uma abordagem desajeitada com uma agressão sexual. Acima de tudo, estamos conscientes de que a pessoa humana não é monolítica: uma mulher pode, no mesmo dia, liderar uma equipe profissional e ter prazer em se tornar o objeto sexual de um homem, sem ser nem uma vagabunda nem uma vil cúmplice do patriarcado. Ela pode cuidar para que o seu salário seja igual ao de um homem e considerar que sofrer uma esfregadela no metrô não é o resultado de uma agressividade incontida, mas a expressão de grande miséria sexual, ou mesmo de coisa alguma. À beira do ridículo, um projeto de lei na Suécia quer impor um consentimento explicitamente notificado a qualquer candidato a uma relação sexual! Mais um pouco e cada adulto que queira dormir com outro deverá previamente consultar, através de determinados aplicativos de seus celulares, a lista de atos sexuais aceitos pelo seu parceiro (ou parceira) e a de atos rejeitados por ele (ou por ela).

Enquanto mulheres, não nos reconhecemos nesse feminismo que, além de denunciar de abusos de poder, assume a feição de um ódio aos homens e à sexualidade. Acreditamos que a liberdade de dizer “não” a uma proposta sexual não existe sem a liberdade de incomodar. E consideramos que, para reagir a essa liberdade de incomodar, não é necessário fazer o papel de vítima.

Para aquelas de nós que escolheram ter filhos, consideramos que é mais sábio educar nossas filhas de modo que estejam suficientemente informadas e conscientes para poderem viver plenamente suas vidas sem se deixarem intimidar ou culpabilizar. Os acidentes que podem tocar o corpo de uma mulher não atingem necessariamente sua dignidade e não devem, por mais difíceis que às vezes sejam, necessariamente fazer dela uma vítima perpétua.  Pois não somos redutíveis a nossos corpos. Nossa liberdade interior é inviolável. E essa liberdade que prezamos não existe sem riscos e responsabilidades.

Um comentário:

bea disse...

Sabe o que eu acho? Que se se fizer um cavalo de batalha de qualquer dos dois lados, a coisa dá para o torto. Porque cada um deles, na sua origem, tem razão e está certo. Mas a multidão opinativa desvirtua e empobrece. E por mim, encerro o assunto.