19.1.18

Constantinos Caváfis: "Desde as nove": trad. José Paulo Paes



Desde as nove

Nove e vinte. Passou depressa o tempo
desde as nove, quando acendi a lâmpada
e me sentei aqui. Fiquei sentado sem ler
e sem falar. Com quem falar
se estou sozinho nesta casa?

A imagem do meu corpo jovem,
desde as nove, quando acendi a lâmpada,
veio rondar-me, veio me lembrar
de quartos fechados cheios de perfume
e de prazeres idos – que prazeres audazes!
Pôs-me também diante dos olhos
ruas que ora se me tornaram estranhas,
locais cheios de rumor que se findaram,
e cafés e teatros que existiram outrora.

A imagem do meu corpo jovem
veio rondar-me, trazer-me coisas tristes:
lutos de família, afastamentos,
as saudades dos meus, saudades
de mortos tão pouco lamentados.




CAVÁFIS, Constantinos. "Desde as nove". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986.

Um comentário:

bea disse...

vinte minutos de lembranças.