26.5.15

Olavo Bilac: "Vanitas"





Vanitas

Cego, em febre a cabeça, a mão nervosa e fria,
Trabalha. A alma lhe sai da pena, alucinada,
E enche-lhe, a palpitar, a estrofe iluminada
De gritos de triunfo e gritos de agonia.

Prende a ideia fugaz; doma a rima bravia;
Trabalha... E a obra, por fim, resplandece acabada;
“Mundo que as minhas mãos arrancaram do nada!
“Filha do meu trabalho, ergue-te à luz do dia!

“Cheia da minha febre e da minha alma cheia,
“Arranquei-te da vida ao ádito profundo,
“Arranquei-te do amor à mina ampla e secreta!

“Posso agora morrer, porque vives!” E o Poeta
Pensa que vai cair, exausto, ao pé de um mundo,
E cai – vaidade humana! –  ao pé de um grão de areia...



BILAC, Olavo. "Vanitas". In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (org.). Panorama da poesia brasileira, vol.III: Parnasianismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.

Um comentário:

Andrea Almeida Campos disse...

Soneto metaparnasiano... O poeta, como Fídias, sua sobre o mármore da palavra na busca da inscrição de si no tempo... Mas o poema, como a escultura, por mais perfeitos, diz-nos o poeta, são tão somente grãos de areia... A vaidade do artista por permanência, através de suas obras, é inútil e vã? Passam milênios, as contemplamos, passam-se séculos e agora a lemos. Passaremos nós, seremos grão. Elas ficarão.