19.6.13

Fernando Pinto do Amaral: "Voz"








Voz




Nada sabes.     Saberás cada vez menos

o que ainda procuras

outro corpo     uma alma

suspensa no abismo ou nada disso

apenas uma luz

apenas uma voz ou simplesmente

palavras

à espera de outra voz que por acaso

seja de novo a tua.





AMARAL, Fernando Pinto do. Paliativos. Lisboa: Língua Morta, 2012

4 comentários:

Nobile José disse...

tanta coisa acontecendo nas ruas, q não tive como esquecer desse trecho do poema do drummond q amo. abrçs!

Nosso Tempo

I
Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

Nobile José disse...

cicero,

em vista dos últimos acontecimentos, vc não acha q o não-partido já é um partido?

ou seja, essa manifestação acéfala, na verdade, não estaria a defender de partido único, cujo pensamento único seria um a-partidarismo?

isso não é facismo?

acho esse esse negócio de expulsar os partidários um perigo!

os partidários estão sendo acuados, com medo de ir à multidão. e pq? pq são considerados inimigos.

os nazi alemães começaram exatamente assim...

democracia não pressupõe pluripartidarismo ao invés de a-partidarismo?

abrçs!

Erick Monteiro Moraes disse...

NAS ALTURAS DE UM CÉU COMPRIDO AZUL

Duro
uma pedra
Eu sou só
espera

Você é uma selva — me sufoca
com seu vestido verde deitada
sobre meu corpo:

você
mata

eu
morro.

antónio gil disse...

É de facto sempre o leitor que reergue a voz que se estatelou no papel. Grato, António Cícero pelo poema de Fernando Pinto Amaral, que muito aprecio. Saudações transatlânticas.