21.3.12

Alexandre Vidal Porto: "O Brasil não é regido pela Bíblia"




O seguinte artigo de Alexandre Vidal Porto foi publicado em 18 de março do corrente no jornal O Globo:

O Brasil não é regido pela Bíblia


A Constituição determina que o Brasil é um Estado laico e assegura liberdade religiosa para todos os cidadãos. As autoridades devem dar garantias ao culto de qualquer religião, sem, no entanto, agir em nome de nenhuma. Em uma democracia, esses princípios são importantes porque preservam o pluralismo da sociedade e protegem o pleno exercício dos direitos individuais.

Trata-se de uma conquista da civilização ocidental que se encontra ameaçada no Brasil. Hoje, fé e política parecem manter uma relação espúria, na qual princípios religiosos contaminam de forma indevida o processo legislativo nacional. Absurdamente, começa-se a achar natural que projetos de lei submetidos à Câmara dos Deputados, ainda que consonantes com os princípios da Constituição e dirigidos ao todo da população — religiosa ou não —, tenham de passar pelo crivo doutrinário das igrejas e fiquem reféns de sua sanção.

Retira-se, assim, de parcela considerável do povo brasileiro, a possibilidade de regular seus direitos constitucionais fora de preceitos bíblicos que não abraçou. Ao mesmo tempo, as lideranças religiosas assumem ares de superioridade moral e alavancam seus interesses políticos baseados em uma ideologia teocrática de exclusão, que desqualifica quem não partilha de sua fé.

Ninguém é melhor ou mais ético porque tem religião. Cada um tem o direito de escolher os princípios morais que nortearão sua vida de acordo com a sua consciência. Essa prerrogativa fundamenta os direitos individuais. Foi conquistada a duras penas, em reação, justamente, ao monopólio ideológico e religioso que, diversas vezes na história, impôs-se com resultados terríveis para a humanidade.

Ao longo dos séculos, muitas atrocidades foram cometidas em nome da Bíblia e de outros textos religiosos. Não fosse a garantia da pluralidade democrática, o mesmo deputado que vocifera contra cultos de matriz africana ou direitos reprodutivos das mulheres, poderia ter sido queimado na fogueira da Inquisição católica ou morto por apedrejamento como infiel.

O Brasil é um país diverso. E quer continuar a sê-lo. Nele, não deve haver espaço para a intolerância O Congresso não legisla apenas para quem tem religião. Tem de proteger a todos. Tentar impor uma ideologia religiosa por meio da ação legislativa desfigura nossa democracia. Os religiosos têm o direito de observar seus princípios, mas não podem impingilos ao resto da população. O Brasil não é regido pela Bíblia. Que os religiosos cultuem o que quiserem, mas que respeitem quem não pensa e não quer viver como eles.

É importante que as autoridades do governo tentem colocar em perspectiva a ação política de grupos religiosos no Brasil. O Estado brasileiro é laico e deve comportar-se como tal. Em mais de uma instância, minorias sociais têm visto seus direitos individuais virarem moeda de troca. Tolerar a intolerância pode render votos, mas não é uma forma justa de governar.


Alexandre Vidal Porto é advogado

6 comentários:

João Renato disse...

Não me lembro onde li.
Mas, independente de qual religião, todo dia eu constato:
"As pessoas mais intolerantes que eu conheço são aquelas que dizem ter Deus no coração".

Anônimo disse...

Acompanho seu blog de Belém do Pará, norte do Brasil... Fico muitíssimo feliz com a divulgação do texto do , Antonio. Agradeço por fortalecer a voz da laicidade no meu país.
Sérgio Ferreira

Anônimo disse...

Acompanho seu blog de Belém do Pará, norte do Brasil... Fico muitíssimo feliz com a divulgação do texto do , Antonio. Agradeço por fortalecer a voz da laicidade no meu país.
Sérgio Ferreira

Gabriel F. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
rodrigo tomé disse...

Parabéns pelo blog. Sou poeta, sou brasileiro, e também a favor da defesa da laicidade de nosso país. Não podemos tolerar que, em nome da fé, se criem políticas de exclusão.

Abraço!

fred girauta disse...

É necessário que mais vozes se levantem contra essa invasão da religião em certas áreas. Como é possível que o ensino religioso seja ministrado nas escolas públicas do Rio de Janeiro sem que ninguém se manifeste contra o que me parece uma óbvia inconstitucionalidade