9.2.12

Rainer Maria Rilke: "Das Lied des Selbstmörders" / "A canção do suicida": tradução de Augusto de Campos




A canção do suicida

É sempre assim: no último momento
alguém vem e me corta
a corda.
Há pouco era tão intenso o meu intento
que eu já sentia o infinito nos
intestinos.

Uma colher me é estendida,
a colher da vida.
Não, já cheguei ao limite.
Permitam-me que eu me vomite.

Sei que a vida é boa e grande
e o mundo tem beleza à bessa,
mas ela não entra no meu sangue,
apenas sobe à minha cabeça.

A outros ela nutre, a mim só me afeta.
Creiam, a nem todos ela apraz.
Agora, por mil anos ou mais
vou precisar de uma dieta.



Das Lied des Selbstmörders

Also noch einen Augenblick.
Daß sie mir immer wieder den Strick
zerschneiden.
Neulich war ich so gut bereit,
und es war schon ein wenig Ewigkeit
in meinen Eingeweiden.

Halten sie mir den Löffel her,
diesen Löffel Leben.
Nein ich will und ich will nicht mehr,
laßt mich mich übergeben.

Ich weiß, das Leben ist gar und gut,
und die Welt ist ein voller Topf,
aber mir geht es nicht ins Blut,
mir steigt es nur zu Kopf.

Andere nährt es, mich macht es krank;
begreift, daß man's verschmäht.
Mindestens ein Jahrtausend lang
brauch ich jetzt Diät.




RILKE, Rainer Maria. "Das Lied des selbstmörders" / "A canção do suicida". trad. Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto. Coisas e anjos de Rilke. São Paulo: Perspectiva, 2007.

7 comentários:

FTB disse...

Por que será que a tradução preferiu "a bessa" à "a beça"?

Nobile José disse...

cicero,

a grande ironia, acho eu, é que os poetas marginais-vicerais talvez quisessem muito atingir algo parecido com esse poema. talvez tenha-lhes faltado sair da cena, quem sabe?
enfim, esse e o do drummond me deixaram, literalmente, sem palavras.
abrçs.

João Renato disse...

Não conhecia o poema, até porque conheço muito pouco de Rilke.
Mas, e não sei se é devido à recriação do Augusto, nunca imaginaria que um poema sobre o suicídio, com esse humor, seria de Rilke.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

belo! Grato por compartilhar!


Abraço forte,
Adriano Nunes

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Um poema meu:


"O poema" - Para Ferreira Gullar


O poema é
Essa sala de estar
Onde - desafiando o
Infinito -
Umas às outras, as palavras
Passam a se conhecer
Perigosamente melhor.


Abraço forte,
Adriano Nunes

karina rabinovitz disse...

poxa, que poema incrível.

Lohan Lage Pignone disse...

Falar sobre o suicídio com tal humor ácido não é para qualquer poeta. Rilke me conquista cada vez mais.

Abraços!
Lohan.