14.10.11

Machado de Assis: "Spinoza"




Spinoza

Gosto de ver-te, grave e solitário,
Sob o fumo de esquálida candeia,
Nas mãos a ferramenta de operário,
E na cabeça a coruscante idéia.

E enquanto o pensamento delineia
Uma filosofia, o pão diário
A tua mão a labutar granjeia
E achas na independência o teu salário.

Soem cá fora agitações e lutas,
Sibile o bafo aspérrimo do inverno,
Tu trabalhas, tu pensas, e executas

Sóbrio, tranqüilo, desvelado e terno,
A lei comum, e morres, e transmutas
O suado labor no prêmio eterno.



MACHADO DE ASSIS. "Ocidentais". In:_____Obras completas, vol.3. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973.

10 comentários:

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Ai, tanta coisa boa por aqui que sempre retorno ao teu espaço...

Antonio Cicero disse...

Obrigado, Maíra. Volte sempre!
Abraço

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Perfeito! Que homenagem belíssima! Salve Machado de Assis! Salve Spinoza!


Abraço forte,
Adriano Nunes.

Claudia Almeida disse...

Cícero,

A dor escrava não passa, grande poema
Salve Spinoza!

Bjs

karina rabinovitz disse...

passei pra dizer que me emociono muito com "os ilhéus", musicado por zé miguel wisnik. obrigada!

Antonio Cicero disse...

Obrigado eu, Karina!

leninha2009 disse...

Antonio Cicero

Tenho sido amante de poesia desde minha adolescência. Por essa razão, cheguei ao seu blog. Além dos textos sobre poesia e poemas, gostei muito dos textos sobre filosofia ( outra paixão minha) e política. Admiro a forma clara, concisa, sóbria e elegante com a qual você transmite suas idéias.
Os meus poetas preferidos em língua portuguesa são: Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Vinícius de Moraes ( poemas e poemas/letras de música), Cláudia Roquette-Pinto e os seus poemas (poemas e poemas/letras de música).
Em outros idiomas – leio inglês, espanhol e um pouco de francês – meus autores preferidos são: Rilke, Paul Celan, Dylan Thomas, Walt Whitman, Rimbaud e Baudelaire.
Encontrei no blog, postado em maio/2008, sua entrevista a Mônica Serrano para a revista Filosofia. Você respondeu a última pergunta sobre seus projetos, então, atuais: “... e escrever um livro sobre poesia... O livro sobre poesia, porém, será uma obra sistemática. Direi tudo o que sei – ou penso que sei – sobre o assunto: sobre as formas poéticas, sobre a leitura de poemas, sobre a vanguarda, sobre letras de música, sobre métrica,sobre recursos paranomásticos, etc."
Você já publicou o livro sobre poesia? Eu perdi o lançamento? Se você ainda não publicou, eu estarei no primeiro lugar, na hora zero, da fila para adquirir o livro. (rsrs...)
Last but not least. Você não é músico, não toca nenhum instrumento, nem canta? Eu te ouvi lendo seus poemas e de outros autores em uma roda de poesia. E você “canta” os poemas lindamente!

Abraços

Sirlene Ballier

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Um poema meu:

‎"calabouço"

ou so o
pou so
espectro perverso
lou co
pre so no
calabouço do arcabouço
do esboço sol to
do si abs orto
vou
desvendando o

fundo do poço
re pouso
silêncio fosco
ar risco um voo
um rabisco torto
um por
to dos
mortos
o eco pétreo
que responde?

pouco a pouco
o ver so
tudo con som e
som sombra osso
nome
sonho e
some
a musa já vai longe
grita o outro
mas não o ouço.

Abração,
Adriano Nunes

Antonio Cicero disse...

Sirlene,

Obrigado pelas palavras gentis.

O livro se transformou num livro sobre "A poesia e a filosofia". Já o entreguei à editora. Não sei ainda se o vão publicar ainda este ano ou no próximo.

Abraço

Elizabeth Manja disse...

Olá Cicero, como vai?

Sou aluna da Pós-graduação da UERJ,Semestre passado tive aula com você na especialização de Literatura Brasileira,conversamos sobre Fernando Pessoa no intervalo, cujo foi tema dessa sua aula de poesia. Aproveito a oportunidade para dizer que me foi muito esclarecedora.

Belísssima homenagem a Spinoza!!
Curiosamente, estou também fazendo Pós em Filosofia e lendo exatamente Spinoza, me ocorreu imediatamente ao ler seu post um questionamento. Teria Machado conseguido alcançar o terceiro gênero, ao criar e inventar o novo, o rígido, de acordo com a ciência intuitiva em conformidade com o pensamento de Spinoza, e alcançado a liberdade por meio da sua arte?

Abraços