1.8.10
Friedrich Nietzsche: "O cristão comum"
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O cristão comum. -- Se o cristianismo tivesse razão em suas teses acerca de um Deus vingador, da pecaminosidade universal, da predestinação e do perigo de uma danação eterna, seria um indício de imbecilidade e falta de caráter não se tornar padre, apóstolo ou eremita e trabalhar, com temor e tremor, unicamente pela própria salvação; pois seria absurdo perder assim o benefício eterno, em troca de comodidade temporal. Supondo que se creia realmente nessas coisas, o cristão comum é uma figura deplorável, um ser que não sabe contar até três, e que, justamente por sua incapacidade mental, não mereceria ser punido tão duramente quanto promete o cristianismo.
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
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19 comments:
Estas afirmações de Nietzsche - uma vez passei uma noite sem dormir por ter lido um dos seus livros - só são verdadeiramente bons, dizia Vergílio Ferreira, os livros que nos 'incomodam',mexendo connosco - vão, em parte, ao encontro do livro e, sobretudo, do que ele afirmou em entrevistas sobre o livro, Caim sobre o Deus do Antigo Testamento...
(note-se: foi o último livro de saramago e, por sinal, achei-o menos bom que muitos outros dele)
[rs]
Mas quem disse isso, também disse:
"A NECESSIDADE DO ILÓGICO. - Entre as coisas que podem levar um pensador ao desespero está o conhecimento de que o ilógico é necessário aos homens e que do ilógico nasce muita coisa boa. Ele se acha tão firmemente alojado nas paixões humanas, na linguagem, na arte, na religião, em tudo o que empresta valor à vida, que não podemos extraí-lo sem danificar irremediavelmente essas belas coisas. Apenas os homens muito ingênuos podem acreditar que a natureza humana pode ser transformada numa natureza puramente lógica; mas, se houvesse graus de aproximação a essa meta, o que não se haveria de perder nesse caminho! Mesmo o homem mais racional precisa, de tempo em tempo, novamente da natureza, isto é, de sua ILÓGICA RELAÇÃO FUNDAMENTAL COM TODAS AS COISAS."
NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Trad. de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
Aetano
Filho e neto de pastores, Nietzsche estava mais preocupado com o Cristianismo do que as pessoas normais.Desde o século 18 que nenhum pensador sério dá bola para religião.
Não vejo como escapar a essa "lógica" nietzscheana.
O valor do ilógico, creio eu, Aetano, se aplica a "tudo o que empresta valor à vida" o que não é o caso dessas características do pensamento cristão, tão bem pontuadas por Nietzsche.
O fato de não conseguirmos, às vezes, estabelecer uma relação lógica com as coisas não significa sucumbir à imbecilidade.
abraços!
Aetano,
tanto o que Nietzsche diz aqui quanto o que diz sobre o cristianismo é verdadeiro. Essa afirmação sobre o lugar do ilógico é perfeitamente lógica. E ele não está -- nesse texto -- dizendo que só há lugar para o ilógico.
Abraço
Caro Anônimo,
você está inteiramente errado; a menos que Kant, Fichte, Hegel, Schelling, Kierkegaard, Feuerbach, Marx, Freud, Heidegger, Wittgenstein etc. -- isto é, os maiores pensadores ocidentais -- não sejam sérios, para você...
Caro Cícero,
É você que está errado. Todos esses viam a religião como fenômeno sociológico ou ideológico e nenhum deles, salvo Kierkegaard e Heidegger (se você considera os dois sérios, essa é uma opção sua), assinavam cartas dizendo ser “Jesus, o salvador”, ou querendo ser Deus, percebe a diferença? Pegue um lápis e copie todo o capítulo três da “Destruição da Razão”, livro que o Sr. não conhece por que acreditou em Adorno.
Há vários problemas nesse trecho de Nietzsche. Para o cristianismo, Deus não é vingador, mas misericordioso. No catolicismo e na ortodoxia não há predestinação. Além disso, ninguém se salva sozinho. O cristão comum, enfim, não é mais burro ou inteligente que ninguém. E ninguém vive totalmente de acordo com o que acredita, uma vez que ideais são o que são. Mas se acreditasse mesmo na doutrina cristã, decerto o cristão comum não ficaria maluco. edg
Ok, ok, Nietzsche está certo... Mas precisava escrever com tanta afetação?
Dostoievski vai mais longe nas sacadas e além do mais o estilo é beeeeem menos grosseiro.
Caro Cícero, vou explorar sua inteligência e benevolência: a palavra alemã "Schuld" traduz a grega "amartia"? Em português, "estar em falta" não tem o peso da "culpa", ou tem? Fui educado por marxistas-lacanianos, que curtem uma falta e deploram a culpa, estou confuso. Abs.
Nome: Maíra Barbosa
E-mail: mairabarbosa43@yahoo.com.br
Cidade: leme do prado
Estado: MG
Mensagem: Tenho 18 anos, sou estudante de Ciências Econômicas, ganhei a metade da bolsa pelo PROUNI, sou apaixonada por ciência, economia, literatura, informação e tecnologia. Eu gostaria de pedir que me enviassem títulos concedidos como cortesia, gosto muito de ler, leio todos os gêneros e ficaria muito agradecida se me ajudarem. Meu endereço: Nome: Maíra Barbosa, endereço Rua Rafael de Souza, s/n, Acauã, Leme do Prado-MG Cep 39655-000.
Obrigada!
Nietzshe sempre me inquieta. A barganha no cristianismo é algo incontestável. O conformismo é recompensando em outra vida. Cômodo, não? O inferno são os outros? Sartre tinha razão.
Caro Anônimo,
Houve um mal entendido. Só não lhe peço desculpas porque acho que, em parte, a culpa é sua. É que a frase “desde o século 18 que nenhum pensador sério dá bola para religião” é ambígua. A impressão que me deu foi que você estava afirmando que, desde o século 18, nenhum pensador sério fala de religião: o que seria errado. Mas vejo que você queria dizer que, desde o século 18, nenhum pensador sério leva a sério as pretensões religiosas. Observo que mesmo isso não é inteiramente verdadeiro, pois Schelling, por exemplo, levava-as muito a sério; de certo modo, Hegel também levava a sério as pretensões cristãs, por ele reinterpretadas; mas você não teria estado inteiramente errado.
Quanto à minha leitura de Lukacs, você está errado mesmo. Li-o muito bem, antes de ler Adorno. Sempre achei importante a análise do irracionalismo alemão que se encontra em “A destruição da razão”. Mas isso não quer dizer que concorde com todas as suas teses. Considero Heidegger um pensador sério, sim, apesar de seus erros teóricos e morais, como digo no artigo “Heidegger e o nazismo” (http://antoniocicero.blogspot.com/2010/02/heidegger-e-o-nazismo.html).
Na realidade, são todos cristãos de uma certa forma, o que para o bem ou para o mal vivem pensando as suas vidas no e pelo cristianismo.
o cristianismo, levado tão a sério por tantos, tem muito de piada de mau gosto. não é, na minha opinião, a religião do amor; mesmo jesus perdoava apenas aquele que se arrependesse em vida.
o advento do purgatório é bem posterior: foi criado no pontificado de gregório I (sec. VI) e institucionalizado quase mil anos mais tarde, no concílio de florença.
portanto, levando-se em conta que para o cristianismo o homem é eterno, a possibilidade de perdão residiria numa fração infinitesimal de nossa existência. e, sem perdão, resta-nos a danação irrevogável do inferno! como vc mesmo falou, cicero, um sofrimento inimaginável (que nem o pior oficial da gestapo ou da ss poderia conceber), uma "sessão ad infinitum" de tortura chinesa...
para mim o cristianismo tem muitíssimo de hipocrisia, de mornidão intelectual, subserviência e medo. além, é claro, de mistificar a dor e desmoralizar o corpo.
o verdadeiro amor não pode ser condicionado ao terror, a não ser a pior modalidade possível de amor: o interesseiro.
e que perdão é esse cuja "vigência" se reduz a um fiapo temporal na vida de "seres eternos"?
o deus cristão (e os deuses em geral) são maneiristas, lábeis, geniosos, intolerantes e, o pior!, mais megalomaníacos do que o elvis ou o michael jackson juntos. "amai-me, ou..."
isso é amor ou terror?
EX MACHINA
"e o meu anjo da guarda quedou-se de mãos postas no desejo insatisfeito de Deus."
manuel bandeira
me desculpa, geraldo carneiro,
entrar assim (a pontapés)
em poema alheio,
mas se deus é crupiê
do acaso, como dizes, tem
seu tanto de escroque
bem mais pleno:
deus (esse deus que
me ensinaram, ao menos)
é também cafetão de almas,
é também traficante
de tempo.
***
ps- bruno cava, dostoiéviski era cristão (um "ortodoxo heterodoxo", meio como tolstói, mas cristão); nietzsche repudiava o cristianismo.
portanto, acho que as "sacadas" (como vc diz) de dostoiévski não podem ser comparadas às marretadas de nietzsche.
ps2 - acho que o luques tem razão. essa ambiguidade parece algo nevrálgico na mentalidade moderna: a destruição e a reconstrução de ideias cristãs, a repulsa e a atração, a crítica e a mesmerização. penso no rimbaud de "une saison en enfer": avanços e recuos; num momento o paganismo, no outro a incapacidade de ultrapassar o evangelho...
Por que você tem horror aos irracionalistas (segundo seu julgamento) Zizek e Badiou e considera o irracionalista Heidegger um "pensador sério" e cita outro irracionalista, Nietzsche? Afinal, não são todos inimigos da razão?
Em tempo: Parabéns pela elegante entrevista.
Anônimo,
Heidegger e Nietzsche nos instigam a pensar de modo mais original, complexo e profundo sobre, entre outras coisas, a própria razão. Badiou e Zizek não são filósofos de verdade, mas cínicos prestidigitadores midiáticos, nos quais não é possível apontar um pingo de pensamento original, complexo ou profundo. Os primeiros são o irracionalismo enquanto tragédia; os segundos, enquanto farsa.
Obrigado pelo elogio à entrevista.
Acho que concordo e discordo do Nietzsche que martela a religião, pois é impossível que uma avaliação minimamente crítica não deplore o caráter covarde e subserviente que se mistura aos ritos do poder que está na base de qualquer instituição religiosa.Mas também,para o que seja religiosidade, acho que vai uma distância infinita entre as formas reificadas de religião e a experiência seminal que pode legitimar alguns de seus princípios.
ntendo seus motivos, mas você condena dois irracionalistas de esquerda e aceita, ainda que com restrições, dois de direita. Zizek e Badion são dois hilários radicais de boutique, mas com Nietzsche e Heidegger a coisa é muito mais séria. De Heidegger não há mais nada a falar: era nazista até os ossos e nunca viu motivo para mudar de opinião. Em relação a Nietzsche, é como você diz na sua entrevista, o livro de Domenico Losurdo vai trazer muito choro e ranger de dentes. Conclusão, não seria mais prático empurrar os quatro para o lugar úmido e pouco asseado de onde vieram?
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