1.1.10

Gottfried Benn: "Ein Wort" / "Palavra": transcriação de Antonio Cicero




Palavra

Palavra, frase: um signo embala
com súbito sentido a vida,
o sol detém-se, o céu se cala
e tudo adquire uma medida.

Palavra, chispa, voo, clarão
e rastros de astros no céu;
e torna o breu, a imensidão
e em meio ao nada o mundo e eu.






Ein Wort

Ein Wort, ein Satz –: Aus Chiffern steigen
erkanntes Leben, jäher Sinn,
die Sonne steht, die Sphären schweigen
und alles ballt sich zu ihm hin.

Ein Wort –. ein Glanz, ein Flug, ein Feuer,
ein Flammenwurf, ein Sternenstrich –,
und wieder Dunkel, ungeheuer,
im leeren Raum um Welt und Ich.


BENN, Gottfried. Gedichte in der Fassung der Erstdrucke. Frankfurt am Main: Fischer Verlag, 1982.


Para ouvir o poema em alemão:

17 comentários:

Angela disse...

Ahnn gosto de ouvir poemas assim bem ditos.Ganham a dimensão sonora, tão tão bonita.
Obrigada, Cícero!
Seja Feliz neste ano.

Anônimo disse...

2010 com aurora sublime !
Mariano.

João Renato disse...

Caro Cícero,
Duas leituras tão bonitas e tão diferentes.
Abraço,
JR.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


O Ano começou maravilhoso! Que dádiva! Grato!

Um poema:

"Esperanças pesam e calham"


Passa o dia. Pela janela,
Vejo a rua. Vai-se a vontade
De viver. Nesse itinerário,
Cada passo dado é pirraça,

Mas não há nada pra fazer
A não ser esses versos tristes.
Tudo é sem volta. O paradeiro
Dos meus sonhos quem saberá?

O amor vagueia desatento
Feito o sangue dentro das veias.
Por onde quer ir, nunca pode -
Segue o percurso permitido.

Entre as dúvidas, o desejo
Cobra tudo. Apenas o tédio
Tem acesso livre à rotina,
Arruinando todo momento.

Ah! As infinitas lembranças
De quando o porvir era prova,
Grande angústia, realidade,
Pega-pega, pelada, pipa!

Meu coração não mais aguenta
Essa convulsão na memória,
Esse retrato impressionista,
Esse filme sem fim feliz.

Por que traz tanto tormento
Esse dia que passa? Evito
Observar aqueas pessoas
Que passeiam. Seres aflitos,

Máquinas, bichos, pensamentos:
Tudo é sem vez. Quantos ruídos,
Vozes, corre-corre, ilusões!
Estou mesmo preso a tal dia -

É véspera de um ano novo
E, talvez, outra jamais haja.
Preciso-me apressar! Agora
Onde estão todos meus amigos,

Minha família, a velha câmera,
O vinho, o champanhe barato,
Aquele abraço, aquela carta
Guardada no armário, minh'alma?

Tudo é pranto! O tempo parou
Em frente à rua. Que prazer
Invade-me subitamente
Fazendo-me crer no impossível!

Resgato-me do esconderijo,
Do meu quarto. Agarro-me ao mundo
Num só flerte, a todos os fios
Das Parcas. O destino vem

À tona: as roupas, os sapatos,
Âmago, relógio, perfume,
Planos, pressa, promessa, paz,
Poemas, perdões e pecados.

Sou eu! Sim, sou eu! Não há sobras
Do que ficou pra trás. Somente
Esperanças pesam e calham
Enquanto decido por mim.

As horas se tocam com força,
Conduzem-me à felicidade.
Compartilho com todos isso:
Ouvem-no? Meu coração bate!



Grande abraço,
Adriano Nunes.

Antonio Cicero disse...

Adriano,

parabéns pelo belo poema.

Abraço

Tene Cheba. disse...

Poeta é coisa engraçada,
Lua, praia e tempo,
mais, montanhas, ventos e,
mais praias, mais Luas, mais tempo.
Quem me dera entender,
sua metafísica, filosofia,
captações, estranhas captações.
Para que serve a alma?
O íntimo, o inservível, o obsoleto?
Se no vácuo a ternura do frio,
no vácuo, almas frias.
Mundo quente, preenchido,
inesperanças ou outras formas de vida.
Quem me dera entender o poeta.
Mais ultrajante e sem sentido,
mais bruto, feio, mais existente.
A Lua que compreendo, que capto como astro,
simples Lua para mim,
nem as marés me entortam,
nem tão esbelto eu sou.
Tem também estrelas, que olhava,
nas noites nuas, nas minhas ruas,
quando o Sol residual, queimava as nuvens,
e o céu límpido, seduzia os meus olhos.
Não entendo os poetas,
seres esquisitos, falsos corpos,
ambulantes, parecem vagantes,
parados.
Entendem de pontes, de ruas,
folhas e jardins.
Seres desconexos, sim, poetas,
seres, de pessoas, de cruzes,
com bandeiras, e mais bela musa,
no ardor daquela Cecília,
que chorava por aquela Lua.
Poeta que não rima com dor.

Alcione disse...

Segundo

A palavra lavra
Seu coração
Lavra a palavra
E além de mim
A sua geração
Lavra palavra
Que nem sei de nada
A não ser da emoção
Verdade que invade
Num segundo um turbilhão.

Jefferson Bessa disse...

Palavra:

clarão e

breu.

O último verso é lindo, lindo!
Adoro ouvir esses poemas!

Um abraço.


Jefferson

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Outro poema. O ano mal começou e eu estou parecendo uma máquina compondo! rsrsrsr! Nem sei o que tanto me invade - se alegrias ou tristezas - mas estou gostando porque capto todas essas vibrações e transformo o mundo ( ao menos, o meu) em Poesia!

"Cantada"

Entre o medo e o desejo,
Tudo que mais almejo:
O jogo perigoso
Do amor, o sol manhoso

Do sonho. Em convulsão,
Algo no coração
Quase nos intimida.
Não será mesmo a vida

Disso que nos invade,
Que dizem ser saudade?
Não haverá depois
Nada. Apenas nós dois.


Grande abraço,
Adriano Nunes.


P.s.: fico até meio envergonhado de ficar mandando tantos poemas... mas sei que você me conhece... eu não ficaria feliz se não os enviasse. Obrigado pelo espaço!

Arthur Nogueira disse...

Querido Cicero,

uma joia a tradução. E sua leitura é o máximo. Voltando pra casa, nada melhor que vir aqui e ler/ouvir tão belo post. Feliz 2010.

A propósito, o post me lembrou um poema seu, creio que inédito, chamado "Palavras aladas" (é isso?), que o ouvi recitar em um vídeo. Lindos.

Beijo.

Antonio Cicero disse...

Adriano,

ao invés de se envergonhar, você deve se orgulhar.

Abraço

[Dan...]' disse...

No meu inverno, as palavras de Antônio (o Cícero) são puro estio.



Coisa de louco que busca no outro a sensatez.


www.versosecreto.blogspot.com

FTB disse...

Heidegger devia gostar desse poema de Benn, não acha?
Um abraço e ótimo 2010,
Flavio.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Um poema pra você:

"Numa caixa d'osso" - Para Antonio Cicero.


O cérebro pensa
Estar sobre tudo
E, mesmo mudo,
Plena onisciência,

Planalto no nada.
A deus-eixo preso,
Entre mil cabelos
E vertebral Atlas,

Numa caixa d'osso,
O cérebro sente
Ser só. Diferente-
Mente, do pescoço

Pra baixo, um liame
Faz-se pelos órgãos
Vassalos-pagãos
E ninguém reclame

Do caos das sinapses:
Um amor perdido,
Os versos no olvido
Do trilhar do lápis.




Grande abraço,
Adriano Nunes.

J Alexandre Sartorelli disse...

Belo exemplo da difícil arte de ser fiel traindo :o)

Mando a minha humilde
Palavra

Uma palavra basta
E não é aquela.
Uma palavra gasta
Que não se revela.

É tão difícil encontrá-la
E é tão fácil perdê-la.
Eu a tive de tarde
Antes da lua e estrelas.

Bianca disse...

Que bela tradução!Lembrando as palavras de João Alexandre Barbosa, em As ilusões da modernidade: "A conversa entre textos de poetas diferentes acentua a urgencia da busca pela linguagem capaz de articular espaços diversos". Seria interessante se vc pudesse comentar esse primeiro capitulo de Barbosa.
Agradeço muito pelo poema!

Pedro L. Cuadrado disse...

Como já não é possível ouvir o poema nesse vídeo, deixo aqui outro.


https://m.youtube.com/watch?v=NseoOaa7KCA