20.7.09

Salgado Maranhão: Recensão de "Letras e letras da MPB", de Charles Perrone

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Recensão, pelo poeta Salgado Maranhão, da 2ª edição revisada de Letras e letras da MPB, de Charles Perrone (Rio de Janeiro: Booklink, 2008), com apresentação de Augusto de Campos.


Cada um no seu quadrado?


Mais de uma vez já se disse que a letra de música carece de escora melódica para se realizar. Poucas agüentam a solidão da página em branco. Quanto ao poema, trabalha com economia de palavras e nem sempre se ajusta à melodia. Não é qualquer bom poema que se rende à canção. Portanto, cada forma de expressão tem sua autonomia, mas as duas convivem muito bem, cada uma em seu viés.

Claro que isso não diz tudo, principalmente quando se trata da canção popular do Brasil: num país herdeiro de uma remota tradição da palavra cantada – onde até poetas renomados no mundo das letras se misturam aos cantores do povo -- tudo pode acontecer. É o que nos mostra o excelente Letras e Letras da MPB, do professor Charles Perrone, que sai pela editora Booklink, em segunda edição revista, após mais de 20 anos da primeira tiragem.

Não se trata de uma obra de estrangeiro deslumbrado com o exotismo de nossos artistas. Em seu trabalho, o autor demonstra uma enorme intimidade com o melhor da nossa música e das nossas letras. Dele nos diz o poeta Augusto de Campos, que assina a quarta capa do livro: “Mais de 20 anos de contato, pessoal e por correspondência, me fizeram conhecer de perto o prof. Charles A. Perrone, da universidade da florida, e apaixonado da cultura brasileira . Com a vantagem estratégica de uma perspectiva exterior e do conhecimento amplo das nossas duas áreas artísticas, a musical e a poética, ...”

No entanto o tema já é, por si só, um grande vespeiro entre nós – pelas paixões e discussões que suscita. Mas, embora a abordagem correta - sem hierarquizações de gêneros - seja um grande desafio, o prof. Perrone, soube dissecar com maestria suas virtudes específicas: “ Uma letra pode ser um belo poema mesmo tendo sido destinada a ser cantada. Mas é em primeiro lugar, um texto integrado a uma composição musical, e os julgamentos básicos devem ser calcados na audição para incluir a dimensão sonora no âmbito da análise . Contudo, se, independente da música, o texto de uma canção for literariamente rico, não há nenhuma razão para não se considerarem seus méritos literários.”

Não é de hoje que as letras, na musica brasileira, se destacam pela poeticidade . Nas primeiras décadas do século 20, quando a Semana de 22 (com Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira, principalmente, ) ainda tentava nos desatrelar do academicismo da poesia parnasiana, letristas como Noel Rosa, João de Barro e Orestes Barbosa já traziam o coloquialismo da fala das ruas em suas canções .Esses autores e os das décadas seguintes, formaram elos com a bossa nova, e até com o tropicalismo que, turbinados por múltiplas influências, carregavam não apenas a explosão do talento criador, mas, além disso, uma viva consciência critica. As canções desse período são o objeto de estudo do professor Perrone.

Sua análise, como não poderia deixar ser, começa por Vinicius de Morais, que deu maturidade à letra de música, elevando-a a um status que ela jamais teve . A inserção desse poeta no mundo da canção popular estabeleceu um verdadeiro paradigma -- por sua origem de puro sangue da poesia culta . A partir dele, ninguém ousaria discutir critério de qualidade. Porém a maior reflexão do livro se destina aos poetas da Tropicália que, ancorados no legado da Poesia Concreta, imprimiram à palavra cantada um toque de invenção e de manifesto . E é o próprio Caetano Veloso quem fala sobre isso: “Havia um ponto em que concordávamos plenamente : era preciso um aprofundamento em nossos recursos técnicos de modo que nossa comunicação não ficasse prejudicada por deficiências ou ignorâncias “ .

Até a Bossa Nova, a temática das canções era basicamente o amor romântico - salvo um Sérgio Ricardo, e, por vezes, Carlos Lyra ; ou ainda, eventualmente, uma ou outra letra do Vinicius ou dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle. Com os poetas tropicalistas ( Caetano, Torquato, Gil e Capinam ), o mundo salta para dentro das músicas . Os temas amorosos não são rejeitados, mas a eles se incorporam outros vasos comunicantes, como a cultura de massas, a arte pop e a poesia de vanguarda . Isso vai influenciar até mesmo Chico Buarque (vide Construção ) que segue um viés mais apegado à raíz do samba.

Na década de 70, era chique ser letrista. E até já se podia viver disso. Além dos autores já citados, firmou-se uma nova geração do primeiríssimo time, tais como : Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Ronaldo Bastos, Abel Silva, Fernando Brant, Sergio Natureza, Antonio Cicero, entre tantos outros.

Porém um dos principais méritos de Letras e Letras da MPB é, sem dúvida, nos apresentar as trocas e interconecções dos letristas com a chamada “poesia séria”. E o movimento da Poesia Marginal nasceu, justamente, dessa simbiose .O certo é que, independente de preconceitos e preferências, fica valendo a máxima de Murilo Mendes : “A poesia sopra onde quer”...


Texto publicado no caderno "Ideias", do Jornal do Brasil, sábado, 9 de maio de 2009.

13 comentários:

Robson Ribeiro disse...

Olá, Antonio Cícero!

Belo texto.

Em nosso país, sempre existirão letristas poetas, sempre...

Grande abraço!

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Perfeito! Vamos correr atrás do livro!


Abração,
Adriano Nunes.

Anônimo disse...

Cicero,

Obrigado pela postagem ,valeu !
No fim de semana fiquei lendo suas postagens antigas , foi tão bom...
Abraço ,
Ricardo Soutto Maior

Mariano disse...

Prezado A. Cicero,
Eu li a primeira edição desse livro (editora Elo, 1988). É um livro interessante, mas é vinculado ao que se cunhou como MPB, contemplando os letristas a partir da década de 60. Os textos sobre Jorge Mautner e Walter Franco são bacanas.
O livro do Affonso Romano de Sant'Anna (Música Popular e Moderna Poesia Brasileira, 1976, reeditado em 2004) aborda os letristas a partir da década de 20, chegando aos Tropicalistas e a Chico Buarque, e tem também um bom texto sobre os Secos e Molhados.
Boas leituras complementares.
Abraço.

susannah disse...

Não creio que a letra da canção seja poesia em 100% dos casos. Mas acredito na poesia existente em muitas das letras de canções de nossa MPB, que se sustentam sem a melodia. Eis talvez o que mostre a autonomia da letra, sua poeticidade, independentemente da música que a acompanha.

Blog-Editor disse...

Olá amigo escritor!

Ao meu ver, poema legítimo não requer melodia, nem voz... Apenas palavras (poucas) escritas e os olhos do leitor (de preferência, fechados como em oração).

Um abraço!

Marcelo Soriano citando Yo_Hoy
http://www.twitter.com/Yo_Hoy

fred girauta disse...

Essas fronteiras estão cada vez mais rarefeitas. Prova disso é a seleção de letras/poemas do Caetano publicada pelo poeta Eucanaã Ferraz (Letra Só).
Há inúmeros compositores cujas "letras" tem toda uma configuração técnica de poesia, como Itamar assumpção, por exemplo.

paulinho disse...

que maravilha a notícia, cicero!

vou comprar o livro correndo!

também divulgarei esse texto. acho importante que o maior número de pessoas saiba da reedição do livro.

obrigado por tudo, viu?

você, como sempre, arrebentando em suas postagens!

beijo gostoso!

susannah disse...

Alguém sabe onde encontrar o livro? Procurei na Livraria Cultura, Fnac e Saraiva sem sucesso; acusam a edição de 1998 que está esgotada. Se alguém souber, conta pra gente!

Anônimo disse...

Cicero,

minha dica para quem desejar o livro é direto com charles Perron:
para aqueles que não estiverem no Brasil, o livro pode ser adquirido atravês de SUSAN BACH Distribuidora ou entre em contato comigo direto.
Email :perrone@ufl.edu

Abraço,
Ricardo Soutto Maior

Lupo Lobato disse...

Quando a poesia deixou de ser cantada?
A Ilíada e a Odisséia sao letras de musica, certo?

Álvaro Andrade disse...

Dia desses eu tava pensando: por quê essa coisa toda da página em branco? é como se fosse ela o lugar ideal pro poema acontecer. mas não é, não é verdade? um poema não deve ser livre para projetar-se a partir do meio que lhe tratar melhor? do meio em que a simbiose seja mais perfeita? então o silêncio da página em branco não é mais assustador que o barulho da melodia. se o poema (letra) só funciona cantado, é que este nada mais é que seu meio melhor. um suporte não pode ser considerado o ideal, ou isso irá de encontro ao que a poesia é, essa falta de definição (paradoxo isto mesmo ser uma. ainda bem que a poesia n rejeita paradoxos). Acho que assim fica bom. Essas classificações só servem pra criar uma hierarquia reducionista, quando se compara, ao meu ver, farinha do mesmo saco.

Charles A. Perrone disse...

Olá amigos. Só agora dei-me conta que tinha comentários. O livreco e' da empresa
www.booklink.com.br
Em livraria: Kosmos do Rio, Loja Bossa Nova, ou na Modern Sound aas vezes.
Grato.