10.2.09

Eugénio de Andrade: "O sal da língua"

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O SAL DA LÍNGUA

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.



De: Eugénio de Andrade. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

13 comentários:

Mésmero disse...

Esses Andrades...

Rafael Velasquez disse...

eugénio.

Arthur Nogueira disse...

Querido Cicero,

Esse poema é belíssimo, adoro. Andava saudoso de suas postagens.

Beijo grande,

A.

robertovbn disse...

amo

Alcione disse...

Na paisagem
Em meio ao perfume
De rosas no ar
Sinto, na encruzilhada,
Lá pras bandas da Chapada
O vértice do abismo aonde cismo,
Em cima, os ramos,
Retorcidos
Sugerem os contornos
Magia da forma inesperada.

João Soares disse...

Ah, que maravilha descobrir um excelente autor, caro Cícero e seu blogue! E logo na minha primeira visita ao seu blogue, encontrar um profundo poema de Eugénio de Andrade.
Um abraço desde Portugal.
Voltarei

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

O sal mais doce e lindo!
O meu mais novo poema:

"ANGÚSTIA"


Essas são horas difíceis:
Esperar tudo passar
Como se nunca passasse,
Um ir-e-vir, revoltado,
De reviravoltas vis,
De angústias antecipadas
Dentro do vácuo do quarto,
Dissecando minhas vidas,
Abrindo e fechando frestas
Em minh'alma, pra sentir
O presente dissolvido
Nos meus insólitos sonhos.


Depois, tudo permanece
Sempre dentro dos limites
Do tempo: não se liberta
Do acaso do pensamento.


Abraço forte!
Adriano Nunes.

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Mais umpoema novo:

"UM POEMA" (Para Isabel Santos)


Um poema muito pode
Do impossível ao possível,
Do improvável ao provável,
Do impensável ao pensável.
Quase sempre imprevisível,
É sem vidas, é sem morte.
Um poema não tem tempo.


Um poema é sem lugar.
Vem do vento, vem das nuvens,
Vem da poeira da estrada,
Vem de tudo, vem de nada,
Não se sabe como vem,
Move-se, só, sem parar.
Brilha fora, grita dentro!

Heitor disse...

Como se pronuncia Wittgenstein? E Maldoror (dos Cantos, de Lautréamont)

Domingos da Mota disse...

Rumor     a Eugénio de Andrade

Servias o silênciodecantado numcálice le luz,sílaba a sílaba:
rumor quasenu, agasalhadocom duas, trêspalavras em
surdina: brevescomo as aves: livres,roucas desceram por aía debicar: poisaram
nos meus olhose na boca:mas prestes a subire a voar.

Domingos da Mota

Domingos da Mota disse...

Caro poeta Antonio Cícero,Agradeço muito que tenha colocado o meu comentário-poema Rumor, que dediquei a Eugénio de Andrade e a cujo poema o Eugénio respondeu com o seu As sete bicas, que mais tarde publicou no  livro Pequeno Formato (e que está incuído na sua Poesia). Só lamento que o meu poema tenha saído tão desfigurado em termos gráficos. Daí que a todos os que o queiram ler,como poema, podem fazê-lo no meu blogue http://fogomaduro.blogspot.com/
Obrigado pela sua gentileza. Sou um apreciador da sua poesia, e de muitos outros poetas brasileiros (felizmente que a editora Quasi tem ultimamente publicado aqui em Portugal alguns dos seus livros).Peço desculpa a si e aos leitores por esta minha insistência, mas o Eugénio de Andrade merece ser tratado sem estes erros (até nos comentários, e de que certamente o único culpado sou eu).As minhas saudações poéticas,Domingos da Mota

Antonio Cicero disse...

Caro Domingos da Mota,

Como já hoje postei o poema do Eucanaã Ferraz, postarei amanhã o poema "Rumor" no portal deste blog, para que apareça comme il faut. Enquanto isso, reitero a sua recomendação para que os leitores se dirijam ao http://fogomaduro.blogspot.com/.

Abraço

Janaina Amado disse...

Adoro o Eugénio de Andrade, obrigada pelo post.