25.3.08

Arthur Rimbaud: Venus Anadiomène

Em comentário aos "Quatro sonetos a Afrodite Anadiómea" de Jorge de Sena, Homo Antiquus citou o soneto "Venus Anadyomène", de Rimbaud. Ei-lo, seguido da tradução de Ivo Barroso:


Venus Anadyomène

Comme d’un cercueil vert en fer blanc, une tête
De femme à cheveux bruns fortement pommadés
D’une vieille baignoire émerge, lente et bête,
Avec des déficits assez mal ravaudés;

Puis le col gras et gris, les larges omoplates
Qui saillent; le dos court qui rentre et qui ressort;
Puis les rondeurs des reins semblent prendre l’essor;
La graisse sous la peau paraît en feuilles plates:

L’échine est un peu rouge, et le tout sent un goût
Horrible étrangement; on remarque surtout
Des singularités qu’il faut voir à la loupe…

Les reins portent deux mots gravés: CLARA VENUS;
—Et tout ce corps remue et tend sa large croupe
Belle hideusement d’un ulcère à l’anus.




Vênus Anadiomene

Qual de um verde caixão de zinco, uma cabeça
Morena de mulher, cabelos emplastados,
Surge de uma banheira antiga, vaga e avessa,
Com déficits que estão a custo retocados.

Brota após grossa e gorda a nuca, as omoplatas
Anchas; o dorso curto ora sobe ora desce;
Depois a redondez do lombo é que aparece;
A banha sob a carne espraia em placas chatas;

A espinha é um tanto rósea, e o todo tem um ar
Horrendo estranhamente; há, no mais, que notar
Pormenores que são de examinar-se à lupa...

Nas nádegas gravou dois nomes: Clara Vênus;
-- E o corpo inteiro agita e estende a ampla garupa
Com a bela hediondez de uma úlcera no ânus.



De: RIMBAUD, Arthur. Poesia completa. Edição biligue. tradução de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994.

Obs.: A edição citada conta com excelentes notas explicativas.

4 comentários:

Homo antiquus disse...

Caro A. Cícero,
a tradução que tenho é a do Augusto de Campos, no livro Rimbaud Livre, 2002, ed. perspectiva, também bilíngue, que na verdade está mais para uma transcriação, inclusive com uma sutil troca de ; por ... que parece denunciar a intenção do tradutor.
Agora, o mais espantoso é saber que o poema foi escrito por um adolescente (provavelmente entre 15 e 17 anos). Será que aqui o infante visionário assumiu a persona de um ancião misógino e fanopaico?
Abraço.

Elisa Kozlowsky disse...

Rimbaud era genial com as palavras e péssimo com as imagens. Genial?

Nina Maniçoba Ferraz disse...

Oi, gosto muito desse poema, embora fique um tanto desconfortável com o tratamento "inapetente" (risos) do poeta `a figura feminina.
Queria fazer uma pergunta: acho a tradução do Augusto de Campos ligeiramente inferior `a esta no quesito prosódia, você também? Obrigada, beijo Nina

Antonio Cicero disse...

Nina,

gosto da tradução do Augusto também. Acho a duas boas. Para se sincero, não percebo essa superioridade prosódica que você atribui à tradução do Ivo.

Beijo