2.12.07

A poesia escrita

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da Folha de São Paulo sábado, 1 de Dezembro de 2007:


A poesia escrita

EM REVISTAS e sítios de literatura, tenho lido textos que se queixam do estado atual da poesia. É verdade que, em todas as épocas, houve quem desprezasse os poemas que não seguissem os modelos tradicionais ou que não se distinguissem pela pátina do tempo. Contudo, as queixas a que me refiro não são exatamente dessa natureza.

O que se lamenta é, antes, que a poesia não pareça mais possuir o prestígio cultural de que já desfrutou um dia. Alega-se, por exemplo, que poema algum é capaz de ter, no mundo contemporâneo, um impacto comparável ao que determinados filmes, discos e concertos de rock têm.

Nem sempre coincidem os diagnósticos propostos, nem, conseqüentemente, as terapias para essa pretensa anemia poética. Alguns pensam que a poesia perdeu sua importância porque -tendo-se esquecido de que era originalmente articulada à fala e ao corpo- deixou-se confinar à escrita. O remédio, neste caso, seria, em última análise, que o poeta se tornasse o performer dos seus próprios poemas.

Outros, reintroduzindo, com nova terminologia, o velho e compreensível ressentimento contra as torres de marfim, julgam que a poesia se tornou irrelevante porque, tendo perdido contato real com as outras artes e, de maneira geral, com a realidade contemporânea, tornou-se incapaz de produzir formas dotadas de atualidade. O remédio, neste caso, seria, em última análise, que o poeta, fazendo questão de se imbuir no seu contexto cultural, refletisse no seu trabalho uma tomada de posição em relação a ele.

No fundo, as duas posições me parecem derivar da dificuldade desses autores de lidar com a exigência extrema e singular que a poesia escrita impõe não somente ao poeta, mas ao leitor.

De fato, na poesia oral primária, como na de Homero, o que o bardo recitava ou cantava era ligado à presença, à voz, à dicção, aos movimentos corporais dele. As palavras, a música e a dança se unificavam na sua figura. Algo do que ele recitava era repetição de coisas que já havia dito, algo era novo, e não havia nem há meio de se saber o que era antigo e o que era novo. Cunhou-se para essa situação a expressão "composition in performance" (composição durante a performance). Isso quer dizer que a produção e o consumo do poema são simultâneos. Hoje, o que lembra um pouco isso é o jazz, por um lado, e o flamenco, por outro.

De fato, a escrita rompe essa unidade oral. Quem lê um poema não precisa sequer saber quem o compôs. A criação é uma coisa e a apreciação, outra, separadas temporal e espacialmente: posso, por exemplo, apreciar um poema escrito em Roma, no século 2, em latim. Não interessam mais a voz, a dicção, o canto, os movimentos do corpo, a dança, a figura do poeta. É, em primeiro lugar, a voz interna do leitor que agora lê o poema.

O que interessa são as palavras e os sintagmas de que o poema se compõe: seus sentidos, sua sonoridade, seu ritmo, suas relações paronomásicas, suas aliterações, suas rimas, seus assíndetos, as relações icônicas que estabelecem... E o poema é lido, relido e comparado e contrastado, em princípio, com todos os poemas que se tornaram canônicos e com todos os poemas que o leitor conhece.

O poema é agora um objeto de arte, como uma pintura. Para apreciá-lo plenamente -como para apreciar plenamente uma pintura-, temos que lhe dedicar o nosso tempo, convocando e deixando que interajam uns com os outros todos os recursos de que dispomos: intelecto, experiência, emoção, sensibilidade, sensualidade, intuição, senso de humor etc.

Quanto melhor o poema, mais dos nossos recursos são por ele atualizados: e essa atualização mesma é a recompensa estética que ele nos oferece. Podemos dizer, portanto, que é o grau de poesia de um objeto, e não o seu grau de contemporaneidade, a verdadeira medida da atualidade que ele nos proporciona.

Para quem desse modo aprecia a poesia escrita, ela não perdeu nem um pingo do seu prestígio cultural nem do seu impacto. É verdade que a leitura de poemas não é popular como grande parte dos filmes, discos e concertos de rock, entre outras coisas. E por que teria de ser? Mesmo a maior parte das pessoas cultas raramente -e talvez nunca- queira fazer o esforço que a leitura de um poema exige. Mas por que seriam obrigadas a tal?

Há, de fato, tantos grandes filmes, discos e concertos de rock... Os poetas escrevem, em primeiro lugar, para aqueles que, como eles, acham incomparável o prazer proporcionado pela leitura de um grande poema.

15 comentários:

Aldemar Norek disse...

Cícero, tudo bem?
uma das discussões que presenciei recentemente é a que propõe uma "nova estética" para os poemas, estética derivada da velocidade que a internet proporciona (por um lado) e exige (por outro). Seria então este "novo poema" um poema curto, conciso e impactante. Sempre desconfiei, como você tão bem colocou aqui, de que a poesia exige um tempo diferente, um tempo que não se condiciona à velocidade da mão que controla o mouse. E infelizmente talvez poesia (impressa) seja realmente uma coisa para poucos.
Grande abraço

sappho disse...

Cicero,

Engraçado você comentar sobre bardos em seu texto. Foi exatamente o que me veio à mente lendo os primeiros parágrafos. Quando penso nesse "problema" que parece existir, também chego à mesma conclusão que você: poemas exigem paciência, exigem o momento certo para lê-los, exigem interesse. E talvez por isso seja tão difícil criar leitores de poesias no colégio. Ler um poema porque você foi forçado a fazê-lo faz com que ele pareça um monte de palavras difíceis, jogadas ao acaso de certa forma, unicamente para seguir uma métrica. Isto é: o poeta não tinha mais o que fazer e decidiu comprimir um texto de dez páginas em cinco estrofes e obviamente é por isso que ele não faz sentido algum para mim, quando eu o leio com a vontade que teria de ler uma bula de remédio - é o que pensam os alunos.
Talvez a solução, ou pelo menos um paliativo, seria a disseminação de festivais como o britânico "Beyond the Border" (http://www.beyondtheborder.com/), que levasse o espectador às origens da poesia, que é justamente a arte performista, bárdica ou não. É fato que a experiência visual/auditiva é mais fácil de ser absorvida, mas talvez tendo feita essa conexão com a poesia, fosse gerada uma curiosidade de aproximação e avaliação.

Tenho um poema que escrevi pretendendo ilustrar algumas dessas idéias, como a dificuldade de um poema e ao mesmo tempo sua recompensa - como uma mídia única e valiosa. Também tento expressar a necessidade de reler, e buscar entender um poema:

8:50pm - 19/03/02

não sou capaz de dividir-me como pessoa, fernando
nem enquadrar-me e ao que estou cantando
nem quero a todos ditar meus bárdicos versos
pois se há um ar imponente, os prefiro submersos

que não mergulhem em outra época e ao achá-los
ponham-se gloriosos e triunfantes a recitá-los
e encará-los como o zurzir de uma nova era
pois sons agudos são o rufar da minha quimera

eras novas não existem
mas de "outros olhos" é que consistem
a idéia da revolução
é tudo uma primitiva concepção

leia-me, ou não
jogue no lixo, mas não no chão
não espero que todos me aceitem
mas que ao menos do modo certo me rejeitem

agora sim, volte ao início
e cuide para não cair no vício
o que era novo, só parecia
lê a diferença, e aprecia.


Priscila Zanuzzo

SANDRO ORNELLAS disse...

Cícero,
comparar a poesia para ser lida com a poesia para ser ouvida-vista seria o mesmo que comparar o mundo moderno ao mundo "tradicional", que ainda é vivo, mas não necessariamente compartilha dos valores modernos vigentes. Poderíamos, sim, pensar no que de "tradicional" ainda permanece nas práticas culturais de pessoas modernas, urbanas, escolarizadas, cultas, etc. A força da música no Brasil talvez desse alguma pista.
Por outra lado, quando leio ou ouço falarem da perda de prestígio da poesia eu me pergunto se ela já teve prestígio desde que começou a ser prioritariamente escrita e consumida por uma minoria letrada (alfabetização universal como valor é muito recente). Sempre houve poetas com prestígio, mas não a poesia. Ela é um mito do mundo moderno: necessária à sociedade, mas sem utilidade objetiva, reconhecida, mas sem prestígio.
Pelo menos, eu acho.
Grande abraço,
Sandro

Léo disse...

poesia

são palavras

mais humanas

mais nervosas

amorosas

mais raivosas

são palavras

mais insanas

mais bonitas

verdadeiras

de mentira

são palavras

tudo pode

são palavras

homens santos

são palavras

minha mãe

Otávio disse...

Olá,
é lugar comum o fato de que quem lê poesia é quem escreve, mas será que devemos nos conformar com isso?
Ora, se um poeta gosta de outro, é suspeito. Penso que um bom poema deveria ser bom o suficiente para atrair o leigo. Pois não seriam muitos "poetas" leigos, antes de se interessarem pela coisa?
Obrigado e abraço.

héber sales disse...

Cicero,

Eu ando pensando nessas coisas também. E inconformado. Porque o ensino fundamental parece estar desperdiçando uma grande oportunidade de formar leitores de poesia. Conheço vários garotos e garotas, pré-vestibulandos, completamente iludidos sobre o que seja poesia. Não entendem o jogo poético. Sim, refiro-me ao lado lúdico da poesia, à montagem do quebra-cabeça que os poemas nos propõem. Talvez usar poemas mais ligados ao dia a dia deles ajude-os a pegar o espírito da coisa. Poemas como este do Chico Alvim:

PARQUE

É bom
mas
é muito misturado

E é um poema curto, o que ajuda, porque a maioria de nossas crianças não herdam hábitos de leitura e estão entretidas demais para se concentrar em textos mais longos. A princípio, porque a idéia seria ir aumentando a carga, como se faz com um atleta em desenvolvimento.

Faz sentido?

Um abraço.

Antonio Cicero disse...

Caro Héber,
Faz sentido sim. Parece-me uma ótima idéia.
Abraço,
Antonio Cicero

héber sales disse...

Pois é, caro Cícero, o senso comum no Brasil ainda vê a poesia como coisa sentimentalóide e rebuscada, e não como um jogo de caça ao sentido (ou de re-criação de sentidos e do mundo?).

Meus alunos no curso de marketing, leitores muito eventuais de poesia, surpreendem-se com poemas como o que eu citei acima. Alguns chegam a dizer "isso? não é poesia!". Mas acham divertido. E dá o que pensar. E dá o que discutir.

Eu tenho uma tendência a julgar os marginais e seus herdeiros como a melhor introdução à poesia para os jovens de hoje (sem falar na poesia que pode haver em alguma música popular).

Um abraço e feliz natal.

Héber Sales

héber sales disse...

Caro Cicero,

Não apenas li o resumo do teu livro "Finalidades sem fim" como também todos os textos sob o marcador "Poesia" aqui no teu blog. Aproveito esta postagem mais recente sobre o assunto para colocar algumas dúvidas e reflexões minhas.

Tua posição é clara, extremamente bem pensada, defendida, e me leva a enxergar a poesia de uma perspectiva diferente. Estimula-me também a questionar se a especificidade do poema reside tão somente no fato de que o poema seja "o feito", ou, como defendes no livro mencionado acima: "um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada". Permita-me esclarecer minha desconfiança a partir de dois exemplos concretos.

Um dia desses, eu convidei minha irmã para passear num parque recém reformado. Ela respondeu que não iria. Eu insisti: "vamos lá, o parque está lindo". Ela replicou: "mas é muito misturado". Lembrei-me na hora do poema PARQUE, do Francisco Alvim, o qual até já citei aqui, num comentário anterior: "É bom / mas / é muito misturado". Ora, onde está a diferença entre a réplica da minha irmã e o poema citado? Eles seriam diferentes simplesmente porque, no poema, a frase "mas é muito misturado" é destacada de qualquer contexto específico e esvaziada de toda finalidade prática ou cognitiva? Não seria também porque, no poema, a frase é apresentada como poesia por um poeta que, na sua construção, recorre a recursos considerados típicos do gênero (os versos, um título claramente destacado antes deles, sua publicação num livro ou revista literária, etc.)?

Veja só o fato dos ditados populares. Enquanto textos prontos e acabados, eles parecem compartilhar com a poesia muitas das especificidades desta: 1) neles também não se separa O QUE se diz da forma COMO se diz; 2) daí serem igualmente resistentes à paráfrase e à tradução; 3) além disso, eles são entesouráveis, ou seja, são um patrimônio da língua (não sofrem de descartabilidade).

A meu ver, a única diferença entre os ditados e os poemas seria que, ao contrário destes, os ditados costumam ser usados com uma finalidade cognitiva ou prática. Mas essa distinção poderia ser anulada, e um ditado elevado à condição de poema, caso ele fosse apresentado como objeto sem função específica por uma pessoa socialmente autorizada para tal: ou seja, se um poeta apresentar um ditado como poema, quem irá dizer que não o é, especialmente se o autor usar padrões reconhecidamente poéticos? (Por exemplo: "ATAVISMO. Cada macaco/ no seu galho"). Será que, no final das contas, poesia não seria simplesmente aquilo que os poetas dizem ser poesia?

A julgar pelo que escreveste na tua coluna da Folha de São Paulo em 16/06/2006, a resposta a essa pergunta seria sim? "Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas na página e diz que é um poema, quem provará o contrário?".

Será que entendi bem a tua tese?

Um abraço,

Héber Sales

Antonio Cicero disse...

Caro Héber,

seu e-mail é muito interessante, mas exige uma resposta elaborada que, infelizmente, não posso dar agora, pois me encontro de viagem e com meu tempo todo tomado. Mas, assim que eu voltar, sexta-feira, você terá uma resposta.

Grande abraço,
Antonio Cicero

Antonio Cicero disse...

Caro Héber,
Acabei demorando mais do que pensava para poder voltar a escrever para o blog. Andei muito atolado em trabalho, desde o começo da semana passada. Agora melhorou um pouquinho.
Suas observações são pertinentes. Entretanto, o resumo que você leu não foi do livro “Finalidades sem fim”, mas de um dos ensaios – o que se intitula “Poesia e filosofia” – desse livro. A rigor, não se trata sequer de um resumo, mas de uma colagem de dois excertos desse ensaio. Ele dá, por isso, uma visão fragmentada do que penso. Mesmo assim, você percebeu coisas importantes.
Você observa que caracterizo o poema como “um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada”. De fato, para mim, essa é uma das descrições que chegam mais perto de determinar o que é um poema, SEM A UTILIZAÇÃO DE QUALQUER JUÍZO DE VALOR. Entretanto, não creio que seja possível determinar totalmente o que é um poema sem a utilização de juízos de valor. Adiante voltarei a isto.
A frase de sua irmã pode ser igual à do poema do Chico Alvim, mas tem uma função utilitária. A mesma frase, retirada de todo contexto utilitário ou cognitivo, pode ser considerada como um poema. Numa revista literária, mesmo sem versos ou título (como os poemas concretos) ela é considerada como poema: mas o que uma revista literária faz é exatamente retirá-la de qualquer contexto utilitário ou cognitivo e apresentá-la à apreciação estética. O mesmo ocorre, naturalmente, quando Duchamp retira um urinol do seu contexto utilitário ou cognitivo e o expõe num museu: ele passa a ser considerado como obra de arte.
Examinemos bem o que eu disse: retirado do seu contexto utilitário ou cognitivo, um objeto (que pode ser verbal, como no caso de um poema) passa a ser CONSIDERADO como se considera uma obra de arte. Será que isso quer dizer que ele já é, então, uma obra de arte? Não necessariamente. Eu posso olhar para um pretenso poema numa revista – isto é, um texto que pede para ser considerado como um poema – e dizer: isso não é um poema; é uma bobagem. E se esse juízo se generalizar, é provável que o pretenso poema seja esquecido, que acabe sendo, realmente, considerado apenas uma bobagem por todo o mundo, e que não chegue a ser visto como obra de arte.
O que ocorre é que não é possível determinar de modo puramente descritivo se algo é um poema ou não. Para determinar se algo é um poema, entra em jogo, além da descrição que dei acima (“um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada”), algo que pode ser objeto de discussão, mas não pode ser objeto de prova. Refiro-me a um juízo de valor. Além de ser “um objeto artificial de caráter formal desprovido de qualquer função determinada”, um poema é um objeto que consideramos valer por si, sem necessidade de justificativa ulterior: um objeto ao qual damos valor, sem que tenhamos nenhum interesse ulterior na existência dele.
Entretanto, quando digo que um texto é um poema, ou que é um poema bom, não estou dizendo meramente que gosto dele, mas que todo o mundo que o considere desinteressadamente DEVE reconhecer que se trata de um poema. Se não fosse assim, valeria aqui o ditado “gosto não se discute”. Ora, todo o mundo sabe que o que mais se discute é gosto, quando se refere a obras de arte. Por outro lado, se digo “eu gosto de abacate”, não pretendo o mesmo. Não acho que todo o mundo que seja despreconceituoso DEVA gostar de abacate. É aqui que vale o ditado “gosto não se discute”.
Mas quando é que uma obra de arte vale por si? Quando ela mobiliza, vitaliza e faz interagirem as nossas faculdades, as nossas capacidades, os nossos recursos. Quando ela nos atrai e nos faz pensar nela com vários dos recursos de que dispomos: inteligência, razão, cultura, sensibilidade, sensualidade, emoção, senso de humor etc. Está justamente na provocação e na mobilização dos nossos recursos o valor dela. Um poema que não faça nada disso, ou que o faça muito pouco, não é bom, ou mesmo não é um poema.
Você dirá que, nesse caso, cada um decide o que é um poema, de modo que caímos num relativismo total. Contudo, a verdade é que não é isso o que ocorre. Há, sem dúvida, muita discussão sobre determinados textos. Mas essas discussões mesmas mostram que há alguns terrenos em comum entre os que dela participam. Não se pode provar por a + b que tal texto seja um grande poema, mas milhões de páginas têm sido escritas, há séculos, para argumentar que tais ou quais textos são (ou não são) grandes poemas. Com o tempo, alguns textos acabam sendo reconhecidos QUASE universalmente como clássicos ou canônicos. São textos que entraram para a língua.
Sobre isso, quero comentar outra observação sua, que pode ajudar a compreender o que quero dizer. Você menciona os ditados populares. Tem razão. Os gregos arcaicos, que ainda não empregavam a escrita, como Homero, usavam a mesma palavra – epos – para denominar poema épico, palavra, ditado, gnoma, canção curta etc. [Falo disso no ensaio “Epos e mythos em Homero”]. O que tinham essas coisas todas em comum? Elas eram memorizadas e, por isso, reiteráveis, ao contrário das falas cotidianas: elas faziam, por isso, parte da língua. Por que eram memorizadas? Com exceção, é claro, dos poemas e das canções, essas coisas eram memorizadas porque se considerava que tinham uma função utilitária na língua. Quem decidia? Ninguém em particular e todo o mundo em geral. Quem decide, ainda hoje se um sintagma qualquer entra para a língua? Ninguém em particular e todo o mundo em geral. Eu posso resolver inventar uma palavra nova e defini-la. Ela pode parecer muito com as outras palavras. Entretanto, não sou eu nem ninguém em particular quem decide se ela vai ser uma palavra ou não, mas o fato de que ela “pegue”: de que seja, em geral, usada como uma palavra. O mesmo ocorre com um ditado.
Pois um poema entra para a língua quando se considera, QUASE universalmente, que ele vale por si.

Abraço,
Antonio Cicero

héber sales disse...

Caro Cicero,

Valeu a pena esperar. Os detalhes discutidos por você neste comentário fizeram muito sentido para mim.

Chegamos a um ponto que muito me interessa: o juízo de valor como elemento necessário para se avaliar o que é um bom poema.

Longe de ser algo totalmente arbitrário ou relativo, como aliás você demonstrou claramente, esse elemento é intrínseco a toda atividade cultural. Porque, a meu ver, a arte é a vanguarda de toda cultura, aquele ponto em que ela questiona seu imaginário e expande-o. Nestes termos, não poderíamos mesmo deixar de exigir da arte que ela seja capaz de mobilizar o máximo dos nossos recursos.

O próprio amontoar de discussões em torno de um poema ao longo do tempo pode ser visto como uma evidência de seu poder de arregimentar a imaginação e a razão da humanidade. A longo prazo, salvo algum acidente de percurso muito excepcional, os bons textos se impõem mesmo que alguns deles sofram pesado cerco político e/ou ideológico.

Um dia desses eu lia sobre a longa quarentena imposta ao Bruno Tolentino pelos irmãos Campos depois que ele criticou duramente a tradução de um poema de Hart Crane pelo Augusto de Campos. Não teve jeito. A poesia de Tolentino acabou se impondo, e, creio eu, ninguém hoje, até mesmo quem não gosto do estilo dele, ignora a excelência do seu trabalho artístico.

No mais, eu vou é correndo comprar teu livro para lê-lo de cabo a rabo.

Grande abraço,
Héber Sales

héber sales disse...

Caro Cicero,

Teu livro "Finalidades sem fim" é mesmo fantástico. Não me lembro de ter lido algo tão instigante ultimamente.

Primeiro, porque descortina um horizonte muito amplo para o poema: a definição de poema, nos termos em que tu escreves no livro, força-nos a penetrar no território do sublime e do indizível de maneira direta, sem que confundamos os meios (formas/modelos poéticas) com fim (provocar o livre jogo entre as faculdades do conhecimento).

A propósito, esta formulação do poético me fez lembrar de como Jorge Luis Borges define poesia no primeiro ensaio de seu livro "Esse Ofício do Verso": a poesia é "uma ocasião para a beleza" (ou, como escrevi em meu blog há algum tempo ao refletir sobre essa: poesia, "um pré-texto para a imaginação").

Pois bem, quero te dizer também que o teu conceito de poema é tão largo que me deixa até confuso quanto às fronteiras tradicionalmente estabelecidas entre os gêneros. Note, não quero dizer com isso que estejas errado. Pelo contrário, desconfio que provocar tal confusão seja mesmo a maior virtude do livro e, quem sabe, até o teu propósito ao escrevê-lo. Não duvido.

Mas gostaria de confirmar tal possibilidade a partir de mais um caso concreto: a prosa de Guimarães Rosa. Por que não considerá-la poema, uma vez que ela possui em alto grau aquela virtude maior dos poemas (ser o mais escrito dos escritos)? Se não, vejamos:

1) na prosa do autor mineiro, não se pode separar significante de significado (o que ela diz não pode ser separado do modo como ela diz, ou, como escreves em outra passagem do teu livro: o seu valor não é dado pelo que pode dizer, mas pela forma como diz);

2) é, portanto, fixa e fechada (naquela escala que vai dos documentos aos monumentos, poderia ser classificada certamente neste extremo);

3) evidência disto é que resiste tremendamente à tradução (o que me parece mesmo impossível);

4) também não é parafraseável;

5) não sofre de descartabilidade;

6) não tem valor-verdade;

7) é um objeto artificial desprovido de função (sem causa final, portanto);

8) e, como tal, provoca extremamente a nossa imaginação;

A respeito do primeiro desses pontos, eu gostaria de acrescentar o seguinte: que eu noto uma aproximação muito grande entre esse teu conceito de poema e a teoria de Jakobson (autor que, de fato, é bastante citado ao longo do livro, mas não especificamente no trecho que estou a comentar aqui). Refiro-me à tua tese de que o valor do poema não é dado pelo que ele possa dizer de alguma coisa, mas pela forma como ele o diz: nele não se pode separar significante de significado. Ora, parece-me que tu estás a dizer, em outras palavras, o mesmo que o russo afirmou, ou seja: que os textos poéticos distingue-se pelo fato de terem como principal assunto a linguagem em si (o código): mesmo quando parecem dizer alguma coisa, estão, na verdade, tratando, como assunto principal, da linguagem em si e, eu acrescentaria, do seu poder encantatório. Ora, nada me parece mais verdadeiro em relação à obra de Guimarães Rosa do que isso.

Grande abraço,
Héber Sales

Antonio Cicero disse...

Héber,

Fico muito feliz de você ter gostado do “Finalidades”. Curiosamente, ele teve mais repercussão, e obteve mais recensões e elogios em Portugal do que no Brasil. Cheguei a publicar no blog (14/06/2007) a melhor delas, na minha opinião, que foi a da escritora Inês Pedrosa. Acho que, no Brasil, o problema é que o leque de assuntos de que trata, e as abordagens pelas quais o faz, não cabem nem só nos departamentos de filosofia nem só nos departamentos de literatura das universidades, de modo que ele passa ao largo dos modismos de uns e de outros. Nesse ponto, Portugal é mais aberto.

Concordo inteiramente com você sobre as fronteiras tradicionais entre os gêneros. Como as distinções baseadas na forma se revelaram puramente convencionais, elas se tornaram fluidas para nós. Assim, você tem toda razão em relação a Guimarães Rosa, por exemplo.

Quanto a Jakobson, você o torna mais próximo quando fala do “poder encantatório” da palavra. Mas é também possível lê-lo por um viés excessivamente formalista, que não tem tanto a ver com o que penso.

Muito obrigado pelas suas observações.

Um grande abraço,
Antonio Cicero

Héber Sales disse...

Olá, meu caro

Estou voltando de mini-férias hoje. Muito obrigado pela resposta. Assim que eu tiver me arrumado por aqui, irei retomar nosso diálogo.

Grande abraço,
Héber