Longa vida
Escrevo
só
em último caso
ou como quem alcança
o último carro
como quem
por um triz
por um fio
não fica
no fim da linha
de uma estação sem flores
a ver navios
BLOG DE ANTONIO CICERO: poesia, arte, filosofia, crítica, literatura, política
Longa vida
Escrevo
só
em último caso
ou como quem alcança
o último carro
como quem
por um triz
por um fio
não fica
no fim da linha
de uma estação sem flores
a ver navios
Il porto sepolto
Mariano il 29 giugno 1916
Vi arriva il poeta
e poi torna alla luce con i suoi canti
e li disperde
Di questa poesia
mi resta
quel nulla
d’inesauribile segreto
O porto sepulto
Mariano, 29 de junho de 1916
Ali chega o poeta
e depois regressa à luz com seus cantos
e os dispersa
Desta poesia
me sobra
aquele nada
de inesgotável segredo
Mapa do novo mundo -- arquipélagos
Ao cabo desta frase, choverá
À beira-chuva, uma vela.
A vela aos poucos perderá de vista as ilhas;
A fé nos portos de uma raça inteira
sumirá na neblina.
A guerra de dez anos terminou.
O cabelo de Helena: uma nuvem grisalha.
Tróia: um fosso branco de cinzas
junto ao mar onde garoa.
A garoa se retesa como as cordas de uma harpa.
Um homem de olhos nublados toma em mãos a chuva
e tange o primeiro verso da Odisseia.
Map of the new world -- archipelagoes
At the end of this sentence, rain will begin.
At the rain's edge, a sail.
Slowly the sail will lose sight of islands;
into a mist will go the belief in harbours
of an entire race.
The ten-years war is finished.
Helen's hair, a grey cloud.
Troy, a white ashpit
by the drizzling sea.
The drizzle tightens like the strings of a harp.
A man with clouded eyes picks up the rain
and plucks the first line of the Odyssey.
WALCOTT, Derek. "Map of the new world -- archipelagoes" / "Mapa do novo mundo -- arquipélagos". Trad. por Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.
As nuvens
As nuvens são cabelos
crescendo como rios;
são os gestos brancos
da cantora muda;
são estátuas em voo
à beira de um mar;
a flora e a fauna leves
de países de vento;
são o olho pintado
escorrendo imóvel;
a mulher que se debruça
nas varandas do sono;
são a morte (a espera da)
atrás dos olhos fechados;
a medicina, branca!
nossos dias brancos.
MELO NETO, João Cabral de. "As nuvens". In: GULLAR, Ferreira (org.). O prazer do poema. Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.
Ave doída
O poeta
é aquele
ser risível
que opera,
pesa, sente,
sangra
e galopa
insano.
Dói
o espanto
e se
descoisificam
os nomes.
Como dói o espanto?
Como dói o espanto!
Como dói o espanto.
O poeta dói-dói
é essa ave doída
ridícula e ferida
que sonda
o abismo
o tempo
a vida
as ruínas
e voa
só voa só voa
só voa
SOUSA, Diego Mendes. AVE DOÍDA
Não gritai mais
Cessai de matar os mortos,
Não gritai mais, não gritai
Se quereis ainda ouvi-los,
Se esperais não perecer.
É imperceptível seu sussurro,
Não fazem rumor mais forte
Que o da relva quando cresce,
Onde não passa nenhum homem.
Non gridate più
Cessate d’uccidere i morti,
Non gridate più, non gridate
Se li volete ancora udire,
Se sperate di non perire.
Hanno l’impercettibile sussurro,
Non fanno più rumore
Del crescere dell’erba,
Lieta dove non passa l’uomo.
3
Para gozar Europa, em boi mudou-se
Jove, pelo desejo compelido,
E em mais formas bestiais, posta no olvio
A sua divindade, transformou-se.
Marte perdeu também aquele doce
Repouso a um Deus somente consentido.
Por seu muito trepar foi bem punido,
Qual rato que na rede embaraçou-se.
Este que ora mirais, em contradita,
Podendo, sem perigo, a vida interia
Trepar, a cu nem cona se habilita.
Por isso, que é sem dúvida uma asneira
Inaudita, solene, verdadeira,
Nunca mais neste mundo se repita.
Insossa brincadeira!
Pois não sabes, meu puto, que é malsão
Fazer boceta e cu da própria mão?
3
Per Europa godere in bue cangiossi
Giove, che di chiavarla avea desio,
E la sua deità posta in obblio,
In più bestiali forme trasformossi.
Marte ancor cui perdè li suoi ripossi
Che potea ben goder perchè era Dio
E di tanto chiavar pagonne il fio,
Mentre qual topo in rete pur restossi.
All'incontro costui, che qui mirate,
Che pur senza pericolo potria
Chiavar, non cura potta nè cullate.
Questa per certo è pur coglioneria
Tra le maggiori e più solennizzate
E che commessa mai al mondo sia.
Povera mercanzia!
Non lo sai tu, coglion, ch'è un gran marmotta
Colui che di sua man fa culo e potta.
ARETINO, Pietro. "Soneto 3". In: Sonetos luxuriosos. Trad. de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Record, 1981.