9.9.23

 



Lucretius: "Nequiquam..."


Nequiquam, quoniam medio de fonte leporum 

surgit amari aliquit quod in ipsis floribus angat.



Lucrécio: "Tudo é vaidade..."


Lucretius: Tudo é vaidade, já que da própria fonte do encantatamento surge uma gota de amargura para atormentar, inclusive nas próprias flores.



Lucretius: "Nequiquam..."  \ "Tudo é vaidade...", in De rerum natura, IV, 1133-4, trad. de Antonio Cicero.


2.9.23

 



Sándor Petöfi: "Abánat"


ABÁNAT?


Abánat? Egy nagy oceán,

Saz örngyeöm?

Az óceán kis gyöng ¨Talán,

Mire fölhozom össze is töröm,




Tristeza...


Tristeza é todo um vasto mar.

E a alegria?

Perolazinha que, ao tentar

trazer à tona, eu quebraria.




Petöfi, Sandor: "Abánat?" \ "Tristeza..." , trad. de Nelson Ascher in Poemas de Sándor Petöfi , org. por Zsuzanna Lazló e Eszeter Klára Dobos (São Paulo, Ed. Madamu, 2023).


28.8.23

 



Olavo Bilac: "Tédio"



Sobre minh'alma, como sobre um trono,
Senhor brutal, pesa o aborrecimento.
Como tardas em vir, último outono,
Lançar-me as folhas últimas ao vento!

Oh! dormir no silêncio e no abandono,
Só, sem um sonho, sem um pensamento,
E, no letargo do aniquilamento,
Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!

Oh! deixar de sonhar o que não vejo!
Ter o sangue gelado, e a carne fria!
E, de uma luz crepuscular velada,

Deixar a alma dormir sem um desejo,
Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia
Como uma catedral abandonada!...


BILAC, Olavo, "Tédio", in Canções (Martins Fontes, 1988)



29.7.23

Carlos Nejar: "2"

 



2


Tive tão dura existência.

Tão alma de não lembrar.

Seguro de que tal ciência 

nem serve de carregar.

Pesa demais a leveza:

o canto não morrerá.




NEJAR, Carlos, "2", in Canções (Rio de Janeiro: Garamond, 2007).

17.7.23

Marco Lucchesi: "Ah mundo"

 



Ah mundo

                                   vasto       

que se                     devasta   

                     e se condensa

de sonho

                              a sonho





Lucchesi, Marco, "Ah mundo", in Antologias ABL POESIA. Idealização e apresentação de Ana Maria Machado; organização de Domício Proença Filho e Marco Lucches (Rio de Janeiro, 2013).

11.7.23

Charles Baudelaire: "L'ennemi" / "O inimigo": trad. de Ivan Junqueira



L'Ennemi


Ma jeunesse ne fut qu’un ténébreux orage,

Traversé çà et là par de brillants soleils ;

Le tonnerre et la pluie ont fait un tel ravage,

Qu’il reste en mon jardin bien peu de fruits vermeils.

 

Voilà que j’ai touché l’automne des idées,

Et qu’il faut employer la pelle et les râteaux

Pour rassembler à neuf les terres inondées,

Où l’eau creuse des trous grands comme des tombeaux.

 

Et qui sait si les fleurs nouvelles que je rêve

Trouveront dans ce sol lavé comme une grève

Le mystique aliment qui ferait leur vigueur ?

 

– Ô douleur ! ô douleur ! Le Temps mange la vie,

Et l’obscur Ennemi qui nous ronge le cœur

Du sang que nous perdons croît et se fortifie !

 




O inimigo


A juventude não foi mais que um temporal,

Aqui e ali por sóis ardentes trespassado;

As chuvas e os trovões causaram dano tal

Que em meu pomar não resta um fruto sazonado.


Eis que alcancei o outono de meu pensamento,

E agora o ancinho e a pá se fazem necessáros

Para outra vez compor o solo lamacento,

Onde profundas covas se abrem como ossários.


E quem sabe se as flores que meu sonho ensaia

Não achem nessa gleba aguada como praia

O místico alimento que as fará radiosas?


Ó dor! O Tempo faz da vida uma carniça,

E o sombrio Inimigo que nos rói as rosas

No sangue que perdemos se enraíza e viça!


 

 


BAUDELAIRE, Charles: "L'ennemi" / "O inimigo", in As flores do mal. Trad. de Ivan Junqueira (Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1985).

 

 

 

 


7.7.23

W. B. Yeats: "The comingo of wisdom with time" / "Com o tempo a sabedoria" (trad. de José Agostinho Baptista)

 



Com o tempo a sabedoria


Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;

Ao longo dos enganadores dias da mocidade,

Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;

Agora posso murchar no coração da verdade.




The coming of wisdom with time


Though leaves are many, the root is one;

Through all the lying days of my youth

I swayed my leaves and flowers in the sun;

Now I may wither into the truth.





YEATS, W.B. "The coming of wisdom with time" / "Com o tempo a sabedoria". In: Uma antologia. Trad. de BAPTISTA, José Agostinho (Lisboa: Assírio & Alvim, 2010).