8.3.17

Inês Pedrosa: "Porque não há nada em vez de tudo?"


Publico a seguir o belo texto da conferência que a grande romancista portuguesa Inês Pedrosa pronunciou no festival literário Correntes d'Escritas em 25 de fevereiro do corrente ano. 




Tema da mesa: “Por que não há nada em vez de tudo?”
  
          O que é tudo? O que é nada? O que é em vez de? Vivemos, como assinalou Milan Kundera, no planeta da inexperiência: as nossas vidas são um rascunho contínuo, que um dia acaba. Poucos conseguem verdadeiramente fazer da certeza da morte a ciência da vida. Viver cada dia como se fosse o ultimo seria demasiado triste. Mas viver cada dia como o dia único que de facto é far-nos-ia sentir muito mais felizes do que, em geral, sabemos ser. A espécie humana é biologicamente desejante. Lembro-me daquela criança que atroava o café com a sua birra. Perguntavam-lhe o que queria: um sumo, um refrigerante, um leite com chocolate, uma água. A tudo a criança dizia que não, cada vez mais desesperada. Acabou por se explicar, gritando: «Eu quero uma coisa que não haja!».
          Todos somos aquele menino filósofo. Todos queremos uma coisa que não haja em vez das múltiplas coisas que existem. E se tivéssemos tido a sorte genética da Nicole Kidman ou do Marcelo Mastroianni? E se tivéssemos o talento e a riqueza de Tolstoi? E se eu tivesse nascido homem num país rico? O “e se” é, por si só, um tesouro, se conseguirmos apontá-lo para o futuro particular e não para o passado genérico: e se eu escrevesse um romance que captasse o não-dito do meu tempo? E se eu valorizasse o amor que tenho? E se eu fizesse alguma coisa pelos que sofrem ao meu lado? E se eu me dedicasse a corrigir uma injustiça concreta? E se eu deitasse para o lixo todos os sentimentos comparativos e me concentrasse em ser apenas, num superlativo solitário, o melhor que posso ser?    
          Os estrangeiros em turismo dizem que nos falta, demasiadas vezes, a capacidade de dar valor ao que há. Queixamo-nos quando chove, porque está frio, e quando faz sol, porque o calor é excessivo. Nunca estamos bem, e parece que esse apego ao mal-estar faz parte de nós. No entanto, raras vezes nos ocorre aproveitar essa incomodidade permanente para ir à procura de qualquer coisa que ainda não haja. Imobilizamo-nos a olhar para o que há, nas mãos de outros – e tornamo-nos estátuas falantes do ressentimento. Em alguns casos, esfolamo-nos niponicamente a trabalhar para conseguir aumentar aquilo que há – é a isso que, em geral, se chama ambição. E o que fazemos ao sonho das coisas que não há? Espero que nunca cheguemos à anorexia onírica das japonesas solteiras que passam o ano a trabalhar para gozarem a semana de férias a que têm direito nos bailes de Janeiro em Viena de Áustria, nos braços ilusórios de fantasmáticos príncipes loiros. Há agências de viagens em Tóquio especializadas nesta espécie de sonho cinderélico, que faz as vezes de desejo. Escreveu Slavoj Zizek (em Bem-vindo ao Universo do Real!): «A traição do desejo tem um nome: felicidade.»
          Neste mundo em que o hedonismo se tornou lei, as pessoas sentem-se culpadas quando não conseguem fruir o prazer – e assim morre o desejo, motor da singularidade humana. Amália Rodrigues, que sabia de desejo pelo menos tanto como Schopenhauer ou Barthes, sintetizou em meia dúzia de versos este problema político central – porque o desejo é o gatilho erótico de todas as revoluções, pessoais ou intercontinentais. Escreveu Amália (e cito): «Já não temos fome, mãe / mas já não temos também / o desejo de a não ter / Já não sabemos sonhar / Já andamos a enganar / o desejo de morrer.»
          Os condenados dos campos da morte do nazismo reuniam-se nas infectas e geladas latrinas para sussurrarem uns aos outros textos literários. Não tinham nada a não ser esse tudo das palavras que os arredavam – mais uma hora, mais um dia – do desespero da desumanização radical. Não só não é bárbaro escrever poesia depois do Holocausto, ao contrário do que afirmou Theodor Adorno, como é cada vez mais necessário escrever e ler, ter o atrevimento de pensar tudo o tempo todo, para que não renasçam das cinzas novas formulações dessa barbárie. 
          O genocídio organizado como indústria que o nazismo promoveu é ontologicamente incomparável. Significa isto que não tem equivalências, porque fazer com que uma coisa seja equivalente a outra é integrá-la, aceitá-la como possível dentro de um determinado sistema, normalizá-la. Dizer, como disse corajosamente Hannah Arendt, que os totalitarismos se afirmam através da banalização do mal não é a mesma coisa do que instituir o mal como facto banal. Temos de aprender a distinguir, pensar cada situação no seu específico contexto para não nos deixarmos cair nas areias movediças da indignação indiferenciada. É dessas areias que nascem os monstros que anestesiam e paralisam os indignados genéricos, arrastando-os para a resignação diante do mal. A intolerância que hoje sentimos rugir resulta de uma submissão à tolerância. Quando consideramos a mutilação genital feminina ou a amputação da mão de um ladrão como actos culturalmente justificados, isto é, quando nos abstemos de agir contra a existência desses actos, resguardando-nos sob o simpático guarda-chuva da tolerância, estamos a permitir a sua continuidade, ou seja, a favorecer o princípio da intolerância. O ensaio mais fulgurante que conheço sobre estas questões comparativas, fundamentais para a compreensão do estado do mundo, é o ensaio de Antonio Cicero intitulado Da Atualidade do Conceito de Civilização, onde o filósofo afirma, e cito: «a civilização está em maior grau presente onde os direitos civis sejam formalmente reconhecidos e materialmente respeitados, e na medida em que o sejam.» A razão humana, a luz do cogito de Descartes, que se identifica com a própria capacidade de duvidar é, diz-nos Antonio Cicero, o grande fundamento civilizacional – do qual continuamos tão distantes hoje, com a nossa intolerável tolerância, como há cinco séculos, com o seu reverso, a intolerável intolerância dos nossos antepassados. Ousemos olhar para lá do nosso cercado e pensar todas as coisas como se nunca tivessem sido pensadas – só a esta acção despojada e genuinamente empenhada se pode chamar pensamento. Ousemos sair do regime tenebrosamente confortável do «tudo é relativo e nada podemos fazer» para esta outra pergunta: entre o tudo e o nada, que são a vida e a morte, o que posso eu fazer?  «Chegamos ao ponto de nos alegrarmos com uma liberdade que nasce do estéril, que vem do destruído», escreveu Ignacio de Loyola Brandão, na terrível distopia de Não Verás País Nenhum, um fantástico romance do qual a realidade se aproxima sinuosa e festivamente.     

          A criança que grita para que a deixem querer uma coisa que não haja é a musa de todos os livros, a musa de todos os desejos que circulam em nós, pedindo apenas a graça de continuar em movimento, para lá da infantil desilusão das felicidades alcançadas. Essa coisa que nos fascina porque não há pode ser um átomo ou o transporte molecular, um romance, uma música, uma pintura – mas frequentemente é apenas e só a coisa que há ou julgamos haver na mão, na cabeça, na casa dos outros. Quando confinamos o absoluto do sonho ao relativo da comparação, ele deixa de ser viagem interestelar e torna-se casebre prisional. Imagino um mundo de sonhos incomparáveis, onde as estrelas fossem elementos do céu e não adereços da crítica literária jornalística, a ambição uma corrida de cada um com os seus íntimos e inalienáveis sonhos, e o sucesso a capacidade de descobrir o novo dentro do velho conhecido, isto é, a mais perfeita das artes e aquela em que nos temos mostrado mais imperfeitos – o amor.   

Inês Pedrosa

4 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


como bem dito por Inês (e já dito antes por mim!), digo também, de outra forma: o seu ensaio é espetacular! Uma obra-prima do conhecimento humano!


Beijos mil,
Adriano Nunes

Antonio Cicero disse...

Muitíssimo obrigado, querido Adriano!

Grande abraço

Anônimo disse...

Quer ler o seu ensaio, está disponível? E aqui a Amália:-)
Gracias.
Cristina Dias

Lavava no rio, lavava
Amália Rodrigues

Lavava no rio, lavava
Gelava-me o frio, gelava,
Quando ia ao rio lavar.
Passava fome, passava,
Chorava, também chorava,
Ao ver minha mãe chorar!
Cantava, também, cantava!
Sonhava, também, sonhava!
E, na minha fantasia,
Tais coisas fantasiava,
Que esquecia que chorava,
Que esquecia que sofria!

Já não vou ao rio lavar,
Mas continuo a chorar!
Já não sonho o que sonhava!
Já não lavo no rio!
Por que me gela este frio
Mais do que então gelava?

Ai, minha mãe, minha mãe
Que saudades desse bem,
Do mal que eu não conhecia!
Dessa fome que eu passava,
Do frio que nos gelava,
E da minha fantasia!

Já não temos fome, mãe!
Mas já não temos também
O desejo de a não ter!
Já não sabemos sonhar,
Já andamos a enganar
O desejo de morrer!

Antonio Cicero disse...

O meu ensaio citado por Inês Pedrosa encontra-se no seguinte endereço: https://www.academia.edu/6869391/DA_ATUALIDADE_DO_CONCEITO_DE_CIVILIZA%C3%87%C3%83O