25.7.10

As ilusões pós-modernistas




O seguinte artigo foi publicado no sábado, 24 de julho, na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo:


As ilusões pós-modernistas



AS NOÇÕES de "pós-modernidade" e "pós-modernismo" entraram em voga há cerca de trinta anos, a partir da publicação de "La condition postmoderne", do filósofo francês Jean-François Lyotard. Hoje, "pós-modernismo" designa apenas uma tendência eclética, maneirista e inteiramente datada. Já a noção de "pós-modernidade" -- que significa uma pretensa superação da época moderna -- não passou de uma ilusão, que a pós-pós-modernidade, isto é, a modernidade mesma, encarregou-se de desmentir.

De nada adianta substituir a expressão "pós-modernidade" por "contemporaneidade", como faz o famoso crítico norte-americano Arthur Danto. O conceito de contemporaneidade simplesmente não é epocal e, se conseguisse sê-lo, não se distinguiria do de modernidade.

Antes da modernidade, eram quase sempre nomes próprios, de lugares, dinastias, monarcas ou fundadores de religiões que denominavam ou demarcavam as diferentes épocas. Na Roma republicana, por exemplo, demarcava-se o tempo tendo por referência a fundação (mítica ou real, pouco importa) de Roma. Os chineses e egípcios usavam os nomes das suas dinastias para diferenciar as épocas, inclusive aquelas em que viviam. Já os primeiros cristãos passaram a demarcar o tempo tendo por referência o nascimento (mítico ou real, pouco importa) de Cristo: para eles, sua época era a época cristã. Um francês do século 12 d.C., por exemplo, não supunha haver qualquer solução de continuidade entre a sua época e a do apóstolo Paulo.

A partir principalmente dos séculos 14 e 15 d.C., porém, a Europa começou a passar por uma espécie de desprovincianização. Com as descobertas geográficas, "viu-se a terra inteira de repente / surgir redonda do azul profundo", como diz o Fernando Pessoa de "Mensagem". Isso relativizou a Europa, do ponto de vista espacial. Do ponto de vista temporal, ela foi relativizada pela valorização, graças aos humanistas, da cultura clássica e pagã.

Contra seus contemporâneos escolásticos, os humanistas ambicionaram emular o modo de pensar e escrever, assim como o gosto dos antigos. Entre estes e aqueles, porém, se interpunha um período extenso, que tivera início na invasão e na destruição do Império Romano pelos bárbaros. A essa longa intermissão, que passaram a desprezar como um período de barbárie entre a morte da civilização antiga e seu moderno renascimento, por eles promovido, chamaram de "medium aevum", de onde "medioevo", isto é, "Idade Média". Entre os séculos 16 e 18, estabeleceu-se o esquema tríplice de periodização que persiste até hoje. Tem-se a Antiguidade, a Idade Média e a Modernidade.

Ora, "moderno", etimologicamente, quer dizer referente a agora ou, se quisermos, "agoral". Modernidade, portanto, é a "agoralidade". Isso significa que, pela primeira vez, a palavra com a qual se denomina uma época é um conceito universal. Há nisso um paradoxo. Sendo um universal, "moderno" não se reduz a coisa alguma que possa particularizar a época assim autodenominada. Em princípio, qualquer época poderia ter-se chamado "moderna" ou "agoral". Entretanto, justamente o fato de que, apesar disso, nenhuma outra o tenha feito, constitui, para a época que o faz, uma diferença mais radical do que qualquer outra concebível.

Trata-se de um sintoma da extraordinária cisão experimentada pelos homens da Renascença. É que eles se haviam tornado capazes de criticar, isto é, tanto de se distanciar da própria cultura em que viviam, quanto de questioná-la. Montaigne, por exemplo, reconhecia ser cristão por acaso. "Somos cristãos", dizia ele, "ao mesmo título que somos perigordinos ou alemães".

Descartes, leitor de Montaigne, sabia que "um mesmo homem, com seu mesmo espírito, sendo nutrido desde a infância entre franceses ou alemães, torna-se diferente do que seria se tivesse sempre vivido entre chineses ou canibais". Evidentemente, não foi de dentro da cultura cristã e francesa que Montaigne e Descartes a relativizaram desse modo, mas a partir da razão, que foi capaz de dela se separar e de criticá-la.

Sendo a modernidade a época em que a razão já reconheceu o caráter contingente das culturas, de modo que não se identifica com nenhuma, segue-se que qualquer "superação" dessa época não poderia deixar de ser uma regressão ao estado em que essa verdade ainda fosse ignorada.

74 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Maravilhoso! Li ontem e, ontem mesmo no facebook, eu e Péricles Cavalcanti comentamos como o seu artigo era excelente. Tive a ousadia de divulgá-lo no facebook porque acho que é um texto obrigatório. Amo muito você! Parabéns!

Abraço imenso,
ADriano Nunes.

Angela disse...

Depois de ler seu artigo é que percebi o quanto ele preencheu uma lacuna quanto a esta colcha de retalhos das denominações das épocas.Excelente artigo. Obrigada.
Angela

Claire disse...

Boa tarde Antonio, acabei de ver que vc e Luiz Alberto Mendes Júnior estarão na casa das rosas em agosto, adorei!!! Espero vê-lo em breve!!
Parabens pelo blog cada dia mais interessante.

Anônimo disse...

Prezado Cícero:

Estive ontem na Travessa de Ipanema e lembrei logo do Sr. e da sua “cruzada” contra Zizek e Badiou.

O Sr. não deve passar por essa livraria ou deve passar por lá levando um “Coquetel Molotov” (atenção: isso é uma brincadeira!)

Existe por lá uma “montra” (como dizem os portugueses) somente com livros dos indigitados. Eu mesmo tive a possibilidade de ver um desavisado comprar, (sem nenhum pudor!), um livro de Badiou. Em francês!

Agora mesmo, procurando uma referência sobre “As asas da Pomba”, (para que eu possa fingir que li o livro sem ter lido, claro). Dei com esse blog, onde pude saber que Zizek andou escrevendo sobre o livro de Henry James.

O dono desse blog é a sua nêmesis. Então, acho que o Sr. vai se divertir a valer. Poste comentários destruidores e assine como “anônimo”.

Existe por lá até uma resenha do livro “Jamais Fomos Modernos: ensaio de antropologia simétrica”, de Bruno Latour. Nunca ouvi falar, mas amei o título!

É maravilhoso ver que a parcela mais culta do Ocidente caiu num escolasticismo de perfume bizantino, sem qualquer conexão com a mais prosaica realidade. É a quintaessencia da alienação: a alienação dos cultos sibaritas!

Uma boa semana!

http://resenhasexcertos.blogspot.com

Bruno Holmes Chads disse...

Caro Cícero,

Gostei do seu texto. Mas me explique como conciliar a Razão – que, segundo o senhor, teve na modernidade o seu uso pleno por ter pela primeira vez pensado a sim mesma criticamente – com o reconhecimento do caráter contingente das culturas. Acompanhando textos seus anteriores, percebi que a sua defesa da Razão é uma maneira de se escapar do relativismo dito pós-moderno. Mas não cairíamos novamente nesse mesmo relativismo reconhecendo a contingência das culturas? Como resposta possível, talvez antecipando a sua resposta, a razão para o senhor não é um fator cultural e por isso não relativizável. Acredito que a sua crítica aos autores ditos pós-modernos se dá justamente por estes últimos relativizarem a razão da mesma forma que a modernidade o fez com a cultura.

Um abraço

Bruno Holmes Chads
(http://espelhosemimagem.blogspot.com)

Antonio Cicero disse...

Caro anônimo,

se você nunca ouviu falar de Latour, leia o que digo sobre ele, em http://antoniocicero.blogspot.com/search/label/Bruno%20Latour.

Abraço

Antonio Cicero disse...

Adriano,

Obrigado. Fico feliz de você e o Péricles terem gostado.

Abraço

Antonio Cicero disse...

Caro Bruno,

Você está certo. As culturas são relativas, mas a razão, que é universal e que critica -- logo, que se distingue -- de todas as culturas, não é relativa.

Um abraço

Robson Ribeiro disse...

Obrigado, Cicero.

Grande Abraço!

Edson Dognaldo Gil disse...

Caro ACicero,

1) Você não acha que o cristianismo poderia ser considerado como um movimento precursor da modernidade? Afinal a mensagem de Jesus se dirige a todos os homens; a religião fundada em sua memória se chama católica, e sua doutrina foi sendo elaborada por pensadores como Agostinho e Anselmo.

2) Em que o seu racionalismo (absolutismo da razão) se distingue do relativismo? Se tudo é relativo, exceto a razão, mas esta consiste apenas na crítica, na negatividade, não sendo capaz de afirmar nada de positivo, então não temos nada de concreto, sobretudo não temos uma ética. Como já se disse (com ou sem razão, não importa) sobre a ética de Kant: é uma ética das mãos limpas, mas de um homem sem mãos. -- O único problema do racionalismo apocrítico é que o homem puramente racional não existe.

Ab.,
edg

Antonio Cicero disse...

Caro Edson,

Sobre (1):
De fato, o cristianismo tenciona ser universal. A mensagem de Jesus se dirige a todos os homens etc. Contudo, trata-se da universalização de uma doutrina particular, baseada na revelação: baseada no Livro.

Sobre (2):
Como você sabe, não concordo com você, nesse ponto. A ética universal se baseia exatamente na crítica racional. Esta demonstra que não há absoluto positivo, logo, que não há um absoluto a cujos desígnios todos os homens devam se curvar. Assim, em virtude meramente de sua religião, o cristão não sabe necessariamente mais sobre questões éticas do que o budista ou o muçulmano ou o candomblezeiro ou o índio canibal. Uma vez reconhecido isso, reconhece-se que a única ética racional é aquela que se baseia, em última análise, no princípio de que a cada indivíduo deve ser reconhecido o direito ao exercício da máxima liberdade compatível com o exercício de liberdade equivalente por cada um dos outros, e com a existência da sociedade.

É claro que o homem puramente racional não existe. Exatamente por isso, por respeito ao homem real, e não puramente racional, o sentido da racionalidade não é o de propor regras morais racionais e positivas, mas o de mostrar que cada um deve ter o máximo de liberdade para exercer a sua liberdade de modos não-racionais, desde que isso não impeça o exercício de liberdade equivalente por cada um dos demais.

Abraço

paulinho (paulo sabino) disse...

cicero,

o texto tá um ARRASO, um DESBUNDE!!

aliás, quem me chamou à leitura foi o grande e querido amigo adriano nunes, perguntando-me se já o lera.

o mais SENSACIONAL, o mais SURPREENDENTE, é que você nem precisou tocar em preceitos do que se intitula "pós-modernidade". somente com o sentido próprio do termo "modernidade" você matou a pau (rs)!!

não há o que pôr nem o que retirar. tudo perfeito, tudo em seu devido lugar.

tô achando que este seu texto vai parar no "prosa em poema" (rs)!! conheço uma turma (de amigos meus)que vai lê-lo e vai gozar de prazer (rs rs)!!

mais uma vez, PARABÉNS!!

(tá vendo por que você é o meu poetósofo de primeira?)

beijO!!

wilson luques costa disse...

Esse foi o e-mail que lhe encaminhei. Se quiser publicar aqui. Parece-me que desenvolveu esse texto embasando-se em minhas críticas ou não?

Prezado Antonio Cicero,

15/07/2010


Hoje reli, com caneta e lápis em punho, o primeiro capítulo do livro de Antonio Cicero O MUNDO DESDE O FIM. Abaixo, algumas considerações que faço e que encaminhei via e-mail ao próprio Antonio Cicero.

Prezado Antonio Cicero,

Permita-me colocar algumas ponderações quanto ao primeiro capítulo do seu livro. Gostaria que me respondesse se não for incômodo a você:

1 - Logo no início você tenta se apoiar em Platão, Aristóteles, em termos latinos, gregos e germânicos, para tentar persuadir e ao mesmo tempo dissuadir ideias suas e ideias do senso comum´;

2- Você antes de questionar o moderno, já pressupõe que todos saibam o que vem a ser contemporâneo e não questiona o conceito. (Vide o que pensa Agamben acerca do Contemporâneo);

3 - Com isso, não quero dizer que você deveria saber se Agamben conceitua Contemporâneo do mesmo modo que você;

4 - Mas é só para ensarmos que poderíamos enveredar pelo conceito contemporâneo, já que se forma pela junção de `con -tempo` -- (qual tempo?);

5 - O fato de Platão e Aristóteles fazerem citações, isso não daria uma segurança lógica à argumentação, porque princípio da autoridade;

6 - `Quando alguém usa a expressão este instante, está a se referir ao instante em que se encontra´ . Ante essa afirmação, compreendo que o instante seria uma fragmentação de um tempo universal, que está biunivocamente ligado ao sujeito;

7 - Posso então dizer que: AC ----> INSTANTE / WLC ---> INSTANTE / X ---> INSTANTE / ÔMEGA ---> INSTANTE;

8 - O instante, nesse sentido, sendo um fragmento (particularidade) de um tempo universal;

9 -Será que daqui a 200 anos o seu tempo (ac) será o mesmo que de Platão e Aristóteles?

10 - O instante depende de cada cogito de quantos ichs houver?

11- Assemelha-se muito ao modus operandi de Descartes, por isso sujeito a críticas que tento elaborar a Descartes ( Não digo mimesis);

12 - Quanto às positividades, será que tomando um pouco do conceito ôntico-heideggeriano, seria possível pensar sem o ar e céus ( materiais) ?

13 - Ou seja, a razão suficiente só é razão suficiente enquanto o ich pensa ou vive?

14 - Nesse sentido, poderíamos dizer que a modernidade dar-se-á sempre que houver um ich para conceber o instante?

15 - Ou seja, a Modernidade é própria dos homens que são e que serão e não mais dos que já foram?


Um abraço e o meu muito obrigado
wilson luques costa

Antonio Cicero disse...

Paulinho,

Claro que você e o Adriano são uns exagerados, mas fico muito grato.

Beijos

Antonio Cicero disse...

Wilson,

as suas críticas me lembraram da minha crítica ao pós-modernismo, de modo que foi graças a elas que resolvi escrever um artigo sobre esse tema. Contudo, o artigo é basicamente um resumo de um trecho do ensaio "A sedução relativa", que se encontra no livro, organizado por Adauto Novaes, "O silêncio dos intelectuais" (São Paulo: Companhia das Letras, 2006).

Abraço

Antonio Cicero disse...

Wilson,

tendo publicado suas críticas, sinto que devo publicar também a resposta que lhe dei. ela foi:

Caro Wilson,

Confesso que só entendi até a sexta das suas questões. Respondo-as. Não posso responder as que não entendi.

1. No primeiro capítulo, as citações de Platão e Aristóteles não são essenciais para o argumento. Elas apenas mostram que já os gregos usavam derivações impróprias da sua palavra para “agora” (‘nun’), no lugar de “moderno”. Contudo, ainda que os gregos não houvessem feito isso, a etimologia da palavra “modernus” seria suficiente para mostrar o que quero nessa altura do texto, isto é, que “moderno” vem de “agora”.

2. O sentido de “contemporâneo” é simplesmente manifesto. Por isso não me preocupo em explicá-lo. O contemporâneo não é problemático. Faço o contraste entre “contemporâneo” e “moderno” no ensaio “O agoral”, no mesmo “O mundo desde o fim” (p.171 da ed. brasileira e 153 da ed. portuguesa). Agamben, que nunca entendeu o sentido de “moderno”, diz uma porção de bobagens presunçosas sobre “contemporâneo”. Não me preocupei em mostrar que ele estava errado porque o ensaio dele sobre o contemporâneo só foi publicado dez anos depois do meu. Mesmo assim, escrevi na “Folha” um artigo (que se encontra no blog, aqui: http://antoniocicero.blogspot.com/2009/05/o-desejo-do-contemporaneo.html) chamado “O desejo do contemporâneo”, em que digo:

“Pensemos no significado desse desejo de ser contemporâneo. "Contemporâneo" quer dizer "do mesmo tempo" ou "do mesmo tempo que". Quando dizemos, por exemplo, "Mário e Oswald foram contemporâneos", queremos dizer: "Mário e Oswald foram do mesmo tempo"; e quando dizemos "Leonardo foi contemporâneo de Michelangelo", queremos dizer: "Leonardo foi do mesmo tempo que Michelangelo".

“Quando, por outro lado, digo que uma coisa ou pessoa é contemporânea, sem explicitar de quê ou de quem, fica sempre implícito que essa coisa ou pessoa é contemporânea de mim, que estou a dizê-lo. Se digo, por exemplo, "Giorgio Agamben é um filósofo contemporâneo", quero dizer que ele é meu contemporâneo: o que poderia ser dito pelas palavras "Giorgio Agamben é um filósofo do mesmo tempo que eu". Ou seja, o que quer que seja contemporâneo, sem mais, é contemporâneo de mim (seja quem eu for). É claro que, como a contemporaneidade consiste em uma relação comutativa, não posso deixar de, reflexivamente, me reconhecer contemporâneo das coisas ou pessoas que me são contemporâneas.

“Isso significa que não tem sentido que eu – seja quem eu for – me diga contemporâneo, sem mais. "Eu sou contemporâneo" significa apenas: "Eu sou do mesmo tempo que eu". Assim também, não tem sentido desejar ser contemporâneo, sem mais, pois "desejo ser contemporâneo" significa apenas: "Desejo ser do mesmo tempo que eu". Finalmente, não tem sentido desejar ser contemporâneo de alguma coisa ou pessoa contemporânea, uma vez que eu já sou, evidentemente, contemporâneo de quem me é contemporâneo”.

3. Falo nisso no item anterior.

4. Explico o sentido de “contemporâneo” no ensaio e no artigo citados em (2).

5. Explico em (1) que não preciso da autoridade de Platão ou Aristóteles (e adiciono: nem da autoridade de qualquer outro) para desenvolver o conceito de modernidade.

6. A partir do item 6, não sei bem o que você quer dizer. Tomemos, por exemplo, o item 9: onde é que eu digo que o meu tempo é o mesmo que o de Platão ou Aristóteles? Na página 19 (ed.bras.) ou 22 (ed. port.) eu digo exatamente o oposto disso, falando de Sócrates: “Quando leio as palavras de Sócrates: ‘E agora parto, condenado por vós à morte’, entendo não dar-se agora, no instante em que leio, a partida do mestre de Platão, mas sim no instante, agora remoto, em que ele acabava de pronunciar sua Apologia”.

Abraço,
ACicero

Edson Dognaldo Gil disse...

ACicero,

Gostaria de saber como esse seu racionalismo negativo, abstrato, resolve questões éticas bem concretas como eutanásia, aborto, pena de morte, mentira, adicção etc.

No fim das contas, o racionalista apocrítico não acaba tendo de recorrer a juízos de valor, positivos, sobre os limites dos direitos de cada um?

Quem é que decide quem pode e quem não pode o quê? A liberdade é um conceito unívoco, ou pode ser concebido de distintos modos? Qual é o "verdadeiro"?

Ab.,
edg

Anônimo disse...

Cicero,
Eu concordo com os meninos, o artigo é excelente!!!
Tenho lido alguns autores que apontam o andamento da efetivação da "pós-modernidade" através de uma série de transformações na cultura(perspectiva de acúmulo),mas, definitivamente, estão a anos-luzes de refutar os seus argumentos...
Eu,sinceramente, queria entender as posições de esquerda e direita com a mesma clareza que me é possível avaliar a questão temporal...

Porque,por exemplo, penso que o PT, que deveria ser esquerda, é "neutro" demais para representar a categoria.
É um "neoesquerdismo" (a que me dou o direito de um trocadilho com Nuloesquerdismo)?
E esse papo de Lulismo que pode desembocar numa especie de chavismo e, posteriormente, numa ditadura?
Do modo passivo como o Lula(e a sua sucessora deverá) dirige o governo, isso nunca aconteceria...
Revoluções, Comunismo(não como os perversos de até então), são só utopias na[e da] modernidade?
Será que vivemos O Fim da História? Onde somente os poetas(seres iluminados como você) conseguem vislumbrar alguma beleza e igualdade?
Será que o meu consolo será, para todo o sempre, estes estilhaços de democracia?
Perguntas de alguém que corre para abandonar a posição desagradável de "ignorante político".
Saiba que admiro sua forma lúcida e digna de dirigir as discussões que "acontecem" aqui.
Abraço.
Edson

wilson luques costa disse...

Prezado Antonio Cicero,
Por isso a minha admiração por você. Pela sua transparência, mesmo nas divergências, às vezes, filosóficas.
Grato
wilson

wilson luques costa disse...

Publiquei no meu blog em 18/07/2010

...um arrazoado de minha crítica ao seu livro, não à escrita, aliás é um livro que exige do leitor um certo conhecimento do grego, do latim, francês e alemão, é: se o sujeito (s) gera o instante (o agora) e se o agora sou eu (s) sujeito e se sou eu então moderno então sempre haverá o conceito de moderno. Por exemplo: quando Sócrates nomeou o instante, Sócrates foi moderno, mas já não o é mais -- como o Antonio Cicero que nomeia o instante gera a modernidade -- aliás, a modernidade está aí, mas precisa ser movida pelo sujeito. Em suma, pela reflexão do AC, posso tentar fazer a seguinte ilação: o moderno é e será um devir, posto que necessita da nomeação de um eu (S), e isso significa dizer que enquanto houver um sujeito -- haverá a modernidade, e que também a modernidade sempre existiu, porque sempre houve um sujeito para nomear o instante. E, pelo que eu entendi, não é isso o que AC quer propor quando envereda por uma crítica do tipo axiológica. Amanhã, pretenderei publicar a sua resposta e também a minha. Mas é um livro muito bem redigido, cheio de citações em latim, grego, francês, alemão. Ao menos, fará o cara correr atrás desses instrumentais, o que já valeria a pena.

wilson luques costa disse...

Prezado Antonio Cicero,

Abro o e-mail agora e leio rapidamente a sua explicação que é muito boa, aliás. Faz um tipo de anamnese histórica. Vou reler com mais calma. Por exemplo acerca do oi nûn, você justificou a ausência dos (homines) ok, mas percebo que o advérbio tornou-se um tipo de genitivo ( homines agorae) estou brincando e sacaneando um pouco o latim. Mas, pálin, isso é o que menos importa... Gosto da sua reflexão, se bem entendi, de os homens não tomarem para si o sentido de modernidade, sendo que os, vamos dizer assim, contemporâneos o fizeram. E pensando dessa forma, eu não vejo porque eu estou errado em meu raciocínio (lógico) em apontar a moderninade como um ousía que é movida pelo sujeito. O problema é que os sujeitos de antanho ao moverem o instante não reconheceram a modernidade. Se é assim, poderíamos dizer a contrapelo que o homem ´pós-moderno´- não obstante percebê-la não a reconhece, aliás; a reconhece, mas tenta de uma certa forma transpassá-la, mas agora por uma volição própria do tipo racional.

# Prezado Antonio Cicero, gostaria que percebesse o meu respeito por você e pelos seus textos; não me imiscuo neles com outro propósito, que não seja o de compreendê-los. Como dizia Platão, a oralidade cala mais forte, mesmo que seja por e-mail.

# Agora mesmo li Contra Naturam

# Ontem li Gemeinschaft e Gesellschaft
Um abraço do wilson luques costa

Postado por Wilson Luques Costa às 14:04

wilson luques costa disse...

Resposta a Antonio Cicero

Prezado Antonio Cicero,

No domingo passado, eu estava consultando um dicionário de latim , não tenho o nome agora, mas há um advérbio (modo) que significa mais ou menos neste instante, agora... Isso talvez ratifica um pouco a minha ideia da palavra modernus derivar do modo + ernus -- que poderíamos traduzir assim: o que se refere ao instante etc. Vou pesquisar mais acerca. Quanto à sua resposta, que tentei responder celeremente, eu noto que você aceita a minha crítica quanto ao moderno no sentido de sempre ter havido uma modernidade, a julgar pela elaboração lógica, já que a modernidade é derivada do sujeito. Apraz-me deveras essas trocas de e-mails, todavia eu penso que seria interessante uma discussão mais oral, com todo o civilismo que devemos ter, quem sabe não sobrará uma oportunidade, se você aceitar. Sou uma pessoa muito simples e bem dada com todos. Mas gosto de perguntar. Você já deve ter percebido por que perdi dois mestrados na vida. Porque as pessoas, não vou negar certas intempestividades, ao contrário de você que aceita dialogar - se irritam com perguntas. Gosto do seu livro. Mas eu creio que eu seja um dos poucos que vem lendo o seu livro e com satisfação. E para isso há que haver um certo cabedal que no Brasil para poucos é muito e para muitos é pouco.
Adendo: Vou procurar comentar o contra naturam mais para a frente. Mas uma coisa que notei é que você trabalha com um tipo de relatividade para defender um certo posicionamento. E quanto ao Gemeinschaft e Gesellschaft, emerge a ideia de um certo liberalismo capitalista, evidentemente contra qualquer marxismo, mas ao mesmo tempo bem diferente de formas mais truculentas. Não gostaria que se ofendesse, mas há, creio, uma pátina burguesa. Não quero entrar nessa dicotomia tosca, mas é porque você vem de uma elite, e talvez não se dê conta de problemas atinentes à economia que não perpassam a sua vida, por isso essa valoração mais pelas liberdades ( sexuais (praesertim) e tantas outras - ficando sempre relegado o aspecto pecuniário, que daria a devida dignidade às pessoas, porque sem isso, não há liberdade alguma, e nascer numa estratifcação social é deveras penoso, principalmente para quem não tem essa possibilidade de postular a dignidade, porque falta estrutura, que você herdou e depois se concebeu.

Grato
wilson luques costa

Antonio Cicero disse...

Edson,

1
O princípio que enunciei é, como todos os princípios éticos, mesmo os positivos, um horizonte em relação ao qual deve orientar-se nossa moralidade.

A diferença dele em relação aos princípios religiosos é evidente. Os princípios religiosos e positivos pretendem basear-se em revelações ancestrais e/ou sobrenaturais. Ora, semelhantes pretensões estão sempre, por sua própria natureza, sujeitas a serem aceitas por uns e questionadas ou negadas por outros.

O princípio que enunciei baseia-se exatamente no reconhecimento, pela razão, do caráter necessariamente questionável de toda pretensão dessa natureza. Ele supõe apenas a possibilidade – inegável – de que talvez nenhum ser humano jamais tenha qualquer acesso real a nenhuma revelação sobrenatural. Se for assim, é preciso reconhecer que nenhum indivíduo tem o direito de impor as suas opiniões pessoais a nenhum outro. Segue-se que é preciso respeitar a imensa diferença das opiniões e aceitar que cada indivíduo tenha a liberdade de viver de acordo com a sua: até o ponto em que isso interfira com idêntica liberdade de outro indivíduo de viver de acordo com outras opiniões. Trata-se, portanto, de um princípio inteiramente racional, e, consequentemente, efetivamente universal. Isso não impede que os diferentes indivíduos discutam pacificamente as suas diferentes opiniões e que, consequentemente, uns sigam as opiniões de outros. Mas o princípio universal – que justamente garante a possibilidade de tais discussões – não pode ser posto em questão: é absoluto.

2
Quanto às questões concretas, penso que devem ser discutidas e resolvidas tendo por horizonte o princípio da maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade. Exceto para a primeira, a da eutanásia, não há resposta pronta. Racional, nesses casos, é que as questões sejam discutidas e resolvidas – e que as soluções sejam sujeitas a revisão – numa sociedade aberta.

Quanto à eutanásia porém, é um direito inalienável. Não abro mão do meu direito a uma morte digna. Aliás, encontra-se no blog (http://antoniocicero.blogspot.com/search?q=eutan%C3%A1sia) um artigo que escrevi sobre isso. Ninguém pode obrigar um religioso – ou quem quer que seja – a praticar eutanásia, mas tampouco ele pode impedir-me de fazê-lo, se eu o desejar.

3
A liberdade individual, nesse contexto, bem como no jurídico, é simplesmente que o indivíduo possa comportar-se como quiser, como bem entender, como lhe der na telha. Qualquer outra interpretação de "liberdade", neste contexto, é mero sofisma.

Abraço

Edson Dognaldo Gil disse...

Cicero,

Vc diz que não abre mão do direito de ter uma morte digna. Mas o que é dignidade para vc pode não ser para mim, ou para os seus entes queridos, ou para o médico responsável por vc etc. A dignidade é um valor positivo.

A liberdade individual máxima não pode ser o princípio da moral, pois eu posso querer o mal e a falsidade. E como somos seres sociais, é praticamente impossível que minha "escolha" não atinja ninguém, agora ou depois.

A sua ética é ainda mais formal que a kantiana, reduzindo-se a uma versão racionalista da lei áurea. E a diferença entre a sua ética e a lei de Jesus ("amar ao próximo como a si mesmo") não é tão evidente, como vc diz. A diferença é que o cristão tem um modelo de amor para seguir. (Aliás, o cristianismo não é uma religião do livro, como o islã. É uma religião da tradição. O mais importante para o cristão não é um livro, mas uma pessoa.)

Ab.,
edg

wilson luques costa disse...

Acerca da Pós-Modernidade tomando como epicentro a modernidade do Mundo desde o fim:

1- A pós-modernidade seria a ausência ou supressão do sujeito-cognoscente-movente da modernidade;

2 - A Pós-Modernidade é transcendental;

3 - A Pós-modernidade seria todo o legado cultural deixado pelo homem à posteridade;

4- Ou seja, ser pós-moderno é pertencer à construção histórica do humano; igitur de todo o homem;

5 - ser pós-moderno é abolir todo
tipo de taxonomia histórica, literária, artística, política, cultural, religiosa etc;

6 - A pós-modernidade sendo, portanto, escatológica e universal;

7 - A pós-modernidade seria a enteléquia de toda modernidade havida e mais: todo tipo de desnaturalização;

8- A modernidade é a pós-modernidade in fieri;

9 - A pós-modernidade será o além de nós;

10- A pós-modernidade é o não apreendido pelo homem,

11 -A pós-modernidade é um devir;

12 - O moderno é datado;

13 - O pós-moderno é universal; porque último e atemporal, vide tempo particular, e sem sujeito para reconhecê-lo.



POR ISSO TODOS SEREMOS UM DIA PÓS-MODERNOS

Anônimo disse...

Em relação a um comentário acima sobre o cristianismo, diria que não o vejo como precursor do modernismo, na visão que hoje me prevalece.

Vultos como Santo Agostinho e Anselmo não são a face do cristianismo que realmente prevaleceu. Esses, muito possivelmente - não ponho a mão no fogo, pois não os conheço adequadamente -, não contribuiriam para as cruzadas, as Inquisições, o Index (que liberdade de expressão, não? Que avanço à humanidade proporcionou, não?), os Bórgia, e fatos outros desse jaez. Isso porque tais santos pertencem a uma outra constelação, rara, mas que muitos intelectuais os tomam como todo o cristianismo, atados ao senso de romantismo, o que é compreensível.

Jesus tem mensagem universal? Certamente. Jesus é personagem histórica? Não para mim. É verdade que somente por Jesus se chega à Verdade que liberta? Sim. E onde se encontra Jesus? No budismo como o Zen e outros ramos do budismo identificados com a espiritualidade autêntica, no hinduísmo de espiritualidade autêntica, no sufismo autêntico. ´

Diz um certo parágrafo:

"Porque eu vim pôr em dissensão o homem contra seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra;" (Mateus, 10:35)Aqui Jesus age contra o dual/dualidade

Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. (Mateus 16:25) A vida que tentar salvar - porém causa de perda - é a vida do "eu relativo"; quem superar o "eu relativo" (perder a vida por Jesus - símbolo do Eu Absoluto-, ingressa na vida plena, que é o horizonte do místico, como alcançaram raros místicos, místicos da constelação do Mestre Eckhart, Rumi e mestres Zen, por exemplo).

Os evangelhos neotestamentários são obra de místicos. O místico pode escrever sobre fatos históricos ou também, por aparência histórica, veicular mensagem de cunho místico, transformações de vivência transmental.

Para muitos uma heresia, diria que Jesus é termo que sintetiza em um vocábulo o que os espitualistas autênticos do budismo e hinduísmo cunharam diferenciadamente, em sua longa tradição, dos vários componentes ou aspectos da iluminação espiritual.

A história desconhece o cristianismo como tradição de iluminação espiritual. Em Hebreus 6:4, esse termo iluminação é explícito:
"É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo,"

A "salvação" é a iluminação, diga-se peremptoriamente. Não uma esperança para o porvir, mas transformação de consciência. O cristianismo que a história mais conhece pode ser tudo, exceto - e o que mais interessa - ser cristão.

Não sem razão Maomé registrou críticas a esse cristianismo que não é cristão, pois o verdadeiro cristão cumpre o Islão. O âmago, não a roupa, é que concerne ao Espírito.

Em razão disso, não vejo muita compatibilidade entre o cristianismo e o modernismo. Modernismo, apesar do cristianismo, porque ausente de Jesus (metafórico - naturalmente, como explicado acima).

Desculpem-me por repetir esse tema de espiritualidade.

Atenciosamente,
Flávio Santos (Flavius)

wilson luques costa disse...

29/07/2010


A PÓS-MODERNIDADE

Se a pós-modernidade prescinde do sujeito-cognoscente-movente, como podemos então dizer que certo tipo de escritura é pós-moderna, se a pós-modernidade constroi-se a partir da supressão desse mesmo sujeito? Se a pós-modernidade transcende, como podemos concebê-la então? De fato, a pós-modernidade seria ou será todo o legado do homem à physis, não importando que tenha um escopo taxonômico ou não. Desse modo, poderíamos dizer que tal tipo de poema ou escrito é moderno, barroco, simbolista, mas não pós-moderno, porque a pós-modernidade implica a ausência de todo modernismo, barroco, simbolismo etc. Mas ao mesmo tempo, tudo que é barroco, simbolista, moderno é um estado de potência do pós-moderno. Ou seja, toda escritura, todo legado historiográfico, desde o homem adâmico, é, em potência, pós-modernidade; melhor, carrega no seu bojo a pós-modernidade, porque a pós-modernidade é o fim último de toda cultura do homem no universo. O fato de afirmarmos que tal escritura é pós-moderna, prende-se ao fato de já trazer em si aspectos escatológicos e de desestruturação do mundo, e isso se apresenta nas formas fragmentárias de textos, na desssintaxe, nas formas não convencionais lógicas e sistemáticas, contemplando todo o modo que representa o caos e a entropia constantes. Nesse caso, poderíamos considerar o escritor irlandês Samuel Beckett como um dos representantes da pós-modernidade, não porque seja pós-moderno, conforme já explicamos, mas porque traz em seus escritos a anunciação escatológica do mundo. De modo que, a pós-modernidade revela-se já em alguns fazeres poéticos, literários em geral, pela forma amorfa e não convencional e/ou assistemática. Por isso, podemos dizer que tais e tais obras trazem laivos de uma tal pós-modernidade -- isso podendo se aplicar também às esferas ´sócio-políticas´, como a não exigência de modelos convencionais. Uma obra, portanto, só será pós-moderna, na supressão total do sujeito, mas o é , podemos dizer assim, se já contempla em si aspectos da fragmentação, que seriam próprios da derrocada do homem no mundo.

Antonio Cicero disse...

Edson,

Respondo suas objeções, cada uma das quais se encontra em itálico.

Vc diz que não abre mão do direito de ter uma morte digna. Mas o que é dignidade para vc pode não ser para mim, ou para os seus entes queridos, ou para o médico responsável por vc etc. A dignidade é um valor positivo.

É verdade, Edson. O que é dignidade para mim pode não ser dignidade para outros. E não temos um critério externo (ou, se você preferir, há inúmeros critérios externos e conflitantes), para decidir quem está certo. Exatamente por isso, não tenho o direito de impor a eutanásia a você, nem você tem o direito de proibi-la a mim. Em suma, considero a eutanásia mais digna do que certos tipos de vida, respeito quem não pensa assim e exijo que minha decisão seja respeitada. E a dignidade é um valor positivo que eu adoto, embora tampouco o imponha a ninguém.

A liberdade individual máxima não pode ser o princípio da moral, pois eu posso querer o mal e a falsidade. E como somos seres sociais, é praticamente impossível que minha "escolha" não atinja ninguém, agora ou depois.

O mal é exatamente o que atenta contra a liberdade própria ou alheia. A integridade física de uma pessoa, o seu direito de não ser agredido, humilhado etc. faz parte da sua liberdade.

A sua ética é ainda mais formal que a kantiana, reduzindo-se a uma versão racionalista da lei áurea. E a diferença entre a sua ética e a lei de Jesus ("amar ao próximo como a si mesmo") não é tão evidente, como vc diz. A diferença é que o cristão tem um modelo de amor para seguir. (Aliás, o cristianismo não é uma religião do livro, como o islã. É uma religião da tradição. O mais importante para o cristão não é um livro, mas uma pessoa.)

Uma pessoa, como o livro, é um particular. Não é possível basear uma lei universal em um particular. Alguém (como muitos, aliás) pode simplesmente duvidar da existência de Jesus. Ou pode duvidar da sua divindade. Ou pode afirmar que o Cristianismo foi superado pelo Islã. Ou que o Budismo é superior a todas essas religiões. Ou que Deus não existe. É inaceitavelmente arrogante que o cristão se ache superior a qualquer um que não acredite naquilo em que ele acredite.

De todo modo, os cristãos reais -- não os ideais que você concebe -- têm a Bíblia como um livro sagrado, e nele se baseiam, tanto quanto nas palavras de Cristo, para abonar ou condenar diferentes comportamentos, atitudes e ideias.

A ética que defendo é, ao contrário, universal e racional. Baseia-se exatamente no reconhecimento de que ninguém tem acesso privilegiado a nenhuma verdade positiva.

Abraço

Edson Dognaldo Gil disse...

ACicero,

"Cristão arrogante" é uma contradictio in adjecto. Para o católico e o ortodoxo, a Bíblia precisa ser interpretada pela Igreja com base na tradição apostólica. E Cristo não é apenas uma pessoa humana.

Eu lhe pergunto se você não está sendo tão arrogante quanto esse seu cristão "real", quando afirma saber que ninguém tem acesso privilegiado a uma verdade positiva.

Você só teria razão em dizer isso se tivesse demonstrado que Deus não existe. Mas o máximo que você pode fazer é não querer que Deus exista ou não acreditar na sua existência por considerá-la improvável etc.

Mas como, infelizmente para os ateus, Deus pode sim existir, quem garante que Ele não possa também revelar a Si mesmo ou alguma verdade positiva a alguém?

Assim como você, eu também não quero que me imponham valor algum. Mas isso não resolve nada, antes é o próprio problema. Como é que a sociedade deve se organizar para que todos tenham sua vontade e seus valores respeitados?

A democracia não parece bastar para isso. Pois nesse regime prevalece a vontade da maioria e não a "vontade geral" (Rousseau). A maioria pode, p.ex., decidir pela proibição da eutanásia.

Um Estado laico não tem de ser laicista. O laicISMO é uma crença positiva, "religiosa" (religião civil) como qualquer outra.

Ab.,
edg

Anônimo disse...

Nesta província em que predomina a tradição religiosa positiva dita cristã, vinga a idéia de que a personagem Jesus dos evangelhos neotestamentários é histórica.

Falemos abertamente, para o "self" situado no "eu relativo", ou "carne" (na terminologia bíblica), ou no "ego" (nomenclatura budista), Jesus só pode ser elucubrado como ente histórico. O “eu relativo” só pode estabelecer elucubrações no âmbito de conhecimento denominado de “Apara Vidya”, tomando terminologia da Mundaka Upanixade, ou conhecimento mundano. Só com o ingresso do “self” nos estágios progressivos de iluminação, realiza-se o despertar do “Para Vidya”, então Jesus pode assumir outros referentes. Referentes que – ressalve-se - não são divisáveis para o “self” em estágio de “eu relativo”.

Santo Agostinho, que teve abertura para a mente mística, isto é, progrediu o "self" do estágio do "eu relativo" para determinada fase da mente do Absoluto ou Espírito (desculpem-me a imprecisão), em sua leitura reconhece Cristo estando presente no Antigo Testamento. Presença essa não como profecia para um futuro histórico. Agostinho é acompanhado de São João da Cruz e outros místicos.

Diga-se e tribute-se honra a Maomé. É pela mensagem sobre Cristo
no Antigo Testamento e no Novo que Maomé tributa santidade à Tora (Pentateuco) e nos Evangelhos neotestamentários. Também pode-se dizer que o Islão não se resume às prescrições contidas no Corão, mas a Torá e os Evangelhos neotestamentários pretendem cumprir o Islão. O fim é o “Para Vidja”.

Gostaria como último reparo, jamais o mandamento de “amar ao próximo” foi proclamado por um pretenso Jesus histórico. No evangelho de Mateus, cap. 22, vv. 35 a 40, quando Jesus foi inquirido por certo doutor da Lei (Torá/Pentateuco) sobre qual o grande mandamento da Lei, Jesus responde:

“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.”

Veja-se que pela boca da personagem Jesus “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” é fundamento do Antigo Testamento. Tributar esse mandamento como autoridade do Novo Testamento é apropriação indébita. Mas assim a tradição nos repassa, não é?

Tenho certeza que essa divisão em Antigo e Novo Testamentos causaria urticária aos escritores que tiveram seus livros separados como Novo Testamento, quando compõem um só Testamento.

Flávio Santos (Flavius)

Aetano disse...

Caro Cicero,

1. Sendo a dignidade um valor maior que a vida, não estaria então a liberdade de dispor sobre a própria vida, em certo sentido, limitada? Explicitando: pra vc, excepcionalmente, o Estado pode ou não intervir em relações (contratuais, religiosas etc) onde uma das partes resolve sujeitar-se, de livre e espontânea vontade, a situações humilhantes e degradantes? Se não estabelecermos um consenso mínimo sobre o que seja dignidade, como poderemos argumentar contra aquelas relações? Sim, pois se eu tenho o direito de dispor do meu corpo do modo como bem entender, então posso submetê-lo àquelas situações, ou não?

2. Pra vc, quando é que há o risco do secularismo tornar-se "religião"? Ou pra vc esse risco não existe?

Parabéns pelo artigo e desde já agradeço a atenção.

Abraço

Aetano

Antonio Cicero disse...

Edson,

Suas observações estão em itálico, sguidas de minhas respostas:

"Cristão arrogante" é uma contradictio in adjecto. Para o católico e o ortodoxo, a Bíblia precisa ser interpretada pela Igreja com base na tradição apostólica. E Cristo não é apenas uma pessoa humana.

Pois eu conheço muitos cristãos arrogantes.

E a tese de que Cristo não tenha sido uma pessoa humana; e até de que Cristo tenha existido é questionada por não-cristãos: o que, de novo, confirma o caráter particular dessa religião.

Eu lhe pergunto se você não está sendo tão arrogante quanto esse seu cristão "real", quando afirma saber que ninguém tem acesso privilegiado a uma verdade positiva.

Hoje, quando uma pessoa diz que só ela sabe o que é que Deus, logo, o Absoluto, quer, porque Ele revelou seus desígnios a ela e a mais ninguém, de modo que todos têm que ouvi-la para saber como devem agir, então achamos que essa pessoa não só é extremamente arrogante, sim, mas está louca. Vemos algumas pessoas assim na rua e, sem dúvida, em hospícios. A verdade é que a própria particularização ou personalização do Absoluto já é absurda.

Você só teria razão em dizer isso se tivesse demonstrado que Deus não existe. Mas o máximo que você pode fazer é não querer que Deus exista ou não acreditar na sua existência por considerá-la improvável etc.

Mas como, infelizmente para os ateus, Deus pode sim existir, quem garante que Ele não possa também revelar a Si mesmo ou alguma verdade positiva a alguém?


Dependendo do que se quer dizer com “Deus”, pode ser que exista, pode ser que não exista. Não se pode excluir a possibilidade de que os deuses gregos, por exemplo, existam. Seja como for, como há também a possibilidade de que eles não existam, o fato é que não costumamos chamar sequer de “verdade” uma afirmação que um particular faça, simplesmente porque ele alegue tê-la recebido de um Deus. Repito que, se a palavra “Deus” for tomada como sinônimo de “Absoluto”, é inteiramente absurda a pretensão de que ele tenha segregado alguma coisa a alguém.

Assim como você, eu também não quero que me imponham valor algum. Mas isso não resolve nada, antes é o próprio problema. Como é que a sociedade deve se organizar para que todos tenham sua vontade e seus valores respeitados?

Creio que eu já disse o que penso sobre isso, no comentário anterior. O princípio a ser seguido é que a sociedade deve garantir a cada um e a todos o máximo de liberdade compatível com a existência da sociedade.

A democracia não parece bastar para isso. Pois nesse regime prevalece a vontade da maioria e não a “vontade geral” (Rousseau). A maioria pode, p.ex., decidir pela proibição da eutanásia.

O fundamental não é a democracia como vontade da maioria. Mais fundamental que esta e independente dela são a manutenção do estado de direito, da sociedade aberta, dos direitos humanos, da livre expressão do pensamento, da autonomia da arte e da ciência. Assim como não seria legítima uma decisão da maioria que instituísse a tortura, não é legítima a proibição da eutanásia.

Um Estado laico não tem de ser laicista. O laicISMO é uma crença positiva, "religiosa" (religião civil) como qualquer outra.

Não sei bem o que você quer dizer neste ponto. O que exatamente seria um estado laicista? Dê um exemplo.

Edson Dognaldo Gil disse...

Caro ACicero,

A arrogância não é privilégio de nenhuma crença em particular. Somos todos mais ou menos arrogantes. O que eu quis dizer é que a fé cristã não é em si mesma arrogante, pois valoriza acima de tudo o amor, a caridade, a humildade e a pobreza de espírito. -- Cristãos, no sentido lato, somos todos nós ocidentais, inclusive os ateus. Cristãos, no sentido estrito, são bem poucos. Como tem dito, aliás, o próprio papa.

O Estado laicista é aquele que transforma o profano, o secular numa verdadeira religião, com seus dogmas, proibições e punições. Com a desculpa de garantir os direitos humanos, a democracia, esse Estado tende a banir do espaço público todas as expressões do sagrado. Assim, criam-se situações em que a menina pode usar microssaia mas não o véu, e o menino pode usar a camiseta da torcida organizada mas não o crucifixo etc.

Não concordo com a sua concepção de Absoluto e de Deus. Para mim são aspectos da mesma realidade. O senso comum não é capaz de conceber o Absoluto em toda a sua pureza e abstração. Deus é o próprio Absoluto concebido segundo a medida humana. Se fôssemos anjos, talvez não tivéssemos essa limitação.

Abraço,
edg

Antonio Cicero disse...

Caro Aetano,

1.
Não se pode aceitar como axioma que a dignidade seja um valor maior que a vida. Em certas circunstâncias, tendo que escolher, eu certamente optaria pela dignidade, como já disse; mas muitas outras pessoas certamente optariam pela vida. Já ouvi muita gente dizer que qualquer tipo de vida vale a pena. O catolicismo, como se sabe, proíbe o suicídio, a eutanásia e o aborto em qualquer circunstância.

Não creio que a liberdade possa leigitimamente ser limitável. Você fala de situações em que uma das partes resolve sujeitar-se, de livre e espontânea vontade, a situações humilhantes e degradantes. Pois bem, muitos amantes apaixonados preferem ser escravos dos seus amados do que por eles ignorados. E penso que ninguém pode interferir nessa decisão. Do mesmo modo, os masoquistas gostam de ser humilhados.

Quanto a ser escravo por OBRIGAÇÃO CONTRATUAL, isso é inadmissível e já é proibido por lei. Não posso alienar agora a minha liberdade futura. Uma coisa é a servidão voluntária; outra, a forçada.
Uma situação mais delicada é a de quem voluntariamente se escraviza por convicção religiosa, como acontece a muitas esposas muçulmanas. Como poderia o Estado intervir, se elas escolhem ser escravas?

Penso que o que o Estado deve fazer é:

1. Colocar à disposição delegacias femininas às quais possam recorrer as mulheres que querem a liberdade, mas que, por medo, fingem aceitar a escravidão doméstica.

2. Abrigar essas mulheres e procurar dar-lhes condições para que se tornem independentes de seus maridos;

3. Tornar obrigatória para todos a educação em escolas laicas. Tal obrigação, longe de atentar contra a liberdade, é condição para que as crianças possam vir a ser seres humanos livres.

2. Não sei bem o que seria o secularismo como religião. Onde há tal coisa?

Anônimo disse...

Prezado Cícero,

Seu trecho "Repito que, se a palavra “Deus” for tomada como sinônimo de “Absoluto”, é inteiramente absurda a pretensão de que ele tenha segregado alguma coisa a alguém." é muito oportuna e didática. Com isso objeta os argumentos da etnorreligiosidade.

É no sentido de Absoluto que se entende Deus para apóstolo Paulo. Em trecho infelizmente vilipendiado do livro de Romanos, cap. 2, Paulo não adstringe o conhecimento de Cristo a uma organização formal, baseada numa determinada escritura. Como mesmo disse São João da Cruz, em passagem de "Subida do Monte Carmelo", mesmo ao maior pecador Deus é base de sua existência. Mas conhecer tal Deus, e saber-se n'Ele, e usufruir de delícia existencial dessa província mental é empresa da iluminação espiritual. Não um mero exercício do raciocínio, porém estágio de vivência.

Historicamente, em diversos lugares do mundo, mentes humanas bastante inquisidoras e determinadas, por prática de purificação mental e exercício meditativo e contemplação, lograram alcançar altas províncias mentais, onde Deus se faz conhecer e derramar sua beatitude. Cristo, Buda e outros termos foram cunhados para designar essa Sabedoria divina, que não está ao alcance do "self" em estágio de "eu relativo".

O apego a uma determinada manifestação organizada, batizada de cristã, islâmica, seja outra qual for, cada qual se proclamando detentora exclusiva de um futuro de recompensa, não passa de exercício do fermento do "eu relativo", da mente carnal (bíblica), ou ego (budista). Cristo ou Buda é estado de superação desse estado de apego e ignorância, próprio do "eu relativo".

Não é difícil encontrar catecismo de dada igreja que não passa senão de obra de um ego arrogante. Proclama sua suposta divindade e absolutismo como se a rainha Elizabeth da Inglaterra fosse monarca de todo o mundo por um decreto decorrente de encontro de nobres da realeza britânica.

Via de regra, a quase totalidade (não disse todas) das religiões positivas (no caso seitas, na denominação de Maomé) cumprem a função oposta da denominação que se autopespegam. Nunca é o conhecimento de Cristo, nunca chega à prática do Islão, nunca chega ao conhecimento do Buda. Para as mentes de razão mais livre, claro que essas manifestações estão inçadas de contradições e são antiplurais.

Denominações de manifestações organizadas não detêm nenhum apego para a mente que transcende o "eu relativo". Sabe-se que essas denominações podem antes sinalizar reunião de egos arrogantes.

Flávio Santos (Flavius)

Nobile José disse...

cicero,

essa discussão me fez lembrar de um texto seu favorável àquela lei francesa proibindo o uso da burca.

de férias, estou lendo (com grande dificuldade) "o mundo desde o fim". estou gostando muito. penso que se um dia conseguirmos produzir uma mente humana fora do corpo humano (em laboratório), por certo o pensamento pensante será o hardware (ou software tb?) dessa mente artificial.

e não estaríamos diante de uma ferida narcísica, mas de verdadeira fratura narcísica (rs)

o fato da razão ser uma cognição abriu minha cabeça. jesus não é cognição. é sentença. ditada. repetida.

o ultracartesianismo, em certa medida,não antecipa a descrição, que um dia será feita pelas ciências exatas, de como funciona o cérebro? como o que as descobertas de turing foram para a computação???

claro que ainda não se sabe se o pensamento seja sequer um algoritmo. a poesia e a literatura dizem que o infinito é dentro da gente. mas será que tudo isso (ou seja, as possibilidades de criação de nosso pensamento pensante) é infinito mesmo?

o que vc intui sobre isso?

será o pensamento algo computável?

liga não. viajo demais... e obrigado por tornar todo esse conhecimento acessível.

abrçs.

Aetano disse...

Caro Cícero,

Eu me dei conta de que há o risco de um certo "secularismo religioso" ao analisar melhor a questão da proibição do uso da burca. Inicialmente a favor, hoje eu vejo na interdição a intolerância e a arrogância de uma vontade secularizadora que pretende varrer da face da terra qualquer expressão religiosa. A intervenção do Estado, nesse caso, agora me parece indevida porque a liberdade de amar, de idealizar e de sujeitar-se a um Deus deve ser tão respeitada quanto a liberdade de amar, de idealizar e de sujeitar-se a um amor. E SE Deus não existe, tampouco existe o amor que se ama. “TODO AMOR É VIRTUAL” (Calligaris). Quer dizer, se o primeiro amante é idólatra, o segundo também o é. Mas uma certa vontade secularizadora, que respeita, tolera e acolhe a tara sadomasoquista, não admite que, por amor a um Deus, uma esposa aceite e goze e delire com as tapinhas de um marido. Ora, mas toda maneira de amor não vale a pena? Eu sei: nos dois casos o Estado deve viabilizar a libertação da mulher oprimida. Porém, um Estado que proíbe o uso da burca não deveria também interditar as relações sadomasoquistas, o sexo oral e toda forma de SUBMISSÃO DA MULHER, seja ela sexual ou religiosa?

2. De todo modo, há bens inalienáveis (isso também já está juridicamente positivado). Por isso, insisto: um consenso mínimo sobre o que seja dignidade já não estaria estabelecido? Os direitos humanos constitucionalizados já não seriam uma expressão desse consenso?

P.S. Lendo o que vc escreveu ontem e cotejando com o que está escrito aqui http://antoniocicero.blogspot.com/search/label/Burca, parece-me que a sua posição sobre o papel do Estado nessas questões também está mais moderada. Se for assim, o que o teria levado a essa mudança?

Grato pela atenção,

Aetano

Antonio Cicero disse...

Caros Edson, Aetano e Nobile José,

Concretamente, o que Edson diz do Estado laicista é que ele esse Estado, “com a desculpa de garantir os direitos humanos, tende a banir do espaço público todas as expressões do sagrado”.

Pode ser que haja exageros nesse sentido, às vezes, mas a verdade é que a mim parece absurdo, por exemplo, que num país que não tenha religião oficial, como o Brasil, haja um grande crucifixo no Senado Federal e que haja crucifixos em tribunais.

Como lembra Nobile José, já defendi a proibição da burca (http://antoniocicero.blogspot.com/search?q=burca). Na verdade, esse é um caso extremo. O sentido da burca é conservar a mulher sem rosto público. Ela é, desse modo, privada de personalidade pública. A roupa é, nesse caso, a extensão do espaço doméstico, isto é, da dominação masculina. Ela é também o símbolo da superioridade do homem, cujo rosto aparece publicamente, sobre a mulher, que só se revela no espaço doméstico. Nesse sentido, penso que provavelmente a proibição da burca teria um sentido liberador para as mulheres. Digo isso porque hoje a maior parte das meninas muçulmanas que tiveram que deixar de usar o véu, em consequência da sua proibição – bem menos defensável que a da burca – nas escolas públicas francesas, dizem ter ficado muito felizes de se terem livrado da obrigatoriedade de esconder seus cabelos.

Mas confesso que, como não gosto de proibição nenhuma, a minha defesa da proibição da burca foi empreendida mais “disputandi gratia” do que para exprimir uma posição já tomada por mim. Eu quis mostrar que a questão é mais complexa do que normalmente se pensa.

Abraços

Antonio Cicero disse...

Caro Nobile José,

sobre as questões que você me põe, ainda tenho que pensar muito. Não tenho resposta pronta.

Abraço

Aetano disse...

Caro Cicero,

Vc diz que "A MAIOR PARTE das meninas muçulmanas que tiveram que deixar de usar o véu, em consequência da sua proibição – bem menos defensável que a da burca – nas escolas públicas francesas, dizem ter ficado muito felizes de se terem livrado da obrigatoriedade de esconder seus cabelos." (Grifei).

Mas e a minoria? Não há democracia sem respeito às minorias. Sem regras que possam assegurar as liberdades das minorias, todo direito é apenas uma precária concessão.

Quanto ao uso de crucifixos em tribunais, o Conselho Nacional de Justiça já decidiu que a prática não fere a laicidade do Estado, pois "os objetos seriam símbolos da cultura brasileira". Ademais, se a onda pegasse, o Rio de Janeiro logo logo perderia o cristo redentor:

QUE HORROR CONSTATAR QUE O SECULARISMO TAMBÉM É VULGAR!

Abcs

Aetano

Anônimo disse...

O colega Edson Dognaldo Gil tocou num ponto interessante:

"Cristãos, no sentido estrito, são bem poucos. Como tem dito, aliás, o próprio papa."

Eu acrescentaria, nem o atual papa se enquadra como cristão, no sentido bíblico do termo. Identificados ainda que historicamente como da ordem católica, há pessoas hoje -- raríssimas, frise-se -- que cumpriram o percurso de iluminação espiritual em grandes alturas. Na terminologia bíblica, receberam o batismo do Espírito Santo. Batismo é transformação de consciência, não rito que exija conduta humana exterior. Com profundo pesar, tenho que me render à evidência: o papa está longe de alcançar ainda mesmo o estágio inicial da iluminação ou o batismo de João, que precede o batismo do Espírito Santo.

Para amparo do comentado, o papa Bento XVI - erudito decerto - não apresenta características dos estágios de topo em modelos de estudo da Psicologia do desenvolvimento. Suas posições sectárias, seu patriarcalismo, suas posturas apontadas "conservadoras", são características bem identificadas e pertencem a uma visão particular de mundo. Há visões de mundo mais complexas, onde o pluralismo ganha fôlego. É inevitável que haja choques dentro da própria organização católica, como a história registra, principalmente contra aquelas abertas à pluralidade. Para o papa Bento XVI, "cristão" é aquele que segue a doutrina por ele imposta ou comungada, dos dogmas. Sacerdote mulher não cabe no figurino cristão de Bento XVI, por exemplo.

Voltemos à Bíblia. Este compêndio, complexo, usa de simbologia, e como exemplo o termo judeu, quando veicula mensagem evangélica, não identifica indivíduo histórico de uma nação judaica. Quase sempre, também, os termos homem e mulher também não identificam ente macho ou fêmea do "Homo sapiens", inclusive nas cartas paulinas. A mulher de véu na Bíblia ou Alcorão também não é ser humano feminino. O termo "fé" também não significa fervor ou adesão à crença, como costumamos empreender.

Os termos na Bíblia, simples na redação e fácil no manuseio cotidiano, implicam estado de consciência que requer grandes transformações. “Confessar Jesus” implica em batismo do Espírito Santo, ou Iluminação em que se transcende o ego. Porém, sem intenção de menoscabar, diversas igrejas humanas, de pessoas de entendimento simples, pensam cumprir a Bíblia fazendo corresponder a conduta humana exterior à leitura literal, empregando vocábulos como “Em nome de Jesus”, instituindo ritos de batismo, e tais, o que incorre no que Paulo chama de “obras da lei”, que é condenado, pois não aperfeiçoa em nada, implicando em atraso e desvio do evangelho.

Como exemplo evangélico de judeu, temos:

"Mas é judeu o que o é no interior, e circuncisão a que é do coração, no espírito, não na letra; cujo louvor não provém dos homens [aqui significa aprovação do ego relativo], mas de Deus." (Romanos 2:29)

"Conheço as tuas obras, e tribulação, e pobreza (mas tu és rico), e a blasfêmia dos que se dizem judeus, e não o são, mas são a sinagoga de Satanás." Apocalipse 2:9

Tornando à questão do patriarcado, é de notar que as cartas de Paulo e o livro de Atos registram a existência de apóstolos homens e mulheres, sendo de citar aqui pelo menos Priscila, esposa de Áquila:

"Saudai a Priscila e a Áqüila, meus cooperadores em Cristo Jesus," Romanos 16:3

No mundo histórico, Paulo honra igualmente homens e mulheres "Homo sapiens", ambos exercendo o apostolado antes mesmo de sua iluminação, recebendo a chancela dele. Só exerce distinção quando do uso simbólico, que nomeia aspectos particulares da consciência, distinguidos em pólos masculino e feminino, bem como injunções e postura adequada quando da execução da contemplação mística (mulher calar-se na igreja, por exemplo).

Cícero, um beijo grande em teu coração por suportar minhas alienações.

Flávio Santos (Flavius)

Antonio Cicero disse...

Caro Flavius,

tenho achado os seus textos extremamente inteligentes e instigantes. Muito obrigado por eles.

Um grande abraço

Antonio Cicero disse...

Caro Aetano [primeira parte],

Seus comentários estão em itálico:

Eu me dei conta de que há o risco de um certo "secularismo religioso" ao analisar melhor a qeustão da proibição do uso da burca. Inicialmente a favor, hoje eu vejo na interdição a intolerância e a arrogância de uma vontade secularizadora que pretende varrer da face da terra qualquer expressão religiosa. A intervenção do Estado, nesse caso, agora me parece indevida porque a liberdade de amar, de idealizar e de sujeitar-se a um Deus deve ser tão respeitada quanto a liberdade de amar, de idealizar e de sujeitar-se a um amor.

Creio que já expliquei as razões para defender a proibição da burca. O sentido da busca é confinar a mulher ao espaço doméstico, mesmo quando ela se encontra na rua. Pretende anular a mulher como cidadã e torná-la a serva do marido ou da família. É claro que algumas mulheres, cuja opressão é corroborada pela religião, aceitam a burca . Outras, porém, são certamente obrigadas pelos maridos e pela tradição religiosa e machista a usá-la. Nessas circunstâncias, a proibição da burca pode ter uma função positiva: as mulheres que a usavam por convicção religiosa não estarão cometendo pecado, se deixarem de usá-la em consequência da proibição, e não por livre e espontânea vontade; já as outras terão escapado da opressão da burca e poderão, se quiserem, integrar-se melhor à sociedade laica. De todo modo, a burca é usada em poucas comunidades muçulmanas: o que significa que não é uma exigência do islã.

E SE Deus não existe, tampouco existe o amor que se ama. “TODO AMOR É VIRTUAL” (Calligaris). Quer dizer, se o primeiro amante é idólatra, o segundo também o é.

Acho ininteligíveis essas teses. “Se Deus não existe, tampouco existe o amor que se ama”. Que amor? O amor a Deus? Ou você está dizendo que, se Deus não existe, não existe amor nenhum? E por amor você entende a pessoa amada ou o sentimento? De qualquer maneira, parece-me um non-sequitur.

Mas uma certa vontade secularizadora, que respeita, tolera e acolhe a tara sadomasoquista, não admite que, por amor a um Deus, uma esposa aceite e goze e delire com as tapinhas de um marido..

Uma coisa é a mulher – ou qualquer um – gozar numa relação sexual sadomasoquista livremente desejada por ambas as partes. Isso é um direito universal. Outra coisa é ela ser propriedade do marido, levar surras ou ser obrigada a usar uma burca.

Ora, mas toda maneira de amor não vale a pena? Eu sei: nos dois casos o Estado deve viabilizar a libertação da mulher oprimida. Porém, um Estado que proíbe o uso da burca não deveria também interditar as relações sadomasoquistas, o sexo oral e toda forma de SUBMISSÃO DA MULHER, seja ela sexual ou religiosa?

O Estado que proíbe a burca está protegendo as mulheres, oprimidas pelos maridos e por uma tradição religiosa machista. Mas o Estado não pode intervir na forma das relações sexuais livremente desejadas por ambas as partes, a menos que infrinjam a lei, provocando, por exemplo, ferimentos graves, mutilação ou morte.

[continua]

Antonio Cicero disse...

Caro Aetano [segunda parte}:

De todo modo, há bens inalienáveis (isso também já está juridicamente positivado). Por isso, insisto: um consenso mínimo sobre o que seja dignidade já não estaria estabelecido? Os direitos humanos constitucionalizados já não seriam uma expressão desse consenso?

O que é dignidade para um pode não ser para outro. Os direitos humanos protegem a liberdade.

Vc diz que "A MAIOR PARTE das meninas muçulmanas que tiveram que deixar de usar o véu, em consequência da sua proibição – bem menos defensável que a da burca – nas escolas públicas francesas, dizem ter ficado muito felizes de se terem livrado da obrigatoriedade de esconder seus cabelos." (Grifei).
Mas e a minoria? Não há democracia sem respeito às minorias. Sem regras que possam assegurar as liberdades das minorias, todo direito é apenas uma precária concessão.


A maioria escapou da opressão familiar e religiosa. Já a minoria, que aceita essa opressão, ou nem a considera como opressão, não estará cometendo nenhum pecado, pois não será por livre e espontânea vontade que estará deixando de usar o véu, mas porque este é proibido.

Quanto ao uso de crucifixos em tribunais, o Conselho Nacional de Justiça já decidiu que a prática não fere a laicidade do Estado, pois "os objetos seriam símbolos da cultura brasileira".

É evidente que está errada e é inaceitável essa decisão. O crucifixo é símbolo do cristianismo, e não da cultura brasileira. Esta é o resultado da fusão de inúmeras religiões, nenhuma das quais – apenas por provisoriamente pertencer à maioria – pode ser privilegiada pelo Estado. Ora, os tribunais e o senado representam o Estado. Sabe-se, por exemplo, que o número de ateus cresce mais rapidamente do que o número de adeptos de qualquer denominação religiosa. Também o de muçulmanos e budistas cresce em ritmo maior que o dos cristãos. Ora, todos eles podem perfeitamente, pensando, como Nietzsche, que “o Deus na cruz é uma maldição à vida” sentir-se ofendidos com a ostentação desse símbolo pelo Estado laico.

Ademais, se a onda pegasse, o Rio de Janeiro logo logo perderia o cristo redentor.

A proibição de símbolos religiosos em instituições que representam o Estado não implica a proibição de todo símbolo religioso em todos os lugares. Ninguém está falando de destruir as igrejas, por exemplo. Isso seria absurdo. Por que, então, destruir o Cristo Redentor?

Dito isso, confesso que acho horrível essa estátua art déco. E não é horrível porque represente o Cristo, mas porque é Kitsch mesmo. O Corcovado ficaria muito mais bonito sem ela.

Aetano disse...

Caro Cicero, seguem minhas respostas. Se houver duplicidade, fique à vontade para excluir o comentário repetido:

PARTE 01

AETANO: Inicialmente a favor, hoje eu vejo na interdição a intolerância e a arrogância de uma vontade secularizadora que pretende varrer da face da terra qualquer expressão religiosa. A intervenção do Estado, nesse caso, agora me parece indevida porque a liberdade de amar, de idealizar e de sujeitar-se a um Deus deve ser tão respeitada quanto a liberdade de amar, de idealizar e de sujeitar-se a um amor.

AC: Creio que já expliquei as razões para defender a proibição da burca. O sentido da busca é confinar a mulher ao espaço doméstico, mesmo quando ela se encontra na rua. Pretende anular a mulher como cidadã e torná-la a serva do marido ou da família. É claro que algumas mulheres, cuja opressão é corroborada pela religião, aceitam a burca . Outras, porém, são certamente obrigadas pelos maridos e pela tradição religiosa e machista a usá-la. Nessas circunstâncias, a proibição da burca pode ter uma função positiva: as mulheres que a usavam por convicção religiosa não estarão cometendo pecado, se deixarem de usá-la em consequência da proibição, e não por livre e espontânea vontade; já as outras terão escapado da opressão da burca e poderão, se quiserem, integrar-se melhor à sociedade laica. De todo modo, a burca é usada em poucas comunidades muçulmanas: o que significa que não é uma exigência do islã.

AETANO: Creio que já expliquei que sou contra a opressão da mulher, mas a vontade de libertar a mulher da burca não pode desconsiderar a liberdade que ela tem de usá-la. As mulheres muçulmanas que em razão da TRADIÇÃO não tinham liberdade de decidir entre usar ou não a burca continuam sem aquela liberdade, mas agora em razão da LEI. Ora, qual a diferença, meu caro? Quando é que vamos dar às mulheres o direito de escolher? Como diz João Pereira Coutinho, liberdade não é impor um único padrão de comportamento. Liberdade é, precisamente, não impor nenhum.

AETANO: E SE Deus não existe, tampouco existe o amor que se ama. “TODO AMOR É VIRTUAL” (Calligaris). Quer dizer, se o primeiro amante é idólatra, o segundo também o é.

AC: Acho ininteligíveis essas teses. “Se Deus não existe, tampouco existe o amor que se ama”. Que amor? O amor a Deus? Ou você está dizendo que, se Deus não existe, não existe amor nenhum? E por amor você entende a pessoa amada ou o sentimento? De qualquer maneira, parece-me um non-sequitur.

AETANO: Claro que “amor” aqui se refere à pessoa amada! E o que não faz sentido é vc chamar de idólatra quem ama, idealiza e sujeita-se a um Deus, e não usar o mesmo termo pejorativo para quem ama, idealiza e sujeita-se a alguém. Se, como diz Calligaris, todo objeto de amor é virtual, então todos os que amam são idólatras. Onde está a falácia desse argumento?

[continua]

Aetano disse...

PARTE 02

AETANO: Mas uma certa vontade secularizadora, que respeita, tolera e acolhe a tara sadomasoquista, não admite que, por amor a um Deus, uma esposa aceite e goze e delire com as tapinhas de um marido.

AC: Uma coisa é a mulher – ou qualquer um – gozar numa relação sexual sadomasoquista livremente desejada por ambas as partes. Isso é um direito universal. Outra coisa é ela ser propriedade do marido, levar surras ou ser obrigada a usar uma burca.

AC: O Estado que proíbe a burca está protegendo as mulheres, oprimidas pelos maridos e por uma tradição religiosa machista. Mas o Estado não pode intervir na forma das relações sexuais livremente desejadas por ambas as partes, a menos que infrinjam a lei, provocando, por exemplo, ferimentos graves, mutilação ou morte.

AETANO: Novamente, onde estão as mulheres que, livremente, gozam, deliram e deliciam-se com o uso da burca? Onde estão aquelas que com o uso dessa vestimenta sentem-se puras, imaculadas e santas? Por que vc acha que há liberdade quando uma mulher resolve sujeitar-se a uma relação sadomasoquista, mas não há liberdade quando ela resolve sujeitar-se à tradição da burca? Ora, parece-me que em ambas ela deseja desempenhar o papel de submissa.

Repito: o Estado deve viabilizar a libertação da mulher oprimida. Porém, se decidir proibir o uso da burca deve também interditar as relações sadomasoquistas, o sexo oral e toda forma de SUBMISSÃO DA MULHER, seja ela sexual ou religiosa.

[CONTINUA]

Aetano disse...

PARTE 03

AETANO: De todo modo, há bens inalienáveis (isso também já está juridicamente positivado). Por isso, insisto: um consenso mínimo sobre o que seja dignidade já não estaria estabelecido? Os direitos humanos constitucionalizados já não seriam uma expressão desse consenso?

AC: O que é dignidade para um pode não ser para outro. Os direitos humanos protegem a liberdade.

AETANO: Ora, se é verdade que os direitos humanos constitucionalizados protegem somente a liberdade – veremos que não é bem assim –, então este bem jurídico é a expressão mínima da dignidade. Aqueles direitos representariam, desse modo, um consenso mínimo sobre o que seja dignidade. Assim, dignidade seria, no mínino, ter liberdade.
Devo dizer, ainda, que a doutrina jurídica também reconhece a igualdade e a fraternidade (ou solidariedade) como bens jurídicos amparados pelos direitos humanos. É verdade que NORBERTO BOBBIO, na obra “A era dos direitos”, p. 32/33, diz que o desenvolvimento dos direitos do homem passou por três fases: num primeiro momento afirmaram-se os direitos de liberdade (“liberdade em relação ao Estado”); num segundo momento, foram propugnados os direitos políticos (“liberdade no Estado”); e, finalmente, foram proclamados os direitos sociais (“liberdade através ou por meio do Estado”). Contudo, na obra “Teoria Geral da Política”, o mesmo autor acrescenta que a igualdade é também objeto dos direitos humanos. Segundo BOBBIO, “é como se disséssemos, em primeiro lugar, que os seres humanos são livres (nos vários significados de liberdade anteriormente ilustrados), e posteriormente se acrescenta que são IGUAIS NO GOZO DESSA LIBERDADE.” (p. 491).

Sendo assim, liberdade e igualdade seriam expressões mínimas da dignidade.

Note que tanto a obrigatoriedade do uso da burca quanto a proibição de seu uso afrontam justamente a IGUALDADE que se deve ter no gozo da liberdade. Ou seja, quem quer usar deve ter a MESMA liberdade de quem não quer.

[CONTINUA]

Aetano disse...

PARTE 04

AETANO: Vc diz que "A MAIOR PARTE das meninas muçulmanas que tiveram que deixar de usar o véu, em consequência da sua proibição – bem menos defensável que a da burca – nas escolas públicas francesas, dizem ter ficado muito felizes de se terem livrado da obrigatoriedade de esconder seus cabelos." (Grifei).
Mas e a minoria? Não há democracia sem respeito às minorias. Sem regras que possam assegurar as liberdades das minorias, todo direito é apenas uma precária concessão.

AC: A maioria escapou da opressão familiar e religiosa. Já a minoria, que aceita essa opressão, ou nem a considera como opressão, não estará cometendo nenhum pecado, pois não será por livre e espontânea vontade que estará deixando de usar o véu, mas porque este é proibido.

AETANO: Aplica-se ao uso do véu o que disse sobre o uso da burca: proibir é tão violento quanto obrigar. Não se trata apenas de não cometer pecado. O que está em discussão é o direito que a minoria tem de ser feliz do modo que quiser. Nesse ponto, impossível não citar Calligaris (sempre ele):

[CONTINUA]

Aetano disse...

PARTE 05:

“A felicidade, para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua.

Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros.

Invento e procuro minha versão da felicidade, com apenas um limite: MINHA BUSCA NÃO PODE IMPEDIR OS OUTROS DE PROCURAR A FELICIDADE QUE ELES BEM ENTENDEM.

[...]

Não ficou claro? Pois bem, imagine que, para ser feliz, você ache necessário que todos queiram ser felizes do jeito que você gosta; inevitavelmente, você desprezará a busca da felicidade de seus concidadãos exatamente como o bandido ou o estuprador a desprezam.

Em matéria de felicidade, os governos podem oferecer as melhores condições possíveis para que cada indivíduo persiga seu projeto [...]. Mas o melhor governo é o que não prefere nenhuma das diferentes felicidades que seus sujeitos procuram.

[...]

Será que um governo deve favorecer a ideia de felicidade compartilhada pela maioria? Ou, então, será que deve apoiar a felicidade que teria uma mais "nobre" inspiração moral?

Antes de responder, considere: os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre "sabem" qual é a felicidade "certa" para seus sujeitos. Juram que eles querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social -claro, é a mesma felicidade para todos. É isso que você quer?

(“O direito de buscar a felicidade, Folha de São Paulo, Ilustrada, 10/06/2010. Grifei)

[CONTINUA]

Aetano disse...

ÚLTIMA PARTE:

AETANO: Quanto ao uso de crucifixos em tribunais, o Conselho Nacional de Justiça já decidiu que a prática não fere a laicidade do Estado, pois "os objetos seriam símbolos da cultura brasileira".

AC: É evidente que está errada e é inaceitável essa decisão. O crucifixo é símbolo do cristianismo, e não da cultura brasileira. Esta é o resultado da fusão de inúmeras religiões, nenhuma das quais – apenas por provisoriamente pertencer à maioria – pode ser privilegiada pelo Estado. Ora, os tribunais e o senado representam o Estado. Sabe-se, por exemplo, que o número de ateus cresce mais rapidamente do que o número de adeptos de qualquer denominação religiosa. Também o de muçulmanos e budistas cresce em ritmo maior que o dos cristãos. Ora, todos eles podem perfeitamente, pensando, como Nietzsche, que “o Deus na cruz é uma maldição à vida” sentir-se ofendidos com a ostentação desse símbolo pelo Estado laico.

AETANO: O crucifixo é símbolo do cristianismo que é parte da cultura brasileira. Os Tribunais e o Senado, ao exibirem-no, apenas expressam essa cultura. Quanto à frase de Nietzsche, se ela é uma verdade, o seu oposto também o é.

AETANO: Ademais, se a onda pegasse, o Rio de Janeiro logo logo perderia o cristo redentor.

AC: A proibição de símbolos religiosos em instituições que representam o Estado não implica a proibição de todo símbolo religioso em todos os lugares. Ninguém está falando de destruir as igrejas, por exemplo. Isso seria absurdo. Por que, então, destruir o Cristo Redentor?

Dito isso, confesso que acho horrível essa estátua art déco. E não é horrível porque represente o Cristo, mas porque é Kitsch mesmo. O Corcovado ficaria muito mais bonito sem ela.

AETANO: Quem nos garante que após proibir aqueles símbolos em instituições públicas a religião secular não iria investir contra o seu uso em todos os lugares? Não é justamente sobre o uso de véus e burcas em locais públicos que estamos conversando?

Quanto à sua opinião estética, o que fazer se o Brasil é um país kitsch?

Aetano

Antonio Cicero disse...

Caro Aetano,

suas palavras estão em itálico, seguidas das minhas respostas.

Creio que já expliquei que sou contra a opressão da mulher, mas a vontade de libertar a mulher da burca não pode desconsiderar a liberdade que ela tem de usá-la. As mulheres muçulmanas que em razão da TRADIÇÃO não tinham liberdade de decidir entre usar ou não a burca continuam sem aquela liberdade, mas agora em razão da LEI. Ora, qual a diferença, meu caro?

A diferença é grande. Como já expliquei, não sou incondicionalmente a favor de proibição nenhuma. A proibição da burca não é um dogma, para mim. Mas a minha posição é de que não há nem comparação entre a violência física e simbólica da imposição da burca a uma mulher e a violência simbólica da proibição da burca. A primeira é muito pior. Obrigar uma pessoa a usar em público, DURANTE A VIDA INTEIRA, um capuz, como fazem os maridos machistas que obrigam suas mulheres a usar a burca, é uma maldade infinitamente maior do que proibir todas as pessoas do mundo a usar esse capuz. Por isso, se houvesse um plebiscito, eu votaria a favor da proibição da burca.

Quando é que vamos dar às mulheres o direito de escolher?

Essa pergunta é retórica, porque atualmente as mulheres, obrigadas pelos maridos a fazer o que eles querem e mantidas num regime religioso obscurantista, não têm direito nenhum de escolher: não sabem nem que poderiam ter esse direito.

Eis o que diz Rabat sobre esse mundo:

“É um mundo onde a mulher é totalmente subordinada ao homem; onde a sua virgindade é garantida com a faca através da mutilação genital em criança; onde é obrigada a casar com um homem escolhido pelo pai; onde uma palavra ou um olhar trocado com um homem que não seja pai ou irmão, pode trazer a pena de morte. Um mundo onde a mulher violada é castigada e não o violador. Um mundo onde as mulheres, desde uma tenra idade, terão que tapar o rosto e o resto do corpo, para não provocar os (aparentemente) incontroláveis apetites dos homens. Um mundo em que aprender os dogmas do Islão consiste em decorar o Alcorão em Árabe, muitas vezes sem conhecer essa língua. Um mundo em que uma das doutrinas decoradas é do direito do marido de bater na mulher.”

Eis o que Ayaam Hirsi Ali, que cresce nesse mundo, na Somália, e, como outras mulheres, defendeu-o, pois, por falta de opções, como outras mulheres muçulmanas, foi até fundamentalista. Tendo tido a rara chance de estudar, porém, ela hoje diz:
“O véu muçulmano, as diferentes espécies de máscaras e bicos e burcas são todas gradações da escravidão mental. A mulher tem que pedir permissão para sair e, quando sai, tem sempre que se cobrir por roupagens grossas. Envergonhada do próprio corpo, suprimindo seus desejos: que pequeno espaço de sua vida pode ela chamar de seu? O véu deliberadamente separa as mulheres como propriedade privada e restrita, não-pessoas. O véu separa as mulhres dos homens e do mundo; restringe-as, confina-as, domestica-as para que sejam dóceis. A mente pode ser atrofiada, como o corpo, e o véu muçulmano prejudica tanto a vista quanto o detino da mulher. É a marca de uma espécie de apartheid, não o domínio de uma raça, mas de um sexo.”

É por isso que não tem o menor sentido o que você diz abaixo, i.e.:

Novamente, onde estão as mulheres que, livremente, gozam, deliram e deliciam-se com o uso da burca? Onde estão aquelas que com o uso dessa vestimenta sentem-se puras, imaculadas e santas? Por que vc acha que há liberdade quando uma mulher resolve sujeitar-se a uma relação sadomasoquista, mas não há liberdade quando ela resolve sujeitar-se à tradição da burca? Ora, parece-me que em ambas ela deseja desempenhar o papel de submissa.

[continua]

Antonio Cicero disse...

Caro Aetano [continuação]:

Repito: o Estado deve viabilizar a libertação da mulher oprimida. Porém, se decidir proibir o uso da burca deve também interditar as relações sadomasoquistas, o sexo oral e toda forma de SUBMISSÃO DA MULHER, seja ela sexual ou religiosa.

Isso está inteiramente errado. Primeiro, as mulheres muçulmanas de que estamos tratando não têm a opção de usar ou não a burca, como uma mulher ocidental, de participar de uma relação sado-maso. Segundo, nas relações sado-maso, em muitos casos – creio até que na maior parte – quem tem a posição maso é o homem, não a mulher.

Claro que “amor” aqui se refere à pessoa amada! E o que não faz sentido é vc chamar de idólatra quem ama, idealiza e sujeita-se a um Deus, e não usar o mesmo termo pejorativo para quem ama, idealiza e sujeita-se a alguém. Se, como diz Calligaris, todo objeto de amor é virtual, então todos os que amam são idólatras. Onde está a falácia desse argumento?

Aetano, isso é uma grande confusão. A idolatria é o pior pecado para a Igreja, porque consiste na usupação do lugar de Deus por um ídolo humano.
Metaforicamente, o amante diz idolatrar seu amado, isto é, colocá-lo no lugar de Deus. É que ele ADORA (metaforicamente) seu amado. Mas só um louco pensaria que seu amado é literalmente Deus. Por isso, a metáfora é normalmente inofensiva. Não há problema nenhum em dizer que o amante idolatra seu amado.


Quanto à questão da busca da felicidade, eu mesmo postei o artigo do Calligaris no meu blog. Eu não tenho uma concepção substantiva do bem comum. Ao contrário, o tempo inteiro venho afirmando que o Estado só pode garantir a liberdade: a liberdade de cada qual escolher a felicidade que bem entender. O que digo é que as mulheres que usam a burca jamais tiveram escolha.

O crucifixo é símbolo do cristianismo que é parte da cultura brasileira. Os Tribunais e o Senado, ao exibirem-no, apenas expressam essa cultura.

Acho que já respondi acima. Não é admissível que o Estado privilegie nenhuma religião como mais brasileira do que qualquer outra, no Brasil.

Quanto à sua opinião estética, o que fazer se o Brasil é um país kitsch?

Não concordo. Há de tudo no Brasil. A estátua é kitsch, mas “Claro enigma”, de Drummond, não é.

Edson Dognaldo Gil disse...

ACicero,

Mais de uma vez você afirma que o "sentido da burca é conservar a mulher sem rosto público". Pode até ser que um dos sentidos, ou dos efeitos, da burca seja mesmo esse. Mas é evidente que a burca tem também um sentido religioso, sacro, no mínimo tão importante quanto qualquer outro.

Por trás dessa sua afirmação categórica está um juízo de valor relativista: quem garante que as mulheres, todas elas, querem ter rosto público, ser cidadãs, ser -- modernas?

Conheço mulheres bem-sucedidas que gostariam de voltar no tempo, quando os homens eram chefes de família e ganhavam o suficiente para todos, quando as mulheres tinham tempo para os filhos e para si mesmas, como mulheres e não como "cidadãs" (consumidoras?).

Provavelmente você está certo quando imagina que a maioria das mulheres usuárias de burca apreciaria pelos menos não ser obrigada a usá-la. Deve ser mesmo tentador ser mais um rosto anônimo nessa sociedade do espetáculo.

Mas alguém precisa avisar essas mulheres que isso tudo tem um preço. E um deles é a perda do poder doméstico que elas de fato têm. No islã, se a rua é do homem, a casa é da mulher.

Esse assunto é muito complexo para ser tratado assim, com medidas pretensamente modernas mas certamente paternalistas.

Ab.,
edg

Edson Dognaldo Gil disse...

Caros,

Essa história de que a felicidade varia segundo o gosto do freguês é mais uma expressão do relativismo modernoso, para o qual o homem pode ser o que ele bem quiser.

Infelizmente não é assim. A natureza acaba sempre impondo os seus limites. O que está por trás desse juízo de valor relativista é o hedonismo, que confunde a felicidade com o prazer.

Se cada um pode sentir prazer de um jeito, isso já não ocorre com a felicidade. O viciado sente um prazer imenso na droga, mas disso não se segue que ele seja feliz.

Essa ideologia está causando uma verdadeira destruição da infância. Os pais modernosos fazem as vontades das crianças porque isso as deixa "felizes". Obesas, mal educadas, mimadas, superficiais, mas "felizes".

A verdade é que a satisfação plena dos desejos, o gozo incontido sempre acabam provocando algum tipo de sofrimento (lição epicurista!).

Parece que os psicanalistas perderam o bom senso... Enquanto o próprio Freud sabia muito bem que não há amor que sobreviva sem um mínimo de sublimação.

Agora, o discernimento entre prazer, alegria e felicidade não implica a imposição a ninguém de valor algum. Nisso eu estou de pleno acordo: que cada um seja infeliz como bem quiser!

Mas vamos acabar com essa hipocrisia politicamente correta de chamar qualquer sensação prazerosa de felicidade.

Ab.,
edg

Sidartha disse...

Prezados,

Discussão muito interessante, com argumentos muito bem esgrimidos de lado a lado. Permitam-me um breve comentário, para somar uma variável a mais nesta equação: a oposição entre, chamarei, "razão/esclarecimento" e "cultura/tradição/religião/obscurantismo", à qual atinei quando deparado com a passagem de Ayaam Hirsi Ali, trazida por Cícero. Esta mulher, tendo, conforme Cícero, a "rara chance de estudar", elaborou uma crítica ao significado do véu muçulmano, na verdade uma denúncia da escravidão mental expressa pela burca.

Como ocidental, racionalista, ateu etc, por "default" tendo a corroborar não só a posição de Ali como também o argumento fundamental do Cícero. Mas aí fiquei a imaginar o seguinte: a partir do momento em que "estudou", não terá Ali assumido a perspectiva "cultural" do Ocidente, a qual será impiedosa em relação à cultura/religiosidade muçulmana etc?

Confesso que sou ignorante quanto aos significados religiosos/morais/culturais cultivados pelo islamismo. Por outro lado, conheço noções como a da supremacia da razão, do império da liberdade individual, do indivíduo livre/pensante etc. E o resultado necessário é que condenarei uma cultura ou uma forma de sociabilidade que não tem como princípios fundamentais os meus (racionalista, "ocidental", individualista etc). A questão que surgiu então foi: a "chance de estudar" - entenda-se, o acesso a uma formação intelectual racionalista, "ocidental", individualista/"liberal" etc - leva necessariamente ao ponto em que "hoje" Ali está?

Suponho que a natureza do "estudo" ou da formação (ou "reformação") intelectual de Ali tenha sido a natureza racionalista, individualista e "liberal", que nos faz orgulhosos quanto à nossa condição de esclarecidos pela razão, por um modo de pensar que nos gabarita a criticar tradições "obscurantistas" - entenda-se, contrárias aos princípios do "ocidentalismo" etc.

Toda tradição, toda cultura e toda religião contém em si uma aspiração à universalidade, a qual se baseia em uma noção própria de "esclarecimento" - romanos consideravam-se "esclarecidos" em relação aos bárbaros, cristãos consideravam-se "esclarecidos" em relação aos romanos/pagãos etc, europeus em relação aos ameríndios pré-colombianos etc, etc.

Nós, ocidentais, também temos a nossa tradição greco-romana/racionalista etc. Minha questão então seria: a razão (e seus derivados, o império do indivíduo etc) seria a definitiva expressão do esclarecimento e do contato com o "universal" (o válido em qualquer ponto do universo), ou seria mais uma tradição cultural, baseada, como outras em eras passadas, na pretensão à universalidade?

Como ocidental, racionalista, ateu etc., acredito espontaneamente que a razão (e seus derivados) é o que realmente toca no universal e na verdade, enquanto culturas e religiões passadas eram (e são) impregnadas por misticismos e arbitrariedades diversas - ou seja, tendo a me aproximar da posição geral defendida por Cícero.

Serei um arrogante por causa disso? Seremos, os racionalistas/"ocidentalistas", os romanos de nossa época? Minha razão é de fato a expressão única e verdadeira do "esclarecimento", ou é mais um etnocentrismo?

Abraços
Sidartha

Nobile José disse...

kkkkkkkk
e olha que sempre que eu ouço fullgas, me vem a imagem do cristo redentor "vc me abre seus braços, e a gente faz um país"

Aetano disse...

Caro Cicero, seguem minhas considerações:

PARTE 01:

AC: Por isso, se houvesse um plebiscito, eu votaria a favor da proibição da burca.

AETANO: Em linhas gerais, prefiro concordar com o Cicero das palavras abaixo:

"Uma situação mais delicada é a de quem voluntariamente se escraviza por convicção religiosa, como acontece a muitas esposas muçulmanas. Como poderia o Estado intervir, se elas escolhem ser escravas?

Penso que o que o Estado deve fazer é:

1. Colocar à disposição delegacias femininas às quais possam recorrer as mulheres que querem a liberdade, mas que, por medo, fingem aceitar a escravidão doméstica.

2. Abrigar essas mulheres e procurar dar-lhes condições para que se tornem independentes de seus maridos;

3. Tornar obrigatória para todos a educação em escolas laicas. Tal obrigação, longe de atentar contra a liberdade, é condição para que as crianças possam vir a ser seres humanos livres."

[continua]

Aetano disse...

PARTE 02:

AC: [...] atualmente as mulheres, obrigadas pelos maridos a fazer o que eles querem e mantidas num regime religioso obscurantista, não têm direito nenhum de escolher: não sabem nem que poderiam ter esse direito.

AETANO: Uma pesquisa no site da "Human Rights Watch" - instituição que é contra a proibição do uso da burca e do véu - é o suficiente para ficar com a impressão de que essa sua GENERALIZAÇÃO é preconceituosa. Sugiro uma lida no trabalho "Discrimination in the name of neutrality" (http://www.hrw.org/en/reports/2009/02/25/discrimination-name-neutrality-0), de onde retirei esse trecho:

"Women teachers who wear a headscarf are invariably asked to explain why they do so, and their independence and views on women's equality are questioned. Articulating her frustration at the assumptions she saw as underpinning the ban, Fahimah, an elementary school teacher in Essen (North Rhine-Westphalia), told Human Rights Watch, 'Those who made these laws don't know us.' She continued:
'They should ask our colleagues, directors, school inspectors, the parents, the pupils what kind of persons we are. All of them have experienced me and know me so well, that they can attest for sure that I am not oppressed and that I do not wear the scarf because of oppression… [The authorities] cannot just simply allege this; for that they would have to get to know us to know if we are oppressed women who manifest this through the headscarf.… One cannot just simply assert this like this. One cannot regard the headscarf as a symbol for that.'

Veja que é uma professora quem está dizendo que NÃO É OPRIMIDA E QUE NÃO USA O VÉU POR CAUSA DA OPRESSÃO.

[CONTINUA]

Aetano disse...

PARTE 03:

Noutro artigo do "Human Watch Rights" ("Beyond the burqa" http://www.hrw.org/en/news/2009/07/02/beyond-burqa), pode-se ler:

"There is no doubt that many Muslim women are forced to wear the burqa or other forms of veil and are unable to make decisions about the most fundamental aspects of their lives. But there is equally little doubt that many other Muslim women have made a free and informed decision to wear such coverings, and value the space to practice their religion in public. Banning the burqa fundamentally undermines their rights and perhaps most importantly does not provide any meaningful assistance to those women who are coerced and forced to cover their bodies and faces."

Como se vê, muitas mulheres são forçadas a usar a burca e são incapazes de tomar decisões sobre os aspectos mais fundamentais das suas vidas, MAS MUITAS MULHERES MUÇULMANAS TOMARAM UMA DECISÃO LIVRE E INFORMADA SOBRE O USO.

É por isso que não tem o menor sentido o que você diz abaixo, i.e.:

"as mulheres muçulmanas de que estamos tratando não têm a opção de usar ou não a burca, como uma mulher ocidental, de participar de uma relação sado-maso."

[CONTINUA]

Aetano disse...

ÚLTIMA PARTE:

Quanto à questão do amor, o que quero dizer é:

1. "Todo amor é virtual" (Calligaris), ou seja, amar é basicamente atribuir a alguém as qualidades que EU considero IDEAIS. Assim, o objeto do meu amor (isto é, a pessoa que eu amo) não existe DO MODO COMO EU A AMO, ou seja, ela é simplesmente produto das minhas IDEALIZAÇÕES. Sendo mais explícito: não enxergamos a pessoa que amamos como ela é, mas como imaginamos que ela seja. Segundo Calligaris, isso acontece porque "é muito legal se sentir amado pelos próprios IDEAIS." Note que não se trata de poesia ou METÁFORA. Estou falando, em termos psicanalíticos, dos mecanismos do sentimento amoroso. Quem sabe se o senso comum, ao dizer que "fulano idolatra sicrano", não está revelando uma sabedoria psicanalítica?

2. Pois bem, se a pessoa que amamos é uma VIRTUALIDADE, UMA IDEALIZAÇÃO, então quem ama é, em certo sentido, um IDÓLATRA, já que ama "apenas" um IDEAL. Novamente, não estou me referindo ao uso metafórico da palavra "idolatrar". Estou inferindo: se para a psicanálise todo amor é dirigido a um objeto virtual, então todo pessoa que ama é, em certo sentido, um idólatra;

3. Tudo isso dito para neutralizar a sua afirmação de que quem acredita num Deus pessoal é um idólatra. Neutralizar de que modo? Dizendo que todos nós que amamos - um Deus pessoal ou alguém - somos idólatras. Se quem ama a um Deus pessoal se equivale a quem ama a IDEALIZAÇÃO DE ALGUÉM, então a liberdade de sujeição a um Deus deve ser tão respeitada quanto a liberdade de sujeição a esse alguém idealizado. Se é natural sujeitar-se a chicotadas, tapinhas, algemas, mordaças, pontas de cigarros acesas, asfixia etc, numa relação sadomasoquista, então por que é violento usar uma burca, quando se quer?

Abraço,

Aetano

Antonio Cicero disse...

Edson,

Suas observações estão em itálico:

Mais de uma vez você afirma que o "sentido da burca é conservar a mulher sem rosto público". Pode até ser que um dos sentidos, ou dos efeitos, da burca seja mesmo esse. Mas é evidente que a burca tem também um sentido religioso, sacro, no mínimo tão importante quanto qualquer outro.

Vou citar uma mulher que conhece a coisa de dentro: Necla Kelek, em entrevista a “Der Spiegel” (http://www.spiegel.de/politik/deutschland/0,1518,424999,00.html):

Kelek: As mulheres [muçulmanas] têm que se cobrir para que os homens não fiquem inquietos. Elas não se cobrem por Deus, mas porque os homens não dominam seus impulsos. A proposição que está por trás diz: “Toda mulher que não usa algo para cobrir a cabeça produz turbulência pública. As mulheres são estigmatizadas como provocadoras de turbulência e têm que pertencer a um único homem. O direito de autodeterminação lhes é com isso retirado.

SPIEGEL: Mas não há mulheres que voluntariamente são a favor de uma cobertura para a cabeça?

Kelek: Quando as pessoas voluntariamente se declaram por um sistema fascista, são felizes com ele e estão dele convencidas, nós criticamos isso e examinamos o contexto social. Perguntamos: O que causa esses grupos neonazistas? E uma mulher que usa a cobertura da cabeça faz propaganda de um partido islamista. [...] Quando a revolução no Irã começou, obrigou-se as mulheres a se cobrirem Isso é sempre a primeira coisa que os islamistas fazem.

Por trás dessa sua afirmação categórica está um juízo de valor relativista: quem garante que as mulheres, todas elas, querem ter rosto público, ser cidadãs, ser -- modernas?

Minha afirmação é, ao contrário, anti-relativista. É você que está sendo indevidamente relativista. Afirmo, ao contrário, que ser cidadão – ter os direitos e deveres de um cidadão – não é uma questão de escolha. Nem é uma questão de escolha ser livre. Como dizia Sartre, noutro contexto: somos condenados a ser livres. Ser moderno é isso. Sabe-se que, quando a escravidão é abolida em algum lugar, muitos não querem ser livres. Muitos gostariam de permanecer escravos ou domésticos: isto é, menores. Isso não é, porém, uma escolha. Como dizia Kant, die Aufklärung – a modernidade – é a época da maioridade da humanidade. E é a época em que sabemos disso. Como digo no artigo que estamos comentando, a modernidade representa um distanciamento em relação ao dado imediato.

Conheço mulheres bem-sucedidas que gostariam de voltar no tempo, quando os homens eram chefes de família e ganhavam o suficiente para todos, quando as mulheres tinham tempo para os filhos e para si mesmas, como mulheres e não como "cidadãs" (consumidoras?).

Como muitos gostariam de voltar a infância. Mas, como diz Hölderlin,
“Hinweg ists!”

Provavelmente você está certo quando imagina que a maioria das mulheres usuárias de burca apreciaria pelos menos não ser obrigada a usá-la. Deve ser mesmo tentador ser mais um rosto anônimo nessa sociedade do espetáculo.

Mas alguém precisa avisar essas mulheres que isso tudo tem um preço. E um deles é a perda do poder doméstico que elas de fato têm. No islã, se a rua é do homem, a casa é da mulher.


A rua é do homem, a casa é da mulher e a mulher é do marido. Mundo perfeito!

Esse assunto é muito complexo para ser tratado assim, com medidas pretensamente modernas mas certamente paternalistas.
Suponho que você ache que suas observações sobre as mulheres não são paternalistas...

Sidartha disse...

Prezado Aetano,

Permita-me tentar neutralizar a sua tentativa de neutralização da afirmação "quem acredita em um Deus pessoal é um idólatra".

Você contra-argumenta dizendo que (a partir de Calligaris)todos que amam uma pessoa são idólatras, pois que amam uma virtualidade/idealização.

Penso que isso não está correto. Ou, quando muito, se aplica à noção de "amor platônico", caso de alguém que "ama" outra pessoa sem ter contato com ela - e aí, sim, se dá o caso da idealização.

Mas quem está num relacionamento estável e duradouro, por anos ou muitos anos, não simplesmente ama uma idealização. Já houve tempo para conhecer todas as "imperfeições", idiossincrasias, cacoetes, manias e outras características reais/concretas do ser amado. Neste caso, o amor investe-se de outros elementos, como o companheirismo, a admiração, a familiaridade, a cumplicidade etc. Aqui, o espaço para o amor baseado na idealização do ente amado é sem dúvida menor, e, no limite, diminuto. Sim, jamais conheceremos alguém de modo integral ou total, mas disso não decorre que o amor se baseie na idealização. Pelo contrário, à medida que o tempo passa e a pessoa amada REAL vai se revelando, o amor tem que se basear em outros pilares.

Suponho ser isso muito diferente da relação de amor que alguém tem para com um Deus (im)pessoal. Neste caso, não há como o sentimento do amor sair do dominio da idolatria, da idealização etc.

Saudações,
Sidartha

Sidartha disse...

Prezados,

Comento a seguinte passagem de Aetano: "MUITAS MULHERES MUÇULMANAS TOMARAM UMA DECISÃO LIVRE E INFORMADA SOBRE O USO".

A ideologia nazista preconizava que as mulheres deveriam ser donas de casa e mães. E não raro vemos ainda juízos machistas saudosos de um tempo em que era generalizada a prática da máxima de que "lugar de mulher é na cozinha".

Se temos mulheres que, livre e "informadamente", se submetem a tais situações, isso neutralizaria a natureza da crítica ao sistema nazista (neste particular), ou ao machismo em geral?

Aqui, vou assumir o meu lado "racionalista/individualista", para dizer que nós, indivíduos esclarecidos pela razão e praticantes de nossa condição de indivíduos livres e iguais, devemos continuar fazendo a crítica de tradições culturais ou religiosas que, como ecos de um passado autoritário e opressor, insistem em manter de pé os ataques ao livre desenvolvimento dos indivíduos.

A modernidade assusta e desnorteia? Sem dúvida. Mas disso não decorre que seja correto o refúgio em tradições pré-modernas que tentam fazer andar para trás a roda da história.

Claro que a defesa pelo livre desenvolvimento de indivíduos racionais não anula ou dispensa a necessidade que estes mesmos indivíduos têm de contrair relações uns com os outros baseadas em normas de convívio, em valores coletivos etc. Mas estes mesmos valores coletivos não podem se confundir com a defesa de tradições morais, religiosas etc, que, em suas veleidades "coletivistas" de submissão dos indivíduos a padrões autoritários, seguem sendo reacionárias.

Saudações,
Sidartha

Antonio Cicero disse...

Sidartha,

Você fala da “perspectiva cultural do ocidente” e pergunta: “Seremos, os racionalistas/"ocidentalistas", os romanos de nossa época? Minha razão é de fato a expressão única e verdadeira do "esclarecimento", ou é mais um etnocentrismo?”

O maior etnocentrismo concebível é supor que a razão pertença ao Ocidente, ou que quem estude esteja, por isso, assumindo a “perspectiva cultural do ocidente’. É o que o antropólogo inglês Jack Goody considera um roubo. O economista indiano Amartya Sen concordaria.

Não vou me estender sobre isso porque já o fiz em vários artigos que se encontram aqui no blog. Além do artigo que estamos a comentar, eles são, entre outros:

“Sobre o roubo da história” (http://antoniocicero.blogspot.com/2008/11/sobre-o-roubo-da-histria.html);
“Entrevista à revista Azougue” (http://antoniocicero.blogspot.com/2008/09/entrevista-revista-azougue.html)
“Foucault e o fundacionismo” (http://antoniocicero.blogspot.com/2009/05/foucault-e-o-fundacionismo.html)
“Barbárie e civilização” (http://antoniocicero.blogspot.com/2007/07/barrie-e-civilizao.html)
“Os limites da diversidade cultural” (http://antoniocicero.blogspot.com/2007/12/os-limites-da-diversidade-cultural.html)
“O relativismo e a modernidade” (http://antoniocicero.blogspot.com/2007/12/o-relativismo-e-modernidade.html)
“O falibilismo versus o relativismo” (http://antoniocicero.blogspot.com/2008/01/o-falibilismo-versus-o-relativismo.html)

Abraço

Antonio Cicero disse...

Aetano,

As mulheres que você cita estudaram e são professoras na Alemanha e, de fato, usam a burca porque querem.

Mas a imensa maioria jamais teve a liberdade de estudar fora, para saber que há outros estilos de vida possíveis. É o que mostram Hirsi Ali (que descobriu essa possibilidade quando já havia sido submetida à clitorectomia) ou Necla Kelek, que cito na resposta ao Edson. Nesses casos, a burca representa a escravidão da mulher ao homem. Ela faz parte da mesma “lógica” religiosa e medieval pela qual, agora mesmo, uma mulher acusada de adultério está ameaçada de ser lapidada no Irã.

Sobre a idolatria, entenda que ela significa a postulação de que algo que não é o Absoluto seja o Absoluto. Não se trata de questão de amor ou de uma brincadeira erótica, como você parece pensar. A IDOLATRIA SIGNIFICA QUE DETERMINADAS REGRAS EM PRINCÍPIO RELATIVAS, CRITICÁVEIS E REVOGÁVEIS (COMO A DE QUE A MULHER ADÚLTERA DEVE SER LAPIDADA) SÃO TOMADAS COMO ABSOLUTAS, INQUESTIONÁVEIS E IRREVOGÁVEIS. É ISSO QUE É INTOLERÁVEL.

Abraço

Nobile José disse...

a burcolândia é aqui!

texto da calligaris da semana passada, sobre a tese de defesa do advogado do goleiro bruno, que diz que a vítima era atriz pornô - ou seja, teria ela provocado a situação:

(trecho)

"Em suma, quando a vítima é uma mulher e seu algoz é um homem, é muito frequente (e bem-vindo pela defesa) que surja a dúvida: será que o assassino ou o estuprador não foi "provocado" pela sua vítima?
Atrás dessa dúvida recorrente há uma ideia antiga: o desejo feminino, quando ele ousa se mostrar, merece punição. Para muitos homens, o corpo feminino é o da mãe, que deve permanecer puro, ou, então, o da puta, ao qual nenhum respeito é devido: uma mulher, se ela deseja, só pode ser a puta com a qual tudo é permitido (estuprá-la, estropiá-la).

Além disso, se as mulheres tiverem desejo sexual próprio, elas terão expectativas quanto à performance dos homens; só o que faltava, não é? Também, se as mulheres tiverem desejo próprio, por que não desejariam outros homens melhores do que nós?"

salve musas!!!!!

Edson Dognaldo Gil disse...

Cicero,

Você está mesmo supondo que a senhora Kelek representa a muçulmana média? Não sei que valor pode ter o depoimento dela para a nossa discussão.

A razão não se confunde com a Aufklaerung nem, muito menos, com a tal da cidadania, o que quer que isso signifique. A liberdade não é um dado evolutivo, nem uma conquista permanente. Podemos livremente escolher a iliberdade, como quando, podendo fazer o bem, optamos por fazer o mal. Mas seguir conscientemente uma tradição tem muito pouco que ver com isso. O cidadão ocidental moderno está longe de ser um paradigma ético universal.

Não entendi o que você quis dizer com a citação do Hoelderlin. (Você podia pelos menos completá-la: und die Erd’ist kalt [e a terra está fria].) Quis dizer que a modernização é irreversível? Essa seria uma tese demasiadamente hegeliana para o meu gosto... Como penso ter mostrado V. Hoesle (Wahrheit und Geschichte), a Aufklaerung é um movimento recorrente na história.

Quanto ao fato de a mulher muçulmana pertencer ao marido, você devia reler a dialética do senhor e do escravo, na Fenomenologia do espírito. Que conveniência!

De minha parte, estou muito satisfeito em ser casado com uma mulher independente, "moderna", pois não tenho nem desejo nem capacidade de ser cabeça de família.

Ab.,
edg

Anônimo disse...

Minha profunda gratidão pelas palavras generosas, Cícero. Obrigado.

Retifico o último parágrafo do meu comentário, pois contendendo com o limite de caracteres e do fechamento da lan house, permiti um disparate. Corrigido e extendido, fica "No mundo histórico, Paulo honra igualmente homens e mulheres "Homo sapiens", ambos exercendo o apostolado. Havia apóstolo de ambos os sexos antes da iluminação de Paulo, e Paulo apóstolo não restringiu à mulher esse exercício, que requer iluminação."

Há sentenças interessantes em Paulo que ilustram as duas visões sobre Cristo, uma do ego relativo, e outra quando há a iluminação, dando exemplo 2Coríntios, 5:16-17:

"Assim que daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne, e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já não o conhecemos deste modo. Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo."

Paulo aponta a forma "conhecer Cristo segundo a carne", que é filtro mediante o ego relativo. O ego acondiciona o conhecimento e pertencimento a Cristo em forma particular de ação humana, como ritos, denominações, membro de tal ou qual organização humana e outros mandamentos que são meramente humanos. A mente humana entende Deus como um Outro, com características do ego relativo humano: caprichoso, sujeito que se deleita com a angústia humana, e tais encampações, ou humanidade má e Deus humanóide compassivo.

Esse modo de pensar é ainda não estar em Cristo, pois n'Ele estar implica nova criatura, nova forma de perceber e interpretar. É o despertar do "Para vidja", onde todas as aflições mentais anteriores são abolidas, e a religião positiva ordinária, que não procede para o verdadeiro conhecimento de Cristo, do Buda, do despertar do "Para vidja", mostra a sua face vazia, desviada que está do evangelho, enganada em si mesma, aplicando aquilo que Paulo chama de "obras da lei".

Mesmo lendo as seguintes palavras de Paulo, registradas em Atos, cap. 17, vv. 24 e 25
"O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens;
Nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa; pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas;


muitos egos relativos não reparam no seu sentido, e ficam presos aos caprichos de dogmas absurdos, de religiões falsas (muito bem nomeada de seita por Maomé, que as chama também de idólatras).

Como o reino de Deus é interior ao ser humano, como literalmente predica o cap. 17 de Lucas, que personifica Jesus em roupagem mais histórica do que Mateus, é coerente com associação que Paulo faz com a iluminação, ao batismo do Espírito Santo:

"Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo." Romanos 14:17

O ser humano, "Homo sapiens", recebe pouca referência direta, e quando é feito, identifica-se como "templo de Deus", "casa de Deus".

Sendo o reino de Deus uma transformação da consciência humana, os evangelhos neotestamentários registram uma crítica histórica ao sacerdócio e teologia da época, mediante figura de Jesus, símbolo de Sabedoria divina, como:

"Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando." Mateus 23:13

"Ai de vós, doutores da lei, que tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes [aqui a figura de Jesus se refere ao reino de Deus], e impedistes os que entravam." Lucas 11:52

Pela ausência ao ego relativo do domínio do "Para vidja", ou conhecimento em Cristo, que confere à pessoa acesso aos domínios superiores de consciência e a identidade com o próprio Absoluto, muitos teólogos não penetram as escrituras, conseguindo, porém, fama do público.

Flávio Santos (Flavius)

Aetano disse...

Caro Sidartha,

Considero que, na economia do amor, à medida que a idealização acaba, vamos deixando de suportar as "'imperfeições', idiossincrasias, cacoetes, manias e outras características reais/concretas do ser amado". Com isso quero dizer que amar é idealizar, e não vejo como possa ser diferente. Sim, adoraríamos fundar o amor em outros pilares. Adoraríamos, sobretudo, poder acreditar que somos amados por nossos "méritos". Mas não é bem assim. Por isso, pergunta Nietzsche: "O que vc ama nos outros?". E ele mesmo responde: "Minhas esperanças".

Noutro ponto, vc questiona: "se temos mulheres que, livre e 'informadamente' [sic], se submetem a tais situações, isso neutralizaria a natureza da crítica ao sistema nazista (neste particular), ou ao machismo em geral?"

Não, não neutralizaria. A crítica a toda doutrina ou medida que retira da mulher o direito de escolher é válida, porque sempre há mulheres que gostariam de optar por um outro tipo de vida. Essa é a razão pela qual sou contra a proibição do uso da burca. Ela (a proibição) simplesmente atropela as mulheres que não se sentem oprimidas com aquela vestimenta.

Perceba que, não obstante a sua resistência em acreditar que as mulheres muçulmanas possam ser informadas (vide as aspas em "informadamente"), a declaração que você destacou é de uma PROFESSORA que estudou e ensina na Alemanha. Acho que é arrogância da nossa parte pensar que ela não tem informação suficiente para escolher. Mais ainda: será que não estaríamos querendo combater machismo com machismo?

[continua]

Aetano disse...

PARTE 02:

SIDARTHA: Aqui, vou assumir o meu lado "racionalista/individualista", para dizer que nós, indivíduos esclarecidos pela razão e praticantes de nossa condição de indivíduos livres e iguais, devemos continuar fazendo a crítica de tradições culturais ou religiosas que, como ecos de um passado autoritário e opressor, insistem em manter de pé os ataques ao livre desenvolvimento dos indivíduos.

AETANO: Com a ressalva de que não me considero esclarecido, concordo plenamente com tudo isso. Só gostaria de acrescentar que para o individualista o indivíduo é um fim em sim mesmo e não um meio. Portanto, se houver uma ÚNICA mulher que, livre e informadamente, queira usar a burca, ela deve ser respeitada por uma nação INTEIRA.

Abcs

Aetano

Aetano disse...

Caro Cicero,

Já que vc admite que algumas mulheres usam a burca pq querem, e tendo em vista que eu nunca neguei que algumas usam por opressão, penso que chegamos a um acordo em torno das premissas dos nossos argumentos (não sei se em relação à conclusão).

No tocante à idolatria, a sua abordagem é diferente da minha, sobre a qual nada mais posso dizer, sem me repetir.

Desse modo, agradeço a atenção e a disponibilidade para a conversa.

Abraço,

Aetano

Antonio Cicero disse...

Edson,

eu já disse e repeti tudo o que queria. Não tenho mais nada a dizer sobre isso.

Abraço

Edson Dognaldo Gil disse...

Esse Calligaris é um Pondé do avesso... Os dois são exagerados, e talvez por isso acabem dizendo coisas interessantes. De vez em quando.

Li pela primeira vez sobre o caso Bruno na Folha. A ombudsman reclamava que o jornal não dera a importância devida à notícia. Então comecei a prestar mais atenção no rádio, na internet e no jornal (quase não vejo TV). Em nenhum momento ouvi dizerem que a moça supostamente assassinada era uma atriz pornô. Só fui saber disso pelo... Calligaris.

E hoje, na HP do UOL, noticiava-se que um programa televisivo fora condenado a pagar cem mil reais por difamar um grupo musical constituído por atrizes pornô ao chamá-las de prostitutas.

Tema para a próxima coluna do Calligaris. Ou do Pondé.

edg

Anônimo disse...

Una crítica a la teoría de Danto:
Danto, ese sabio

http://www.margencero.com/almiar/arthur-danto/