24.2.10

Gastão Cruz: Gravura




GRAVURA


Ourives-gravador era o ofício
do meu avô paterno: sobre mesas
dispersos utensílios buris limas
por entre chapas e, há muito, objectos

acumulados; lembro-o curvado
com a luneta, fixamente olhando
a dura mão que no metal gravava
por encomenda nomes: desenhava com

força as linhas do seu significado
como se para alguma eternidade
ilusória as gravasse, assim o poeta

com o buril inscreve na deserta
chapa do mundo não interpretado
o sentido precário de o olhar




CRUZ, Gastão. A moeda do tempo. Assírio & Alvim, Lisboa, 2006.

16 comentários:

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Belíssimo! Grato por compartilhar!


Grande abraço,
Adriano Nunes.

J Alexandre Sartorelli disse...

ARTESÃO

Uma sombra no espelho,
Uma pilastra caída no canto.
Um movimento,
Um sopro em suspenso.
Na minha lida
O pó e o encanto.

Não mais aprendo
E só adivinho.
No tempo estendo
Um tapete e respiro.

[]´s
Alexandre

Fernanda disse...

Há um ano, comprei um livro seu, em Portugal e ao iniciar o meu blog Laços de Poesia, editei alguns poemas seus. Hoje ao restrutar um pouco o blog tomei consciência de que nem sequer lhe tinha pedido autorização nem o informado, pelo que peço desculpa. O meu blog, nada tem de comercial. Existe porque não consigo viver sem poesia e gosto de dar a conhecer o bom trabalho de tantos, a quem entregam a alma a escrever e o oferecem a quem lê, belos momentos... compreenderei perfeitamente se me pedir que retire os seus poemas. Mas também só hoje, encontrei o seu blog.Obrigado.

Antonio Cicero disse...

Fernanda,

fico contente de ter poemas meus publicados no seu blog. Visitei o "Laços de poesia"
(http://lacosdepoesia.blogspot.com/)

e gostei. Normalmente, peço aos blogueiros apenas que cada poema seja publicado na íntegra e que me seja dado crédito por eles: coisas que você já faz.

Beijo

Ana Cristina Penov disse...

Antonio Cícero,

O seu Blog é para mim um prazeroso aprendizado já que aprecio tanto poesia. Acredito que só poderei agradecer realmente com um poema, de Manoel de Barros, poeta que sempre consegue amaciar o meu coração:

O casaco - Manoel de Barros

Um homem estava anoitecido.
Se sentia por dentro um trapo social.
Igual se, por fora, usasse um casaco rasgado e sujo
Tentou sair da angústia
Isto ser:
Ele queria jogar o casaco rasgado e sujo no lixo.
Ele queria amanhecer.

João Renato disse...

Caro Cícero,

Um final lúcido e perfeito:

"com o buril inscreve na deserta
chapa do mundo não interpretado
o sentido precário de o olhar"

Abraço,
JR

paulinho (paulo sabino) disse...

PUTA QUE PARIU, cicero!!!

que coisa LINNNNNNDA!!! fiquei LOUCO por este poema!!!

que percepção, que imagens lindas!! um achado e tanto a analogia entre o trabalho do ourives e o ofício do poeta. o final é arrebatador!!: "(...) assim o poeta/ com o buril inscreve na deserta/ chapa do mundo não interpretado/ o sentido precário de o olhar". porra, isso é LINDO demais!!, de uma sabedoria...

ARREBENTOU, antonio cicero correa lima (rs)!!

beijOOO!!

betina moraes disse...

observador,

que poema maravilhoso!

parabéns pela escolha.


► eu havia dito em um comentário passado que estaria hoje na livraria da travessa para o evento muitíssimo interessante do qual você fará parte. faço questão de justificar minha ausência e lamentar profundamente mais uma oportunidade que perderei de acrescentar conhecimento aos meus objetivos intelectuais. apareceu uma urgência no tabalho que não poderei deixar de atender. por causa das obras na linha vermelha e por causa da urgência ser na ilha do governador o trânsito não permitirá que eu chegue nem uma hora depois do horário marcado. sinceramente antônio cícero, fiquei bem chateada pois já tinha até marcado com minha filha, estudante de ciências sociais na UFE e interessada em literatura e filosofia, para irmos juntas.

infelizmente para mim, ficará para a próxima.

me perdoe.

grande abraço e sucesso no evento.

Nobile José disse...

minha cara-de-pau
é ser lido
pelo moço que escreveu
o verso mais lindo
da língua que falo:

"você me abre seus braços
e a gente faz um país"

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Um poema novo:


"A bateria" - Para João Mateus.


Entre tambores e pratos, o som
Surge através das baquetas. Assim,
Mogno, cedro, cobre, pele, marfim
Engendram um ritmo infinito e bom.

Os movimentos dos membros, talvez,
Descrevam a própria música. O ser
De pés, mãos, de aço, tripés, pode ser
Que seja tudo até, de uma só vez.

Os surdos, gongos, bumbos, rototós
Fundem-se e, nos labirintos, dão nós.
Os ouvintes vibram e os timbres mais

Atiçam os sentidos. Os pedais?
As tais peças em batidas totais.
O instrumento todo fala por nós!



Grande abraço,
Adriano Nunes.

Antonio Cicero disse...

Betina,

sei como são esssas coisas. Não se preocupe.

Beijo

Antonio Cicero disse...

Nobile José,

muito, muito obrigado.

Beijo

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Discordo: a língua que falo é mais que tudo que possa a alma, é uma só pessoa entre "zil" pessoas e nada pode ser além: " Gosto do Pessoa na pessoa"... Agora nenhum poema da Língua Portuguesa supera "Guardar"! Verso é verso!


Abração,
Adriano Nunes.


P.S.; sei que também fiz versos que serão imortalizados, mas ainda nenhum poema igual a "Guardar"! Isso diz: Você é fodão...como diz Paulinho!

Robson Ribeiro disse...

Olá, Cicero!

Belo poema.

Gostei muito do encontro de ontem na Livraria Travessa. Aprendi bastante e saíde lá com muita coisa para pensar... hehe
Como sempre você foi brilhante. Parabéns!

Grande Abraço!

Antonio Cicero disse...

Obrigado, Robson. Pena que, na confusão, não deu para a gente se falar direito.

Abraço

Jefferson Bessa disse...

Gravura de versos que fixos não se fixam ao metal precário do olhar do poeta. muito bonito!
Abraços.