26.2.08

Petrarca: Pace non trovo e non ho da far guerra

A obra-prima de Camões aqui postada no dia 22 de fevereiro foi a ele inspirada por outra obra-prima: um soneto de Petrarca. Fiz uma tradução aproximada desse soneto. Ei-la, com o original italiano embaixo.



CXXXIV

Paz não encontro e nem me quer a guerra;
E temo e espero e ardo e sou gelado
E vôo sobre o céu e jazo à terra;
E nada aperto, e o mundo todo abraço.

Quem me prende não larga nem encerra,
Nem por seu me retém nem abre o laço;
E nem me mata Amor nem me liberta,
Nem me quer vivo nem quer meu trespasso.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito;
E anseio por morrer, e peço ajuda;
E me odeio a mim mesmo e amo a sós.

De dor me alimento, chorando rio;
Igualmente desprezo a morte e a luta:
E neste estado estou, mulher, por vós.



CXXXIV

Pace non trovo e non ho da far guerra
e temo, e spero; e ardo e sono un ghiaccio;
e volo sopra 'l cielo, e giaccio in terra;
e nulla stringo, e tutto il mondo abbraccio.

Tal m'ha in pregion, che non m'apre né sera,
né per suo mi ritèn né scioglie il laccio;
e non m'ancide Amore, e non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senz'occhi, e non ho lingua, e grido;
e bramo di perir, e chieggio aita;
e ho in odio me stesso, e amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.


De: PETRARCA, Francesco. Dal Canzoniere/Le chansonnier. Paris: Aubier-Flammarion, 1969, p.158.

9 comentários:

Carlos Eduardo disse...

Interessante, a influência é nítida. Agora, posso até dizer que não me surpreenderia se encontrássemos um poema parecido de algum provençal.

Abraço,
Carlos Eduardo

João Renato disse...

Prezado Antonio Cícero,
Realmente, o fio condutor é o mesmo nos dois sonetos.
E o quarto verso de ambos é praticamente idêntico.
Mas eu diria que o de Camões acrescenta uma dose de sensualidade e humor que não encontro no de Petrarca.
Um braço,
João Renato.

Antonio Cicero disse...

Caros Carlos Eduardo e João Renato,

Acho que vocês dois têm razão. Trata-se de um tropo oximórico que deve, na verdade, remontar aos gregos. Vou postar hoje um poema curtíssimo -- e belíssimo -- de Catulo que já o utiliza.
E, embora os dois sonetos sejam parecidos, são diferentes, de modo que não poderíamos hoje dispensar nenhum deles para ficar só com o outro. Acho o de Camões mais perfeito, mas sei que isso é muito discutível. A literatura universal seria mais pobre hoje se Camões tivesse os preconceitos do nosso tempo contra a imitação e, com receio de ser acusado de plágio, não se tivesse permitido escrever o seu soneto.

Abraços,
Antonio Cicero

Elisa Kozlowsky disse...

Tem razão. Gosto mais da versão de Camões, mas ambos são encantadores.

Paulo de Toledo disse...

Gosto dos dois poemas. Mas acho que prefiro o do Petrarca.
As chiantes dele são inebriantes.
Adorei o "ghiaccio"/"cielo"/"giaccio"/abbraccio". E tb outras similaridades fônicas encantadoras: "scioglie il laccio"; "Veggio senz'occhi"/"chieggio aita".

Abbracci,

Paulo de Toledo

Oleg disse...

Embora se pareçam muito entre si, os dois sonetos são profundamente diferentes. A meu ver, o de Petrarca enquadra-se mais nos padrões da Antigüidade clássica do que nos dos tempos modernos, sendo, para assim dizer, mais monumental, e o de Camões revela-se mais humano em suas contradições torturantes: a leitura deste faz imaginar um homem como todos nós, que se vê afastado por algum motivo (pela desigualdade social ou, simplesmente, pelo fato de a mulher dos sonhos ser casada) do ser amado, enquanto naquele se adivinha, bem que remotamente, a voz de um romano da época augustiana. Petrarca é mais racional e Camões, mais emocional, o que o aproxima do cotidiano, inclusive, do nosso século.

Anônimo disse...

Parece-me muito difícil compará-los no que diz respeito à superioridade de um sobre o outro. Parece-me inevitável que o de Camões nos soe mais redondo que o de Petrarca, afinal, nossos afetos são filhos da língua que Camões inventou imitando Petrarca. A sintaxe de Camões parece-me mais ajustada a forma do que a de Petrarca, uma sutileza muito difícil às vezes de nomear ou mesmo perceber. Mas, algo no de Petrarca me assombra, como se lesse um soneto de Sá de Miranda: a impressão que me dá é a de que a língua está se inventando através da forma; é como se o de Camões já encontrasse a sintaxe amaciada; o de Petrarca parece-me mais "rústico" (e haja aspas para o adjetivo). Sá de Miranda parece-me atingir o mesmo frescor com "O sol é grande...". Imagine começar um soneto com uma frase tão clara como essa... e terminar com "e isto é sem cura".

Abraços, Cicero querido.

Marcelo Diniz

Antonio Cicero disse...

Marcelo,

aproveitando sua lembrança, vou postar o soneto do Sá de Miranda.

Abraço,
ACicero

Héber Sales disse...

Caro Cicero,

Sabe do que me lembrei agora? De uma conferência do Jorge Luis Borges a respeito da métafora.

Em resumo, ele diz que não há mais novas metáforas. Que todas as metáforas encontradas nos poemas podem ser reduzidas a meia dúzia de temas ou modelos. Se é assim, por que continuar lendo tantos poemas? Borges se pergunta. Porque uma mesma metáfora pode ser dita sempre de uma forma diferente e provocar um encanto renovado, ele responde.

Aquele abraço,

Héber Sales