21.6.07

Resposta a meu amigo Alberto Pucheu

Caro Alberto,


Em primeiro lugar, quero deixar claro que não estava pensando nos seus livros, ao escrever o artigo que você critica. Não que eu não pense neles: ao contrário, aprecio muito os textos que já li, tanto de "Pelo Colorido, para além do Cinzento", quanto de “A Fronteira Desguarnecida”. Creio que foram duas as razões pelas quais não pensei nos seus livros, ao criticar o que vejo como a tendência contemporânea a assimilar poesia e filosofia. A primeira é que, embora você de fato defenda teoricamente o “desguarnecimento” das fronteiras entre a poesia e a filosofia, a verdade é que não leio os seus textos poéticos como filosofia, mas como poesia mesmo, e como boa poesia; e leio os seus textos filosóficos como filosofia mesmo, e como filosofia bem escrita e pensada, embora eu nem sempre concorde com ela. Falo, é claro, dos textos que já li. O que eu tinha em mente era uma tendência que vem do Romantismo Alemão, passa por Nietzsche (que, no entanto, é um caso especial), Kierkegaard e Heidegger, e chega ao chamado pós-estruturalismo.

Quero esclarecer alguns pontos. O fato de que não penso ser produtivo, nem para a poesia nem para a filosofia, que elas confluam para uma única coisa não significa que eu creia que a poesia não possa usar para seus próprios fins as intuições, as concepções, as palavras ou mesmo os conceitos da filosofia, ou que um texto filosófico não possa ter momentos poéticos, ou até ser escrito em versos (embora esta última possibilidade me pareça francamente contraproducente). O que afirmo é que há uma diferença irredutível entre a finalidade da poesia e a da filosofia; ora, a finalidade de um objeto artificial enquanto artificial é a sua essência. Há, portanto, segundo penso, uma diferença essencial entre poesia e filosofia. Um dos modos que encontrei para exprimir essa diferença foi através dos conceitos de metadiscurso (o discurso que fala sobre outros discursos) e discurso-objeto (aquele sobre o qual outro discurso fala). A tese que sustento é que, enquanto a filosofia é um metadiscurso terminal (sobre o qual nenhum outro discurso, isto é, nenhum discurso não-filosófico é capaz de falar), a poesia é um discurso-objeto terminal (que não fala propriamente sobre nenhum outro discurso, nem sobre coisa alguma). Não vou me estender sobre esse assunto aqui, já que o fiz no artigo que você criticou. Sustento que essa diferença não deve ser esquecida ou menosprezada, nem pelo poeta, nem pelo filósofo, nem pelos seus leitores.

Sempre afirmei que um poeta pode usar todos os recursos de que disponha para produzir um poema: todo o seu intelecto, toda a sua sensibilidade, toda a sua intuição, toda a sua razão, toda a sua experiência, todo o seu vocabulário, todo o seu conhecimento, todo o seu senso de humor, toda a sua cultura. Por que não usaria também tudo o que sabe de filosofia? Eu jamais teria a veleidade de tentar estabelecer limites para as palavras ou os pensamentos abordáveis pela poesia. Entretanto, os elementos filosóficos que um poema contenha fazem parte de uma totalidade cujo sentido – quando se trata de um poema de verdade – jamais é, ele mesmo, meramente filosófico. Não se pode, por isso, julgar um poema enquanto poema a partir da filosofia que porventura contenha. Por que? Porque uma leitura que se contente com a filosofia de um poema seria uma leitura empobrecedora, do ponto de vista poético.

Assim, os poemas de Horácio, por exemplo, são obras primas enquanto poesia: pode-se dizer que se trata de poemas profundos, pois têm muitas dimensões, muitos níveis, apontam para muitas coisas, transformam-se a cada leitura que deles fazemos; mas, do ponto de vista estritamente filosófico, são de um epicurismo simplesmente banal. Em outras palavras, os poemas de Horácio são profundos, mas uma leitura estritamente filosófica deles seria superficial. Já o poema de Parmênides, por exemplo, é uma grande obra de filosofia, mas, considerado enquanto poesia, é fraco.

Analogamente, uma filosofia pode ser expressa em termos poéticos, mas, quando a julgamos enquanto filosofia, isso não tem o menor peso. Não importa, para a avaliação de Parmênides enquanto filósofo, que ele não seja tão bom poeta quanto Empédocles, por exemplo. Penso que quem tem razão é Aristóteles, que, referindo-se a Empédocles, comenta que “também os que expõem algo médico ou físico costumam ser assim chamados [de “poetas”]: mas nada há em comum entre Homero e Empédocles fora a métrica, razão pela qual é justo chamar um de poeta e o outro de fisiólogo, em vez de poeta” (Poética, 1447b17ss.).

Isso não quer dizer que Empédocles não tivesse, como já foi dito, mais méritos poéticos do que Parmênides, por exemplo. Ao contrário, Aristóteles mesmo os reconhece (Gigon fr.17). O que Aristóteles quer dizer é que, diferentemente do que ocorre com os poemas de Homero, o livro de Empédocles Sobre a natureza é importante por algo que nada tem a ver com a poesia – isto é, pela filosofia – e não pelos seus trechos poéticos: que o que neles realmente importa, que são as idéias filosóficas, podia ter sido exposto em outras palavras, em prosa.

Alguns pensadores, como Lucrécio, podem ser apreciados ora como filósofos ora como poetas. São grande poesia, por exemplo os trechos de De rerum natura II.552 ss. ou III.832 ss., ou ainda o extraordinário

"Nequiquam, quoniam medio de fonte leporum
Surgit amari aliquit quod in ipsis floribus angat",

que resiste mal à tradução:

"Tudo é em vão pois em plena fonte da doçura
Surge algo amargo, alguma angústia em meio às flores".
(IV.1133).

Mas a verdade é que, em geral, os trechos poéticos de Lucrécio são, do ponto de vista da filosofia, fracos, e vice-versa.

Platão é evidentemente um grande escritor e um grande filósofo, mas não o considero um poeta. Os mais bem escritos dos seus diálogos o são porque têm uma função propedêutica. Eles querem seduzir os jovens bem dotados para a filosofia. É nesse sentido que competem com a poesia. Não que queiram ser poemas: ao contrário, a sua intenção é desviar o interesse dos jovens, da sofística e da poesia (que, para Platão, como transparece no diálogo “Sofista”, são praticamente a mesma coisa), para a filosofia. Geralmente, no começo de cada diálogo e, depois, em vários pontos dele, a sedução literária e erótica (no sentido carnal) cede sistematicamente lugar ao verdadeiro studium philosophandi, de modo que tanto os interlocutores de Sócrates quanto os leitores são conduzidos ao puro arrebatamento pela dialética e ao puro entusiasmo pela filosofia e pela busca da verdade.

Os verdadeiros personagens desses diálogos são a sofística, inclusive a poesia, de um lado, e a filosofia, de outro. É entre elas que se dão os embates. De certo modo, o sentido desses diálogos inclui, desde sempre, a expulsão dos poetas da Polis.

No “Fedro”, após atacar a escrita, Sócrates fala do logos que não é escrito em livros, mas na alma daquele que o aprende. Essa tese não é só do personagem platônico Sócrates, mas do próprio Platão que, falando enquanto Platão mesmo, na Carta VII – nada literária ou poética –, diz repetidamente que a verdadeira doutrina não pode ser escrita e que ele jamais pretendeu apresentá-la por escrito. Se é assim, então a função dos diálogos é apenas apontar para a verdadeira filosofia que, ágrafa, deve ser inscrita na alma. É a tese da escola de Tübingen.

“A escrita, Fedro”, diz Sócrates (275d4ss.), “tem essa qualidade esquisita, na verdade semelhante à da pintura. Pois as criaturas desta parecem estar vivas, mas se lhes indagares algo, silenciam solenemente. Assim são os escritos. Pensarias que falam com inteligência, mas se lhes perguntares, querendo entender as coisas que dizem, significam sempre as mesmas coisas. E uma vez escrito, todo discurso rola por toda parte, tanto entre os que o entendem quanto entre os que não se interessam por ele, e não sabe a quem deve falar e a quem não. E quando maltratado ou insultado, precisa sempre ser defendido pelo seu pai, pois ele próprio não é capaz de se defender”.

Observe que o que Sócrates diz aí dos escritos aplica-se somente aos discursos filosóficos. São esses que precisam ser defendidos pelos filósofos que os escreveram (ou pelos seus seguidores). Os discursos poéticos, ao contrário, não precisam – nem devem – ser defendidos pelos poetas que os compuseram.

De todo modo, o importante é que esses trechos deixam entrever a possibilidade de conceber um filósofo que simplesmente se cale e continue sendo um filósofo. Assim são alguns filósofos indianos. Ora, não chamaríamos de “poeta” alguém que não compusesse poemas. É que, enquanto a filosofia não se realiza plenamente nos discursos filosóficos, mas, ao contrário, estes são um caminho para aquela, a poesia se realiza plenamente nos discursos poéticos, que são os poemas. Mesmo etimologicamente isso é verdadeiro, pois, enquanto “filosofia” significa o puro amor à sabedoria, o que não implica fazer coisa alguma, “poesia” significa feitura, e o poema é o feito. Observe que, na Antiguidade, não se cunhou a palavra filosofema, análoga a poema. É que, enquanto o poema é a finalidade da poesia, a finalidade da filosofia – e dos textos filosóficos – é a própria filosofia.

Interessa-me agora um outro ponto. É que, no meu texto, eu havia dito que considero um erro, tanto para a poesia quanto para a filosofia, “ a vontade de apagar as fronteiras entre a poesia e a filosofia, e de escrever textos que sejam simultaneamente as duas coisas, ou que passem imperceptivelmente de uma para a outra”. Você comenta que “no que concerne à construção de um pensamento filosófico ou poético, a partir de certo nível muito básico, falar em ‘erro’ me parece, desculpem-me o retorno da triste palavra, o único ‘erro’ possível de se cometer. Não se pode falar em ‘erro’ nem no que se refere à indiscenibilidade entre poesia e filosofia nem, tampouco, no que diz respeito ao caminho de diferenciação entre elas”.

Ora, se você acha que errei, ao dizer que é um erro a tentativa de confundir poesia e filosofia, por que não poderia eu achar que errado está quem tenta confundi-las? Quem afirma uma tese, implicitamente afirma a sua verdade; e afirmar a verdade de uma tese equivale a afirmar a falsidade da tese que a contradiz. Do mesmo modo, afirmar uma tese é, implicitamente, afirmar que ela está certa; e afirmar que ela está certa é afirmar que está errada a tese que a contradiz. Por isso, se penso que está certo dizer que a poesia e a filosofia não devem se confundir, não posso deixar de pensar que está errado quem pensa o oposto.

E aqui aproveito para tocar em mais uma diferença entre a poesia e a filosofia: é que a filosofia pretende afirmar verdades. Ora, afirmar a verdade de uma tese equivale a afirmar a falsidade da tese que a contradiz. Por isso, as teses filosóficas não são todas compatíveis umas com as outras: ao contrário, umas negam as outras. Não é possível acreditar simultaneamente em duas teses realmente contraditórias. O mesmo não ocorre com a poesia. Um poema pode ser inteiramente diferente do outro: pode até, do ponto de vista extra-poético, afirmar o oposto do que o outro afirma. Como observa Nelson Ascher no prefácio ao seu excelente Poesia alheia, um poema pode dizer que tudo muda no mundo e o outro, que não há nada de novo sob o sol. No entanto, podemos apreciar os dois – podemos acreditar nos dois – igualmente.

Pois bem, o meu texto, que você critica, não é poético, mas filosófico. Ele afirma, portanto, algumas coisas, que tem como verdadeiras e certas; consequentemente, considera falsas e erradas as teses opostas. Permita-me dizer que o fato de que você considere isso errado é, a meu ver, um dos erros a que a confusão teórica entre a poesia e a filosofia pode levar.

Finalmente, a sua tese de que, num texto filosófico “a inseparabilidade entre o pensamento e as palavras se faz tão presente quanto no poético” parece-me inteiramente insustentável. Basta lembrar o seguinte: artigos são escritos e aulas são dadas sobre a filosofia de Tales de Mileto, do qual, no entanto, não sobrou sequer um fragmento; há uma bibliografia imensa de obras sobre a filosofia de Sócrates: não me refiro ao personagem de Platão, mas ao ateniense de carne e osso, que jamais expôs sua filosofia por escrito; ora, nada nem de longe equivalente existe ou poderia existir sobre poeta algum do qual não tenha sobrevivido ao menos alguma coisa escrita.


Um grande abraço,
Antonio Cicero

6 comentários:

Lucas N disse...

Caro Antônio,

Excelente artigo. Acho que, frente a tantos questionamentos, valeu a pena o esforço de uma exposição mais detalhada do assunto. Seus argumentos estão claros e abordam o problema pelos diversos angulos. Parece que, afinal, havia mais pontos de acordo que de discordância.

Um abraço,
Lucas

pseudotavio disse...

postos os pingos nos is,
não poderia deixar de dizer que
"o enigma de Hempel" do "Guardar" (muito bom, aliás), me lembra muito o raciocínio contido na prova cartesiana da existência de Deus (neste caso, do corvo), muito embora poesia não seja feita para ser explicada. No entanto, se uma poesia não tem necessariamente uma idéia específica em vista, como acontece com os textos filosóficos, consequentemente ela permite quase "toda e qualquer" interpretação. Desculpe fugir um pouco ao tema, mas fazia tempo que queria comentar isso. Obrigado.

Anônimo disse...

Querido Cicero,
passei o fim-de-semana fora e, chegando,encontrei seu novo texto, sua "resposta". Como sempre, o li com grande admiração e acho que muita coisa que você diz nele clarifica ainda mais seu pensamento. Acho que isso é o mais importante em nossas diferenças, que as consigamos torná-las cada vez mais sustentáveis e defensáveis; você, em seu ponto, eu, no meu. Daí¬, parece-me, a importância constante de nosso diálogo. Mais uma vez, obrigado e parabéns pelo belíssimo texto.
Grande abraço,
do amigo,
Beto
(Alberto Pucheu)

Antonio Cicero disse...

Querido Alberto,

Muito obrigado. Mesmo sem acreditar que a filosofia deva tornar-se poética, acho que a avaliação de um pensamento filosófico jamais se reduz a tomá-lo como verdadeiro ou falso, ou como mais ou menos próximo àquilo que acreditamos ser verdadeiro ou falso. Um elemento importante ao avaliar um discurso filosófico é que ele nos tenha obrigado a pensar de modo mais profundo ou sutil ou preciso ou abrangente – a pensar melhor – do que antes de o conhecermos. Pois bem, cada vez que discutimos sobre esse assunto, tanto em pessoa quanto por escrito, sou – felizmente –, obrigado a tentar pensar melhor, e fico contente de saber que você também acha que o mesmo lhe acontece.

Um grande abraço,
Antonio Cicero

Aetano disse...

Estupendo! E essa sua clareza na exposição do pensamento...

Grato!

@eta.

ADRIANO NUNES disse...

CICERO, CICERO,



Melhor que isso só ler o artigo novamente! Implacável!




Grande Abraço!
Adriano Nunes.